A claridade da lua tudo faz iluminar e a igreja parece banhada pela luz do dia.

Johann Wolfgang von Goethe

Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro.

Friedrich Wilhelm Nietzsche

Baden, Alemanha, 1882.

Aparentemente, incomum e por mais que, à pri­meira vista, arrastando consigo os incau­tos, até pa­re­cesse não sê-lo em meio daqueles excessos. Onde todos os luxos podiam ser desfrutados a qualquer hora do dia, se bem o quisessem. E de tanta extrava­gância reunida num mesmo lugar só. Idêntico a um cachorro molhado, largado à própria sorte, às próprias espertezas e aos infortú­nios bem no centro de um in­tenso e fre­né­tico vai e vem de um munda­réu, sem fim, de gente com modos, por assaz, garbosos. Do início ao fim do dia, até que se sorvesse a última gota de satisfação. Já caídos de joelhos no chão duro, com enor­mes dificul­dades de se reer­gue­rem, ficarem de pé nova­mente, por se encontrarem vergados por uma mon­ta­nha imensa de caviar e rios caudalosos e espuman­tes de cham­pa­nhes. Senão exaustos e já quase sem mais forças, tam­bém dentre a in­ces­sante procura da fonte da eterna ju­ven­tude. Ai­rosa, sofisticada, terra de prazeres e de in­crí­vel abun­dância. Vi­ver-se-iam cerca­dos por inú­meras mor­do­mias, ver-se-iam muitas mara­vilhas do mundo postas bem di­ante dos olhos (vis-à-vis), tudo ao li­geiro al­cance das suas finas mãos delgadas e cheias de anéis caros; à larga, sem preocu­pa­ções mai­ores na vida deles. Belo palco imaginário dos mais artificiosos jogos de se­dução; que bonito, além de também ouvi-los, apai­xonados, ace­nar-lhes com sonoros ga­lanteios, era vê-los flo­retear com os seus cavalos puro-sangue in­glês com precisão diante delas pelas fres­cas sombras da verde­jante Li­chten­ta­ler Allee. Pura di­versão para os aris­to­cratas, os ricos bur­gue­ses e o que igual­mente trazia a ruína a tantos e tantos audazes aventureiros, até muito jovens (inclusive grumetes com boas chan­ces de serem bem-suce­didos um dia na ar­mada); ape­sar de existi­rem dois ca­mi­nhos, in­tei­ramente, dis­tintos.

Se­não in­vi­sí­vel, ao me­nos, den­tro das parcas possibilidades de que se dispunha, dever-se-ia pa­re­ce­r ser qualquer coisa um tanto que desin­te­ressante às vis­tas alheias (sem sal) — sem­pre tão cu­ri­o­sos; famintos e inconvenientíssimos como, ge­ral­mente, todos eles são. Do modo como sempre ha­ve­ria de ser; con­forme fora, previamente, na ponta do lápis, azul de um lado e vermelho do outro, bem planejado. Quase como se nada es­tivesse acon­te­cendo na frente deles, de maneira que os transeuntes im­pacientes (apressados como se a vida fosse curta) so­mente desco­bris­sem, por ironia, bem aos poucos, em pequenas doses home­opáticas, de que esta­vam todos eles, sim­ples­mente, en­velhe­cendo; rumo ao Ju­ízo Fi­nal, des­tino ine­vitável, sem volta, de to­das as po­bres al­mas sofredoras e pecadoras deste mundo. E o que também aca­bou aju­dando a marcar, a ferro e a fogo, aquela que se tornou uma longa tarde sem fim; a princípio, ex­tre­ma­mente sos­se­gada, um pouco ma­ci­lenta e até agra­dá­vel, de pri­ma­vera, em Ba­den-Ba­den (da maneira como di­ziam as pes­soas na­quele tempo, bem antes da ofici­a­liza­ção, afim de já dis­tin­gui-la das ho­mô­ni­mas; uma na Suíça e outra pró­xima de Vi­ena).

