Notas iniciais
Voltamos ao Memorial da Resistência de Mossoró, mas com um contexto bem diferente...

Andressa Takahashi já tivera alguns encontros bem estranhos. Ela já saíra com caras que só queriam sexo, e com caras que a pediram em namoro quinze minutos depois de conhecê-la, e com caras que a abandonaram para ficar com outras pessoas. Ela supunha que eram ossos do ofício. Quando se utilizava aplicativos de relacionamento, essas coisas acabavam acontecendo, mais cedo ou mais tarde.

Mas ela nunca tinha saído com um menino que estivesse realmente interessado na história da invasão de Mossoró pelo bando de cangaceiros de Lampião, ou, pelo menos, com um que demonstrasse isso no primeiro encontro. Essa era novidade para ela.

— Então... Você já conhecia a cidade ou o quê? – perguntou Andressa, enquanto seguia o dito cujo pelo Memorial da Resistência.

O rapaz em questão era um natalense chamado Hugo. Ele era bonito, de um jeito delicado: cabelo incomumente claro, olhos castanhos, feições suaves e uma estrutura magra, poucos centímetros mais alto que a própria Andressa. Ele respondeu sem se virar:

— Eu vinha aqui quando era pequeno, mas nunca pra “fazer turismo” – Ele abriu aspas no ar com os dedos. – Meu pai vem a trabalho, às vezes. Ele me trazia quando eu ainda não tinha idade pra ficar sozinho em Natal.

— Então você nunca saiu com ninguém daqui? – perguntou Andressa, sorrindo. Hugo se virou para retribuir o sorriso.

— Não. Você é pioneira nesse sentido.

Eles avançaram pelo Memorial em silêncio por alguns minutos. Andressa não estava com pressa para conversar; o encontro estava apenas começando. Eles tinham ingressos para uma peça de teatro mais tarde – na verdade, estavam no Memorial só para matar o tempo, já que o local era na mesma rua que o teatro – e provavelmente comeriam alguma coisa na Praça da Convivência depois, aproveitando a proximidade. Por instante, Andressa se contentou em observá-lo. Ela era boa em analisar as pessoas, e não era como se Hugo não fosse interessante de se olhar.

Enquanto eles se locomoviam, ficou claro que Hugo estava perdendo o interesse na história local; ele não parava por tempo o suficiente para ler os depoimentos e as informações espalhados pelas paredes. Dessa vez, foi ele quem rompeu o silêncio, com um sorriso amarelo:

— Você já deve saber tudo isso de cor, né?

Andressa deu de ombros.

— Eu assistia ao musical todos os anos.

— É. Foi mal. – Hugo deu as costas aos murais informativos. – Isso é coisa do meu pai, sabe? Ele quem se interessa por essas coisas. Na realidade, ele meio que pensa que é isso que eu estou fazendo aqui. Estudando a história local, quer dizer.

Andressa deu um passo à frente, sem conseguir evitar um sorriso malicioso.

— Então você está saindo escondido?

Hugo retribuiu o sorriso. Mais do que bonito, ele era charmoso, com aquele jeito de bom moço e aqueles cílios ridiculamente longos.

— Pode-se dizer que sim.

— Que má influência.

Ele ergueu uma sobrancelha e olhou do cabelo dela – curto, escuro, com mechas cor-de-rosa e loiras – de volta para o rosto. Andressa logo percebera que ele não era muito bom com contato visual direto, mas se recusou a desviar o olhar.

— Olha quem fala.

— Isso é preconceito – protestou Andressa. – Eu sou uma ótima influência.

E ela era, na forma mais literal da palavra. Ótimas notas. Ótima vida social. O resto, nem tanto, mas ela supunha que todo mundo tinha limites.

— Eu não tô muito preocupado – admitiu Hugo. Ele também havia se aproximado.

Andressa poderia tê-lo beijado. Na verdade, ela provavelmente o teria feito, se ele não tivesse olhado por cima do ombro dela e ficado imediatamente pálido.

