Notas iniciais
Betado por Gabi Araujo, da Liga dos Betas. Valeu, Gabi!

A primeira coisa que notou foi a luz do Sol dissipando a escuridão no horizonte. Então sentiu o vento no rosto. Só então notou como estava ofegante, com o coração acelerado. Isso porque estava correndo, e rápido! Galopando na direção do sol nascente.

De repente tropeçou e caiu de joelhos. O vento agora batia em suas costas, jogando seus cabelos contra o rosto, e ela começou a perceber melhor as coisas à sua volta. À sua esquerda havia um muro extenso, no qual se apoiou; do outro lado, outras pessoas também corriam pela rua. Reparou nas vozes e gritos e outros sons que só conseguiu identificar quando se virou para trás. Então entendeu os gritos e as pessoas correndo. Entendeu porque ela própria corria: estavam todos fugindo de uma besta e-nor-me.

A criatura era preta, grande e feroz. Seu corpo, largo como um tanque, era sustentando por quatro pernas musculosas; a cabeça era imensa; a boca cheia de dentes era proporcionalmente grande; dois chifres polidos e afiados brotavam do cocuruto, davam uma volta e apontavam para cima; olhos redondos e amarelos; e batia a cauda grossa e espinhenta, ora de um lado, ora do outro, enquanto corria.

Ela queria levantar e continuar a correr, mas sentia-se paralisada no lugar. Não conseguia tirar os olhos da besta, que se aproximava cada vez mais, destroçando tudo pelo caminho. A criatura então parou tão perto que ela podia sentir seu bafo de morte. Ainda mais quando o monstro abriu a bocarra e soltou um rugido grave e longo, que fez seu coração saltar de pavor.

***

Elisa puxou o lençol até cobrir o nariz, dobrando os joelhos para que os pés não ficassem descobertos com a manobra, e varreu o ambiente por um momento, enquanto os olhos acostumavam-se com a fraca luz da manhã que invadia o quarto pelos furinhos da veneziana. O coração inquieto aos poucos voltava à cadência controlada de sempre. Já calma, mudou a posição, deitando-se lado, querendo voltar a dormir enquanto ainda não dava a hora de levantar. Sonho besta, me assustou de verdade!

Quando estava quase pegando no sono novamente, ouviu o toque do despertador de sua mãe: dez minutos antes do que o seu próprio estava programado. “Pra quê? Pra que botar despertador se ela vai dormir a manhã inteira?”, pensava Elisa, enquanto levantava desistindo de vez do sono. “Só pra me acordar mais cedo!”

Tomou um banho rápido, vestiu o uniforme e mirou-se no espelho do guarda-roupa para terminar de ajeitar os detalhes. Não iria admitir, mas amava o uniforme novo: camisa branca com o brasão da escola em amarelo e saia pregueada em xadrez preto e azul marinho. Também tinha colete e jaqueta, mas eram mais para o inverno. Calça era outra opção, mas ela achava saia mais fofo. Ficou examinando a altura da saia por um instante, estava mais curta ou era impressão? Suspirou. Quando ia parar de crescer? Na escola antiga era a mais alta das meninas. Não gostava de ser alta, não queria chamar atenção.

Na cozinha, encontrou a mesa do café posta e a mãe tostando pão. Estranhou, mas sentou-se e aproveitou para comer um café da manhã bem caprichado.

Acabou saindo mais tarde do que planejara, mas não tinha problema, pois o apartamento que alugaram ficava a poucas quadras da escola. Era só apertar o passo que ainda chegaria com tempo de sobra. Era uma sensação boa poder ir para a escola sozinha, coisa que não acontecia em São Paulo. Sentia-se leve, livre e independente. Até que dobrou a esquina e deu de cara com seu pesadelo.

Bom, não exatamente. Não era o cão dos infernos, ainda fresco em sua memória, mas era grande, preto e vinha correndo em sua direção. Nem chegou a pensar, só correu embestalhada por sua vida, para o meio da rua. Para azar do ciclista que vinha logo atrás.

O pobre garoto conseguiu jogar a bicicleta um pouco para o lado, segundos antes da colisão, evitando que batessem de frente. Acabou caindo, enquanto Elisa tropeçava na roda de trás e se estatelava em seguida, caindo de joelhos primeiro, então de queixo.

O que mais doeu na hora foi o orgulho. Cair no meio da rua, na frente de todos aqueles alunos indo para a escola. Se pudesse fundir-se aos paralelepípedos do chão e nunca mais ser vista, teria feito.

