O Segredo de Dom Condão
1 Mergulhões - PR
Notas iniciais
— Elisa...
Era um dia quente de verão e Elisa e sua mãe visitavam o centro de Mergulhões pela primeira vez. Não era como ela preferia aproveitar o último sábado das férias, mas precisavam comprar coisas de papelaria e algumas coisas que faltavam no apartamento recém alugado onde morariam na maior parte do ano para que Elisa pudesse frequentar o Colégio Dom Condão.
Sair de casa pelo menos serviu para aliviar a ansiedade. Estudara no mesmo colégio durante todo o ensino fundamental e agora iria para um colégio que, além de novo, ainda tinha currículo de magia, o que seria o máximo, se ela não tivesse a infelicidade de nascer sem nenhum dom mágico. Mas Elisa estava disposta a encarar a perspectiva de se sentir um peixe fora d’água para estudar em um dos melhores colégios da região. Não se matara de estudar para passar nos exames de admissão à toa. E não ficaria tão atrás do irmão, que todo mundo tem como um gênio, enquanto dela ninguém espera muita coisa.
Elisa deu meia-volta para ver o que a mãe queria. Já estava cansada de olhar coisas para casa, agora só queria um tempo para si. Bem que achou que a mãe tinha cedido ao seu desejo de visitar a praça sozinha fácil demais.
— Não é nada – disse a mulher de cabelos castanhos, longos e ondulados, ainda jovem, com seus 39 anos. Então virou-se e entrou sozinha na loja de cortinas.
Ah, bom. Pensou que ela fosse dar para trás. Elisa seguiu mais um quarteirão e chegou na famosa Praça do Tombo.
Mergulhões era conhecida como Capital da Magia na região, pois concentrava um número anormal de magos. Além do Dom Condão, que não só ensinava magia para alunos do ensino médio, mas também reunia grupos de pesquisa mágica, também haviam outros centros de treinamento, lojas especializadas e guildas. A Praça do Tombo era um ponto turístico que mostrava esse lado, cercada de lojas especializadas no assunto.
A praça era bem agradável, apesar de meio exótica. Eram mais as cores e formas incomuns. As curvas dos bancos e postes, as formas das flores coloridas, a pintura das fachadas. No centro da fonte do centro da praça, havia um grande cristal azulado. Até os paralelepípedos tinham um ar meio liso e brilhante. Era como se tudo dissesse “olha como eu sou diferente!”, para encher a vista dos turistas.
Logo de cara, uma barraquinha ambulante de madeira chamou-lhe a atenção, cheia de colares, pulseiras, chaveiros e trecos diversos. Elisa parou para olhar.
— Ei, mocinha, quer comprar um amuleto?
— Não, obrigada. Só estou olhando – Elisa respondeu ao velho careca barbudo sentado ao lado da barraca, com um jornal aberto no colo e um pássaro cinza empoleirado no ombro. Ele respondeu num resmungo que fez a ave eriçar as penas da cabeça e fazer um barulho de gargalhada. A menina achou estranho e saiu de lá rapidinho.
Do outro lado da rua ela parou para olhar uma vitrine cheia de cristais, pedras, varinhas e badulaques diversos, mas entrou foi na loja seguinte, de poções. Começou a admirar as extensas prateleiras, encantada com a variedade de cores e formatos dos vidrinhos alinhados nelas, mantendo uma distância segura e os cotovelos grudados no tronco.
— Boa tarde. Posso ajudar? – perguntou um homem alto, de barba curta, sobrancelhas fartas e um sorriso simpático.
— Só estou olhando... – ela respondeu, com um sorriso acanhado.
— Pode ficar à vontade – ele respondeu, com um tom bastante amigável de vendedor. – Não prefere olhar o catálogo? Pode vir aqui que eu mostro pra você.
Ela aceitou o convite e foi com ele até o balcão. Lá ele entregou-lhe um impresso de várias páginas com todas as poções da loja. Era mais interessante porque, além das foto dos frascos, mostrava a descrição. E tinha cada coisa que ela nem imaginava.
— Aqui – disse o vendedor, chamando-lhe a atenção para uma lata com bolinhas embrulhadas em papéis metálicos coloridos. – É brinde, pode pegar.
— O que são? – perguntou Elisa, pegando uma.
— Ah, bombinhas sortidas. Tem que olhar dentro o que cada uma faz. Toma, pega mais duas.
Ela aceitou e agradeceu, guardando as bolinhas – uma azul clara, uma verde e uma alaranjada – na bolsa, e voltou a ler o catálogo com interesse, curvada sobre o balcão. Pouco tempo depois alguém entrou, cumprimentou o vendedor e os dois começaram a conversar ali do lado.
— Você viu essa do casal morto? – perguntou o cliente. Alguma coisa na voz dele soou estranho para Elisa. Ela continuou com os olhos no catálogo, só ouvindo. Não queria dar uma de curiosa.
— Qual? Ah, ouvi falar. Parece que foi um mago, não é?
— Mas foooooi. Um mago elemental. Congelou os dois por dentro!