No fundo, bem lá no fundo, num fundo distante e equidistante da esquerda e da direita, ele gostava muito de ter a sua seleta plateia — e tirava imenso partido dela. Principalmente, de que lhe jogassem enor­mes buquês, numa profusão de flores, florilégios, aos seus pés: eglantinas bran­cas e rosa­das mes­cladas em par­tes iguais com campâ­nu­las azuis de hastes bem compridas. Gos­tava-se antes do azul (azul cerúleo, de tonali­dade um pouco mais escura) e de olhar, por cima dos óculos, para o céu ou as nesgas de intenso azul dele; mais do que do rosa e do branco, muito mais.

Para as teste­mu­nhas ocu­la­res do fato, notável grupo de pessoas, extremamente, dis­tin­tas, com os seus olhos estando bem abertos e que tive­ram o grande privilé­gio de ver a coisa toda bem de­baixo dos seus nari­zes, daquela extensa e grande variada gama de tipos deles, para todos os gos­tos, desde os adun­cos aos aqui­linos, narizes compridos, retorcidos ou acha­tados, mas sem­pre volu­mo­sos e es­tando empi­nados, aquela grandi­osa encenação, por de­mais, gran­di­lo­quente e be­li­ge­rante lhes pare­ceu também ser, além de cari­cata (o que cons­tituiu a apa­rên­cia real da sua ver­dade), também muito estra­nha. Quase que de A até Z, ra­ras teriam sido as ex­ce­ções. Inclusive pecado, e capital.

Ligeira tragédia gó­tico-ro­mân­tica, nem tão de alta classe assim, pseu­domedi­eval, ín­tima e ímpar; frou­xamente alu­miada, onde aquela trupe com um pe­queno nú­mero de intérpretes, devidamente caracterizados e saídos faiscantes do acaso, que além de estar dançando com os pés amarra­dos (ou acorrentados) e os olhos deles estando vendados, aparen­temente tipos extra­vagantes em papéis bur­lescos, es­pecialmente, o do Diabo, com o claro ob­jetivo de entreter o seu pú­blico, parecer-se-ia per­dida; tristes noc­tâm­bulos que va­gue­avam ilu­di­dos den­tro da­quele inusitado es­paço va­zio, e aper­tado. Quando a noite es­cura fala sem nada dizer, ouve sem nada ouvir e vê sem nadica de nada enxer­gar na sua frente, mas que, ines­perada­mente, expõe tudo de uma só vez; num único ins­tante, tor­nou-se capaz de invadir com força as pro­funde­zas dos seus co­ra­ções. Os pen­sa­men­tos dele du­rante o dia have­riam de ser uma coisa, du­rante à noite outra; via-se.

Até o ar, ao redor dele, fétido como o cheiro nauseabundo de um bode, semelhante ao inebriante aroma dos eternos condenados, pesou naquele que, por fim, muito a contragosto, revelou-se ser um fatídico dia para ele. Sobremaneira, mar­cando-o (outra vez) de forma inde­lével.

Porém, a peça, acabou por não so­frer cortes da feroz cen­sura da compe­tente au­tori­da­de impe­rial de Ber­lim e nem tão pouco a da adjunta ducal no grão-ducado de Baden; ou até, o que causa certa estra­nheza entre nós, ter sido con­si­de­rada hetero­doxa pela Igreja Católica Ro­mana. Com o seu texto sendo às pressas sub­me­tido à análise do se­vero ju­ízo do ordi­nário local e ime­diata­mente im­presso na primeira página do In­dex Libro­rum Prohi­bito­rum[1]. Por­tanto, e isso já uma rotina quase que constante desde os tempos de Gutemberg, declarada ina­de­quada para os bons ca­tólicos ca­rolas, por ter sido ajuizada pelos seus ár­bi­tros, os dou­tos anciões com dores nos ossos, so­bre­tudo, como sendo he­ré­tica, anti­cle­ri­cal e até, de certo modo, as­sus­tadoramente, con­cu­pis­cente — contudo, muitas vezes pro­porcio­nando, assim, maior vi­si­bi­li­dade; garan­tindo-se, por vez, o grande su­cesso de público; sempre foi assim, mais se mexe, mais a coisa fede, visto as pes­soas (inclu­sive as cató­licas) serem mesmo bem curi­osas.