─ Você está bem? ─ perguntou-lhe um homem grisalho, de olhos claros grandes, ligeiramente saltados, interrompendo seu drama interno e oferecendo ajuda para levantar. Ela ergueu-se bem acima dele, pois o homenzinho tinha só 1,35 m.

─ Estou bem ─ ela respondeu prontamente, só então foi examinar o estrago. A saia-calça foi só bater a poeira, mas os dois joelhos estavam ralados e doídos. Também sentiu que o queixo estava machucado e o tocou de leve para verificar. Ela não se machucava assim desde o 7º ano, que vergonha!

─ Vamos passar lá em casa que eu dou um jeito em vocês ─ disse então o homem, enquanto ajudava o garoto a levantar a bicicleta para que a tirasse do meio da rua. Os carros começavam a fazer fila já.

─ Não precisa, obrigada, tenho que ir ─ respondeu Elisa, procurando sua mochila pelo chão. Onde foi parar?

─ Eu faço um unguento que vai secar esses machucados rapidinho ─ disse o homem. Estava com ele a mochila!— Uh, não me levem a mal, mas… mesmo que eu tenha dado aula para vocês, não vou lembrar dos nomes…

─ Gustavo – disse o menino, encostando a bicicleta no murinho da casa onde o cachorrão, um mastiff preto, esperava na entrada.

─ Gustavo, e... ?

─ Elisa. Pode me dar minha mo...

─ Elisa? Bom, não precisa ter medo do Atticus, ele só é grande.

A essa altura já estavam passando pela entradinha da casa com mais planta que Elisa já tinha visto na vida. Eram arbustos, samambaias, flores, trepadeiras, uma desordem verde absurda que cobria o chão, do murinho até a casa.

─ Eu não tenho medo ─ explicou-se Elisa, que não era de aceitar convites de estranhos,mas ainda não tinha conseguido pegar de volta sua mochila e sentia que devia desculpas ao menino Gustavo.

Os dois garotos foram sentados a uma mesa redonda na sala de estar, onde o professor do Dom Condão serviu biscoitos duros e deu um saco de gelo para o garoto deixar no pulso, enquanto preparava o tal do unguento e fervia água para chá. Elisa sentiu-se mais culpada ainda quando viu o estado do pulso do garoto, roxo e inchado. Queria pedir desculpas, mas ficou sem jeito de puxar conversa e preferiu esperar por uma deixa. Gustavo parecia o tipo quieto, ou simplesmente não estava disposto a falar com ela. Tinha olhos bem claros, cabelos pretos cortados à máquina e um nariz marcante.

Os dois praticamente não falaram nada ─ Seu Garibaldo falava pelos dois e um pouco mais. O homenzinho melecou as feridas de Elisa com um creme rosa, que acabara de fazer, e deu uma poção fedida, misturada ao chá, para Gustavo, coitado, enquanto contava histórias diversas. Mas não alongou a conversa para que não se atrasassem demais.

Então os dois seguiram juntos, em silêncio, pela rua praticamente vazia. Elisa ainda esperava a deixa para desculpar-se. Decidiu que quando fossem despedir-se seria um bom momento. Enfim, chegaram diante dos grandes portões de grade. Assim, deserto, contra o sol da manhã, o prédio grande de paredes revestidas de pedra pareceu tão sombrio.

─ Vou guardar a bicicleta ─ disse Gustavo, subitamente, justo na hora em que ela abrira a boca para falar. Sem nem esperar resposta, virou-se e seguiu para o estacionamento. Elisa fez uma careta pra ninguém, mas não ia se aborrecer por causa disso. Ele que ficasse sem suas desculpas. Nervosa, explicou o acidente para o porteiro, com medo de perder o primeiro dia de aula. Talvez tomar uma suspensão? Ainda não conhecia bem as regras, mas tinha a impressão que o colégio era super rígido.

─ Seu Garibaldo cuidou de você? Vai sarar rapidinho, então ─ foi o que ele disse, dando passagem pra ela com um sorriso bem grande de gente do bem.

Ele indicou-lhe onde deveria ir, e lá foi ela, pelos corredores vazios do colégio atrás de sua sala, no segundo andar do prédio de entrada. No caminho reparou que cada sala tinha uma placa de uma cor. Do 1ª E era vermelha, do D era verde, do C era azul. O resto não chegou a ver porque a C era a sua turma.

Parou por um momento diante da porta para respirar fundo. Desejou-se boa sorte: hora de encarar seus novos colegas e professores.

Notas finais
Obrigada pela atenção. ^^/
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.