Notas iniciais
Eu só percebi agora que não postei nada em março??? Gente do céu, que bug foi esse. Vou culpar o final do período, a quarentena e meu bloqueio criativo temporário :v A boa notícia é: ontem (hoje de madrugada, na verdade), eu coloquei o último ponto final no primeiro rascunho dessa história! Depois de quase dois anos e dois meses me dedicado a ela, ela finalmente foi concluída. Então, talvez eu comece a acelerar um pouco o ritmo das postagens! E imploro a quem estiver lendo: se vocês acharem algum problema, ou tiverem alguma crítica que possa me ajudar quando for revisar e reescrever a história, podem falar. De verdade. Fiquem com o capítulo 10, quando a treta começa de verdade :v

Demorou três dias para Andressa dominar completamente o truque que começara a treinar com Hugo, um tempo relativamente curto, segundo Woodstock, que ainda parecia impressionada com sua capacidade de aprendizagem. Andressa sempre fora uma boa aluna, e não seria diferente com magia; ela praticou por longas horas todos os dias, às vezes sozinha, escondida no próprio quarto, às vezes na casa de Michelle, com a amiga observando-a com admiração.

— É impressionante – murmurou ela, na primeira vez que Andressa conseguiu fazer a pedra desaparecer por completo por mais de alguns segundos. – Eu nunca achei que veria uma coisa assim fora de um show de mágica.

Andressa riu. Claro que Michelle, com seu amor pelo sobrenatural e pelo inexplicável, gostaria daquilo.

— Eu muito menos, né. Mas acho que isso não é nem metade do meu potencial mágico – Ela analisou a pedra, que reaparecera. – Que eu provavelmente não vou explorar, aliás, porque essa magia não é minha, lembra? E eu prometi devolver ao dono. É a coisa certa a se fazer, et cetera, et cetera.

— É – suspirou Michelle. – Mas não deixa de ser uma pena.

Tanto Hugo quanto Jessé se ofereceram diversas vezes para ajudá-la, assim como Woodstock, embora a oferta dela tivesse um tom um pouco diferente. De fato, Hugo a chamou para assistir à peça que eles haviam perdido na primeira vez que se viram, e Andressa prometeu que, caso a invasão desse certo, ela ficaria contente em aceitar, como pagamento pelos esforços dele como professor. A resposta foi fraseada de forma leve e ligeiramente sugestiva, e mudou o tom das conversas entre eles.

Mas, em relação à magia, ela preferiu praticar sozinha. Não precisava da pressão extra dos olhos dos outros sob si; já bastava saber que, em breve, seria responsável pelo sucesso de uma missão provavelmente perigosa, a despeito de sua inexperiência total. Queria que eles achassem que estava confiante, e ver os xingamentos constantes e as explosões de fúria causadas pela frustração enquanto ela praticava não ajudariam com isso.

Foi apenas quando achou que havia dominado o encantamento bem o suficiente para pô-lo à prova que Andressa voltou à casa de Jessé, acompanhada de Michelle, que pedira para ir junto, animada pela promessa de presenciar mais magia.

Woodstock já havia chegado, como de costume; foi ela quem abriu a porta e acenou para que elas entrassem. Apesar de parecer surpresa em vê-la, ela abriu um sorriso caloroso para Michelle, que fez com que as pontas das orelhas dela ficassem vermelhas, mal escondidas pelo cabelo curto. Andressa reprimiu um sorriso e a vontade de comentar aquele fato.

— Hugo ainda não apareceu – informou Woodstock. – Apostei dois reais com Jessé que ele está de ressaca de novo. A aposta ainda está aberta, se alguém quiser participar.

Andressa se absteve de apostar; não demorou muito para eles descobrirem o resultado. Hugo chegou cinco minutos depois, de mãos vazias e sem parecer nem um pouco nauseado. Os óculos escuros haviam desaparecido, e a elegância em seus movimentos tornara a ser pronunciada. Ainda parecia um pouco cansado, e seu cabelo continuava um pouco bagunçado, mas Andressa estava começando a perceber que aquilo era proposital, parte do charme que ele se esforçava ativamente para compor.