Ela se virou para ver qual era o problema: um grupo de jovens estava se aproximando deles, e, aparentemente, isso estava deixando Hugo preocupado. O mais velho do grupo parecia ter no máximo dezenove anos, não muito mais velho que Andressa, e todos pareciam o tipo de garoto que ela encontraria em seu colégio. De fato, Andressa percebeu, surpresa, que conhecia um dos garotos. Eles haviam estudado juntos, até o garoto reprovar.

Ela olhou de volta para Hugo. Ele ainda estava encarando os rapazes, girando nervosamente o anel em sua mão esquerda, os lábios se movendo sem produzir nenhum som. Andressa estava prestes a perguntar a ele qual era o problema quando um dos garotos, aparentemente o líder do grupo, gritou:

— Ei, Hugo!

Hugo suspirou, resignado. Andressa ergueu uma sobrancelha para ele.

— Seu amigo?

— Meu primo – respondeu ele, sem olhar para ela e quase sem mexer os lábios.

Ah, pensou Andressa. Isso explicava por que ele parecia tão agitado; afinal, não deveria estar em um encontro, e provavelmente estava preocupado com a possibilidade de seu primo dedurá-lo para o pai. Ela já pedira para um garoto fugir pela janela porque sua mãe havia chegado em casa mais cedo, então supunha que não tinha o direito de reclamar.

O grupo se aproximou. O rapaz que havia falado abraçou Hugo, que retribuiu sem muito entusiasmo, e disse:

— Eu nem sabia que tu tava em Mossoró, por que tu não me avisou?

Nenhum dos rapazes sequer olhou na direção de Andressa. Quanta falta de educação, pensou ela, irritada. Já que eles tinham interrompido seu encontro, podiam ter pelo menos a decência de cumprimentá-la.

— Cheguei ontem à noite – Hugo deu de ombros. Sua expressão, somada ao fato de que ela sabia que ele havia chegado na cidade fazia pelo menos dois dias, fez Andressa desconfiar de que ele não gostava muito do primo. – Deu nem tempo.

— Tendi – O rapaz analisou a expressão de Hugo atentamente. – Vai ficar aqui por quanto tempo?

Andressa não prestou muita atenção à resposta de Hugo. Ela acenou para o garoto que conhecia da escola, mesmo que eles nunca tivessem sido muito próximos. Ele não deu sinal de notar; seus olhos passaram por ela sem demonstrar nenhum reconhecimento. Ela cruzou os braços e olhou para Hugo, na esperança que ele notasse sua impaciência e a apresentasse ao grupo. Ele lhe lançou um olhar de esguelha rápido, mas, fora isso, continuou falando com o primo como se Andressa não estivesse ali.

Por fim, Hugo se despediu do primo e o grupo de rapazes começou a se afastar. Andressa estendeu o braço para pegar a mão de Hugo.

— O que ele...

Ela se interrompeu quando sua pele tocou a do garoto; foi como tocar em um fio desencapado. O anel no dedo dele estava tão quente que seu primeiro impulso foi afastar a mão, mas ela não conseguia se mover. Hugo parecia tão paralisado quanto ela; os olhos dele estavam arregalados, e seus ombros sacudiam como se ele estivesse tentando se mover, sem sucesso.

Um formigamento começou a se espalhar pelo corpo de Andressa a partir do ponto de contato entre seu dedo e o anel. No início, era quase imperceptível; depois, passou para incômodo, como o sangue voltando a um membro adormecido, e por fim se tornou doloroso, uma corrente elétrica que, ela estava convencida, a mataria assim que passasse pelo coração.

Quando Andressa finalmente conseguiu se afastar, foi porque desabou no chão. Ao erguer o braço para tentar alcançar Hugo, ela notou que a pele estava quase translúcida, como se seu corpo estivesse desaparecendo lentamente. Em algum lugar, ela sabia que aquilo deveria alarmá-la, mas estava aliviada demais por ter parado de sentir aquele formigamento horrível para se importar, e, além disso, seus pensamentos estavam começando a ficar enevoados. Subitamente, ela estava com muito sono. Imaginou que não faria mal tirar um cochilo rápido.

