O Sem Sentido e a Comédia

1 Historinha 1 - A Morte perde a Palavra


A estrada estava vazia. Somente o carro de Richard Mack atravessava o deserto mórbido de Las Vegas naquela noite estrelada. “Espero chegar rápido. Mary deve estar puta comigo”, pensou o homem. Ele e Mary, sua esposa, estavam viajando a trabalho e lugares diferentes e haviam combinado de chegar à cidade no meio da tarde, mas Richard teve a genial ideia de dirigir por todo o deserto e, somente, meio país, rumo à Cidade do Pecado.

Dirigia desesperadamente quando o carro foi perdendo velocidade até parar por completo, e o farol apagou, deixando Mack na completa escuridão. “Agora fodeu de vez...”. Tentou ligar o carro novamente, mas o motor não dava sequer nenhum sinal de voltar a funcionar. “É, fodeu”. Pegou sua lanterna no porta-luvas, saiu do carro e abriu capô, procurando por algum defeito que justificasse o atraso à sua esposa quando chegasse.

Vasculhou cada canto, cada peça, e cada fio daquele motor, mas tudo estava em perfeito estado e devidamente conectado. De repente, sentiu a presença de alguém atrás de si, e uma voz rouca, fria e indiferente falou:

— Vai mesmo continuar com isso, seu incompetente? – O coração de Richard pareceu congelar-se em seu peito quando as palavras chegaram aos seus ouvidos.

Olhou para trás e viu a imagem de um corpo magro, pálido, com olhos negros como ônix rodeados por uma sombra cinzenta, cabelos escuros como a noite. Vestia um totalmente preto, do sobretudo à gravata. Seu rosto branco destacava-se na escuridão da noite.

— Q-q-quem é você? – Perguntou Richard, tremendo em toda extensão do seu corpo

— Ah, Richard, você sempre vai ser esse retardado, mongoloide? Eu, meu caro, sou a Morte!

— Morte?! – Fez uma pausa – Então q-q-q-quer dizer que eu morri?

— Não, quer dizer que é seu aniversário. – Disse com a mesma indiferença – Claro que você morreu! – Apontou para um trecho da estrada, e o carro de Mack estava capotado, e podia se ver sangue no para-brisa. Quando viu, Richard ficou paralisado, olhando em direção ao acidente. – Aquilo responde à sua pergunta?

— É.... – ainda estava extasiado com a ideia. “Pelo menos não vai ser minha esposa quem vai me matar”, pensou.

— Agora, eis o que ocorrerá: será levado para seu passado, presente e futuro post-mortem, e, então, será jogado nas mãos do inferno e torturado por toda eternidade!

O desespero do homem transformou-se em indignação. Virou-se para Morte e disse:

— Espera! Você quer me mostrar o meu passado? Sério?! Você não é o Anjo da Morte, fodão, conhecedor do mundo e de todos? – Surpreso com a resposta de Mack, respondeu cautelosamente:

— Sim, basicamente é is... – foi interrompido

— Então você deve saber a bosta que foi meu passado, certo?

— Sim... por isso eu devo mostrá-lo a você, para saber o motivo de estar indo ao Inferr... – foi novamente interrompido

— Ah, como se eu não soubesse o porquê de eu estar indo para o Inferno. Pois bem, eis a minha vida passada: adolescente eu era um punheteiro babão, cheio de espinha e cabelo que fedia a porquinho-da-índia; eu me apaixonei por uma garota na faculdade que chupava mais homem em um dia que a Garganta Profunda num mês inteiro, e fumei mais maconha com ela do que jovem em colônia de férias; depois que eu me formei, cada puteiro de estrada eu parava e gastava metade do meu salário. É o suficiente?

— Eh... acho que não vai ser necessário, então. Porém o presen... – Morte foi novamente interrompido pela impaciência de Richard.

— Okay, o presente. Vamos lá: eu me casei com a ex do meu irmão, que toda noite, enquanto dorme, chama por ele; ela me odeia, e reclama de tudo a todo momento; ela deve estar puta comigo nesse momento, e, quando ficar sabendo, e se ficar sabendo, que estou morto, ela só vai querer saber a herança dela, e na verdade é somente uma carta falando do quanto ela foi uma vadia insignificante na minha vida de merda.

— Pois bem, o presente também será deixado de lado. O futuro então será mostrad...

— DEUS! Morte, com todo respeito à sua magnitude de poder universal, mas sua burrice é igualmente imensa! – Disse Mack, ironicamente. Continuou – Qual parte de não querer participar desse seu ritual post-mortem o senhor não entendeu? Caralho, parece a minha esposa!

Assustado, Morte abriu a porta do Inferno para Richard Mack. Chegando lá, o homem apresentou-se ao Magnânimo:

— Espero que o senhor seja mais sensato que o Morte, ali. – Disse, apontando para o homem pálido do outro lado da porta se fechando.

— Verás que não! Verás que minha tortura é eficaz, pois viverá a cada segundo o passado, o presente, e o fut... – Mack olhou-o com desprezo e sentou-se em uma pilha de ossos – O que está fazendo, humano?

— Cagando para o senhor!

FIM, =D

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.