Woodstock entregou o dinheiro a Jessé, praguejando. Hugo lançou um olhar curioso na direção deles, mas não perguntou do que se tratava. O olhar dele se demorou um pouco mais em Michelle, e Andressa se apressou em apresentá-los. O cenho de Hugo se franziu de leve.

— Você me parece familiar – disse ele. – Já morou em Natal?

Michelle sacudiu a cabeça.

— Eu sou do interior.

Ele ainda parecia intrigado, mas não insistiu no assunto. Andressa teria ficado preocupada com a possibilidade deles já terem tido algum envolvimento no passado, se não soubesse que Michelle se interessava exclusivamente por pessoas de gênero feminino ou transfeminino. Não que Andressa soubesse o que isso queria dizer.

Jessé pigarreou para chamar a atenção deles. Parecia mais desconfortável que o normal; não parava de tamborilar com os dedos na própria perna.

— E aí? E o encantamento? Deu certo?

Andressa engoliu o nó de nervosismo que se formou em sua garganta com as palavras.

— Vamos ver – respondeu. – Algum voluntário?

Por um instante longo demais, ninguém se pronunciou. Woodstock e Jessé trocaram um olhar rápido, e Hugo fitava os próprios tênis, impecavelmente brancos. Andressa não podia culpá-los; ela também ficaria hesitante em servir de cobaia para uma maga que vinha treinando há menos de uma semana, principalmente se a maga em questão tivesse acabado de confirmar que não sabia se o feitiço funcionaria.

Então, depois de olhar ao redor, Michelle levantou a mão, timidamente.

— Eu não me incomodo.

Andressa sorriu para ela.

— Claro que não se incomoda. Vem cá, então.

Michelle deu um passo à frente, afastando-se dos outros. Andressa tentou ignorar os olhares sobre si e se concentrou. Era difícil olhar para a amiga sem focar em um único ponto específico, mas, eventualmente, ela conseguiu. O formigamento já quase familiar se espalhou pelo seu corpo, começando no peito e se alastrando até a ponta dos dedos. Andressa mordeu o lábio inferior com tanta força que achou que fosse sair sangue. À frente dela, Michelle estremeceu como a imagem de uma televisão com má recepção antes de desaparecer completamente.

Woodstock soltou uma exclamação empolgada. Os garotos não falaram nada, e Andressa não se virou para ver a reação deles; estava muito ocupada tentando manter a ilusão. Do aparente vazio no meio da sala, veio a voz de Michelle:

— Isso é incrível! Eu me sinto que nem o Harry quando recebeu a capa da invisibilidade.

Andressa a imaginou balançando a mão na frente do rosto para comprovar que estava mesmo invisível, e não conteve um sorriso. Ainda era possível ver um estremecimento sutil quando Michelle se movia, mas nada que fosse atrair atenção de um desavisado. Ela olhou para o grupo à sua frente.

— Acho que estamos prontos – disse. Woodstock sorriu, uma expressão feroz.

— Ótimo. Vamos marcar uma data, então.

Hugo lançou um sorriso orgulhoso para Andressa, que retribuiu. Jessé não pareceu muito animado com a ideia. Ele girava nervosamente o anel no dedo anelar direito, que soltava fagulhas de vez em quando.

— Talvez fosse melhor ter um plano B – sugeriu ele. Woodstock ergueu as sobrancelhas, mas não olhou para ele nem disse nada; pela expressão dela, Andressa concluiu que eles já haviam tido aquela conversa antes.

— Vocês vão invadir um lugar desconhecido confiando na magia recém-aprendida da Andressa – Era a voz de Michelle novamente; dava para ouvir o sorriso dela. – O que pode dar errado? Posso ir junto?

— Não que eu não fosse gostar da sua companhia – começou Woodstock. – Mas acho que já temos gente demais pra uma missão sorrateira.

Andressa desfez a ilusão a tempo de revelar uma Michelle levemente corada reaparecer. Ela olhou feio para a amiga, mas o sorriso de Woodstock só se alargou.

— Eu tenho um plano B – disse Hugo. Jessé se virou para olhar para ele, cautelosamente.