Andressa teve um vislumbre de Hugo caindo de joelhos ao seu lado, antes de perder completamente a consciência.

***

— Você acha que ela vai demorar pra acordar?

— Por quê, você tem algum lugar pra ir?

— Tenho. Nós dois temos, na verdade. A gente tem ingresso pra...

— É, acho que o encontro de vocês foi por água abaixo, então eu não contaria com isso.

As vozes despertaram Andressa, mas ela não conseguia levantar nem lembrar por que estivera dormindo. Então, ela ficou parada, tentando descobrir onde estava e ouvindo a discussão.

— Merda – Este era Hugo, parecendo mais decepcionado do que preocupado.

— Pois é – Andressa não reconheceu essa voz. Era feminina e grave, e falava baixo, como se estivesse tentando evitar chamar atenção. – Me explica de novo por que você achou tão necessário usar...

— Porque eu não ia adivinhar que ela era uma Usurpadora, por isso!

— Olha, isso é culpa sua, então não tem pra quê gritar comigo.

Gradualmente, Andressa foi retomando o controle do próprio corpo, o suficiente para perceber que estava deitada no que parecia concreto – provavelmente o chão do Memorial da Resistência, onde havia desmaiado, lembrou ela. Que ótima forma de afugentar um cara recém-conhecido. A voz desconhecida tinha razão: aquele encontro não podia estar sendo pior.

Ao finalmente abrir os olhos, ela se deparou com dois rostos pairando sobre ela. Um deles era Hugo, que pareceu aliviado ao perceber que ela estava consciente. O outro era de alguém de pele muito escura e cabelo muito claro, que Andressa supôs ser dona da voz desconhecida.

— Olha aí – disse a desconhecida. Ela ofereceu a Andressa um sorriso tranquilizador, apesar de estar claramente se dirigindo a Hugo. – Vocês podem retomar a programação normal, se ela conseguir levantar e não quiser sair correndo.

Hugo deu um passo para trás enquanto Andressa se sentava, recusando a ajuda da desconhecida. Ao contrário de que imaginara, ela não estava exatamente no chão, e sim em uma espécie de amurada, voltada para a rua. Não era muito alta, mas ela tomou bastante cuidado mesmo assim.

— Você tá bem – disse ele. Não era uma pergunta.

Andressa franziu a testa, lembrando da sensação de formigamento se espalhando pelo seu corpo.

— Acho que sim – Ela tentou sorrir, jogar um charme para minimizar seu embaraço. Seu rosto ainda estava entorpecido demais para isso. – Devo ter desidratado, sei lá. A gente tá em Mossoró, né. Acontece.

— Ah, tá – murmurou a desconhecida. Nenhum dos outros dois deu sinal de ouvi-la.

— Deve ter sido – Hugo passou a mão pelo cabelo. Parecia nervoso. – Olha, eu detesto sair assim do nada, mas...

— Mas agora que eu desmaiei depois de encostar em você, as coisas ficaram meio esquisitas entre a gente – sugeriu Andressa. Não era um discurso de fuga que ela já ouvir antes, mas haviam coisas piores.

Hugo sorriu, embora ainda parecesse inquieto.

— Não é isso. É que meu pai me ligou, e ele tá puto comigo por causa de um negócio.

Andressa olhou de relance para a desconhecida, que parecia estar se esforçando muito para não revirar os olhos.

— É verdade – disse ela. – O pai dele realmente ligou.

Andressa quis retrucar que não estava duvidando, mas, no fundo, ela estava. Então, disse para Hugo:

— Ah. Eu entendo.

— Eu tava só esperando pra ver se você ia ficar bem – continuou Hugo. – Mas eu realmente preciso ir.

