O Segredo Por Trás dos Olhos
3 O Outro Lado
Notas iniciais
O cheiro de álcool invadiu minhas narinas com fúria, o borrão agora se tornava mais nítido e possível de se identificar. Lukke segurava um algodão com álcool bem próximo ao meu nariz. Ao perceber que eu havia acordado, afastou-o do meu rosto.
– Hey, tudo bem? Você me assustou... – Disse Lukke com uma expressão preocupada.
– Como ela está? — Perguntou uma voz masculina.
Esfreguei os olhos procurando me assegurar de que aquilo era real. Apoiei meu corpo nos braços aplicando força a fim de me levantar, minha cabeça latejava.
– Onde estamos? – Perguntei a Lukke vendo o ambiente que antes rodava se estabilizar.
– Estamos na nossa sede. – Respondeu o dono da voz ainda não conhecida. — Qual é o seu nome?
O encarei desconfiada antes de responder.
– Tessa.
Era um rapaz alto de olhos castanhos, tinha uma expressão serena, diferente de Lukke que tinha uma postura séria e talvez até um pouco arrogante.
– Lukke o que houve? – disse me voltando para ele.
– Você desmaiou com o susto.
– O trem... Onde estamos?! – Perguntei me lembrando de que Lukke nos jogara na frente do trem...
– Estamos na nossa sede, como Zool disse. É aqui que pessoas como nós ficamos. – disse sério. – o único lugar em que estamos seguros... Bem vinda! – Dessa vez sarcástico.
– O que você quer dizer com isso? – Perguntei sem entender.
– Quero dizer que não somos como eles... – disse apontando para Zool. – Ou como as pessoas que você conhece e está acostumada. Somos diferentes.
– Diferentes como? O que você está dizendo? – Era incrível como ele me enchia de dúvidas com suas supostas explicações.
– Não notou nada semelhante em nós dois?
Sim, claro que sim, eu havia notado desde que o vi naquela chuva. Engoli seco. Mas o que isso tinha haver com o que ele estava me dizendo agora? O que ele estava insinuando? Lukke se aproximou forçando-me a olha-lo nos olhos.
– N-nossos olhos... Eles têm essa cor...
– Diferente. Nós somos diferentes, me entende? Eu te trouxe para Parnassus. Não estamos mais em Sunnan, seu mundo, estamos no meu, e a partir de agora, nosso mundo.
Senti meu coração apertar... Minha vida estava desabando aos poucos e eu estava assistindo a tudo sem sequer poder impedir, ou entender o porquê de tudo aquilo. Meu pai morto, minha mãe desaparecida, um mundo paralelo... Faria qualquer coisa para acordar desse pesadelo.
Olhei para o lugar em minha volta... Paredes de madeira, o chão feito de uma pedra lisa, era uma sala vazia... Zool estava sentado em um banco de madeira enquanto Lukke me fitava em pé.
– Vem comigo... – Disse me puxando, deixando Zool para trás. – Vou te explicar algumas coisas. — Seguimos por um corredor frio. — Acham que nós somos uma ameaça para sociedade. Precisamos nos esconder para viver... Vivemos assim há anos, escondidos, desenvolvendo nossa própria tecnologia, buscando alguma forma de alcançar a nossa vida antiga.
O olhar de Lukke estava distante.
– O General Vikran é quem comanda Parnassus, ele é desprezível... – continuou Lukke. — Há 20 anos mandou destruir nossa aldeia para se ver livre de nós, “uma ameaça para o equilíbrio de Parnassus” segundo ele. Muitos foram mortos, porém outros conseguiram fugir. Vikran acha que fomos todos eliminados... Com o passar dos anos criamos nosso próprio “mundo” no subterrâneo, lugar onde poderíamos viver em paz.
– Mas, porque ele acha que vocês são uma ameaça? Não entendo. E... Onde eu fico nessa história? Não quero parecer egoísta, mas... O que tenho haver com tudo isso? – Ele me olhou com um sorriso torto.
– Como eu disse, somos diferentes... E isso inclui você.
– Mas diferentes como, Lukke? – Perguntei já irritada.
– Temos algumas habilidades... -
Um nó se formava em minha mente... Céus, que loucura era aquela? Eu precisava acordar desse pesadelo o mais rápido possível!
– A principal, e a mais temida por Vikran, é a nossa capacidade de ir para o outro mundo, o seu mundo... Foi assim que consegui te achar, indo para lá, e foi assim também que você chegou até aqui. Só pessoas como nós conseguem viajar de um mundo para o outro. Tessa, nós somos ateneus.
– Ateneu? Eu? Você está me dizendo que não sou uma humana?
– Sim. — Ele me olhava esperando minha reação.
Mas eu não sabia como reagir... Isso era... Loucura?
– Espera... Viajar para o "meu mundo" não seria melhor para vocês e para ele, já que ele não quer vocês por aqui?
– Bom, seria se não fosse por um detalhe... Se um habitante de Parnassus e outro do seu mundo têm um filho... Ele nasce um psi-ateneu e aos 16 anos seus olhos começam a ficar roxos, isso também acontece com os Ateneus...