— Ah, é?

— É. Se der errado, a gente corre – Ele deu de ombros. – Sempre funcionou pra mim.

A expressão de Jessé se tornou ainda mais desanimada.

— Ótimo. Vou me lembrar de ir de tênis.

***

Eles repassaram o plano mais algumas vezes, embora não houvesse muito o que repassar, enquanto Michelle escutava em silêncio. Em algum momento na metade da segunda revisão, Jessé se levantou abruptamente e saiu em direção ao quintal, causando um olhar de pena da parte de Andressa e um de confusão da parte de Hugo. Woodstock não se deu ao trabalho de falar nada nem de ir atrás dele, mas desejou em silêncio que aquilo tudo realmente tivesse alguma coisa a ver com a Tábua de Esmeralda e eles conseguissem resolver a situação o mais rápido possível. Jessé nunca havia falado nada – ele nunca falava com ela sobre aquilo, o cabeça-dura –, mas ela sabia que o tempo estava se esgotando.

Eventualmente, Andressa e Hugo engataram em uma conversa sobre magia Ilusionista e uma peça de teatro que tinha flertes e duplos sentidos demais para que Woodstock acompanhasse sem se sentir inapropriada ou perdida, e ela se viu com a tarefa de puxar assunto com Michelle, o que não era, de forma alguma, um incômodo. Ela estivera secretamente torcendo por uma oportunidade de falar mais com ela desde a primeira vez em que a vira, quando acompanhara Andressa.

— Você ficou bem mais empolgada do que ela, né? – perguntou Woodtsock. – Digo, com essa história de magia.

Michelle assentiu. Ela usava o cabelo castanho quase tão curto quanto o da própria Woodstock, e era fácil ver as pontas de suas orelhas ficando vermelhas quando ela corava.

— Ela sempre foi cética – respondeu, com um sorrisinho. – A gente se conhece desde que ela fazia o oitavo ano e eu, o segundo, e eu nunca vi ela acreditar em nada de primeira, com provas ou não. Acho que a única vez que ela não me questionou... – Ela não concluiu a frase, parecendo se perder em pensamentos por um instante. – Enfim. Eu nunca fui cética.

Não era difícil acreditar nela. Um pequeno crucifixo pendia do pescoço de Michelle, bem mais discreto do que a corrente pesada que Woodstock usava. Havia um outro colar, uma pedra transparente envolta por uma rede de corda trançada; Woodstock ficou se perguntando se era uma pedra relacionadas ao signo do zodíaco dela, já que ela não era cética. Mas, ao invés de tomar isso como uma oportunidade para começar um tópico conversacional normal, ela disse:

— Então você não ficou surpresa?

— Surpresa? – Michelle riu. Para uma pessoa tão contida, ela tinha uma risada livre, do tipo que fazia as outras pessoas quererem rir com ela. – Acho que sim. Eu sempre soube que existia magia no mundo, só não imaginei que fosse aparecer...aqui.

— “Há mais coisas entre o céu e a terra do que pressupõe a nossa vã filosofia” – citou Woodstock. Era uma coisa que seu pai costumava dizer, depois que o irmão mais velho de Jessé dissera isso a ele durante uma das conversas filosóficas em que os dois passavam horas imersos.

Agora, Woodstock era a única que sobrara com a mania de dizer citações famosas que não havia ouvido da fonte. A maioria das pessoas não dava muita importância a isso, mas Michelle pareceu agradavelmente surpresa.

— Você conhece Shakespeare?

Woodstock deu uma risada sem graça, já arrependida de ter citado a frase. Ela não sabia fingir ser culta e intelectual; poucas coisas a deixavam mais desconfortável do que debater assuntos que não entendia com pessoas claramente mais inteligentes do que ela. Se Michelle estivesse esperando uma conversa iluminada sobre literatura, pensou Woodstock, ficaria bastante decepcionada.

— Conhecer todo mundo conhece, né – Ela deu de ombros. – Meu pai quem falava isso. Não sabia que era de Shakespeare – Ela conseguiu evitar se enrolar ao dizer o nome estrangeiro, mas precisou se esforçar para não se encolher diante de como a pronúncia parecia desajeitada, sem nada da naturalidade sem esforço com a qual a palavra deslizara da língua de Michelle.

