O Segredo de Tixe
5 Quatro
Notas iniciais
Lívia Moretti acordou às quatro da madrugada para preparar o café da manhã e arrumar sua casa. Morar sozinha não é fácil, mas para Lívia, vale a pena toda essa dificuldade para ter um pouco de paz e privacidade.
Enquanto preparava o seu café, ligou o computador e se assustou com a primeira notícia que viu nos sites policiais. Um homem havia sido assassinado dentro da Catedral de Pedra. Uma hora depois, seu amigo Evandro Sales lhe mandou uma mensagem, dizendo que precisava da ajuda dela para resolver um caso. Mal ela imaginava que esse caso era justamente o assassinato que a espantou naquela madrugada ao ler a notícia.
Já era por volta das seis da manhã quando Emanuel e Evandro cruzaram a rua Rodolfo Schilieper em direção à casa de Lívia. No caminho, passaram por uma pequena creche, que já estava começando a abrir os portões para que os funcionários limpassem o local e esperassem as crianças aparecerem. Seguiram em frente até chegarem em frente à "Madeireira do Parisotto", um pequeno local com teto semisférico que vende materiais para construção.
Ao seu lado, havia uma casa grande e luxuosa, cercada por algumas árvores de grande porte.
— É aqui. — disse Evandro.
— Essa Lívia de quem você me falou... Como ela pode nos ajudar?
— Lívia é historiadora. Fez mestrado em História uns dois anos atrás. E advinha aonde ele dá aula agora?
— Não faço a mínima ideia.
— Bem ali.
Evandro apontou para o outro lado da rua, onde havia um prédio de três andares com um fachada de tijolos de cor bege e uma placa escrita "UCS. CAMPUS UNIVERSITÁRIO DA REGIÃO DAS HORTÊNSIAS" logo abaixo da entrada.
— A Universidade de Caxias de Sul?
— Exatamente.
— Coisa boa. Ela mora bem perto do trabalho. Mas como ela pode nos ajudar?
— Lívia Moretti é, sem sombra de dúvidas, a pessoa que mais entende de história que eu conheço. Mais especificamente, a história do Brasil. Mais especificamente ainda, a história do Brasil antes de ser Brasil.
Emanuel olhou para Evandro, demonstrando não entender o que ele dizia.
— Lívia se especializou em um momento específico da história brasileira. O Brasil pré-colonial. Desde pequena, ela sempre teve curiosidade para saber como era o Brasil antes da chegada dos portugueses. Sua tese de mestrado foi, justamente, "O Brasil antes da chegada dos portugueses". Quando enfim completou o mestrado, ela escreveu um artigo para um site local, onde faz uma análise dos povos que viviam aqui e como eles se relacionavam antes da chegada das caravanas portuguesas.
— Interessante.
— Pouco antes de assumir o cargo de professora de História naquela universidade, ela escreveu outro artigo, onde compara a vida dos índios existentes hoje com a daqueles que viveram antes e durante a colonização portuguesa no nosso país.
— Isso é muito legal, mas como ela pode nos ajudar?
— Bom, como parte da sua pesquisa sobre o período pré-colonial brasileiro, Lívia acabou aprendendo muito sobre a língua nativa dos nossos índios.
— Tupi-guarani...
— Exatamente. Ou seja, ela pode nos ajudar a compreender essa mensagem.
— Mas de todo jeito, não é um pouco cedo para consultarmos ela sobre isso?
— Cedo? Que nada! Lívia sempre acordar antes do sol nascer, apesar de morar a poucos passos do seu local de trabalho.
Emanuel e Evandro foram até a porta da casa da historiadora. Evandro tocou a campainha.
— Já estou indo! — disse uma bela voz feminina vindo de dentro da casa.
A porta abriu e Lívia se revelou.
— Ah, é você, Evandro. Como vai?
— Muito bem, Lívia. E você?
— Estou ótima!
Lívia e Evandro se abraçaram, enquanto Emanuel observava aquela bela mulher alta, de cabelos longos, ondulados e morenos, corpo magro, pele levemente escura e óculos redondos que realçavam muito bem o formato do seu rosto.
— Esse é o seu amigo? — ela perguntou.
— Ah, sim. — respondeu Evandro. — Emanuel, essa é minha amiga Lívia Moretti. Lívia, esse é o meu amigo Emanuel Barros.
— Muito prazer. — disse Lívia, gentilmente.
— O prazer é todo meu.
Os dois apertaram as mãos.
— Então, Evandro me falou que você trabalha para a polícia.
— Sim, é verdade.
— Bom, e o que uma jovem historiadora pode fazer por você?
— É uma longa história. Podemos entrar?
— Claro! Por favor, sintam-se em casa.
Quando Emanuel entrou, ouviu uma música tocando no aparelho de som de Lívia.
"Perdi-me do nome, hoje podes chamar-me de tua", diziam os primeiros versos da canção.
— Isso é Maria Bethânia? — perguntou Emanuel.
