Notas iniciais
Espero que gostem :3 ~

Os braços de Peter deslizam sob meus joelhos e ombros e ele me levanta. Minha cabeça desaba sobre seu ombro.

- Para alguém tão pequena, você é pesada, Careta — murmura ele.

Ele sabe que estou acordada. Ele sabe.

Ele começa a correr novamente, dessa vez me segurando. Felizmente, parece que não há soldados por perto. Não tenho como saber, meus olhos ainda estão fechados, e não consigo me mexer. Ele para novamente e abre uma porta. Entramos, e ele senta no chão, deitando-me e apoiando minha cabeça em seu colo. Abro os olhos. Ele está olhando ao redor, provavelmente checando se não há soldados ou câmeras de segurança ao redor. Ele olha para mim.

- Parece que o efeito do soro está passando — diz ele.

- Não consigo...me mexer...- falo, com a voz fraca.

- Não se preocupe — diz, olhando para o teto — daqui a alguns minutos.. você já vai estar normal de novo — finalmente, ele abaixa a cabeça e olha para mim. É meio constrangedor estar tão perto dele assim.

- Como você fez isso ? — pergunto.

- Eu apenas troquei os soros e fiz alguns "ajustes" no monitor cardíaco. Foi moleza. — Responde, com um tom de superioridade.

- Mas por que.. por que me salvou? Achei que me queria morta! — falo, rispidamente.

- Porque eu tinha uma dívida com você — responde, revirando os olhos. — Na sede da Amizade.. quando atiraram contra mim, a bala estava na altura da cabeça, e eu poderia ter morrido, mas você me desviou do trajeto da bala. Obrigado — as palavras escapam de sua boca como se fossem veneno. Não contenho uma risada.

- Você me agradecendo? Não se vê isso todo dia — digo. Peter desvia o olhar.

- Ah, cala a boca, Careta — responde.

Sinto um formigamento na sola do pé. Depois nas pernas, nos braços, até que se espalha por todo o meu corpo. Levanto-me com dificuldade, e Peter me ajuda a sentar ao seu lado.

- Obrigada — digo.

- Você me agradecendo? Não se vê isso todo dia — responde, em um tom de deboche. Faço uma cara feia. Ele ri. Pela primeira vez, o vejo rindo de verdade. Quer dizer, ele é o Peter, sua natureza é rir da desgraça alheia e da fraqueza dos outros. É assim que ele é. Mas agora, sua risada não parece irônica, ou debochada. Ele está apenas rindo, como uma criança. Encaro-o fixamente.

- O que você tá olhando? — pergunta, com o rosto corado.

- Nada — respondo. Meu coração dispara. Ele olha para a minha clavícula.

- Que tatuagem tosca — ele fala, se aproximando e colocando um dedo abaixo do queixo, como se estivesse avaliando-a.

- São pássaros — falo, irritada — um para cada membro da minha família.

Ele toca em um por um, do mesmo jeito que Tobias fez quando mostrei a tatuagem para ele. Sinto um calafrio ao lembrar de Tobias. Ele veio até a sede da Erudição por mim.. para morrer comigo. E aqui estou eu, sã e salva, dentro de uma sala com Peter, enquanto Tobias provavelmente está sendo usado para os experimentos de Jeanine. Eu deveria ir procurá-lo, mesmo que não consiga salvá-lo...ele precisa saber que estou viva.

- Peter... você poderia me levar até Tobias? — pergunto. Ele hesita um pouco antes de responder.

- Preciso levá-la daqui o mais rápido possível. Depois, os sem-facção que mandem alguma tropa para resgatar ele — diz, com uma pontada de raiva. O egoísmo de Peter me tira do sério. Ele não se importa com ninguém, nem estaria me salvando se não fosse essa dívida que ele tem comigo. Cruzo os braços.

- Só vou embora daqui se ele for junto — digo seriamente. Ele franze a testa.

- Está sendo ridícula. Ele não está nem aí para você — seus olhos param nos meus por um instante — precisa deixar que eu a leve de volta. Por favor — ele está quase implorando.

- Isso não é verdade — digo — ele me ama. Preciso salvar ele. — respiro fundo e tento levantar. Ele puxa meu braço.

- Não, você não vai — diz, severamente — eu disse que iria salvá-la, e ainda não está em total segurança. Vou levar você de volta, queira você ou não — ele aperta meu braço com mais força.

- Não consigo entender você — digo, quase gritando — esqueceu que você já tentou me matar? Já esqueceu de todas as vezes em que me humilhou? — empurro ele para o chão e prendo suas mãos com meus joelhos. Apoio minhas mãos em seus ombros e me agacho para perto dele — hein Peter?! Por acaso esqueceu tudo o que você fez comigo? — lágrimas começam a escorrer pelo meu rosto. — Porque agora quer tanto me salvar? Você já pagou sua dívida, agora estamos quites. Por que ainda insiste em me levar embora? — paro e respiro com dificuldade. Ele solta uma de suas mãos e coloca em meu rosto, enxugando minhas lágrimas. Não tenho forças para me equilibrar e desabo em cima dele. Passamos alguns segundos sem falar nada.

- É porque.. -ele hesita um pouco e continua — porque eu gosto de você — meu coração acelera novamente. Sinto meu corpo inteiro pesado. Tento absorver as palavras dele.

- Você.. o que? -pergunto, com a voz rouca

- Tsc..você ouviu — responde. Ainda estou deitada em cima dele. Levanto-me rapidamente e sento, tentando não encará-lo.

- Mas você me odeia.. como pode gostar de mim? — pergunto.

- Eu não odeio você — diz — mas não conseguia admitir a ideia de estar apaixonado por uma Careta. É ridículo — seu rosto está corado — tive que parar de sentir isso por você, de qualquer jeito. Achei que se passasse a agir como se odiasse você...você também me odiaria, e seria impossível que um dia, você me amasse — ele para e encara o chão. Não sei o que dizer.

- Peter...eu...eu amo o Quatro — começo — e não estou pronta ainda para perdoá-lo. Desculpe. Acho que essa conversa termina aqui. — levanto e limpo a calça. Preciso procurar Tobias.

- É, eu sei — ele força uma risada sarcástica e põe as mãos no bolso — Parece que você não virá comigo...se você quer salvá-lo, pode ir, mas não irei com você.

- Tudo bem — respondo. Ele caminha em minha direção.

- Tris... antes de ir.. — ele coloca as mãos em meu pescoço e encosta seus lábios nos meus. Sinto um calafrio. — tome cuidado. Ele me entrega uma arma.

- Obrigada — respondo. Olho para ele mais uma vez e forço um sorriso. Caminho em direção a uma saída.

- Espere — ele corre atrás de mim — seria revoltante salvar sua vida e logo você ficar à beira da morte de novo — ele passa a mão em seus cabelos — vou com você — diz.

Isso me surpreendeu. Tudo o que aconteceu hoje, desde a hora em que acordei, foi estranho. Quase morri. Peter me salvou, e disse que me ama. Franzo a testa.

- O que foi, Careta? — pergunta — não quer que eu vá com você? — pergunta ironicamente.

- Claro que quero. Quem sabe você pode ser de alguma utilidade — digo, forçando uma risada irônica. Ele balança a cabeça.

- Vamos — diz, colocando seu casaco em mim e escondendo meu rosto com o capuz — não podem saber que você ainda está viva — diz. Afirmo com a cabeça. Ele me guia pelos corredores até onde quero chegar. Onde Tobias está.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!