Michelle, contudo, não pareceu nem um pouco incomodada.

— É. Hamlet. Ele fala isso depois de ver o fantasma do pai dele, eu acho – Ela fez uma pausa e abriu um sorrisinho tímido. – Foi mal. É que eu faço Letras. Hm, Letras inglês-português. Na UERN. Não consigo evitar ficar falando dessas coisas, por mais que eu saiba que é meio irritante.

— Eu não acho irritante.

Na verdade, é bonitinho. Mas Woodstock não disse isso, porque Michelle já parecia nervosa o suficiente. O que ela também achava bonitinho.

O sorriso de Michelle aumentou um pouco.

— Que bom. Você é uma das poucas.

Felizmente, Andressa pareceu se cansar de sua conversa com Hugo antes que Michelle perguntasse a Woodstock o que ela fazia da vida, forçando-a a admitir que, até o momento, não tinha nenhuma certeza do que queria nem notas boas o suficiente para entrar em faculdade nenhuma, e só ajudava a mãe na oficina, quando não estava muito ocupada trabalhando obsessivamente em sua pesquisa sobre o paradeiro de um objeto mágico antigo que, até onde ela sabia, podia ser apenas uma lenda, e do qual ela precisava desesperadamente para impedir seu melhor amigo de entrar em combustão. Não tinha jeito de fazer isso parecer intelectual.

Depois que os outros três já haviam partido, Woodstock finalmente saiu à procura de Jessé. Encontrou-o no quintal, ao lado de Joana, que falava sem parar sobre alguma coisa, como de costume. Ela se interrompeu ao vê-la chegar.

— Seus amigos já foram? – perguntou. E depois, fazendo aspas no ar com os dedos: — Quer dizer, “amigos”. Eu nunca vi aquele povo na vida.

— Já foram, sim – A atenção de Woodstock estava focada em Jessé, nas manchas arroxeadas sob os olhos dele e na energia mal contida com que ele tamborilava os dedos da mão direita no braço esquerdo. – Tudo bem?

Ela esperava que Jessé conseguisse ouvir a verdadeira pergunta: Você precisa que eu fique? Geralmente, quando Jessé estava no limite, ele preferia ficar sozinho, mas Woodstock vivia na esperança de que um dia ele precisasse da presença dela. Em parte, era por motivos egoístas. Se ele precisasse dela, talvez ela não se sentisse tão impotente.

Ele assentiu, embora seu olhar estivesse distante.

— Tudo bem.

Ele nunca conseguira mentir para Woodstock.

Joana também lançou um olhar preocupado para o irmão. Ela era pequena demais quando Josafá morrera para lembrar da noite com muitos detalhes, e, depois, sua família a protegia demais para falar muito sobre o que estava acontecendo com Jessé, mas ela era inteligente demais para não perceber que havia algo errado, especialmente quando ele costumava acordar gritando de pesadelos no quarto ao lado do dela.

— Você devia comer alguma coisa decente – sugeriu ela, em tom severo. Jessé bagunçou o cabelo da irmã.

— Olha quem fala. Só você pode viver de comer porcaria nas férias?

— Eu só faço isso porque você, o adulto responsável por mim no momento, não sabe fazer comida – Joana se levantou. – Se bater um vento forte, carrega você. Vai comer.

Jessé a observou se afastar. Ele nunca fora muito robusto, mas, ultimamente, Woodstock estava começando a perceber que ele se tornara dolorosamente magro. Ela pensou, com certa tristeza, que Joana também devia ter notado.

— Ela é mais responsável do que qualquer um de nós – comentou Jessé, enquanto Woodstock se sentava no chão ao lado dele.

— Definitivamente. Alguém tinha que ser sensato.

Ela se arrependeu das palavras imediatamente, pensando em Josafá e em como algumas pessoas costumavam dizer que ele era louco. Porém, Jessé não parecia ter feito essa conexão. Ele abraçou os joelhos junto ao peito, descansando o queixo sobre eles, e disse:

— Você acha que vai dar certo? Seu plano, quero dizer.

