O Segundo Reino
18 XVIII - O Fim
Notas iniciais
Liberdade. Não sabia mais qual o significado dessa palavra após descobrir que havia perdido a batalha e só restava me entregar como serva ao chegar ao primeiro reino, o Coração do Inferno. Durante o percurso, pensei em ser fraca e continuar fugindo dos demônios no plano terreno, mas até quando conseguiria? Até quando haveria plano terreno? Não havia outra saída, tive que voltar para o Inferno e me entregar para salvar o meu filho.
Tive uma grande surpresa ao pisar, novamente, naquele solo. Minhas forças pareciam vibrar nos meus músculos e sentia como se não houvessem barreiras que pudessem me segurar; logo mudei de ideia.
Johnny. Sim, era a sua presença. Fraca, deveras fraca, mas era ele. Arfei e tive que ordenar uma árvore para amparar a minha fraqueza. Ethan parecia sentir, acordou agitado no meu colo, fazia menção de chorar, seu lábio inferior tremia e eu o afagava. Tentava passar uma certeza que ele sabia não ser verdadeira. Johnny não estava bem...
Não demorou muito para começar a aparecer sombras a minha volta. As afastei e recuperei minhas energias. Elas cochichavam, iam de um lado para o outro, enlouquecidas. Logo, as sombras seniores chegaram com espadas, muitas espadas.
— Como ousas pisar em solo sagrado após trair a nossa raça? — não conseguia nem disfarçar o tremor da voz. — O rei deseja tua cabeça, rainha traiçoeira!
— Cala-te, estúpido! — mostrei meus olhos queimando como chamas e eles recuaram alguns passos. — Quem és para tratar-me com desprezo? Não esqueças que podes voltar a ser um punhado de pó.
Ethan voltara a adormecer nos meus braços. A sombra que falara tinha algo familiar, algo que me trazia lembranças confusas...
— Sou aquele a quem chamavas de irmão!
Trinquei os dentes. Greg.
— Ou será que não lembras? — pude ouvir uma risada de escárnio.
Não havia tempo para confraternizações familiares, então ergui a mão em direção a Greg e a fechei o fazendo virar pó. Precisava descobrir onde Johnny estava. Ele tinha que conhecer Ethan!
As outras sombras que estavam ali, sumiram. Acho que foram avisar o rei. Por mais que eu pressentisse que ele já sabia sobre mim.
A minha frente havia um lago raso coberto por ossos e espíritos zanzando. Eles se moviam rapidamente e falavam coisas aleatórias. Fechei os olhos e focalizei uma ponte atá a escadaria do castelo. Podia voar, mas preferi caminhar pelo meio do lago, sentia a presença de Johnny mais perto.
As almas agarravam meu tornozelo, mas logo soltavam. Estavam clamando por ajuda, porém, estavam ali por algum motivo nada bom. Lúcifer era traiçoeiro, mas seguia as regras dos sete reinos e ali estavam as piores. Ignorei-os e segui em frente.
Já podia enxergar Lúcifer na frente do portão principal. Vestia um terno branco, que quase se misturava com a pele translúcida. O cabelo negro desgrenhado no topo da cabeça. Seu porte superior na altura de dois metros me aguardava logo a minha frente.
Ethan suspirou pesadamente e agarrou a tira da alça do meu vestido. Sua mão tão pequena parecia me pedir proteção e minhas pernas bombearam por ele. Não sabia o que o futuro poderia reservar. Prossegui em passos mais rápidos e precisos.
Vi Jimmy e Naum se prostrarem ao lado do pai e em seguida me observarem. Calculavam cada passo e as adagas reluziam nos bolsos. O primeiro a falar foi Naum:
— Haven. — pausou e mexeu no cabelo, que passara do loiro para o branco. — Seja bem-vinda! Já aguardávamos você.
Sorri cinicamente e Lúcifer deu um passo na minha direção, os olhos cravados no bebê que eu carregava.
— És filho teu? — não aguardou a confirmação e prosseguiu: — Meu filho gostaria de conhecê-lo...
Sua risada fez os corvos alçarem voo para longe. Os dois que estavam ao seu lado olhavam abismados para o embrulho dos cobertores que eu envolvera Ethan.
— Onde Johnny está? — olhei severamente para o rei. — Sei que está aqui!
— Como ousas me confrontar? Sabes quem sou? Ou esquecestes?
Saquei uma das minhas adagas, uma neblina negra saia do gume. Lúcifer estreitou os olhos e esperou.
— Esquecestes que matei o Oráculo? Sei que lembras que nem mesmo tu tens poder para fazê-lo.
