O Segundo Reino
8 VIII - Rosas Negras
Notas iniciais
A batalha do apocalipse começou com um impacto absurdo na Terra. Deu-se início à Terceira Guerra Mundial, em 16 de novembro de 2015, quando a Rússia lançou um míssil na maior região dos Estados Unidos, a região norte. O caos se instalou em todos os países, o plano terreno estava totalmente em guerra. Os humanos brigavam por qualquer motivo, e as religiões causaram mais destruição tomando partido de países para apoiar na guerra. Religião apoiando e abençoando a guerra? Os Céus choravam...
Elohim estava furioso com os reinos inferiores e mandava tropas de anjos constantemente. Passei a ter mais importância nas batalhas, protegia os portões do castelo impedindo a entrada dos anjos celestes. Johnny ainda não me deixava ir com ele para a floresta, dizia ainda ser muito perigoso para mim. As batalhas causavam grande inquietação no reino, muitas sombras sumiam no meio do combate e os sete reinos estavam mantendo comunicação diária sobre todos os detalhes. A união era o mais importante.
Alegrava-me quando sentia tudo se acalmar e via Johnny voando de volta ao castelo, suas asas ainda me causavam deslumbre, eram lindas...
— Deu conta de todas as pragas? — questionou ao pousar. Fiz um aceno com a cabeça e sorri. — Muito bem...
Ele falou com o semblante sério, mas eu senti o seu sorriso ao passar por mim. Fui atrás dele e perguntei:
— E as minhas asas? — sua gargalhada ecoou pelo salão principal.
— À noite, está bem?
Sumiu pelos corredores antes de eu elaborar uma resposta em reclamação pela demora. Estava ansiosa para poder aprender a voar.
Fui a procura de Alie. Encontrei-a no pátio colhendo algumas rosas negras.
— O que deseja, rainha? — perguntou sorridente.
— Para quem são as rosas? — questionei estranhando o fato de Alie estar colhendo-as. — Vai pôr em um jarro?
— Sim. Johnny pediu para colocá-las no seu quarto. — fiz uma careta e ela riu. — Elas têm muito significado, menina.
— Só espero que esse significado seja bom... — disse desconfiada.
Fomos para o meu quarto. Ela colocou as rosas em um jarro transparente ao lado da cama e saiu. Um aroma diferente invadiu o ambiente, deitei para repousar me encantando com a beleza das pétalas negras...
Ainda podia sentir alguns sentimentos humanos e me entristecia ao saber que milhões de pessoas inocentes morriam sem terem culpa de nada... Era injusto, mas comecei a compreender que cada pessoa nasce com um propósito, um dever a cumprir. Alguns têm o dever de vir alegrar as suas famílias com sorrisos e atitudes... Devem espalhar o amor onde passam. Arrancava-me um sorriso saber que mesmo havendo uma guerra, ainda existiam pessoas assim no meio dos maus.
A esperança dos terrenos pode muito bem ser expressa no rosto de um bebê recém-nascido, quando vem a dar seus primeiros olhares curiosos e seus ares de risos. Isso ainda me fazia sentir coisas boas... Aprendi a esconder meus pensamentos e fingia ser insensível, mas sentia. Continuava sentindo amor, esperança, generosidade e compaixão... Sentimentos que vieram comigo e que eu não pretendia me desfazer, logo porque não queria ser um demônio ao pé da letra, não tinha a intenção de machucar nada nem ninguém. Nutria carinho por todos do reino e isso me fazia uma rainha melhor. Eu sou uma contradição.
Às vezes, chegava a pensar que Johnny também poderia sentir esses sentimentos bons, já que é filho de uma humana, mas ele também é uma completa contradição. Nunca pude adivinhar qual seria o seu próximo passo. Ao menos, tinha parado de me tratar mal, porém, não me tratava bem, ele era neutro.
Havia acabado de me banhar e saia de dentro da banheira quando ele adentrou pela porta, parou e olhou-me com cerca aflição, fiquei estática esperando alguma reação, mas ele continuava me fitando. Virei de costas tentando me esconder e ele saiu rapidamente. Coloquei o vestido o mais rápido possível e, dentro de alguns minutos, ele voltou.
— Está pronta? — olhava para o chão com as mãos nos bolsos da calça.
— Sim, desculpe. — ainda sentia meu rosto fervendo. — É uma marca?
— É mais ou menos isso. — falou tirando uma adaga negra com desenhos de asas. — Tire o vestido.
Livrei-me do vestido, recém colocado, ficando apenas com as roupas íntimas, mas pouco me importei. Johnny não me olhou em nem um momento. Apenas prosseguiu:
— Abrirei espaço para as asas saírem.
Um tremor percorreu toda a extensão do meu corpo quando ele cortou a pele, arqueei as costas por causa da dor, mas ele me segurou. Senti uma onda de calor passar quando começou a puxar as asas. Meus olhos reviravam e minha boca estava seca. Quando estava prestes a desmaiar, ele me pegou.
— Acabou a dor. Pense que as asas estão voltando para dentro novamente. — assim fiz e o peso, que estava lá, sumiu.
Johnny passou umas folhas no local e as feridas cicatrizaram. Suspirei com a sensação de frescor que se instalava no local, ele riu e ficou olhando as rosas no jarro.
— O que significam? — questionei pondo o vestido novamente.
— Representam a nobreza e o amor. — ele pegou uma das rosas e me deu. — E quando alguém dá uma rosa negra a outro alguém está dizendo que estarão juntos até a morte.
— Então estamos juntos até a morte? — senti o aroma da rosa e ele chegou mais perto.
— Sempre estivemos e sempre estaremos. Não até a morte, mas eternamente.
Sorrimos e nos olhamos. Tomei coragem e selei nossos lábios, ele hesitou por um momento, mas não me negou. Nos beijamos por um longo tempo, nada falamos quando paramos o beijo. Ele passou as pétalas da rosa no meu rosto calmamente e começamos um novo beijo. Ficamos assim por horas a fio, ele então disse:
— Posso ficar aqui? — sussurrei um sim e puxei-o para deitar ao meu lado.
Aquele foi o período mais longo que ele ficou comigo. Não teve que sumir para fazer algo, não teve batalha. Nada o tirou de perto de mim. Não me agrediu, foi o mais gentil possível e eu o agradeci silenciosamente por me proporcionar tal momento. Só aumentava mais a certeza de um amor crescendo dentro de mim, não importava o fato de eu não poder amar, eu só sabia que o amava...
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