Lívia olhou para ele com um sorriso no rosto.
— É sim, conhece a música?
— Balada de Gisberta.
— Exatamente. — disse Lívia, impressionada com o conhecimento do homem a respeito da música.
— É uma letra muito bonita.
— Infelizmente a história de por trás da letra não é tão bonita assim.
— Eu sei.
— Você conhece a história de Gisberta?
— Gisberta, nascida Gilberto Salce Júnior, foi uma transexual que foi morar em Portugal aos 46 anos, em 1990, temendo a enorme transfobia em São Paulo na época. Em Portugal, conseguiu fazer alguns shows usando sua personalidade feminina, mas acabou tornando-se prostituta para sobreviver. Aos poucos, ele foi sendo esquecido ao ponto de ter que morar na rua. Um dia, foi agredido por 13 adolescentes, que também abusaram sexualmente dele. Para ocultar o crime, jogaram o corpo ainda vivo em um poço. Os bombeiros conseguiram tirá-lo de lá, mas ele já havia morrido afogado.
— Um evento trágico. — disse Lívia. — Mas, pelo menos, inspirou o compositor Pedro Abrunhosa a escrever uma bela música, que ficou imortalizada na voz de Maria Bethânia.
A música continuou a tocar: "...Eu não sei se um anjo me chama, eu não sei dos mil homens na cama, e o céu não pode esperar..."
— Então... — Evandro quebrou o silêncio. — Podemos ir direto ao assunto?
— Ah, claro. — disse Lívia, trazendo-se de volta à realidade. — Afinal, o que traz vocês aqui?
— Imagino que já saiba do assassinato que ocorreu na Catedral de Pedra nesta última noite. — disse Emanuel.
— Lógico, os jornais locais não falam de outra coisa. Mas o que isso tem a ver?
Emanuel tirou a jóia do seu bolso e mostrou à historiadora. Lívia demonstrava não entender.
*
Após causar o acidente na estrada, o homem volta para a casa onde estava antes. Ele estranhou o silêncio e entrou.
Apesar do sol já estar nascendo, a casa permanecia escura. As janelas ainda estavam fechadas e a única luz que iluminava o ambiente vinha de uma pequena televisão de tubo, que estava ligada no jornal local. Como já era de se esperar, era mais uma reportagem sobre o assassinato na igreja. Desta vez, a jornalista citou Emanuel Barros, afirmando que ele desapareceu da cena do crime. Isso chamou a atenção do homem. Depois, a jornalista começou a falar do acidente automobilístico.
— Agora, um outro caso que aconteceu em Canela e que aparenta ter alguma ligação com o assassinato na Catedral de Pedra. — dizia a âncora do telejornal. — O carro do IML que carregava o corpo da vítima capotou em uma estrada perto do local do crime. Testemunhas locais afirmam ter visto um táxi perseguindo o carro do Instituto Médico Legal pouco antes do acidente. De fato, havia um táxi...
O homem parou de prestar atenção na notícia e procurou pelo seu amigo, que ele havia deixado sozinho ali cerca de uma hora antes. Abriu as janelas para iluminar o local e foi até um quarto próximo à sala principal. Abriu a porta e o susto foi inevitável.
Era o outro homem, apontando a mesma arma com a qual cometeu o assassinato na catedral para o seu rosto.
Quando viu que ele ia apertar o gatilho, imediatamente segurou o braço do amigo, fazendo-o disparar em um espelho que estava ao lado deles.
— O que pensa que está fazendo, cara? Enlouqueceu?
O outro nada respondeu, apenas ficou chorando ao ponto de soluçar.
— Onde você estava? — perguntou, com os soluços atrapalhando a fala.
— Cuidando de uns negócios, tentando fazer o dever que você não fez.
Mais silêncio seguido de choro. Impaciente, o homem dá um soco no amigo que havia acabado de tentar cometer suicídio.
— Escute aqui. — continuou. — Eu não quero mais saber que você tentou se matar, entendeu? Se quer tirar sua vida, espere pelo menos tudo isso acabar.
— Isso não vai acabar tão cedo.
— Eu sei. Mas nós estamos sozinhos nessa, não podemos perder um logo agora!
— Eu já perdi quase tudo que eu tinha.
— Então faça pelo que ainda te resta.
O homem pegou o celular do amigo e mostrou a foto dele, da esposa e da sua falecida filha juntos. As lágrimas voltaram a cair pelo rosto do outro. Ele as limpou rapidamente para evitar uma outra crise de choro.
— Achou o objeto?
— Não. Provavelmente já está com o perito criminal que investigou a cena. Tenho ordens para matá-lo, só preciso descobrir onde ele está.
*
— E era isso que estava escrito na pedra: a guara sagrada guarda a kauane dos yabás. — disse Emanuel, terminando de contar a história e mostrando a imagem ampliada no ccomputador de Lívia. — Essas três palavras diferenciadas que aparecem no texto são tupi-guarani, não é?
— Exatamente. É a nossa língua nativa.
