Notas iniciais
Olha eu, mais uma vez, não vendo o tempo passar. Vou deixar o próximo capítulo agendado, logo, porque olha, confiar na minha memória tá DIFÍCIL.

Woodstock ficaria perfeitamente contente em negociar com Fernanda por telefone, mas ela insistiu para que elas se encontrassem na sede da Corja, por se tratar de, nas palavras dela, “uma ótima notícia e um assunto muito importante”. O lado bom é que provavelmente seria mais fácil argumentar cara a cara. O lado ruim era que Fernanda tinha compromissos importantes durante o dia inteiro, o que queria dizer que eles precisariam esperar até o final da tarde para encontrá-la. Aparentemente, presidir organizações mágicas secretas não era seu único ganha-pão.

Passava um pouco das oito da manhã quando Woodstock ligou para ela para dizer que aceitaria a parceria, com algumas condições. Foi o máximo que ela conseguiu esperar. Não dormira nem um pouco durante a noite, e a única coisa que a impedira de acordar Fernanda às três da manhã fora o que restara de seu senso comum. Ela sabia que Jessé tampouco havia conseguido pregar o olho, então, ao decidir atravessar a rua e tocar a campainha da casa dela, sabia que não precisava se preocupar com a possibilidade de acordá-lo.

Ela pretendia sair de casa discretamente, mas foi interceptada por sua mãe assim que chegou à porta.

— Eu espero que você não esteja indo terminar o que começou ontem à noite.

Praguejando mentalmente, Woodstock se virou para encarar a mãe e deu o que esperava ser um sorriso tranquilizador.

— Eu só vou ali no Jessé, mãe. Volto em tempo de almoçar.

Sua mãe a analisou com cuidado. Cristina Carvalho de Assunção não se deixava enganar facilmente, muito menos pela única filha, que conhecia como a palma da própria mão. Ela estivera esperando no sofá quando Woodstock voltara para casa na noite anterior, um cobertor enrolado nos ombros e uma expressão de preocupação no rosto. Quase desmaiara ao ver o sangue no braço da filha, e fora preciso muito esforço para convencê-la a não correr direto para o hospital. Depois de ouvir o que se passara, a preocupação deu lugar ao pânico, que, por sua vez, deu lugar à raiva. Woodstock precisou ouvir um longo sermão sobre irresponsabilidade e correr riscos desnecessário antes de poder se refugiar no próprio quarto. Normalmente, ela teria algo a dizer em sua defesa, mas estivera simplesmente cansada demais para discutir.

— Vocês precisam ser mais cuidadosos – disse Cristina, após uma longa hesitação. – É só isso que eu peço, ok?

Eu não posso perder você também, ficou implícito. Woodstock sentiu o coração se contorcer no peito.

— Certo, mãe.

— Promete.

— Prometo.

Cristina se adiantou para dar um beijo na testa da filha.

— Vai lá, então.

O corpo de Woodstock protestou quando ela desceu as escadas e atravessou a oficina vazia até a porta de entrada. A adrenalina da noite anterior impedira que ela sentisse qualquer coisa além de medo e urgência, mas agora, horas depois, ela finalmente estava sentindo os efeitos de ser arremessada pelo ar e aterrissar em um monte de metal duro. Era um milagre que não tivesse quebrado alguma coisa.

Foi a mãe de Jessé quem abriu a porta. Marisa Amorim era surpreendentemente parecida com o filho, desde o nariz ligeiramente torto até as olheiras escuras sob os olhos. Geralmente, ela acolhia Woodstock com um abraço e um sorriso caloroso, mas, naquela manhã, ela só lhe lançou um olhar um tanto atravessado.

— Bem, você parece ter dado mais sorte do que ele – observou ela. Woodstock sentiu o estômago despencar.

— Infelizmente, sim.

— Jessé disse que você o salvou.