Fe­chou-se com chave de ouro, avant-garde[2].

Por sorte, inesperadamente, tornou-se outro grande su­cesso de pú­blico, a mais nova re­ferên­cia do teatro do absurdo naqueles dias; costumeiramente, impregna­dos de muita doçura, de tão doce roman­tismo, tí­pico fin-de-siècle[3] eu­ropeu. Fi­gu­rando depressa entre as maio­res bilhe­terias de todos os tempos. Con­tudo, antes obra geniosa de um de­mônio ardi­loso em sua forma hu­mana, o pior deles todos.

Como era exata­mente a expres­são de Shakespeare (habitual es­tri­bilho) na sua ca­beça: “O Inferno está vazio e todos os demô­nios estão aqui.” Ele pen­sou na frase enquanto brandia a sua espada afiada, à me­dida em que tentava, custe o que custasse, abrir o bucho de outro dos seus numerosos inimigos. Anjo re­belde e dono de uma rara beleza eston­teante; que havia caído do céu junta­mente com os exér­citos de Lúcifer. Cultivando mais a ima­ginação do que o dis­cer­ni­mento dele. E ele viu mesmo, com os seus olhos azuis, que a terra haveria de comer um dia, Satanás cair como um raio flamejante do céu bem na frente dele. Na tam­bém san­grenta batalha psicológica en­tre as hostes ce­les­ti­ais do Se­nhor. Para quem fosse um estudi­oso da psique hu­mana era um prato cheio (e como era).

Entretanto, os críticos especializados no assunto levaram a coisa a sé­rio, apro­veitaram-se e publicaram somente coisas lisonjeiras nos jornais euro­peus. Como essas:

Se arde, é pimenta; cer­ta­mente, que até me­rece uma se­gunda tem­po­rada en­tre nós.

Quanto vale o seu tempo? Digo eu, que cada mi­nuto vale a pena hoje em dia. Nem perca ele, ainda por cima, gas­tando a sola do seu sapato de couro, deveras caro, pro­cu­rando ou­tras por aí.

Ob­tém o êxito total; cria asas, atinge as alturas e, rapi­da­mente, atra­vessa as nossas fron­teiras.

Ir­ra­ci­o­nal, de­mo­níaca e gro­tesca.

Enfeitá-los-iam com as­pec­tos poé­ti­cos e flo­reios mil por vários dias consecutivos ainda, ora em notas lacônicas, ora em longas pon­dera­ções. To­dos eles estando em­bas­ba­ca­dos e in­tei­ra­mente de co­mum acordo em vá­rios que­si­tos; in­clu­sive nos tó­picos téc­ni­cos de úl­tima ge­ra­ção, so­bre­tudo, naque­les desti­na­dos aos es­tu­dantes uni­versi­tá­rios da tra­di­cional Sor­bonne, an­tigo palco de de­ba­tes aca­lo­rados en­tre je­suítas e jan­se­nis­tas em Paris.

Es­tam­pou como manchete, ainda muitos meses depois do ocorrido, em letras garrafais na sua pri­meira pá­gi­na, o An­zei­gen­blatt für die Großher­zogliche Stadt Ba­den[4]:

Per­feito, senão mais do que per­feito.

Diriam esses crí­ticos nos seus al­far­rábios um tanto tor­pes ou en­tor­pe­ci­dos, de que era mesmo algo que estava em cons­tante meta­mor­fose; me­ta­mor­fose cam­ba­le­ante inclusive. Con­tudo, ape­nas a­que­les que ti­nham por hábito fa­zer as suas ano­ta­ções particulares an­tes nos gran­des e pe­sa­dos com­pên­dios empo­ei­ra­dos. Para de­pois, por puro pra­zer e deleite pessoal, abusando-se de uma incomensurável quantidade de me­tá­fo­ras re­ple­tas de pala­vras porno­gráfi­cas de baixo calão, resu­mir o escarcéu todo nos seus que­ri­dos diários; que fica­vam tran­ca­dos na ga­veta da cabe­ceira da cama à sete cha­ves junta­mente com as iluminuras eróticas, os lu­bri­ficantes aromá­ticos de sabo­res exóticos (que, cos­tumei­ramente, en­chiam-lhes as bocas de saliva) e os seus brin­quedi­nhos sa­domasoquistas de cortiça portuguesa, do Quercus suber, pre­feri­dos. En­fim, so­mente um pouquinho mais excitante do que o Kamasutra ou as outras formas, também deveras inte­res­santes, independen­temente do fenó­tipo sexual, de se passar o tempo en­tre qua­tro pa­re­des; bem pouco, muito pouco, quase nada mesmo.

