O Segredo do Sobrenatural
1 Capítulo 1 — A manhã de Madison Morgan
Notas iniciais
A música melodiosa preenchia meus ouvidos, eu a todo custo tentava não sorrir com aquela declaração de amor fofa e bastante elaborada.
Charlie tinha em mãos um violão bem afinado que tocava uma de suas composições que eu mais amava, que ele apelidou carinhosamente de “a garota dos meus sonhos”. Mas isso foi na época em que estávamos juntos, quando Charlie ainda aparentava ser um príncipe encantado.
Mesmo assim, com tudo o que aconteceu, eu não conseguia deixar de achar fofo o jeito com o qual ele se esforçava para me reconquistar. Eu estava lutando com todas as minhas forças para me manter firme assim como Jasmine me aconselhou, ela pediu para eu ser firme e fazê-lo provar para mim que me merecia novamente.
Mas quando eu saberia que seria o suficiente? Até que ponto posso ignorá-lo?
— Madison Melina, eu fui um idiota, um babaca com você! — gritou Charlie ajeitando seis cabelos loiros e lisos no rosto. — Por favor, me perdoa e volte a ser a minha garota!
Charlie se ajoelhou no gramado, afastou seu violão para o lado e estendeu as mãos em minha direção. Não consegui mais segurar um sorriso e acabei revelando meus dentes enquanto me encostava na lateral da janela do quarto.
— Você me aceita de volta Madison? Diz que sim! — gritou ele me fazendo ficar pensativa.
Charlie parecia esperançoso, e já havia semanas que ele estava tentando me reconquistar desde que… bem, desde que ele partiu meu coração. Eu iria agradecê-lo por toda a serenata e o convidaria para entrar afim de conversarmos sobre nosso relacionamento, mas antes que eu pudesse ter a chance de fazer isso, Charlie é atingido por um balde de água fria, literalmente.
— Me deixa dormir! Desliga essa música infernal, que saco! — reclamou o autor do balde de água fria.
Olhei para o lado, onde ficava justamente o quarto da pessoa mais irritante que já habitou nesta terra, e o vi, com aquele típico olhar desdenhoso.
— Justin Stewart. — gritou Charlie, com a voz carregada de desprezo e com as roupas ensopadas. — É sempre um desprazer te ver.
— Digo o mesmo meu camarada. — disse Justin no quarto ao lado atirando logo em seguida um balde roxo na direção de Charlie, que desviou do objeto nos últimos segundos. — Vai infernizar outro! Você vem na minha casa em um sábado de manhã para cantar essa musiquinha melodramática tentando reconquistar essa tapada? — ele apontou para mim e eu semicerrei os olhos e troquei os dentes com raiva. — Vai embora!
— Para começar Justin, são duas da tarde! — falei e Justin me imitou de forma silenciosa e idiota. — E outra coisa! Isso é uma música romântica, mas claro, você não saberia o que é romantismo nem se visse todos os filmes românticos DO MUNDO! — gritei a última parte me inclinando um pouco mais na direção dele.
— Que seja! Resolvam esse lance de vocês sem me incomodar. — falou Justin apontando com a cabeça para Charlie. — E eu acho bom não escutar nenhum ruído.
Em seguida Justin fecha a janela de seu quarto e some das nossas vistas, deixando eu e Charlie sozinhos novamente. Claro, eu ainda encostada na janela do quarto e ele de pé no gramado, com frio graças ao banho que havia acabado de tomar.
Suspirei cansada. Talvez fosse melhor resolver isso outra hora.
— Charlie, eu amei a declaração e a música, de verdade. — comecei a dizer e ele me olhou sorridente. — Mas acho melhor conversarmos outra hora.
— Isso é um fora? — perguntou ele mas não respondi. — Ótimo, já entendi.
Não me restou outra alternativa que não sair da janela do meu quarto e fechá-la. Eu quase vacilei dessa vez, se Justin não tivesse jogado água em Charlie eu o convidaria para entrar e com certeza a essa hora já estaríamos de bem novamente. Não sei identificar se isso seria algo bom ou ruim, só sei que estou com muita, muita, raiva de Justin.
Sai às pressas do meu quarto e bati freneticamente na porta do quarto ao lado. Justin gritou ofensas e xingamentos para mim mas isso não me impediu de continuar a esmurrar a porta dele.
— Você vai quebrar a minha porta sua perturbada! — gritou ele assim que abriu a porta. — O que é que você quer? Vai caçar outro para incomodar!
— Porque você jogou água no Charlie? — perguntei verdadeiramente irritada.
— Seu namoradinho era bastante desafinado, não gostei da música, não faz meu estilo, talvez se ele tivesse abusado um pouco mais dos acordes eu teria jogado flores. — falou ele sarcástico. Tão típico.