As coisas estavam acontecendo rápido demais para o cérebro ainda entorpecido de Andressa processar. Ela assentiu, por que o que mais ela poderia fazer?

— Pode ir – disse, apesar de estar bem claro que Hugo não estava pedindo permissão. – De boa. Eu tô ótima.

Após um momento de hesitação, Hugo se inclinou e deu um beijo na bochecha de Andressa.

— Por favor, não me odeie – sussurrou ele. Andressa não pôde conter um sorriso.

— Vou pensar no seu caso – respondeu.

Hugo retribuiu o sorriso e acenou. Ao erguer a mão para acenar de volta, Andressa notou que o anel dele, aquele com o qual ele estivera brincando ao falar com os primos, estava em seu dedo anelar, apesar de estar bastante folgado. Ela não teve tempo de perguntar sobre o assunto; Hugo se afastou como se estivesse com muita pressa. O que, Andressa supunha, ele estava.

A desconhecida estava lhe estendendo uma garrafa d’água.

— Eu não sei qual é a história entre vocês – disse ela. –, mas eu daria um pé na bunda dele.

Andressa apenas aceitou a garrafa, sem dizer nada. A desconhecida continuou:

— Acho que sobrou pra mim explicar o que aconteceu, né?

— Acho que isso seria mais fácil se eu soubesse quem é você, pra começo de conversa.

A garota riu, aquiescendo.

– Bem lembrado – Ela estendeu a mão. – Eu sou a Woodstock.

Pela primeira vez, Andressa olhou bem para ela. Ela era mais alta que a própria Andressa, talvez mais até do que Hugo, e tinha aparência atlética, embora suas roupas fossem mais do tipo que se vê em uma pista de skate do que em uma academia. Seu cabelo loiro, quase raspado nas laterais, contrastava fortemente com sua pele escura, mas o contraste ficava bem nela. Ela tinha três furos em cada orelha, e uma corrente prateada desaparecia sob o colarinho da regata preta que usava. Usava um bracelete grosso de couro que parecia bem desconfortável no pulso esquerdo. Ela definitivamente não parecia alguém que fora nomeada em homenagem a um festival de música hippie.

— Woodstock – repetiu Andressa, incrédula. Woodstock riu de novo.

— Tá, meu nome é Carla, mas todo mundo me chama de Woodstock. Fica a seu critério qual combina mais.

— Então tá – Andressa apertou a mão dela, sentindo o anel de Hugo girar em seu dedo fino demais. – Andressa.

— Prazer, Andressa. E aquele era...?

— Hugo. Ele não te falou o nome dele?

Woodstock deu de ombros.

— Pra ser bem sincera, eu nem perguntei. Fiquei meio ocupada me preocupando com você, já que você quase desapareceu e tal.

Andressa pestanejou. Aquilo não era o que ela estivera esperando ouvir. Acima de tudo, ela não esperava que Woodstock falasse aquilo com tanta displicência.

— Desapareci.

— Quase, é.

Por alguns instantes, Andressa só conseguiu encará-la. Quando ela finalmente recuperou a voz, tudo o que saiu foi:

— Dá pra você realmente explicar que porra tá acontecendo?

Isso pareceu abalar a tranquilidade de Woodstock. Ela mordeu o lábio, trocando o peso do corpo de um pé para o outro.

— É um negócio meio complicado – disse, por fim. – Quão inclinada você está a acreditar em mágica e afins?

Andressa a fitou como se Woodstock estivesse louca, o que, até onde ela sabia, podia muito bem ser verdade.

— Não estou – respondeu, devagar e pausadamente, para ter certeza de que a outra garota havia entendido. – Literalmente. Nem um pouco inclinada.

Woodstock sustentou o olhar.

— Pois é, parece que a gente tem um problema.

Na opinião nem tão humilde de Andressa, só havia uma reação possível a essa declaração: levantar, dar as costas a Woodstock e ir embora. Contudo, seu plano foi impedido pela tontura que tomou conta dela quando ela tentou se levantar; foi Woodstock quem a aparou e impediu que ela caísse de cara no chão.