E que, de fato, não pre­ten­dia mesmo apre­sentar indivíduos nor­mais no palco da vida, muito menos grandes heróis, mas aqueles que, sobre­tudo, eram verda­deiramente huma­nos, tam­bém co­me­tiam er­ros e gran­des falhas (verdadeiros canalhas) — ex­por-lhes as vís­ceras quen­tes ainda que os ditos-cujos ficas­sem cho­cados com tama­nha brutali­dade explí­cita na sua frente; com tanta so­berba nudez. Em­bora os dra­ma­turgos soubes­sem de que faz parte (até intrínseca) da natu­reza humana desejar que os heróis deles, sejam sempre belos e perfeitos. No entanto, nada realista. Nem um pouco. No­ta­bi­li­zando-se, porém, antes pela ve­ne­ra­ção cons­tante da ex­pres­si­vi­dade tra­vestida de arte.

As atu­a­ções con­tunden­tes, do pro­tagonista e dos seus também talentosos an­ta­go­nistas, inclusive che­ga­ram a co­lher efu­sivos aplau­sos da as­sis­tên­cia; todos de pé, jun­tos aos ber­ros, em bando bar­re­gando en­san­de­ci­dos ova­ções elo­quen­tes que eco­aram em in­ten­sas on­das so­no­ras pelo ar. Va­gas gran­des e revol­tas, foram de fato mesmo marou­ços es­ton­tean­tes, quase tsu­na­mis, in­tensos ma­re­mo­tos azuis onde a es­puma branca voou bem alto e que sa­cu­diram com exa­ge­rada vi­o­lên­cia as pa­re­des, as co­lunas e os incontáveis bem desenhados bala­ústres tam­bém de már­more de Car­rara, com fundo branco e veios azul-cinza, do seu en­torno. E não só com­pro­me­tendo as mais frou­xas cons­tru­ções, aque­las que ha­viam sido fei­tas às pres­sas pe­los cons­tru­to­res. Além das grossas pare­des ex­ternas do im­po­nente te­a­tro ainda as mais lu­xu­osas edi­fi­ca­ções ne­o­clás­sicas de ho­mens muito im­por­tan­tes e po­de­rosos pró­ximas do epi­cen­tro e que também se en­con­tra­vam pro­fun­da­mente en­crava­das no solo; bem postas no meio do ca­mi­nho delas. Ba­lan­çar-se-iam to­das, sem dis­tinção. O vi­gor, como algo nunca an­tes visto por al­guém, no meio artís­tico, con­quanto que fosse ele até es­pon­tâneo, se­ria qual­quer coisa exor­bi­tante e, de todo, fora do co­mum.

Em­bora exis­tissem, é ver­dade, tam­bém outros pontos de vista, até bem menos dis­tor­ci­dos e sombrios no salão. Certamente, que desconfortável; situação, talvez, até perigosa, já que ele brin­cava sem medo com o fogo em intensas labaredas. Quando nem sem­pre o que a pla­teia via era exa­tamente a ver­dade; sem per­ce­ber, sus­ce­tí­vel às si­tu­a­ções ma­lig­nas que a ro­deava, era presa fácil do ilu­si­o­nismo nas suas mãos; mesmo sem piscar, no abraca­da­bra, quando justa­mente o en­torpe­cido co­elho branco, com os olhos verme­lhos dele tam­bém arrega­lados, saía da car­tola mágica bem na frente da­queles olhares in­cré­dulos. Por sorte a dele, distraía-se facilmente.