Woodstock encarou os próprios pés, calçados com as mesmas botas desgastadas que ela usava quase o tempo todo desde os 14 anos. Seu pai sempre calçava sapatos parecidos; ela havia guardado suas botas preferidas no fundo do armário, mas duvidava que um dia teria o tamanho certo para usá-las.

— Foi um esforço conjunto. – Ela hesitou. – Sinto muito pela confusão.

Marisa pôs uma mão em seu ombro.

— Não foi sua culpa – disse ela, em tom mais suave. – Sabe, eu não sei o que ele faria sem você.

— Eu não sei o que faria sem ele, também – murmurou Woodstock, meio sem jeito. Marisa se afastou para deixá-la entrar.

— Ele está no quarto.

Jessé estava deitado na cama, de olhos fechados. Por um segundo, Woodstock pensou que ele estivesse dormindo, mas ele se sentou ao ouvi-la entrar. Ao olhar bem para ele, ela se sentiu como se tivesse engolido uma bola de chumbo. Um hematoma feio se espalhava pelo lado direito do maxilar dele, e seu olho esquerdo estava inchado. Não era de se admirar que a mãe dele parecesse tão consternada.

Jessé abriu os braços teatralmente.

— Eu consegui não ser carregado pro pronto-socorro!

Woodstock se sentou ao lado dele na cama.

— Só porque eles não te viram chegar, aposto.

Não era nenhum segredo que os pais de Jessé não acreditavam na existência da Tábua de Esmeralda, e desaprovavam, assim como a mãe de Woodstock, a busca deles por ela. Acho que eles vão ter que acreditar agora, pensou Woodstock.

— É – Jessé suspirou e tocou o rosto ferido. – Eu não tiraria a razão deles. Minha mãe quase desmaiou ao me ver hoje de manhã.

— Nenhuma surpresa até aí – Woodstock fez uma pausa. – Eu liguei pra Fernanda, agora a pouco.

— E?

— Ela quer que a gente se encontre com ela mais tarde. Tipo, bem mais tarde. Umas seis da tarde ou sete da noite.

— Ótimo. O que você quer fazer até lá? Ver se chegou algum livro novo no Mercado? Procurar pistas sobre quem eram aqueles caras de ontem?

Woodstock apoiou a cabeça no ombro dele e fechou os olhos por um instante. Ela não se sentia tão emocionalmente exaurida desde a morte do pai, quatro anos atrás.

— Vamos fazer alguma coisa normal.

— Woodstock, acho que a gente nunca soube o que é isso – Apesar das palavras céticas, dava para ouvir o sorriso na voz de Jessé. – Quer dizer, você nem deve mais saber jogar Mario Kart.

Woodstock se pôs de pé num pulo.

— Fica olhando – disse ela, e lembrou, tarde demais, que foram exatamente as mesmas palavras que dissera na noite anterior. Eles passaram o resto da tarde jogando videogame, como se nada tivesse acontecido, mas Woodstock não conseguiu se livrar do peso em seu peito.

***

Não havia muitos lugares românticos em Mossoró, como Hugo logo descobriu. A peça que ele pretendia ver com Andressa saíra de cartaz no dia anterior ao encontro deles com a Corja, e ele não conhecia a cidade bem o suficiente para pensar em outra coisa, especialmente porque não teve tempo de se preparar com antecedência. Nenhum dos dois se incomodara em olhar a programação do teatro antes de se encontrarem lá e darem de cara com os cartazes de uma peça infantil como única atração da noite.

Andressa achara graça da situação e da cara de decepção de Hugo, que não queria realmente ver a peça, mas também não gostava de ser pego de surpresa, e sugeriu que os dois fossem comer alguma coisa ali perto. Foi assim que eles acabaram numa pizzaria ao lado do teatro, sentados em lados opostos da mesa, depois de um breve momento de confusão em que nenhum dos dois sabia se deveriam se sentar lado a lado ou não.

Quando eles finalmente se acomodaram, Hugo abriu um sorriso que esperava que fosse charmoso o suficiente para compensar a falta de jeito de cinco minutos antes.