— Eita, vamos com calma – murmurou ela. – É como eu falei, você quase desapareceu.

— Eu desmaiei – observou Andressa. Woodstock suspirou. Não parecia chateada; apenas resignada.

— Eu odeio seu namorado. Ter essa conversa era papel dele.

— Não seja por isso – retrucou Andressa imediatamente. – Eu também não faço questão de ter essa conversa. Olha só! A gente pode só fingir que nada disso aconteceu e prosseguir com nossas vidas.

Woodstock deu de ombros de novo. Pelo que Andressa pôde perceber, ela fazia muito isso.

— Você quem sabe. Só cuidado pra não cair de cara.

Andressa começou a levantar, devagar e com cuidado dessa vez, com total intenção de simplesmente sair andando, esquecer aquela conversa e presumir que tinha desidratado. O que a impediu foi a corrente ao redor do pescoço de Woodstock: ao olhar com mais atenção, ela percebeu que o contorno do pingente era visível por sob o tecido da regata, e parecia ser um anel. Ela olhou para o anel de Hugo, em seu próprio dedo, e se xingou mentalmente pela série de decisões erradas que estava tomando naquele dia.

— Tá bom – disse ela. – Você venceu.

O olhar que Woodstock lhe lançou parecia, a princípio, desinteressado, mas Andressa percebeu o alívio por trás dele.

— Ótimo – falou ela. – Você se incomodaria se a gente fosse se encontrar com meu amigo antes?

Puta que pariu, pensou Andressa. É hoje que eu sou encontrada morta numa vala. Foi a vez dela de suspirar, e, ao contrário de Woodstock, ela estava irritada.

— Que seja – respondeu ela. – Onde nós vamos encontrar esse seu amigo?

Woodstock olhou para os pés de Andressa, que calçava sandálias rasteiras.

— A gente não vai precisar andar muito – prometeu. – Vem comigo.

As duas deixaram o Memorial da Resistência, seguindo na direção do Teatro Dix-Huit Rosado, onde Andressa deveria assistir a uma peça com Hugo mais tarde naquele dia. Ela se permitiu alguns instantes para lamentar o fim precoce de um encontro tão bem planejado, mas, fora isso, não pensou muito no assunto. Ela tinha certeza de que teria várias oportunidades de ver Hugo de novo; no momento, a prioridade era descobrir do que aquela menina com nome de hippie estava falando.

No caminho, elas passaram pelo primo de Hugo e seu grupo. Nenhum deles deu sinal de notá-las, com exceção do garoto que estudava na mesma escola que Andressa, o mesmo que ela tentara sem sucesso cumprimentar antes. Dessa vez, ele acenou ao vê-la. Andressa acenou de volta, sentindo um mal pressentimento se acumular na boca do estômago.

De fato, elas não foram muito longe; Woodstock parou de andar quando elas chegaram ao cruzamento em frente ao cemitério, logo depois do teatro. O sinal estava fechado; à frente dos carros parados, um rapaz fazia malabarismos com pedaços de madeira em chamas. Andressa conhecia o truque. Artistas de rua como aquele não eram incomuns nos principais cruzamentos de Mossoró.

Ela olhou em volta, tentando achar alguma indicação do que Woodstock estava procurando.

— Hm, e agora? – perguntou.

— Agora a gente atravessa, e espera o sinal abrir – respondeu Woodstock.

Enquanto elas atravessavam a rua rapidamente, o rapaz se aproximou dos carros, ainda segurando os gravetos em chamas, e foi de veículo em veículo. Algumas pessoas entregaram trocados a ele. Quando a luz do sinal acima passou de vermelha para amarela, e então para verde, o malabarista teve que correr para não ser atropelado. Ele derrubou uma das madeiras em chamas, o que fez Woodstock rir pelo nariz, com deboche.

— Eu não sei nem por que você ainda tenta – disse ela para o malabarista.