Woodstock hesitou, escolhendo as palavras com cuidado.

— Acho que é nossa melhor chance – disse, por fim. Ambos sabiam que aquilo não queria dizer muita coisa.

Woodstock mal conseguiu pregar os olhos durante aquela noite. Ao invés disso, ela ficou acordada, encarando seu pôster do Snoopy e imaginando todas as formas como o dia seguinte poderia dar errado. E, a julgar pelas olheiras dos outros quando se encontraram em frente ao Memorial da Resistência, não foi a única.

Ela havia deixado claro que o plano só exigia a presença de duas pessoas – Andressa, por ser a Ilusionista disponível, e Woodstock, porque, bem, o plano tinha sido dela –, mas todos os quatro se encontraram em frente ao túnel que levava à porta de entrada do mercado. Andressa estava vestida como se fosse para a academia, com calças legging coloridas e tênis de corrida com cadarços cor-de-rosa, combinando com as mechas em seu cabelo. Os óculos de armação dourada e redonda não escondiam nem um pouco os sinais da noite mal dormida.

— Você parece pronta para correr – comentou Hugo, com um sorrisinho.

Ele definitivamente não estava. Vestia uma camiseta branca e jeans rasgados, e parecia tão impecável quanto sempre. Seus tênis Vans brancos não mostravam um único traço de sujeita.

Andressa sorriu de volta para ele.

— Sempre.

Jessé olhou para baixo rapidamente, para os All Star brancos surrados que usava, quase amarelos de tão velhos, antes de voltar a atenção para Woodstock e fazer sinal para ela abrir a porta do Mercado.

— Primeiro as damas – disse.

Woodstock se lembrou do caminho com mais facilidade do que esperava, considerando que o havia percorrido apenas duas vezes. Eles pararam duas esquinas antes do beco sem saída onde Luiz havia desaparecido para repassar o plano mais uma vez e se camuflarem. Andressa respirou fundo, e, quando ela levantou a mão para tocar o colar em seu pescoço, deu para perceber que ela estava tremendo. Woodstock pôs a mão no ombro dela.

— Você consegue – encorajou, embora estivesse tão nervosa quanto a outra garota e soubesse que a frase motivacional não ia ajudar.

Ao invés de dar a resposta ácida que Woodstock esperava, Andressa só olhou para ela e se concentrou no feitiço.

Enquanto ela fazia isso, Woodstock voltou a atenção para os meninos, que pareciam aguardar instruções, como se a tivessem elegido como líder não oficial. Ela tentou não se sentir pressionada por isso.

— Vocês ficam aqui, vigiando – disse. Jessé esfregou a nuca.

— E o que, exatamente, nós estamos vigiando? Não é como se pudéssemos impedir alguém de entrar.

Woodstock mordeu o lábio inferior e refletiu por um instante. Devagar, a ponta de seus dedos começou a se tornar translúcida.

— Vejam se tem um padrão – concluiu. – Os membros dessa organização, se for mesmo uma organização, não podem ser escolhidos por acaso. – Ela olhou para Jessé. – E, se Luiz aparecer e você quiser ter uma conversa com ele sobre seu irmão e a Tábua, eu não vou achar ruim.

A ideia pareceu deixar Jessé desconfortável, como ela sabia que faria, mas ele não protestou. Hugo olhou para Andressa.

— Não perca ela de vista. Isso faz toda a diferença.

Ela assentiu, séria.

— Vou me lembrar disso.

Ela mal havia acabado de falar quando o som de passos se fez ouvir na rua ao lado do beco em que eles estavam. Eles se apressaram a se afastar da esquina, com a exceção de Woodstock, que já estava camuflada o suficiente para ousar se aproximar para espiar. Ela reconheceu a mulher com quem falara no outro dia, a que lhe dera instruções para a saída, acompanhada de um cara alto e musculoso, com cara de guarda-costas. Um olhar para Andressa revelou que ela ainda estava visível, mas não dava para esperar; elas teriam que arriscar.