Na verdade, seria até algo um tanto que pro­saico. Com certeza que sim, mas não no sen­tido de não ter quase nada, muito pouco a nos dizer ou ainda en­treter. Antes sim, qual­quer coisa a ní­vel da alma, ta­lhada sob me­dida, fácil e despren­dida; muito até, por demais além da conta.

De­certo que (de todo) fora da nor­mali­dade.

En­tre­tanto, por ora, caro leitor, não se assuste, a despeito da palidez mórbida de suas faces, que há tempos não se tingiam mais de cor-de-rosa, não tenha medo algum dele e fique bem tran­quilo. Pelo menos, até onde se soube e como disseram mesmo as doces criancinhas de olhi­nhos azuis, cabelinhos dou­rados e cacheados acompanhadas por seus pais nos cor­re­dores late­rais du­rante a sa­ída, apesar de ter sido real­mente uma coisa bem es­pan­tosa, tam­bém não foi ne­nhuma re­presen­tação mani­festa do mundo so­bre­natu­ral, uma terrível assombração. Parente aos fan­tas­mas da ópera, es­pertos e frajolas, mas nem tão ca­ma­radas as­sim e que assom­bra­vam o maqui­nista-chefe e os outros funcionários (desde os do ves­tu­ário até os da por­taria, as baila­rinas do corpo de baile, as suas mães e as lanter­ni­nhas) nas dependências da Ópera Nacional de Paris com grande acui­dade naqueles tem­pos de tão in­tensa doce degeneração da Belle Épo­que[5]. Onde fervilha­vam as fan­tasias em­ba­ladas pelas his­tórias fantásti­cas dos ma­ri­nheiros estropia­dos que volta­vam, com imensas saudades, depois de muito tempo ausen­tes, da Indochina e de outras terras para lá de dis­tantes e exóticas.

Quando na dança maca­bra deles, cheia de grandes ta­lentos, persuasi­vos e cheios de re­quinte es­palhavam tortuosas som­bras por todas as pa­redes. E ainda mur­mu­ra­vam palavras ino­mi­náveis; certa­mente, que invoca­das das en­tra­nhas do in­ferno e ate­a­das pelo pró­prio Bel­zebu em pes­soa; querendo se fa­zerem ouvir, alto e bom tom, du­rante os en­saios ge­rais e pedi­rem para que as cantoras líricas e as mais belas bailarinas do corpo de baile levas­sem rosas e acen­dessem velas, tam­bém ver­melhas, diari­a­mente, na Cruz das Al­mas.

Ou pior ainda, como num ou­tro terrível pe­sadelo noturno, e sem fim, cin­gido por inú­meras cri­a­turas ma­lignas, qual­quer dis­tinta e ab­surda enti­dade ad­vinda com muito mais fome das som­bras obscuras do sub­mundo. De quando em quando man­cando com difi­cul­dades, que­brando bar­rei­ras, supe­rando de­safios, querendo as­sombrá-los com a sua pre­sença es­pec­tral e tão me­donha; em certas ocasi­ões se vestindo de esqueleto, ou­tras delas se co­brindo de pa­nos, pre­fe­ren­ci­al­mente, bran­cos, imacu­la­da­mente cân­di­dos e engomados com amido afim de se pa­re­ce­r, na maior elegância, bem me­nos assus­ta­do­ra para eles por não ter mais os cani­nos, muito menos ne­nhum dos ou­tros den­tes na boca, nem os sedosos lon­gos fios de cabelo de negro nan­quim para, com pompa, or­na­r-lhe o outrora tão pe­sado ca­beção; caldeirão fervente que já fora cheio de vida no passado. Dando sig­nifi­cados, os mais va­riados deles, aos ru­ídos da noite; como cos­tu­mam fa­zer, sem ce­ri­mô­nia al­guma, aden­tro da mais com­pleta es­cu­ri­dão, pon­tu­al­mente, de­pois da meia-noite, após ter se dado corda e das tris­tes doze bada­la­das, cheias de me­lo­dia, do antigo car­ri­lhão ale­mão de pe­destal, aque­les fan­tas­mas, se­res co­muns da vida após a morte e tão aflitos que va­gueiam pela noite morta, sem con­se­guir dor­mir, com os seus gritos e la­men­tos do mesmo modo inten­sos e sem­pre, tão, cho­ro­sos; es­pon­tâ­neos como são os ber­reiros — mas eles não se di­vertem muito, em geral, não; nem um pouco.

