O Segredo de Tixe
10 Nove
Notas iniciais
O Parque Nacional da Chapada Diamantina é uma área ambiental que impressiona não só pela sua flora exuberante, como também pelo seu tamanho. O parque ocupa 1500 km² de área. Localiza-se muito próximo à cidade de Lençóis, o que favorece o turismo para ambas. O parque nacional também extende-se para outras cidades, como Andaraí, Vale do Capão, Mucugê, Igatu, entre várias outras.
A Chapada Diamantina é o lar de vários pontos turísticos brasileiros. Exemplos são o Poço Encantado, a Cachoeira do Riachinho, a Gruta Lapa Doce, o majestoso Morro do Pai Inácio, entre outros cânions, grutas, riachos, cachoeiras e áreas ambientais espalhados por uma região de serras no interior baiano.
Emanuel, que já dirigia há meia hora, parou próximo ao Morro do Pai Inácio. Olharam para trás e não viram nenhuma moto. Sinal de que haviam despistado os dois criminosos.
— Emanuel — disse Evandro. —, isso está passando dos limites! Por que não chamamos a polícia local logo?
— Se chamarmos a polícia local, eles irão querer a jóia, e terão todo o direito de pegá-la de nós.
— Que se dane essa droga de jóia! — disse Lívia. — Ela já nos causou tantos problemas!
Antes de Emanuel responder, barulhos de motores de moto soaram ao longe. Os dois caras estavam se aproximando.
— Mas que droga! — disse Emanuel. — Vamos sair daqui!
Os três deixaram o carro para trás e fugiram correndo para o único lugar que pensavam poder despistar aqueles que os perseguiam. Começaram a escalar o morro à frente deles.
— Eles vão mesmo fazer isso? — perguntou um dos homens na moto.
— Sorte nossa.
Os dois pararam suas motos próximo ao carro que Emanuel havia pego. Tiraram suas armas da cintura e escalaram o morro, perseguindo os três.
Quando Emanuel, Evandro e Lívia chegaram próximo ao topo, pararam de exaustão.
— Eu nunca pensei que diria isso. — falou Evandro, ofegante pela corrida. — Mas eu gostaria muito que essas férias acabassem e os dias normais de trabalho voltassem.
— Estamos já bem distantes deles. — disse Lívia. — Não parem! Se continuarmos correndo...
Lívia foi interrompida por uma bala que passou de raspão em seu braço. Isso fez Emanuel e Evandro se levantarem, assustados. Foi então que viram os dois homens misteriosos se aproximaram rapidamente, com armas na mão.
— Você está bem? — perguntou Emanuel, olhando o sangue de Lívia escorrer pelo seu braço.
— Estou, sim.
— Consegue correr?
— Consigo, consigo.
Emanuel percebeu que Lívia expressava certa dor.
— Lívia, seu braço está ferido!
— Mas passou de raspão, não dói tanto.
— Não dói tanto!? Lívia, você está quase agonizando.
— Ok! Chega de brincadeiras! — gritou um dos homens com armas.
— Pois é. — disse o outro. — Ninguém se mexe, ninguém foge. Caso contrário, vamos atirar!
— Emanuel, pela última vez, entregue a merda dessa jóia!
— Não vou entregar nada a vocês!
— Vocês não têm nenhuma noção de perigo, não é?
— Eu é que pergunto! Vocês assassinaram um homem numa igreja, e agora estão tentando nos matar! Quando vocês forem pegos, se preparem para passar o resto das suas vidas miseráveis na cadeia!
O homem de cabelo ondulado riu alto e respondeu.
— Acha mesmo que vamos para a cadeia? Podemos ir até o inferno, mas tenha a certeza que nunca chegaremos nem perto de uma cela!
— Como pode ter tanta certeza?
— Porque nós estamos trabalhando para a própria polícia.