Andressa parecia estar pensando a mesma coisa, porque não esperou por Woodstock para começar a seguir a dupla. Elas ainda precisavam ser cuidadosas – afinal, só os Ilusionistas mais habilidosos conseguiam encobrir ruídos, e Andressa ainda estava longe dessa categoria –, mas os estranhos não pareceram perceber nada de incomum. Eles pararam por um instante em frente à parede marcada com a insígnia; o coração de Woodstock parou quando o homem se virou para olhar rapidamente ao redor, e voltou a bater acelerado quando ele finalmente abriu a passagem e a atravessou.

Woodstock lançou um olhar para onde imaginava que Andressa, agora completamente invisível, estivesse. Hugo os havia alertado que Ilusionistas conseguiam ver aquilo que estavam encantado, mas que o contrário não ocorria, então era tarefa de Andressa não se afastar demais; assim, Woodstock esperava que ela a estivesse seguindo quando passou pela passagem, que se fechou imediatamente atrás dela.

Ela não sabia exatamente o que estivera esperando. Uma masmorra de pedra, talvez, ou outro beco malcheiroso e com paredes de tijolos cobertas por pichações – algo mais condizente com as vielas do Mercado, com seus traficantes espreitando nos cantos e suas sombras permanentes. Ao invés disso, Woodstock se viu em um corredor muito bem iluminado, longo o suficiente para que ela não conseguisse ver o que havia no final dele. O som dos saltos da mulher à sua frente batendo nos azulejos do chão reverberava pelas paredes brancas e imaculadas enquanto os dois estranhos seguiam em frente, murmurando baixinho entre si, seguidos pelas duas adolescentes.

Eles andaram pelo que pareceu uma eternidade, até finalmente alcançarem uma porta de ferro marcada com a mesma insígnia que Woodstock vira no muro. Dois homens robustos usando ternos ladeavam a entrada. A mulher sussurrou alguma coisa – uma senha, supôs Woodstock – no ouvido de um deles, que acenou para que o outro abrisse a porta. Woodstock reconheceu a leveza com que ele empurrou a pesada placa de metal, sem fazer nenhum esforço: ele era definitivamente um Metalúrgico. O gesto de pôr uma mão na porta e empurrar era meramente simbólico.

Woodstock seguiu a dupla de estranhos para dentro do que era claramente uma sala de reuniões, torcendo para Andressa estar perto dela. Andressa conseguiria vê-la, tendo sido a Ilusionista a encantá-la, mas o efeito era unilateral, e era um pouco desorientador tentar trabalhar em equipe sem ter a menor ideia de onde o resto de sua equipe estava. O pensamento fez com que ela se perguntasse como os meninos estavam indo. Ela esperava que eles não fizessem nada idiota.

A sala de reuniões parecia ter sido feita para um grupo bem maior do que o que estava presente; havia, no máximo, dez pessoas sentadas ao redor da grande mesa oval que tomava a maior parte do aposento, o que deixava uma quantidade igual de assentos vazios. Ao contrário do corredor, havia decoração nas paredes, ou algo perto disso: quase todas as superfícies estavam cobertas por murais de avisos com anotações, post-its e fotografias presos a eles por alfinetes, ligados por barbantes coloridos. A única parede que não estava ocupada por um mural era tomada por uma lona branca, que, a julgar pelo projetor de slides posicionado em uma mesinha em frente a ela, era para exibição de projeções.

Na parede atrás da cabeceira da mesa, um mapa enorme chamava atenção. Woodstock percebeu, com um aperto no estômago que era tanto medo quanto empolgação, que se tratava do mapa do estado do Rio Grande do Norte, e havia um ponto circulado com marcador vermelho – a localização de Mossoró. Se aquelas pessoas estivessem mesmo à procura da Tábua, aquilo poderia significar que todos eles – Woodstock, o cara do terno, aquela mulher, fosse quem fosse – estavam muito perto.