— Evandro me contou que você sabe traduzir tupi-guarani. Acreditamos que o significado do que está escrito nessa pedra pode nos ajudar a desvendar o motivo do assassinato.
— Então foi para isso que vieram até aqui?
— Teria como você nos ajudar, Lívia? — perguntou Evandro.
— Perfeitamente. Sabem, o tupi-guarani não é uma língua tão difícil de se aprender. Como a maioria dos idiomas indígenas, é bem simples. Muitas palavras do tupi-guarani são apenas derivadas de outras, e uma palavra pode englobar sozinha vários significados, o que facilita um pouco o estudo e aprendizagem dessa língua. O tupi-guarani está presente até em alguns nomes de cidades brasileiras, como Araraquara, Jundiaí, Jaguaré, Itacuruba, entre várias outras.
— Interessante. E quanto às palavras presentes na pedra? — perguntou Emanuel.
— A guara sagrada guarda a kauane dos yabás. — Lívia leu mais uma vez antes de explicar. — "Guara" é uma palavra com amplo significado, pode ser tanto "árvore", quanto "madeira".
— A palavra "guaraná" é derivada dela, não é? — perguntou Evandro.
— Sim. — respondeu Lívia. — Assim como "guarantã", nome daquela espécie de planta da família das utáceas.
— E kauane? — perguntou Emanuel.
— Palavra muito utilizada para dar nome às meninas, "kauane" é o feminino de "kauã", que também tem vários significados dentro do tupi-guarani. Pode significar "longo", "comprido", embora alguns índios também usassem essa palavra para se referirem a qualquer ave de rapina. Mas pelo contexto da frase, acredito que a "kauane" escrita na pedra não é palavra em tupi-guarani.
Evandro e Emanuel ficaram sem entender.
— Como assim? — perguntou Evandro.
— Essa palavra existe em outro idioma.
— Qual?
— Havaiano. Segundo alguns historiadores, "kauane" é uma palavra derivada de "Kauana", que no Havaí é considerada a deusa dos segredos. De modo que "kauane" significaria "segredo" ou "objeto secreto".
Emanuel assentiu com a cabeça, esperando o restante da explicação.
— E por fim, yabás. "Yabá" era como eram chamados os índios que fugiam de suas tribos ou cativeiros e viviam escondidos. Apesar de muitos usarem o termo para se referirem a "fugitivos", a maioria dos historiadores preferem acreditar que "yabá" significa, de fato, "escondido", já que a palavra também é usada para se referir ao próprio verbo "esconder".
— Então — disse Emanuel. —, juntando tudo, temos...
— A árvore sagrada guarda o segredo dos escondidos? — disse Evandro. — Não faz o menor sentido!
— Qual seria a tal "árvore sagrada"? E o que seria o "segredo dos escondidos"? Quem são esses "escondidos", aliás?
— Bom, isso já não faz parte do meu trabalho. — disse Lívia.
"A árvore sagrada guarda o segredo dos escondidos", Emanuel processou a frase mais uma vez na sua cabeça. Como ela se encaixava ao assassinato? E como aquilo tudo se ligava à jóia misteriosa?
Emanuel se sentou, fechou os olhos e tentou assimilar toda a informação novamente.
Lívia e Evandro olharam preocupados para ele.
— Emanuel, você está bem? — perguntou Evandro.
Emanuel não respondeu, continuou analisando cada detalhe daquele crime. A jóia, a frase, a tal árvore sagrada, o tal segredo, a Catedral de Pedra... A Catedral de Pedra... De repente, o fato do assassinato ter ocorrido na famosa igreja começou a perturbá-lo mentalmente. Segundo relatos, a vítima teria entrado na igreja para fugir do assassino. Mas por que Flávio entrou na catedral, sabendo que lá não havia saída? O fato do local do crime ter sido a Catedral de Pedra deveria ter um motivo muito maior...
Emanuel teve uma rápida ideia que o fez abrir os olhos.
— Lívia, além de "árvore", qual o outro sentido para "guara" mesmo? — perguntou o perito criminal.
— Madeira.
— É claro! — Emanuel levantou-se rapidamente.
— O que foi, Emanuel? — perguntou Evandro.
— A madeira sagrada guarda o segredo dos escondidos.
— Como assim?
— Evandro, eu estava procurando uma pista que estava bem debaixo do meu nariz o tempo todo! Vamos!
— Espera! Para onde a gente vai?
— Preciso voltar para a Catedral de Pedra.
— Por quê?
— Eu desvendei o enigma.
Emanuel e Evandro se dirigem rapidamente à saída da casa.
— Esperem! — gritou Lívia.
— Qual o problema, Lívia? — Evandro perguntou.
— Eu quero ir com vocês.
— Por quê?
— Eu quero ver até onde isso vai dar.
— Você não tem que dar aula na universidade hoje?
— Ah, eu invento uma desculpa.
— Então, vamos logo. — disse Emanuel. — Precisamos chegar na igreja o quanto antes!
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