— Até que é bem legal aqui – disse ele. – Pra um plano B de última hora.

Andressa retribuiu o sorriso.

— Vai por mim, se ninguém roubar os poderes de ninguém nem quase desaparecer, o encontro já vai ser um sucesso.

— É, acho que eu te devo desculpas formais por aquilo. – Hugo mordeu o interior da bochecha, um hábito nervoso que tinha desde criança. – Se eu não tivesse sido tão idiota, você não estaria nessa confusão.

— Nem você – lembrou Andressa, mas Hugo sacudiu a cabeça.

— Meu pai é a confusão. Eu ia acabar aqui de um jeito ou de outro.

Era verdade, mas, no fundo, Hugo desejava que ninguém tivesse lhe contado sobre os planos de Isaías. Ele sabia que era um desejo egoísta, mas não conseguia evitar. Já era ruim o suficiente saber que seu pai tinha todos os preconceitos possíveis e imagináveis. Saber que ele talvez quisesse fazer uma espécie de Holocausto mágico tornava virtualmente impossível conviver com ele, mesmo que da forma distante e raivosa que Hugo adotara para com o pai nos últimos anos.

Andressa refletiu por um instante.

— Bem, vendo por esse lado, se tem um maluco querendo dizimar um grupo do qual eu faço parte, pelo menos agora eu sei e posso fazer alguma coisa pra impedir – Ela sacudiu a cabeça. – Foi mal. Sei que ele é seu pai. Isso deve ser bem difícil pra você.

Ela não tinha como saber que Hugo mal dormira na noite anterior, nem que não conseguia mais encarar o pai, nem que escapulira de novo para encontrá-la sem nem se preocupar com a possibilidade de ser pego, porque o desprezo do pai não significava mais nada agora que Hugo sabia quão ruim ele realmente era. E com toda a certeza Hugo não contaria a ela. O assunto já estava deprimente o suficiente sem isso. Então, ele apenas deu de ombros.

— Como eu disse, não me surpreendeu – disse. – E eu nunca fui muito próximo do meu pai, de todo jeito. Ele sempre foi ocupado demais, e a coisa desandou de vez depois que ele me viu beijando meu amigo em frente à escola, então...

Ele aguardou. Andressa não seria a primeira menina a ter uma reação negativa àquela declaração, fosse dizer algo inapropriado, fazer mil perguntas invasivas ou simplesmente declarar que, se ele era gay, devia sair logo do armário e parar de iludir as pessoas. Não que os meninos que achavam que ele era gay reagissem de forma mais apropriada. Aparentemente, as pessoas ainda não sabiam lidar com pessoas que gostavam de meninos e meninas, e a palavra “bissexualidade” ainda estava na categoria de “palavrão” para a maioria, mas Hugo se recusava a assumir qualquer culpa por isso. Ele tinha uma identidade; a forma como as pessoas se sentiam em relação a ela era problema delas.

A reação de Andressa, porém, foi bastante sensata, como tudo que ela fizera até agora. Ela pareceu surpresa por um instante, mas se recuperou rápido, e tudo o que teve a dizer foi:

— Ah. É, ele parece esse tipo de pessoa.

— Como eu disse aquele dia, ele é. Comigo e com todo mundo – Hugo pensou, com certa ironia, que seu pai ficaria irado por ele estar em outro encontro com uma Usurpadora, depois de ter passado a semana andando com ela e com sua amiga Usurpadora. Bizarramente, a única companhia recente do filho que Isaías aprovaria seria Jessé. – Ter um bom relacionamento com o pai é privilégio hetero.

Era só uma brincadeira, mas a expressão de Andressa se fechou um pouco.

— Às vezes, nem isso – disse ela. – Eu não vejo meu pai há... Quase um ano, eu acho.

Hugo se arrependeu imediatamente de ter aberto a boca.

— Uau. Foi mal.