Ela voltou a atenção para as pessoas que havia seguido quando eles se separaram. O homem ocupou uma cadeira perto no meio da mesa, enquanto a mulher se dirigiu ao assento de cabeceira, que estivera desocupado até então. Os outros ocupantes da mesa estavam conversando entre si em voz baixa, mas se calaram quando ela bateu duas vezes na mesa, delicadamente, como se nem pretendesse chamar atenção. Sua postura, porém, deixava bem claro que ela sabia o efeito que o gesto teria.

Ela tornou a se levantar antes de pedir desculpas pelo atraso em um tom que indicava que não se arrependia nem um pouco, e de começar a falar sobre a ata da reunião. À direita, um homem parecia tomar nota em um notebook à sua frente. Em determinado momento, a mulher pediu que todos se levantassem para “saudar o pavilhão nacional”. As pessoas em volta da mesa ficaram de pé e aplaudiram por um instante, voltados na direção das três bandeiras em um conjunto de mastros no canto. Uma era a do Brasil. Outra, a do Rio Grande do Norte. Woodstock não reconheceu a terceira; não dava para ver muita coisa, além do fato de que era metade branca, metade preta, com uma listra cinza no meio.

Woodstock estava quase convencida de que a reunião não teria nada além de formalidades quando a mulher tornou a se sentar e disse:

— Nossa primeira pauta de hoje, como vocês já devem imaginar, é sobre as pesquisas mais recentes sobre o paradeiro da Tabula Smaragdina.

O queixo de Woodstock caiu. Ela reconheceu o termo utilizado em alguns dos textos que lera em sua pesquisa sobre a Tábua de Esmeralda. Não acreditava que tinha sido tão fácil.

A mulher olhou em volta, franzindo a testa.

— Gabriel não chegou ainda?

O homem à direita dela sacudiu a cabeça. Ele era atarracado e calvo, e usava óculos sem armação. Pela sua expressão, não era muito fã de Gabriel, seja lá quem ele fosse.

— Atrasado como sempre – Ele franziu os lábios. – Eu avisei que ele era jovem demais para uma responsabilidade tão grande.

Com um gesto, a mulher desconsiderou o comentário dele e prosseguiu:

— Bem, acho que podemos começar pela segunda parte, então – O olhar dela percorreu toda a sala; Woodstock precisou conter o impulso instintivo de se esconder. – Ou seja, pela nossa concorrência.

O coração de Woodstock estava batendo tão forte que ela temeu que alguém mais pudesse escutá-lo. Com cuidado, ela se aproximou um pouco mais da mesa para ouvir melhor, sem querer perder uma palavra. Aquela poderia ser sua única chance de descobrir quem era o homem de terno, e, mais importante, quem poderia ter invadido sua casa. Se alguém interessado na Tábua tinha seu endereço, ela precisava saber quem. E, se fosse alguma das pessoas naquele recinto, bem – ela não garantia que não tentaria tirar alguma explicação deles.

— Como esperado, nosso maior problema continua sendo Vancini – Foi o homem atarracado de óculos quem falou, no mesmo tom desgostoso que utilizara antes. Ele apertou uma tecla no notebook, e uma foto de um homem de cabelo escuro surgiu na lona branca para projeções. Ele estava sorrindo, confiante, para a câmera, e Woodstock percebeu, surpresa, que o reconhecia das propagandas eleitorais de alguns anos atrás. Ele fora candidato a deputado estadual. – Mas ainda não conseguimos descobrir suas fontes, ou quem mais está envolvido na pesquisa. Há suspeitas de que talvez a família dele...

Alguém sentado na outra extremidade da mesa bufou.

— Vancini não envolveria a família. Todo mundo sabe que ele não confia neles.

O homem de óculos lançou um olhar irritado na direção da mulher que tinha falado.

— Como eu disse: nós não sabemos. Tudo o que sabemos é que ele está na cidade, o que é preocupante o suficiente por si só. Até então, ele parecia pensar que a Tábua estava em Natal ou Parnamirim, ou alguma cidade mais próxima.

— E talvez esteja – interveio outra mulher. – Há uma margem de erro, não? A ideia de que a Tábua esteja aqui é só especulação.