Porém, não foi nada disso, tratava-se de algo mais hu­mano, tinha vida; tam­bém ha­viam sido pes­soas tão ver­da­deiras como todos nós an­tes de fica­rem to­tal­mente li­mi­ta­das à ma­gia de um pas­sado con­fi­nante. Constituídas de carne, ossos e san­gue (fator Rh ne­ga­tivo ou po­sitivo) de nossa mesma idêntica com­plei­ção. Ten­tando se recompor, den­tro das par­cas possi­bilidades dis­po­ní­veis, o máximo pos­sí­vel. Rein­ven­tando-se, constan­temente, a si mes­mas e ao ve­lho uni­verso em que vi­viam, sem nem se saber o porquê das coisas, sem ter a mí­nima ideia de nada; nem a de que vive­mos todos espremidos sobre uma pequena rocha no meio de uma galá­xia espi­ral, den­tre mi­lhões ou quem sabe mi­lhões de tri­lhões delas só no espaço ob­servável pelos telescó­pios; me­nos que um grão de areia so­mente, muito me­nos do que isso, quase nada, ou pior ainda, nada mesmo — isso sem levarmos em conta a sua maioridade (ou se­nilidade), qua­torze bi­lhões de velinhas já apagadas. De ge­ração em ge­ração reco­me­çando no­va­mente; passo a passo. Tal­vez um cas­tigo, outro deles — por infeli­ci­dade grande de­mais, triste jornada sem retorno.

So­mente os tra­jes delas, estes sim, é que eram dis­tin­tos dos nos­sos; estar-se-iam, no dia a dia, vesti­das de ou­tra ma­neira, mais reca­tada e re­bus­cada. Cheias de fru­fru com cheiro de bálsamo de zim­bro e eucalipto. Elas com mui­tas ren­das deli­ca­das e baba­dos mil so­bre­pos­tos com gran­diosa aptidão, sempre com as suas som­bri­nhas forradas de tafetá, orladas com fran­jas de seda, revestidas com seda chinesa e intrincadas rendas de bilro. E eles, não menos garbosos do que elas, com benga­las de ma­deira exó­tica imitando bambu e castão em ouro relevado com deco­ração estilo rocaille[6] nas mãos. Re­fletindo o seu status para quem bem qui­sesse vê-los. E não usando je­ans rasga­dos, co­ber­tos da ca­beça aos pés com acessórios da moda e osten­tando etiquetas de mar­cas co­merci­ais fa­mo­sas, so­bre­tudo, ca­rís­si­mas. Pa­re­cendo árvo­res na­ta­linas arti­fi­ciais en­fei­tadas com muitas lu­zi­nhas pisca-pisca co­lo­ri­das im­por­ta­das aos mi­lhares em con­têineres todos os dias: Made in China[7].