*
Enquanto isso, na estrada em frente ao Morro do Pai Inácio, o "chefe" se aproximou. Dirigindo um Fiat Palio preto, ele parou ao pé do morro e reconheceu as silhuetas de seus dois homens, apontando armas para outras duas figuras masculinas. Uma era alta, um pouco forte e de postura meio rígida, era Emanuel. A outra figura masculina era de menor estatura, um pouco magra, postura meio desleixada e aparentava estar nervoso, certamente era o gemólogo Evandro. A figura feminina segurava seu braço que, ou estava sangrando, ou o vermelho de seu vestido estava confundindo os olhos do "chefe". Ele deu um pequeno sorriso de canto de boca, e dirigiu-se para longe.
*
Emanuel não entendeu o que o homem que apontava a arma para ele tinha acabado de dizer.
— Como assim vocês estão trabalhando para a polícia?
— Na verdade, não para a polícia em si. Mas para uma pessoa específica, que tem um certo cargo alto na polícia.
— De quem você está falando?
— Ora, Emanuel. — respondeu o outro homem. — Para um perito criminal, você não deu a devida atenção a alguns detalhes importantes.
— Detalhes? — Emanuel sentiu suas batidas cardíacas acelerarem-se.
— Meu nome é Kelvin Enrico. — disse o homem de cabelo degradê. — Eu assasinei Flávio.
— E eu sou Maycon Cavalcanti. — falou o homem de cabelos ondulados. — Eu persegui vocês na igreja.
— Mas o que estamos fazendo não é algo para nós, se é o que pensam. Estamos trabalhando para uma pessoa. O nosso "chefe".
— E quem é esse? — Lívia perguntou.
— Você tem algum palpite, Emanuel? — perguntou Kelvin.
Emanuel balançou negativamente a cabeça.
— Pois saiba que você também está trabalhando para ele.
Emanuel ficou ainda mais confuso.
— Eu não diria trabalhando. — Maycon falou. — Você, ou melhor, vocês estão mais para simples marionetes.
— Mas o quê? — Emanuel sussurrou.
— Emanuel, estamos trabalhando para o delegado da Polícia Civil do município de Canela, Cândido Assis.
Aquelas palavras fizeram Emanuel sentir uma forte vertigem.
— Não pode ser...
— Procure refletir um pouco, Emanuel. Lembra quando você voltou para a Catedral de Pedra depois de decifrar o enigma da jóia?
— Lembro. — o perito criminal quase não tinha forças para falar.
— Como você acha que eu sabia que você estava indo para lá? — questionou Maycon. — O delegado te ligou minutos antes, não foi?
Emanuel apenas afirmou com a cabeça.
— Ele simplesmente passou a informação.
— Da mesma forma que ele nos falou que vocês estavam vindo para Lençóis. — Kelvin falou.
Aquilo tudo atingiu Emanuel como uma pedra. O delegado Cândido? O homem que ele mais respeitava? Ele colocou dois homens para matá-lo?
— Mas por que eu? — o perito criminal perguntou. — Por que ele me envolveu nisso?
— Não foi ele que te envolveu, Emanuel. — disse Kelvin. — O delegado sabia de sua experiência como perito criminal e tinha uma plena confiança nela. Ele apenas queria que você encontrasse o artefato e, se precisasse, desvendasse o seu significado. Foi você quem decidiu não entregar a jóia e vir até aqui.
— Mas por que o delegado quer tanto essa jóia? O que ela é? E por que matar um homem por causa dela?
— Quando eles nos contou isso também achamos que fosse idiotice dele, mas acredita-se que essa jóia tenha alguma força sobrenatural, não necessariamente algo relacionado espíritos e fantasmas, mas algo que ultrapassa os limites físicos e mentais humanos. Flávio sabia disso, e o delegado Cândido tinha interesse nessa informação. Quando Flávio decidiu não colaborar, deu-se início a essa arrumação.
— O delegado pediu a nossa ajuda. — Maycon continuou. — E nós aceitamos.
— E por que concordaram com algo tão doentio? — perguntou Evandro.
— É uma longa história. Eu tenho os meus motivos. Kelvin tem os deles. Mas, claro, isso não importa muito agora.