— Você é um babaca sabia?
— Eu sou o babaca? — ele se faz de ofendido. — Ele te coloca dois pares de chifres no crânio e eu sou o babaca? — bufo frustrada. — Você precisa rever seus conceitos de babaquice.
Antes que Justin fechasse a porta na minha cara entrei no quarto dele, e isso claramente deixou ele bastante irritado, ótimo.
— Madison, na boa, eu só quero dormir beleza? Então porque você não pega essas suas perninhas curtinhas de formiga e dá o fora daqui!
— Sua mãe sabe que você anda bebendo Justinzinho? — falei o apelido que ele mais odeia justamente para irritá-lo. Sorri triunfante ao ver que consegui.
— Esse é um caminho perigoso de se entrar Mad, tem certeza que quer me ver irritado ovelhinha? — meu sorriso triunfante se desfez. — Eu não estou com paciência, ou seja, te aturar está sendo um sacrifício, vai atasanar outro.
— Quero que peça desculpas por destruir meu momento romântico. — pedi a ele com os braços cruzados e Justin arqueou uma sobrancelha. — Isso mesmo! O Charlie pode até ter me traído, mas pelo menos ele foi romântico agora, e aquele era o meu momento.
— Eu fico impressionado com o seu nível de trouxisse ovelhinha. — disse ele andando na minha direção. — O cara te trai, mais de uma vez, e você ainda pensa na possibilidade de voltar com ele. Que interessante!
— Isso é tudo culpa daquela sua namorada nojenta! — Justin levantou as sobrancelhas fingindo estar surpreso. — Ela deu em cima do meu namorado, mesmo sabendo que eu estava com ele.
— Ah! Então a culpa é inteiramente da Dakota, e seu ex é um santo! — fiz cara feia ao escutar o nome daquelazinha. — Oh! Coitadinho do Charlie! Ele não consegue ficar com uma só, ele tem que pegar outras garotas, é tipo necessidade básica para ele! — debochou Justin me fazendo trincar os dentes.
— E você não é melhor do que ele! — retruquei.
— Pelo menos eu não traio a minha namorada.
— Mas sai e bebe quando leva um pé na bunda dela né. — o sorriso divertido de Justin some. — É né, por que é sempre assim. A Dakota termina com você, você bebe, pega uma garota qualquer e no dia seguinte você e a Dakota voltam como se nada tivesse acontecido.
— Sai do meu quarto. — pediu ele impaciente. — Aproveita que estou pedindo com paciência ovelhinha.
— Não me chama de ovelhinha. — disse eu entre dentes.
— Se não quer ouvir, então sai daqui. — disse ele apontando para a porta atrás de nós. — Fora! Ou eu ligo para o seu papaizinho quer ele esteja na Flórida ou no Alaska!
Encarei Justin de maneira desgostosa e fui pisando fundo caminhando em direção a porta.
— Só para você saber, você fede a cachaça! — disse eu antes de fechar a porta do quarto dele com violência. — Cretino! — gritei por fim.
— Mimada! — ele gritou de dentro do quarto.
E esse era mais um dia comum na minha vida. Eu acordava, brigava com Justin, comia, brigava com Justin, estudava, brigava com Justin, dormia e, adivinhe só, brigava com Justin novamente.
E vem sendo assim desde que nós conhecemos.
Nossos pais são casados a quatro anos, e agora estão curtindo a quarta lua de mel na Flórida. Meu pai sempre foi melhor amigo da mãe de Justin, Mary, que ao contrário do filho é um amor de pessoa.
Mary era casada com um cara que tinha problemas com álcool, o pai de Justin. Foi por ter sido agredida pelo próprio marido que decidiu dar um basta em tudo e abandoná-lo levando o filho junto consigo. Justin detesta o pai, ao ponto de não querer comentar sobre ele em nenhuma ocasião.
Quando meu pai soube sobre Mary estendeu as mãos para ela e ofereceu nossa casa para que ela e Justin pudessem ficar. Eu tinha 14 na época, Justin 15.
Não demorou muito tempo para que Mary e meu pai começassem a namorar, o que não agradou nada a Justin, que foi contra desde o início. Já eu, super apoiei a ideia, meu pai merecia ser feliz com alguém que lhe desse valor como a Mary dá, coisa que minha mãe nunca fez pois preferia se jogar no mundo e gastar dinheiro do que ficar e cuidar de nós.
Desde o início Justin e eu não nos damos bem, e olha que nossos pais tentaram de tudo, até eles acabaram desistindo de tentar, ao invés de nós impedir eles tentam amenizar as coisas, é bem mais fácil do que fazer a gente parar de discutir.