No fabuloso teatro do absurdo, de todo, envolvido pelas brumas sua­ves e român­ticas do passado, encravado no coração pulsante de Baden-Ba­den, os espec­ta­dores, todos estando con­for­ta­velmente instalados em suas ca­deiras, sem tugir e nem mugir uma só pala­vra, em qualquer idioma que fosse, ainda in­capa­zes até de as­soprarem ou de in­ven­tarem, de última hora, qual­quer ou­tra mí­nima es­pécie de som, concentra­dos e em total silên­cio, ti­nham todos a leve im­pres­são de se en­con­tra­rem por algum tempo, numa ín­fima par­cela dele, apri­si­onados den­tro de um so­nho colo­rido. Numa noite de gala, a última de­las. De todo compenetrados com aquele mundo to­tal­mente ex­tra­ordi­ná­rio, outro re­pleto de vi­o­letas nas janelas, ou­tra dimen­são cheia de suaves nuances es­ver­deadas na li­nha do horizonte, num uni­verso pa­ra­lelo e ama­relo, mul­ti­ver­sos mul­ti­co­lo­ri­dos, universo em cima de universo, mundos infinitos, onde tudo estava sendo descrito com uma ri­queza de de­ta­lhes e emo­ções im­pres­si­onan­tes. Atra­vés do filtro das poten­tes lentes dos seus bi­nó­culos em bronze, de longo al­cance, or­nado com delicados de­ta­lhes em ma­dre­pé­rola (ma­terial idêntico ao do qual eram feitos os leques das ma­da­mes[8] e das graciosas ma­demoi­sel­les[9], or­nados com capri­cho­sos dese­nhos de va­poro­sas paisa­gens chine­sas cheias de pagodes), acre­di­ta­vam es­ta­rem vendo, de todo, con­ven­ci­dos, sen­tido e con­tem­plado exa­tamente os mes­mos sen­ti­men­tos e sensa­ções dos quais pade­ciam, cus­to­sa­mente, no seu dia a dia. Se­gu­ra­mente, aquela imensa dor que todos sen­tem, aquela que doí lá no fundo e que aper­tava mais dentro deles também; era estra­nho, é bem ver­dade, mas as suas vidas tris­tes e des­pre­zí­veis, de al­guma forma (incompreensível), asse­me­lhavam-se muito à da dele.

Quando as tão in­con­veni­en­tes e de­ve­ras mo­les­tá­veis im­pre­ci­sões, des­trui­do­ras de so­nhos, per­ver­ti­das, eru­di­tas, pesa­das como den­sos cal­cá­rios, si­tua­vam-se cada vez mais pró­xi­mas da rea­li­dade; aquela área ne­bu­losa e meio cin­zenta en­tre a ver­dade e a fic­ção, mas, mis­teri­o­sa­mente, nin­guém sabe di­zer o porquê das coisas se­rem assim esqui­si­tas, muito co­ne­xas entre si. Tor­nam-se quase reais aque­les eventos, por demais, ab­surdos ou tolos e que so­mente são cora­jo­sa­mente pen­sa­dos de ma­neira meio levi­ana, zom­be­teira, ali­e­nada, den­tro do campo da fic­ção. Se­me­lhan­te qualquer nar­ra­tiva ou his­to­ri­e­ta am­bí­gua e gro­tes­ca de algum best-sel­ler mais ar­ro­jado da nossa atu­a­li­dade e que inun­da as livra­rias dos shop­ping centers com um vo­lume imenso de pala­vras im­púr­beres. Seria ver­dade ou mentira, sonho ou alucina­ção? Todos sempre have­riam de ter as suas dúvidas, até o final do espetáculo — bem, qualquer coisa é melhor do que nada; decerto, que muito mais.

Onde os tons bas­tante vi­va­zes de lima e de qui­nacri­done-ma­genta, dando-lhe vá­rias to­na­lida­des que bi­zar­ras ou ber­ran­tes, dentro do es­pectro do car­mim e do ruivo, de­veras cha­ma­ti­vas, se­riam elas cheias de per­so­na­li­dade, co­lo­riam a es­sên­cia da­quele ho­mem por as­saz sub­misso. Co­res cho­cantes que tinha sem­pre ao al­cance das mãos dele, raros óleos de li­nhaça gra­xos e untu­o­sos, tinta de boa qua­li­dade, não se­ca­da ao sol, ade­qua­da­mente di­lu­ída e den­tro da pro­por­ção exata dos an­ti­gos re­cei­tu­ários da aca­de­mia ita­liana: em te­re­bin­tina e mé­dium sic­catif venetian[10] pro­du­zido com mas­tique de Chios e al­vai­ade de chumbo.

[1] Índice dos Livros Proibidos. Traduzido do latim.

[2] De vanguarda. Traduzido do francês.

[3] Fim de século. Traduzido do francês.

[4] Boletim da cidade Grão-ducal de Baden. Traduzido do alemão.

[5] Bela Época. Traduzido do francês.

[6] Rococó. Traduzido do francês.

[7] Fabricado na China. Traduzido do inglês.

[8] Senhoras. Traduzido do francês.

[9] Senhoritas. Traduzido do francês.

[10] Meio secativo veneziano. Traduzido do francês.

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