— Não, tudo bem. A gente não é brigado, nem nada... Eu acho – Andressa deu de ombros. – Ele mora em Santa Catarina desde que eu era pequenininha, e não visita quase nunca. Fica meio difícil ter uma relação pai-filha assim. Mas isso fez com que eu fosse bem próxima da minha mãe, pelo menos.

Hugo não pôde deixar de sentir uma pontada de inveja. Tudo o que lembrava da própria mãe era uma voz cantando suavemente, e até isso poderia pertencer a uma de suas muitas babás. Ele só sabia como era o rosto dela porque Isaías ainda mantinha exatamente dois porta-retratos na sala de estar: uma foto do dia de seu casamento, e uma dele ao lado de Hugo depois do primeiro jogo de futebol do garoto, dez anos atrás, cerca de cinco anos antes de Hugo se rebelar e parar de ir aos treinos. Se havia fotos de Hugo com a mãe, ele nunca as tinha visto. Sua memória mais vívida ligada a ela era a de seu funeral.

Mas ele já dissera coisas tristes o suficiente sobre si mesmo e sua família. Numa tentativa abrupta de mudar de assunto, ele riu e disse:

— Acho que a gente devia ter proibido tópicos mágicos hoje, né?

O sorriso de Andressa tinha um toque sutil de malícia.

— É, tem razão. Sobre o que você quer falar, no lugar disso?

Antes que Hugo conseguisse pensar em uma resposta igualmente sugestiva, eles foram interrompidos por um toque de celular estridente. Andressa suspirou ao ver o nome na tela.

— É Woodstock.

Sentindo seu apetite ir embora, Hugo fez sinal para ela atender.

— Oi? – Os olhos dela se fixaram em Hugo, e ela mordeu o lábio inferior. – Sim, eu tô com ele. O que foi?

Ela ouviu atentamente por um instante, enquanto Hugo encarava a mesa, nauseado. Estava surpreso por Woodstock querer falar especificamente dele ou com ele, mas sabia que não deveria. Tinha que ser algo a ver com o seu pai, e Hugo não queria encarar aquilo agora. Ou nunca, aliás.

Quando Andressa finalmente desligou, após um “ok, te vejo daqui a pouco”, parecia estar se esforçando para parecer calma e tranquilizadora.

— Woodstock aceitou o acordo da Corja – informou ela. – E eles querem falar com você.

— Eu não sei nada sobre a Tábua – disse Hugo, balançando a cabeça. – Se eles esperam informações privilegiadas, só vão se decepcionar.

— Não acho que seja isso. – Andressa suspirou. – Será que é pedir demais um encontro normal entre a gente?

Talvez seja, pensou Hugo, distraidamente. Ele nunca ligara muito para “normal”. Não fora exatamente assim que ele imaginara aquele encontro terminando, mas não era nenhuma surpresa. Afinal, aquela era a vida deles, agora. Ele se levantou.

— Memorial?

Andressa assentiu. Por sorte, o Memorial da Resistência ficava na mesma avenida que o teatro, e o percurso até lá foi longo apenas o suficiente para Andressa explicar o que Woodstock lhe dissera ao telefone. Hugo sentiu uma pontada de alívio culpado pelo envolvimento dos mercenários. Talvez aquilo não tivesse a ver com seu pai, afinal.

Hugo também se perguntou, durante o percurso, se deveria segurar a mão de Andressa, mas ela não deu nenhum sinal de estar interessada nisso. Talvez não estivesse no clima. Ou talvez não tivesse tanto interesse nele quanto ele pensara. Nenhuma das possibilidades o incomodou muito; tinha outras coisas na cabeça.

Jessé os estava esperando na passagem que levava à sede da Corja, que estava aberta. Ele lançou um olhar curioso para as roupas dos dois, ligeiramente mais arrumadas do que o normal, enquanto Andressa e Hugo encaravam os hematomas feios em seu rosto. Andressa se adiantou para tocar a bochecha dele delicadamente.

— Você parece péssimo – observou, com a acidez de costume, apesar do toque gentil. Jessé corou furiosamente.

— Obrigado. Eu sei.