— Agora, Emanuel, vai nos entregar a jóia?
Emanuel permaneceu imóvel. Não falou, nem se moveu. Estava ainda processando todas aquelas revelações.
— Tudo bem. — Kelvin falou. — Você estava avisado.
Kelvin disparou e o projétil pegou no meio do peito de Evandro, que ao ser baleado, caiu daquela altura imensa.
— Evandro! — Lívia gritou, totalmente desesperada.
Emanuel olhou para baixo e viu o corpo do amigo rolando e enfim caindo no chão. Uma poça de sangue escorria de seu peito direito.
O perito criminal olhou para Kelvin e Maycon.
— Eu nunca vou perdoar vocês por isso, entenderam? — seus olhos demonstravam muita raiva. — É essa droga que vocês querem? — mostrou a jóia. — Vocês a terão, mas só se levarem o meu cadáver como brinde.
Lívia se escondeu atrás de uma das rochas.
Começa uma troca de tiros entre o perito e os dois homens que trabalhavam para o delegado. Como estavam no topo, o barulho dos tiros ecoava, espalhando-se por toda aquela região da chapada.
Lívia assistia àquela cena com lágrimas escorrendo pelo seu rosto. Seu amigo acabara de morrer diante de seus olhos, e a qualquer momento, seu outro amigo poderia morrer ali mesmo. Além disso, a preocupação de uma daquelas balas do fogo cruzado atingi-la era enorme.
De repente, o barulho cessou. Kelvin e Maycon haviam ficado sem munição. Infelizmente, Emanuel também estava sem balas.
Emanuel e Lívia desceram o morro o mais rápido que conseguiram, enquanto eram perseguidos por Kelvin e Maycon.
Quando chegaram no chão, Lívia sentiu uma náusea ao ver o corpo de Evandro jogado ali.
— Lívia, não olhe. — disse Emanuel. — Vamos sair daqui.
O perito e a historiadora entraram no veículo. Os dois criminosos se aproximavam rapidamente deles. Kelvin subiu na moto, mas Maycon permaneceu correndo, até alcançar o carro de Emanuel.
O perito criminal se assustou ao ver aquela mão aparecer ali de repente, na janela do lado de Lívia.
Maycon rapidamente abriu a porta e tirou a historiadora lá de dentro à força.
Emanuel parou o carro. No momento em que iria voltar para socorrer a amiga, uma pedra entrou pela janela de trás do carro, quase o acertando.
Ao olhar pelo retrovisor, Emanuel viu Kelvin se aproximar dele, na moto. Sabia que iria se arrepender muito disso, mas acelerou e deixou Lívia sozinha com Kelvin.
A historiadora, após se debater incansavelmente, conseguiu livrar-se dos braços de Kelvin e, numa ação rápida e instintiva, pegou a moto do homem. Ao ver que Lívia tinha roubado sua moto, Kelvin saiu correndo atrás dela.
Lívia, porém, só cometeu um erro: seguiu na direção oposta à de Emanuel.
*
O perito criminal continuou dirigindo, enquanto Maycon o perseguia. Após 20 minutos, Emanuel percebeu que a velocidade do seu veículo estava diminuindo.
Ele rapidamente pegou seu telefone e ligou para um número. Maycon notou que o carro de Emanuel estava parado, aproveitou a situação e acelerou sua moto o mais rápido que pôde.
Emanuel notou a aproximação do homem, saiu do veículo e correu rápido o suficiente para sentir dor nos músculos de suas pernas. Fugiu até chegar numa caverna escura, estreita e cheia de estalactites no teto. Demorou, mas logo Emanuel reconheceu onde estava. A Gruta da Torrinha.
A majestosa caverna se localiza próxima à Torrinha, uma pequena aldeia. A gruta ficava a uma distância de aproximadamente 15 km da cidade de Iraquara. Recebe inúmeros turistas anualmente devido à sua riqueza natural. A Gruta da Torrinha é repleta de espeleotemas, estalactites, estalagmites, entre outras formações raras. Alguns locais da gruta lembram muito o interior de vulcões. Era um lugar que Emanuel normalmente adoraria visitar, mas naquele momento sabia que não poderia aproveitar a visita.