Parei de andar por um instante. Aos poucos as peças finalmente se juntavam em minha mente... Respirei fundo para logo em seguida continuar a andar. Lukke me observava satisfeito por eu estar compreendendo-o.
– Quem nasce dessa mistura entre mundos... – continuou. – É diferente de qualquer outra pessoa. Como você, Tessa, e como o próprio Vikran, vocês são psi-ateneus.
Por isso meus olhos haviam se tornado roxos... Eu estava absorta em meus pensamentos, tudo se encaixava, mas não podia ser verdade. Aquilo não era possível!
– E porque você me trouxe pra cá? P-Parnassus...- Perguntei.
– Como eu te disse, nós vivemos escondidos há anos, procurando meios de sobreviver, e não queremos mais isso. No ano passado, Betron e Sophitia inventaram um relógio de invisibilidade, ele nos ajudaria a ir lá para cima sem sermos notados, e eu me ofereci para testa-lo. Usando esse relógio — disse me mostrando o objeto. — consegui entrar no quartel de Vikran. Foi assim que descobri sobre você.
Não sabia nem o que pensar... Como ele poderia saber mais sobre mim do que eu mesma?
– Ouvi ele e os capangas falando sobre a filha adotiva de Vikran, que desapareceu há 17 anos. Eles descobriram que ela estava em Sunnan. Ele ficou desesperado, pois se ela tivesse um filho com algum homem de Sunnan ele seria um psi-ateneu como ele e isso seria uma ameaça para ele, já que apenas um psi-ateneu é capaz de matar outro psi-ateneu.
– M-mas você disse... Que e-eu era uma...
– Tessa, você é a neta adotiva de Vikran.
– M-minha m-mãe...
– Está aqui em Parnassus. Os capangas de Vikran a capturaram e estavam á procura de um suposto filho... Eles á matariam se a encontrassem... Mas eu te encontrei primeiro. – Disse Lukke com um sorriso de canto.
Era muito pra mim... Me encostei na parede e deixei que meu corpo escorregasse por ela indo de encontro ao chão. Abracei minhas pernas. Queria dizer algo, mas o silêncio foi tudo que Lukke ouviu. Um turbilhão de pensamentos e sensações me encheu, eu não sabia o que fazer.
– Eu sei que está sendo difícil pra você... – Disse sentando-se ao meu lado.
Ficamos ali, em silêncio. Eu não sabia o que dizer, e Lukke não seria tão indelicado e insensível para romper aquele momento com suas palavras.
– Tessa – Talvez ele fosse sim. – Acho que você quer descansar um pouco né? — Acenei com a cabeça. – Vem comigo. – Levantou-se e ofereceu sua mão para me ajudar a levantar, aceitei.
Caminhamos mais um pouco até um quarto. Era simples. Paredes de madeira, uma cama no centro coberta com um lençol azul marinho, uma pequena cômoda e um abajur ao lado.
– É-é seu?
– Sim. Pode ficar aqui. Tem um banheiro logo ali se quiser tomar um banho.
– Mas e você?
– Não se preocupe comigo. – Disse com seu tradicional sorriso de canto.
– Tudo bem. – Concordei. Eu estava mesmo cansada, e queria ficar sozinha.
– Pode vestir uma roupa minha se quiser. – Disse abrindo uma gaveta e tirando uma camiseta cinza de dentro.
– Obrigada. – Disse pegando a camiseta.
– Quer uma bermuda ou uma calça?
– Não, a camiseta é suficiente...
– Tudo bem. Vou deixar você descansar...
– Espera! Lukke... – Ele se virou para mim. — Porque você se importou em me encontrar primeiro que Vikran?
Lukke hesitou.
– Quando eu disse que precisava de sua ajuda não estava mentindo. – Respondeu.
– Eu não posso te ajudar em nada...
– Está enganada, você é a única que pode me ajudar... Ajudar á todos nós. Você é uma psi-ateneia. – Disse sério. — Acho melhor você descansar agora. – Disse caminhando até a porta, olhou de relance pra mim antes de fechar a porta atrás de si.
Desabei na cama. Lembrei-me de meu pai, senti uma dor aguda em meu coração, sentia-me desprotegida, sensível, confusa. Meus olhos estavam marejados, pisquei-os algumas vezes tentando segurar as lágrimas ali. Me levantei da cama indo em direção ao banheiro, eu precisava de um banho.
Logo pude sentir a água quente sobre minha pele fazendo meus músculos relaxarem. Fiquei ali imóvel sentindo a água tamborilar em mim. Fechei os olhos. Não sei quanto tempo fiquei ali, parada... Abri os olhos observando o vapor encher o banheiro e embaçar o espelho. Suspirei.
Sai do chuveiro voltando para o quarto. Peguei a camiseta cinza em cima da cama e a vesti, desabando logo em seguida em cima da cama novamente. O travesseiro tinha o cheiro dele, um sorriso involuntário se formou em meus lábios... E então, me deixei ser embalada pelo sono.
Fale com o autor