— Você entendeu o que eu quis dizer – Andressa hesitou por um momento, então deu um passo para trás, lançando um olhar de esguelha para Hugo, que ergueu uma sobrancelha, mas não fez comentários. – Woodstock tá no mesmo estado ou os caras que te bateram foram mais legais com ela?

O semblante de Jessé se fechou.

— Ela tá lá dentro – disse ele, antes de dar um passo para o lado para liberar a entrada.

Dessa vez, as únicas pessoas na sala de reuniões eram Fernanda, Luiz e Woodstock, sentados juntos na extremidade mais longe da porta. Fernanda se levantou ao ver os recém-chegados. Atrás dela, Luiz estava encarando Hugo de forma não muito discreta, mas ele fingiu não notar, para poupá-lo do constrangimento.

— Boa noite – cumprimentou Fernanda, em um tom simpático e amistoso que fez Hugo ter vontade de se encolher. – Lamento tê-los chamado aqui tão de repente, mas, como discutimos anteriormente, cada segundo é crucial para nossa missão.

As palavras dela pareciam cuidadosamente escolhidas para fazê-la soar inteligente e com total controle da situação; Hugo não conseguia confiar naquilo. Ele podia não ser muito presente nas campanhas eleitorais do pai, mas sabia exatamente como um político soava.

Andressa tampouco parecia convencida.

— Sim, certo, nossa missão. – Ela trocou um olhar com Woodstock, e parecia que as duas estavam se controlando para não revirar os olhos. – Woodstock me disse o que aconteceu, e por que decidiu aceitar a ajuda de vocês.

— E nós ficamos muito contentes com isso – interveio Luiz. – Vai ser uma ótima parceria.

Hugo olhou para ele, com seu cabelo cacheado caindo sobre os olhos e a camiseta com as palavras “História – UERN” escritas sobre a silhueta de um templo antigo. Ele ainda era jovem demais para soar como um político, pensou. Talvez ainda houvesse tempo de salvá-lo.

— Sim, sim, com certeza – concordou Fernanda. Andressa mal conseguia conter a própria impaciência.

— Tá, essa parte a gente entendeu. O que eu quero saber é porque a presença imediata de Hugo é tão necessária pra você. Ele não sabe nada sobre a Tábua. – Ela olhou para Woodstock. – Imagino que você tenha dito isso a eles?

Woodstock mudou de posição na cadeira, parecendo desconfortável.

— Eu disse. E ela me perguntou se ele não... Bem, eu não quis tomar nenhuma decisão por ele.

Ele está bem aqui – murmurou Jessé, que parecia ainda mais sem jeito.

Hugo apreciou a observação. Ele olhou para os rostos ao seu redor, se sentindo cada vez mais nervoso.

— Que decisão eu preciso tomar? Porque não dá pra decidir nada se vocês não falarem comigo.

Woodstock e Jessé se entreolharam. Foi Fernanda quem respondeu, calmamente:

— Bem, você mora com Vancini – Ouvir seu sobrenome ser dito naquele contexto e com tanto desprezo fez Hugo estremecer por dentro. – Isso quer dizer que tem acesso direto a ele e a suas pesquisas.

Hugo não gostou nada da direção que aquilo estava tomando. Ele sentiu que suas mãos tremiam ligeiramente, e as escondeu atrás das costas.

— Não tanto quanto você pensa – retrucou. – Como eu disse, nós não...

— Você não precisa ser próximo dele – interrompeu Fernanda. – Não estamos te pedindo que se torne melhor amigo dele de repente.

— Até porque não obrigaríamos ninguém a ser amigo de alguém assim – murmurou Luiz, e a pior parte era que Hugo não tinha nem como discordar.

— Mas você pode conseguir acesso à pesquisa dele – concluiu Fernanda. – Ele deve deixá-la protegida de invasores, mas há uma chance que não tenha considerado a possibilidade de protegê-la contra quem mora com ele.