Emanuel passeou mais um pouco, até encontrar outra riqueza natural da gruta: algumas pinturas rupestres.
"Lívia iria adorar ver essas pinturas", pensou. A lembrança da historiadora o perturbou, queria saber se ela estava bem. Se arrependeu novamente de tê-la abandonado.
Olhou de lado e encontrou algumas pedras de aragonita. É uma formação cristalina de carbono de cálcio. Normalmente é solúvel em água. Tem pouco valor financeiro, mas é muito utilizada para enfeitar aquários.
"Evandro com certeza iria querer ver isso", pensou, trazendo à tona a lembrança de seu amigo. Uma lágrima escorreu.
— Emanuel! — gritou uma voz à sua frente.
— Não acha que isso tudo já foi longe demais? — disse o perito criminal, reconhecendo a silhueta de Maycon.
— Sim, já foi. Mas aqui acaba.
Maycon correu e se jogou contra Emanuel, fazendo os dois irem mais fundo para o interior da gruta.
Foram vários socos dados, a maioria no rosto. Ambos sangravam.
— Vocês mataram Evandro! Meu amigo! — disse Emanuel, enquanto era espancado por Maycon.
— A culpa é sua! Só precisava entregar a jóia! — Maycon respondeu, ainda socando sem piedade o perito criminal.
Emanuel se levantou e passou a reagir aos punhos do criminoso. Maycon o empurrou para a parede. Emanuel percebeu que os estalactites no teto estavam se movendo freneticamente.
Quase sem forças, Emanuel se livrou momentaneamente dos socos do criminoso. Tentou fugir, mas Maycon agarrou seus pés, fazendo-o cair no chão.
Maycon se sentou por cima de Emanuel, segurando seus braços, imobilizando-o. Emanuel se debatia para livrar-se, mas suas forças se esgotaram.
Maycon preparou-se para socar novamente o policial. Emanuel fechou os olhos, na esperança de que isso tornaria a dor mais suportável. Quando o criminoso ia enfim socá-lo, uma jorrada de sangue atingiu sua cara. Emanuel sentiu a força das mãos do homem que segurava seus braços diminuir. Abriu os olhos e viu Maycon simplesmente cair de lado.
Ao olhar melhor o que havia acontecido, viu que uma estalactite tinha atingido a cabeça de Maycon.
*
Marcos estava sentado na cadeira de seu escritório, pernas cruzadas na mesa. "É muito bom não ter um delegado por perto de dando ordens", pensava.
Tomava calmamente sua xícara de café, até ser interrompido por uma notificação no seu celular.
— Deve ser Emanuel. — falou baixinho.
Era uma mensagem de voz.
"Que estranho, ele nunca manda mensagens de voz", Marcos pensou. Uma preocupação estranha tomou conta de si.
— Marcos! — a mensagem iniciava com um tom desesperado na voz de Emanuel. — Escute! Isso não é brincadeira... Preciso da sua ajuda... Imediatamente!
*
Emanuel saiu da Gruta da Torrinha e caminhou até o seu carro. Lembrou que não tinha gasolina. Simplesmente, pegou a moto de Maycon, que estava jogada no chão, e seguiu de volta na direção para Lençóis.
Quando ele chegou próximo à Gruta da Pratinha, uma outra formação cavernosa que também era ponto turístico no Parque Nacional da Chapada Diamantina, Emanuel enxergou um veículo isolado aproximando-se em sua direção. Mais uma vez sentiu seu coração acelerar ao reconhecer o Fiat Palio preto à sua frente.
Emanuel desceu da moto, e o delegado Cândido Assis saiu do carro.
— Achei que iria passar as férias em Porto Alegre. — disse Emanuel, ironicamente.
— Emanuel! — o delegado gritou em resposta. — Bem vindo ao fim da linha.
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