O Segredo De Ellie
4 Apenas uma testemunha
Notas iniciais
Ela caminhava lentamente pela orla da praia, a brisa soprava mansamente em sua face. Não imaginava como havia parado ali e nem tão pouco porque estava ali.Tentava recordar algo, e quanto mais tentava, mais forte a brisa ficava. A brisa tornou-se em um vento arrasador que tentava arrancar as cálidas folhas por ali até formar-se uma tempestade, que abriu um enorme precipício ao seu lado. Ela tentou segurar-se, mas o vento impiedoso a lançou contra o precipício e seus gritos foram silenciados.
Catherine acordou sobressaltada, assustou-se com seu grito e ao tocar-se, para se certificar se de que estava viva, sentiu o suor escorrer-lhe até o pescoço.
Droga, que saco, mais um pesadelo! Que horas são?
Pegou o celular, eram onze horas, pensou que estava atrasada, mas com o ocorrido não haveria aula por uns três dias, talvez.Foi uma decisão do colégio.
Catherine ainda ficou na cama por alguns segundos tentando repassar os ocorridos do dia anterior, mas como era muito confuso resolveu levantar, não poderia ficar na cama até tarde, por mais que quisesse.
O quarto de Catherine era extremamente simples, mais muito enfeitado.Quando seus colegas a questionava respeito de tantos ursos, pôsteres e bonecas, ela respondia.,Para compensar a pobreza desta espelunca!.É claro que seu pai havia tentado arrumar o máximo seu quarto, mas a falta de dinheiro extra era motivo suficiente para adiar as reformas.Seu pai sempre dizia:
Ano que vem vamos arrumá-lo!quando eu receber meu 13° salário, com certeza!
E assim o quarto ia ficando abandonado e Catherine sempre reclamava todas as manhãs:
Que porcaria de quarto! Como uma adolescente pode viver assim?
Ao abrir a janela surpreendeu-se com um forte raio de sol ferindo seus olhos, estava um dia realmente quente, o que era de se estranhar no mês de junho, mas como o tempo ali era confuso, todos já estavam acostumados.
Depois de arrumar o quarto, separar a roupa e lamentar sobre a sorte de sua vida,Catherine foi em direção á cozinha, sempre fazia isto á procura do pai, mesmo sabendo que ele não estaria.Mas não deixou de reparar um bilhete preso ao armário.
Bebe
Bom dia
Eu não a acordei, pois vi que você estava muito cansada, você dormia como pedra!
Não deu para comprar o pão, hoje tive que sair mais cedo, o Carlos pediu para fazer trabalho extra, estou deixando dinheiro, mas se você não quiser comprar, coma as bolachas que estão no armário.
Arrume a casa, ou melhor só o que você sujar.
Não fique triste, com o que aconteceu não se deixe deprimir, vá ao parque, leia algum livro e visite um de seus amigos...
Com amor ...
Papai
Ficou ainda uns minutos relendo o bilhete, tentando ouvir a voz de seu pai naquelas palavras e subitamente ela percebeu o quanto ele a amava. Mesmo que ela odiasse aqueles pronomes que utilizava, como: bebe, nenenzinho e outros, que segundo ela era extremamente constrangedor e destruidor de posição social, ela também admirava o pai mesmo que não demonstrasse constantemente, muito próprio dos adolescentes.
Suspirando ela jogou o papelzinho na lixeira e foi procurar uma toalha.
***
...é incrível o efeito que a água é capaz de proporcionar, parece que cada gota dissipa toda espécie de preocupação...
Catherine recordava-se desta sábia frase de sua mãe, há quanto tempo ela não ouvia sua voz, estes momentos traziam-na uma profunda nostalgia.
O banho foi bem quente, o que contribuiu para deixar o banheiro todo vaporizado.Catherine limpou o espelho para mirar-se melhor.Era uma garota, de fato muito bonita, seus cabelos louros e bem cheios batiam no meio das costas, nunca havia cortado, sua mãe preferiria assim.Os olhos grandes e esverdeados, dava um destaque ao rosto magro de bochechas rosadas .Não era á toa que fora chamada em uma agencia e era tão popular entre o garotos.
Procurava sempre usar roupas na moda e ter as melhores coisas,não era tão inteligente,mas sabia usar a sagacidade para conseguir o que queria(inclusive notas).Muitos a chamariam de patricinha, outros de uma garota com excesso de personalidade, o fato é que conseguia ser uma garota cheia de segurança e graciosidade.
Pensando nisso, sorriu, era assim que deveria ser todos os dias, muitos não teriam a mesma que ela como Ellie...
Mais uma vez o nome vagou pela sua mente, assustada com o pensamento repentino quase caiu para trás segurando-se a custo nas paredes.Ela saiu do banheiro e ainda ficou um tempão parada na porta do quarto, tinha alguma coisa que a incomodava.Sentia uma sensação de culpa, medo e insegurança.
Recordava-se ainda muito bem o que se passara no dia anterior, uma morte, pessoas por todos os cantos e a delegacia.Pensando neste último lugar, ela ficou mais aflita.Não havia dito tudo o que ouvira de Ellie, não disse que a garota de cabelos ruivo a havia pedido para ajudar com uma estranha suspeita.
Catherine lembrava de tudo nitidamente mais uma vez,a maneira como ela havia tratado a garota, com aqueles preconceitos e estereótipos. Talvez se ela tivesse ouvido Ellie, nada disso teria acontecido,talvez garota ainda estivesse gozando em vida.Mas Catherine só pensava em si, nunca havia demonstrado o mínimo de compaixão pelos outros,principalmente pelas pessoas colégio que não pertenciam ao seu grupo. Simplesmente acreditava que Deus a fizera loura e superior todos, então não se importava em rejeitar, fazer pouco caso e esmagar os outros com a força de seu caráter, se é que ela tinha algum.
Mas no fundo era uma adolescente comum, cheia de inseguranças dúvidas e tristezas, e, naquele dia estes sentimentos estavam mais profundos.Não sabia o que fazer, nenhum de seus amigos ligavam para ela, seu pai estava trabalhando e sua mãe, há muito, não se encontrava com ela.Estava percebendo que tanto orgulho e altivez de nada valia se fosse para ser uma pessoa solitária e vazia.
Olhou se no espelho da cômoda e se detestou, encontrou uma garota mimada e enjoada, querendo que o mundo girasse em seu redor... Os acontecimentos do dia anterior a estavam despertando para a realidade. O que uma morte não é capaz de causar.Disse, em lágrimas.
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