Hugo não duvidaria nada que ele tivesse, mas não comentou. Ao invés disso, ele disse, fazendo o possível para evitar que sua voz tremesse:

— Vocês querem que eu espione meu pai.

— Bem, espionar seu pai é um termo meio forte – disse Luiz. – A gente não quer saber pra onde ele vai a que horas, nem nada disso.

— A menos que isso seja relevante para a pesquisa – completou Fernanda. – Mas, de forma geral, tudo o que você teria que fazer seria conseguir um pen drive com alguns arquivos, talvez o nome de um ou dois livros ou fontes que desconhecemos. E, claro, se você for descoberto, poderá contar com nosso apoio e proteção.

A voz dela se suavizou um pouco na última parte, mas Hugo ainda não se sentia tentado pela oferta. Seu pai batera nele poucas vezes quando era criança, e, em todas elas, fora porque Hugo mexera em algo dele. Ele se lembrou da desconfiança de Isaías quando o pegara procurando por um pantáculo em seu armário. Não conseguia nem imaginar a reação dele se o encontrasse mexendo em seu computador, que era muito mais pessoal, roubando informações sobre o paradeiro do objeto mágico cuja existência ele estivera escondendo do filho havia anos.

Mesmo encarando os próprios tênis, ele sentia os olhares dos outros sobre si como um peso físico. Woodstock disse, em uma voz tranquilizadora:

— Você não precisa fazer isso se não quiser, Hugo. Seria de muita ajuda, mas nós não vamos te obrigar.

Hugo se perguntou se o “nós” incluía Fernanda, Luiz e o resto da Corja. E se lembrou de que Woodstock se esforçara durante anos para encontrar a Tábua de Esmeralda, e era uma das pessoas naquela sala que teria mais a perder caso Isaías tivesse sucesso em seus planos; mesmo assim, ela estava confortando-o, e dizendo que ele não precisava ajudá-la. Enquanto isso, Hugo estava hesitando em fazer algo para o bem comum, porque tinha medo do próprio pai. Deus, ele era um idiota.

Ele respirou fundo e ergueu a cabeça para encarar Fernanda.

— Tudo bem – disse, porque qualquer outra resposta provaria que ele não era melhor do que Isaías Vancini, e aquilo era tudo o que Hugo não queria. – Mas eu não prometo nada. Como eu disse, ele nunca confiou em mim.

O olhar triunfante de Fernanda não lhe passou despercebido.

— Agradeço muito pela ajuda – disse ela. – E o resto da comunidade mágica também.

Depois disso, Woodstock e Jessé ficaram com Fernanda e Luiz por mais algum tempo para falar sobre as pesquisas, mas Andressa e Hugo decidiram sair dali o mais rápido possível. Hugo não queria voltar para casa, pelo menos não enquanto não parasse de tremer; ele e Andressa terminaram sentados lado a lado na escadaria em frente ao Teatro Dix-Huit Rosado, dividindo uma pipoca que compraram em uma barraquinha e fazendo o possível para fingir que aquele havia sido só mais um encontro normal.

Porém, Hugo não conseguia parar de pensar na tarefa que tinha se comprometido a realizar. Nem quando Andressa lhe contou sobre a vez em que tivera que pular o muro da casa de um rapaz porque os pais dele haviam chegado mais cedo, e ele riu com ela da situação. Nem quando ela aproximou o rosto do dele, o fantasma do riso ainda em seus lábios e os óculos redondos refletindo as luzes da praça. Nem quando Andressa o beijou, da mesma forma controlada e confiante que fazia tudo, e ele retribuiu, um pouco mais distraído e menos habilidoso que o normal. Não foi um final de noite tão ruim. Mas o coração de Hugo ainda estava apertado quando ele finalmente chegou em casa, e por todos os motivos errados.

Notas finais
Uma pergunta que não me sai da cabeça: vocês acham difícil se orientar na cidade? Eu passei a vida toda em Mossoró, e tendo a esquecer que nem todo mundo a conhece tão bem quanto eu :v