Andressa duvidava que provocar estranhos gratuitamente na rua fosse uma boa ideia, mas ela estava seguindo uma desconhecida que acabara de lhe falar baboseiras sobre magia, então ela supunha que não era a pessoa mais indicada para criticar Woodstock. O malabarista mostrou o dedo do meio para elas antes de gritar de volta:

— Vá se foder, Woodstock. Pelo menos eu faço algo produtivo.

Ah, pensou Andressa.Ela seguiu Woodstock enquanto esta se aproximava do rapaz. Era óbvio que os dois se conheciam.

— Produtivo, sei. Quantos trocados você ganhou hoje? – Woodstock fez um gesto na direção de Andressa. – Por sinal, eu tive um dia produtivo. Essa é a Andressa. Andressa, esse é o Jessé.

Os recém-apresentados se analisaram mutuamente. O rapaz não podia ter mais de dezoito anos, pensou Andressa. Ele não se destacava nem por sua beleza nem pela falta dela; a única forma de descrevê-lo seria como comum. Olhos castanhos, cabelos castanhos, altura mediana, algumas espinhas, nariz meio torto – ele parecia com todos os garotos com quem Andressa estudava. Estava descalço, a despeito do chão quente, e usava shorts e uma regata ensopada de suor que deixava à mostra os braços magrelos. Na parte interna do antebraço esquerdo, exibia uma tatuagem. Embora não desse para ter certeza de tão longe, Andressa pensou se tratar de um grande dragão amarelo.

Jessé – aparentemente, Andressa havia escolhido as duas pessoas com nomes mais exóticos de Mossoró para encontrar naquele dia – apagou o que restava das chamas e sorriu. Havia qualquer coisa de instável naquele sorriso, e Andressa percebeu que ele estivera segurando os pedaços de madeira com as mãos nuas, sem nenhum sinal de desconforto.

— Oi – disse ele.

— Oi – respondeu Andressa.

— Você é a nova namorada da Woodstock?

Enquanto Andressa engasgava, Woodstock se adiantou para dar um safanão nele.

— Por favor, menos – disse ela. – Bem menos.

— Ué, você disse que o dia tinha disso produtivo – Jessé deu de ombros. – E eu pensei, vai que, né?

Em um tom impaciente, Woodstock contou a ele o que acontecera no Memorial, o que, de fato, não era muita coisa. Jessé, porém, pareceu ver um significado oculto naquilo. Quando Woodstock terminou de falar, ele voltou seus olhos para Andressa. Ainda sorria.

— Outra Usurpadora, então?

Por um instante, Andressa teve vontade de sair correndo. Aqueles olhos queimavam. Então, o instante passou, e foi a vez dela de dar de ombros.

— Acho que não peguei a referência. Não assisti essa novela.

Jessé soltou uma gargalhada. Woodstock também sorriu, e foi ela quem respondeu:

— Eu não esperaria que você pegasse essa referência.

Andressa pôs as mãos na cintura e olhou de um para o outro. Ela sentia que eles estavam tirando sarro dela, e não apreciava a sensação.

— Será que os queridos podem me explicar o que tá acontecendo aqui?

Jessé fez o possível para controlar o riso. Woodstock disse:

— Como eu falei: longa história.

Respirando fundo, Andressa contou até três antes de dizer:

— Tá. Essa parte eu entendi. Por que a gente não vai, sei lá, comer alguma coisa e vocês me contam essa tal história que é longa o suficiente pra você ter precisado buscar reforços antes de falar sobre ela?

Jessé e Woodstock trocaram um olhar. Jessé disse:

— Gostei dela. Certeza que não é sua namorada?

— Eu sou hétero – informou Andressa. Ele a analisou por alguns segundos.

— Ok – disse, por fim. – Vamos nessa.

Notas finais
Caso alguém tenha interesse no musical que a Andressa menciona, ele se chama "Chuva de Bala no País de Mossoró", e é bem legal :v acho que tem algumas partes no YouTube.