Quando meu pai deu a ideia de Mary e ele viajarem para a Flórida para comemorarem a quarta lua de mel todos nós ficamos aflitos. Sabe, as chances de eu e Justin nos matarmos durante uma discussão é bem grande, por isso Mary deu uma ideia maravilhosa: Se Justin e eu nos comportamos, temos direito a um pedido.
Isso quer dizer que não posso socar o olho dele como fiz aos quatorze anos de idade. E ele também não pode fucarias minhas coisas como fez aos dezesseis. Coisas do gênero.
Até agora tudo está correndo bem. Bem, pelo menos nenhum de nós está morto.
— Benzinho! — chama uma voz estridente e irritante. — Justin! Vamos conversar!
A voz de Dakota chegava em meus ouvidos e tudo o que eu queria fazer era esganá-la. Ela batia na porta insistentemente, e isso me dava vontade de derrubar a porta em cima dela.
— O que é que você quer? — ia falar projeto de puta, mas preferia resguardar as palavras.
— Meu papo não é com você, e sim com o Justin. — disse ela entrando com tudo dentro da casa. — Amorzinho! Desce aqui, eu quero fazer as pazes!
— De novo? — murmurei, mas acho que ela ouviu.
— É, de novo. — disse Dakota virando-se em minha direção. — Eu termino e volto com ele a hora que eu quiser, e isso não tem nada haver com você.
Ridículo.
— É mas você sabia que ontem seu namorado bebeu de um monte? — disse eu tentando por um pouco de preocupação na cabeça daquela desmiolada. As vezes parecia que ela nem se importava com o Justin.
— E daí? — não disse? — Um pouco de bebida não vai fazer mal a ele. — falou ela virando-se na direção das escadas, que davam para os demais andares da casa. — Amoreco! Vem cá amor, se você não descer eu mesma vou aí!
— Você é toda errada, e deixa o Justin mais errado ainda. — Dakota me ignora. — Que casalsinho perfeito. O idiota e a cretina.
— Você chamou quem de cretina? — agora sim ela me deu atenção. — Escuta aqui, eu faço o que eu quiser da minha vida e você não tem direito nenhum de me julgar.
— Eu estou cagando para o que você faz da sua vida Dakota! — falei chegando mais perto dela. — Mas o Justin têm uma mãe incrível que detestaria saber que o filho dela anda bebendo para esquecer o quão magoado ele fica quando você termina com ele. — apontei para ela que me olhou torto.
— Abaixa.Esse.Dedo. — disse ela pausadamente e obedeço apenas querendo evitar confusão, embora minha língua estivesse coçando para xingá-la de tudo que é nome. — Você é só uma invejosa que está se doendo porque eu peguei o seu namoradinho.
— Cala a boca.
— Não! — ela disse quase num grito. — Você não falou um monte aí de mim? Pois bem Mad, é a minha vez. — engoli seco. — Eu não culparia o Charlie de ter te traído, olha só para você! Esse cabelo mal ajeitado, essas roupas amarrotadas, você nem mesmo faz as unhas. — olhei de relance para as minhas cutículas. — Patética. E isso porque eu nem comentei da sua personalidade!
— Vá em frente, se quer esculachar faz o serviço completo! — insisti só para ter mais motivos na minha lista para odiá-la, e também confesso que para saber quais defeitos ela via em mim.
— Vou ser sincera. Você é insuportável, chata! Nada sensual, e se acha a dona da razão. — ela disse chegando mais perto de mim. — Quer um conselho? Se muda da Califórnia, assim você pode apagar a vergonha que foi ser trocada.
— Dakota! — chamou Justin no topo da escada bem a nossa frente. — Pode subir.
Dakota se animou e me lançou um olhar implicante antes de subir as escadas com seus saltos exagerados de festa. Justin parecia ter se recomposto, ele vestia uma camisa bem passada e uma bermuda preta nova que, se me lembro bem, foi meu último presente para ele em seu aniversário.
Ótimo, ele adora fingir que está tudo bem para aquela cachorra sendo que não está. Mas que seja, se Justin quer que o mundo acredite que ele está vivendo as mil maravilhas então tanto faz!
Meu celular vibrou no meu bolso de traz e assim que o peguei pude constatar de que era uma mensagem de Mary, suspirei por isso.
“Olá minha linda, como estão as coisas aí? Como vai o Justin? Ele está se comportando?”
Perguntou Mary na sua típica doçura de sempre, e antes mesmo que eu respondesse sua mensagem escutei barulhos desagradáveis vindos do andar de cima, e eu não queria nem pensar que o que estava imaginando era verdade.
Que nojo.
— É, acho que agora está tudo bem pro Justin. — murmurei por fim, antes de mandar uma mensagem respondendo Mary.
“Estamos bem Meimei, e com saudades de vocês! Beijos!”
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