A primavera chegou discretamente.

Como quase todas as coisas importantes.

Sem anúncios.

Sem cerimônias.

Sem ninguém perceber exatamente quando aconteceu.

Um dia os jardins ainda carregavam os últimos vestígios do inverno.

No seguinte.

As primeiras flores haviam aparecido.

Hermione descobriu isso numa manhã de sábado.

Quando entrou no solário carregando uma xícara de café.

E encontrou a luz atravessando as paredes de vidro de uma forma diferente.

Mais quente.

Mais suave.

Mais viva.

Por alguns segundos.

Permaneceu parada.

Observando.

Os jardins.

As árvores.

As flores recém-abertas.

O reflexo dourado da manhã.

Tudo parecia tranquilo.

— Você está pensando demais.

A voz surgiu atrás dela.

Naturalmente.

Como sempre.

Hermione sorriu sem precisar se virar.

— Talvez.

Passos aproximaram-se.

Até que Draco parou ao seu lado.

Uma xícara nas mãos.

O cabelo ainda ligeiramente desalinhado.

Porque aparentemente algumas coisas continuavam imunes ao passar dos anos.

— Sobre o quê?

Perguntou.

Hermione demorou alguns segundos para responder.

Porque havia muitas respostas possíveis.

Poderia falar sobre o Ministério.

Sobre os projetos em andamento.

Sobre a França.

Sobre os acordos.

Sobre as mudanças.

Sobre o futuro.

Mas nenhuma delas parecia correta.

Então apenas observou novamente os jardins.

A casa.

A luz atravessando o vidro.

E, sem perceber.

Começou a reparar nas pequenas coisas.

No livro que Narcisa havia esquecido sobre uma das mesas.

Na manta dobrada sobre uma poltrona.

Nas flores recém-trocadas pelos elfos.

No silêncio confortável que ocupava o ambiente.

Coisas pequenas.

Coisas comuns.

Coisas que, anos atrás.

Jamais teria imaginado considerar importantes.

Draco aguardava.

Pacientemente.

Porque conhecia aquele silêncio.

E sabia que eventualmente ela responderia.

Hermione voltou-se para ele.

Observando-o por um instante.

Depois sorriu.

Pequeno.

Tranquilo.

Da forma que só acontecia quando não havia nada para resolver.

Nada para provar.

Nada para conquistar.

— Nada.

Disse.

E, pela primeira vez na vida.

Era verdade.

Draco sustentou seu olhar por alguns segundos.

Como se estivesse avaliando a resposta.

Então assentiu.

— Excelente.

— Excelente?

— Sim.

— Por quê?

Um pequeno sorriso surgiu no canto dos lábios dele.

— Porque isso significa que finalmente terminou.

Hermione arqueou uma sobrancelha.

— O quê?

Draco observou os jardins.

Depois a casa.

Depois ela.

— A parte em que você acredita que precisa carregar o mundo inteiro sozinha.

O silêncio que se seguiu foi breve.

Mas não vazio.

Porque, em algum lugar ao longo dos anos.

Entre guerras.

Perdas.

Distâncias.

Reencontros.

Segredos.

Reconciliações.

Ministérios.

Países.

Famílias.

Amizades.

E amor.

Ela havia encontrado exatamente aquilo que passou tanto tempo procurando.

Não uma carreira.

Não uma conquista.

Não um lugar.

Uma vida.

Hermione entrelaçou os dedos aos dele.

Naturalmente.

Como se aquele gesto tivesse existido desde sempre.

Talvez tivesse.

Lá fora.

O vento moveu suavemente as flores dos jardins.

E dentro do solário.

Pela primeira vez.

Não havia mais nada para começar.

Nada para reconstruir.

Nada para recuperar.

Apenas o futuro.

Esperando.

E, dessa vez.

Eles tinham todo o tempo do mundo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!