Isso iniciou uma discussão acalorada entre os outros participantes da reunião, e Woodstock perdeu o fio da conversa por um instante. Seu foco só retornou quando a mulher que seguira até ali tornou a bater na mesa, pedindo silêncio, e disse:

— Esse não é o assunto do momento. O fato é que Vancini tem todos os recursos que nós não temos, e a pesquisa dele está avançando mais rápido que nunca. E a nossa...

— E a nossa está sendo comandada por um moleque de vinte anos – resmungou o homem de óculos, baixo o suficiente para que ninguém além da mulher e de Woodstock, que estava parada ao lado dele, ouvisse. A mulher o ignorou completamente.

— A nossa, bem, só saberemos quando Gabriel decidir aparecer.

Ela fez um gesto para que o homem passasse o slide. Outra imagem surgiu; a qualidade era bem menor do que a da outra, e esta fotografia fora tirada de bem mais longe com o que deveria ser uma câmera de celular. Demorou um pouco para Woodstock reconhecer o Memorial da Resistência em segundo plano, e ainda mais para reconhecer a figura de cabelo loiro espetado e pele escura em primeiro plano. Ela sentiu o estômago dar um nó apertado ao ver a própria imagem sendo projetada na lona para todas aquelas pessoas. Ouvir as palavras seguintes da mulher foi como levar um soco no estômago:

— Carla Carvalho de Assunção parece ter mais interesse na Tábua do que nós pensávamos. Eu a peguei rondando por aqui um dia desses. – Ela fez uma pausa. – E talvez ela tenha feito mais progresso do que achávamos, porque alguém achou que valia a pena tentar roubar a pesquisa dela.

A próxima imagem mostrava a frente da oficina dos pais de Woodstock, e ela sentiu o medo comprimir seu peito. Sua mãe insistira em dar parte da invasão na delegacia, o que poderia explicar o fato daquele grupo ter aquela informação, mas, mesmo assim, saber que um bando de desconhecidos suspeitos que a considerava como “concorrência” a um de seus objetivos tinha seu nome e endereço era assustador o suficiente para fazê-la esquecer da cautela e ofegar bem mais alto do que deveria.

Ela cobriu a boca com as mãos, mas o estrago já estava feito. Os olhos da mulher percorreram novamente a sala, dessa vez com suspeita. Ela fez um gesto para a moça à sua esquerda, que fechou os olhos e ergueu uma das mãos. Logo, ficou claro que se tratava de uma Ilusionista, e uma bastante competente. Woodstock sentiu a camuflagem de Andressa deslizando por sua pele, sendo arrancada de perto delas. Andressa tentou resistir, mas, em poucos segundos, as duas garotas se viram expostas a todos os participantes da reunião.

Woodstock esperou ser imediatamente imobilizada por seguranças ou, no mínimo, que a mulher demonstrasse algum tipo de alarme. Ao invés disso, ela abriu um sorriso quase presunçoso.

— Eu estava me perguntando quando você viria. Mas não achei que você fosse conseguir invadir – Ela olhou brevemente para Andressa. – Acho que não considerei sua amiga aqui.

Os dedos de Woodstock se fecharam no espaldar da cadeira à sua frente, aquela em que o homem franzino estava sentado. Era de ferro fundido; se necessário, ela imaginou que conseguiria arrancá-la com relativa facilidade e usá-la como arma. Não era um grande consolo, mas era tudo o que tinha.

— É, acho que não – Ela tentou soar o mais calma possível. Amigável, até. Até o momento, a mulher não parecia considerá-la uma ameaça, e Woodstock não via vantagem em dar a ela motivos para fazê-lo. – Você vai me dizer por que tem uma foto minha no seu projetor, ou eu vou ter que perguntar?

Para surpresa de Woodstock, gesticulou na direção das cadeiras vazias no final da mesa.

— Por que vocês não se sentam? – Ela sorriu, mas o sorriso nunca chegou a seus olhos. — Nós temos espaço de sobra.

Notas finais
Achei de verdade que só ficaria aliviada em terminar a história, especialmente porque os últimos três capítulos foram absolutamente massacrantes pra escrever. Mas na real me deu foi um vazio :v acho que só tenho a trabalhar no 2º livro agora...