A voz era grave e rouca, com uns pequenos estalinhos. Estranho.
— Caramba! Isso não é bom...
— Pois é, rapaz. Já é o terceiro assassinato por magia desse ano.
— Terceiro? Só tava sabendo de um.
— Pois sim, olha só.
Colocaram um jornal no balcão, ao lado de Elisa.
— O primeiro foi aquele político...
A menina resolveu espiar discretamente o jornal. Foi quando o cliente dono do jornal colou a mão em cima, apontando a foto dum gorducho. Elisa não conseguiu disfarçar o susto. A mão era de um verde pálido, com dedos compridos e finos – era a mão de um meldo!
Meldos são pessoas com aparência de réptil. São pessoas, bípedes, onívoros, inteligentes, e tudo o mais, mas tem pele, rosto, cauda, tudo de lagarto. Não são nada comuns, Elisa nunca tinha visto um de perto, e por isso o susto.
Tanto o vendedor quanto o meldo a olharam. A menina não sabia onde enfiar a cara. O meldo pareceu suspirar e lambeu o próprio olho.
— Desculpe, eu não quis... Não quis interromper – disse Elisa, tentando disfarçar.
— Tudo bem – disse o meldo. – Normal as pessoas ficarem com medo à primeira vista.
— Não tenho medo – disse Elisa, e forçou um sorriso, procurando convencê-los. O meldo fez um gesto com a cabeça com um “aham” e então voltou-se para o vendedor querendo continuar a conversa. Elisa saiu frustrada.
— Volte sempre! – gritou o vendedor às suas costas.
Ela odiava deixar uma má impressão. Não tinha medo, não tinha preconceito, só não estava esperando. Queria que soubessem disso e não a julgassem mal, mas agora era tarde. Com isso seu ânimo foi lá pro chão.
Quando chegou na rua o dia todo parecia mais cinza e feio, assim como seu humor. Isso porque ia chover. Do nada começou a ventar e então vieram os pingos grossos antes de desabar uma típica chuva de verão. Elisa se abrigou na próxima loja, uma livraria.
Começou a olhar os títulos para se distrair, mas não estava com cabeça pra isso. Queria ir pra praia. Queria ir pra casa, sei lá, só queria sossego. Tão absorta estava em seus pensamentos que nem tinha reparado na dona da loja, uma senhora de cabelos grisalhos, presos num coque frouxo, e com um óculos de leitura apoiado torto no nariz, sentada atrás de um monitor de modelo antigo no balcão da pequena loja.
— Olá, pode me ajudar? – disse a senhora.
— Só olhando, obrigada – respondeu Elisa, automaticamente, com um sorriso educado, mas no fundo não queria saber de conversa. Então parou e prestou atenção na pergunta. Espera...
— A senhora... precisa de ajuda? – perguntou.
— Sim, por isso pedi. Pode vir aqui, por favor?
A menina sentiu o rosto queimar de vergonha. Por que isso agora? Ela só queria sossego. Mas se aproximou do balcão.
— Qual é o seu nome, meu bem?
— Elisa.
— Nome lindo, Elisa. Eu me chamo Analia. – A mulher então levantou um baralho para ela. – Preciso que você escolha uma carta para mim.
Elisa obedeceu, hesitante. Na verdade estava um pouco aborrecida. Pra isso que a mulher precisava dela? Não podia tirar uma carta do baralho sozinha? Mas claro, não podia deixar transparecer.
Ela olhou a carta e se surpreendeu porque estava em branco. Mas logo a carta começou a mudar. Surgiram pontos brilhantes e manchas coloridas que se moviam e mudavam, preenchendo todo o branco, até pararem. No final a maior parte era coberta por uma mancha azul de bordas amareladas, com um círculo preto sobressaindo-se num canto e pontinhos bem pequenos, brilhantes, espalhados, principalmente sobre o preto. Elisa deu a Analia um olhar indagador, e a senhora pediu-lhe a carta de volta.
— Deixe me ver, querida – disse, pegando a carta. – Muito bem... Escolha mais uma, sim?
Elisa obedeceu novamente e o mesmo aconteceu, embora dessa vez o preto estivesse mais difuso, linhas finíssimas cor-de-rosa desenhassem arabescos por cima do azul e bem no centro predominava uma mancha branca.
— Que interessante! – disse a mulher, examinando a segunda carta. – Só mais uma...
A terceira começou com o azul e o preto das outras duas e bem no fim surgiu um mancha vermelho-sangue que pareceu, por um segundo, transbordar pela borda da carta, antes de parar. Elisa entregou a terceira carta, curiosa.
— Ora, ora... – exclamou a mulher.
Ao ver que a menina a fitava indagadora, Analia tentou explicar:
— Vou usá-las no meu próximo romance – disse, como se fizesse sentido. – Muito obrigada, querida. Fique à vontade. Qualquer coisa é só chamar.
Elisa pensou em responder, mas na mesma hora seu telefone vibrou no bolso da bermuda. Era a sua mãe.
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