Sua expressão foi tomada pela ira. O rei não aceitava ser contrariado, mas não avançou. Os outros dois mantinham-se quietos, alheios a tudo.
— Desejo que sejas minha aliada. — o seu olhar suavizou. — Proponho uma grande troca.
— Aceito.
— Como? Deixe-me falar. — mostrou a palma da mão pálida e vi Johnny acorrentado em uma espécie de cela extremamente pequena. — Fique do meu lado e deixo Johnny e o filho de vocês livres.
Concordei com um aceno de cabeça. Agora, invés de imagens na mão, ele mandou-as direto para a minha mente. Cenas de uma batalha de Johnny contra Ulric, Kaleo e Caled. Eles estavam todos mortos. Sorri de satisfação.
— Serás treinada para ser o novo Oráculo e lutarás junto aos meus contra tudo para defender nossos reinos mais a frente. Viverás no Inferno Florestal, porém, meu filho não pode sair do aprisionamento antes de cem anos. Essa foi a punição por ele ter te protegido, escondido e matado os irmãos por você.
Sua voz era calma e eu assentia. Havia quebrado ao saber que não poderia ficar junto dele, mas o esperaria e nós nos vingaríamos por tudo!
— Mas, o bebê ficará comigo. — sorriu friamente, um sorriso falso. — Você voltará para o seu reino e reinará só. Ethan será treinado por mim, será mais forte que eu e você juntos. Nossas forças nem se compararão as do garoto...
Já descobrira o nome de Ethan! A ira subiu a minha cabeça e apertei as adagas fazendo um rápido movimento. O som oco de algo caindo ao chão. A cabeça de Jimmy. Investi outra vez e a cabeça de Naum caiu com um olhar apavorado estampado na face. Lúcifer tentou pegar a espada, mas cortei a sua mão antes.
— Pronto. — sorri vendo Ethan dormir intacto, enquanto o segurava apenas com um braço. — Acordo feito.
Lúcifer não reagiu. Não tentou revidar. Apenas pôs o braço para dentro do bolso e fez menção para que eu entregasse Ethan. Sua expressão não escondia o ódio que nutria por mim e poderia descontar em Johnny, mas não liguei, precisava deixar uma marca para ele lembrar que eu poderia matá-lo.
No momento em que senti Ethan no meu ventre, soube que ele não ficaria comigo, mas isso não amenizou a dor de deixá-lo para trás. O levantei e beijei suas bochechas como uma promessa de que eu voltaria. Seus olhos abriram e ele sorriu a todo gosto para mim. Soube que era a permissão de que eu poderia partir. Sussurrei que o amava e ele projetou um mamãe na minha mente. Lágrimas escorreram e eu o entreguei.
— Posso ir ver o Johnny? — questionei receosa.
— Não, a prisão não permite. Se for, ficará. — observava Ethan atentamente. — Mas acho que ele pode te sentir.
Assenti. Ele fez um juramento que cuidaria bem do meu filho e que eu poderia vir ao primeiro reino uma vez por ano para vê-lo e mandar algum recado para Johnny. Enfim, adentrou o castelo para que eu mandasse o recado e partisse.
Caí de joelhos quando os portões fecharam. Cerrei os olhos e comecei...
Meu amor,
Sei que pode me ouvir, mesmo que não me responda... Não conhecerás nosso filho tão logo, o qual nos orgulhará e honrará nossa revolta contra Lúcifer em breve. Ele tem seus olhos pequeninos. Será o nosso herói. O nosso Ethan. Nosso tempo foi mais curto ainda, só pude senti-lo no meu ventre e pouco depois de nascer. Só pude ver o quanto ele é parecido com você e quanto há para amar e nos fazer prosseguir. Esperarei cem anos por você. Nossa vingança virá e então, viveremos eternamente na memória de todos que chegaram a nos conhecer.
Eu amo você. Voltarei em breve.
Sua Haven.
Já levantara quando algo invadiu minha mente: "eu amo você”.
Meu tempo como humana não foi fácil e eu sempre me senti diferente no meio da multidão, como se aquele não fosse o meu lugar... Apesar de tudo que me aconteceu, sou eternamente grata a Johnny, pois, no nosso período de amor e ódio ele me fez descobrir o que era viver. Meu coração não pulsava, como eu me sentia viva? Olhar seu rosto era como olhar para o sol quente e acolhedor, e isso fazia eu me sentir viva, como nunca antes. Ele tinha outra face? Sim, era frio, como uma grande tempestade tombando sobre meu corpo. Mas ele me fez feliz e o quanto fui feliz no Inferno! Seria ironia do destino apaixonar-me por um demônio? Eu agradeço tal ironia.
Sorri e prossegui sabendo que o nosso reinado voltará...
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