O Sangue dos Nobres
4 Capítulo 4 – Os Nobres
Notas iniciais
As horas seguintes de silêncio e pura escuridão foram as mais angustiantes das vidas de Bastian e Susan, eles não viam nada, e isso os atordoavam e os desesperavam por completo, porém após algum tempo eles avistaram quatro pontos no escuro, dois de um dourado muito brilhante e os outros dois de um verde claro resplandecente.
Aquilo eram olhos.
– Ai meu Deus isso não está acontecendo. – gritou Bastian.
– Droga. – sussurrou Susan para si mesma, na tentativa de conter um grito de desespero.
– Bem, olha só o que temos aqui Rusth. – disse uma voz extremamente grave e assustadora.
– Dois humanos jovens Feng. – respondeu uma segunda voz, que era grave também, não tanto quanto a primeira.
– Quem são vocês? – perguntou Bastian, claramente desesperado.
– São Nobres. – respondeu Susan com voz trêmula, ela claramente estava amedrontada, mas tentava conter o medo ao máximo.
– A sua amiga acertou em cheio. – respondeu a voz mais grave.
– Eu sei que vocês são nobres. – disse Bastian com impaciência, apesar do medo eminente em sua fala. – Eu quero saber quem são vocês!
– Esqueci que os humanos não tem a habilidade de enxergarem bem no escuro. – disse a voz menos grave.
– Vamos iluminar um pouco a visão deles. – disse a voz mais grave e assustadora.
De repente o local se clareou rapidamente e Susan pode perceber uma tocha grande presa no chão do lado dos animais.
Tratava-se de um enorme Tigre de Bengala e um grande Lobo Cinzento.
Os olhos de Susan se arregalaram, e ela não pode conter o medo e soltou um rápido grito que ela reprimiu rapidamente mordendo os lábios, e seus olhos começaram a lagrimar.
– O que foi? – perguntou o tigre, com uma expressão de escárnio. – Está com medo de nós? – ele era o dono da voz extremamente grave e assustadora.
– O que você acha que iremos fazer com vocês? – perguntou o lobo fingindo inocência.
– Por favor não matem a gente. – implorou Bastian.
O tigre soltou uma risada que deu calafrios em Susan, porém o que ele e seu amigo lobo não haviam percebido é que ela havia conseguido se soltar discretamente das cordas que prendiam suas mãos, além de ter conseguido afrouxar as amarras dos seus pés, podendo se soltar a hora que bem quisesse, apesar de teoricamente estar livre ela ainda precisava fingir estar presa até bolar um plano de sair com Bastian de lá com vida, sem que os dois nobres fossem em seu encalço, o que a levou a concluir que ela precisaria mata-los, mas como? Ela não tinha arma alguma que pudesse ajuda-la naquele momento, ela precisava pensar em uma estratégia rápida, temia de que a paciência dos nobres estivesse no fim e que em breve eles decidiriam mata-los.
– Vocês humanos nos caçam a mais de cem anos, colocando nossas cabeças a prêmio, nos matam sem pena quando podem, e pedem para que nós não matemos vocês? – disse o lobo, zombando de Bastian.
– Eu e Rusth estávamos lá, na Grande Guerra, e vimos as atrocidades que sua raça fez conosco, por causa de uma briga fútil que gerou tanto derramamento de sangue. – falou o Tigre.
– Eu e Feng sofremos muito desde então, neste mais de um século de vida sofrida a única coisa que nos mantem vivos é a sede de vingança que temos de vocês humanos. – disse Rusth com o ódio estampado em seu olhar.
– E vamos derramar todo o sangue humano que pudermos para vingar tudo o que vocês fizeram a nossa raça. – disse Feng.
Susan olhou rapidamente para Bastian, na tentativa de alerta-lo que ela havia conseguido se soltar, e com o olhar ela recebeu uma resposta de que ele também havia conseguido se soltar, e que esperava apenas o momento certo de atacar.
Eles não poderiam falar nada abertamente, precisavam agir com a intuição e entrosamento, este último era crucial para o sucesso da fuga deles.
O tigre o lobo haviam se afastado um pouco da tocha acessa que estava cravada no chão, Susan se perguntava incessantemente como eles haviam conseguido acende-la visto que possuíam patas e não mãos, que seriam teoricamente melhores para esse tipo de tipo de trabalho, mas logo desistiu de tentar descobrir, e ela não iria perguntar, sobreviver era o que mais importava naquele momento.
– Agora já chega deste falatório, não estou com muita paciência hoje. – disse Feng que claramente parecia ser o líder. – Sintam-se felizes, pelo menos terão uma morte menos dolorosa do que muitos outros que já matei no passado.
Susan e Bastian estremeceram ao ouvir isso, e souberam que não havia mais como adiar, precisavam agir.
Rapidamente eles se desvencilharam das cordas que os amarravam e correram um na direção do outro, os nobres ficaram desnorteados com o que viram, não esperavam que os dois jovens conseguissem se soltar das cordas e ficaram em posição de alerta, ao invés de investirem contra os humanos logo de cara, como Susan achava que seria.
– Bastian, os distraia enquanto eu tento pegar a tocha, é a nossa única chance de conseguir sairmos vivos daqui, precisamos de uma arma. – disse ela sussurrando.
– Se eu correr sozinho apenas um deles virá atrás de mim e outro esperará você tomar alguma ação, vamos juntos e quando puder mude a trajetória para engana-los. – ele sussurrou de volta.
– Se vocês pensam que sairão com vida daqui só porque conseguiram se desvencilhar das cordas? – perguntou Feng, claramente com raiva.
– Esqueçam, vocês não possuem arma alguma, somos mais velozes que vocês, mais fortes, e mais espertos. – disse Rusth.
– Vamos ver quem é realmente esperto. – disse Susan. – Agora Bastian. – e ambos correram na direção contrária dos animais, tendo estes últimos em seu encalço logo que imediatamente.
– Tolos, achando que podem escapar. – disse Feng.
– Vá para a esquerda agora, vou tentar pegar a tocha. – disse Susan ainda correndo.
Bastian obedeceu e virou a esquerda correndo em ziguezague entre as árvores, quanto mais ele se afastava mais escuro ficava, então ele precisava contar com que Susan conseguisse a tocha para que eles pudessem ter chances de fugir.
O grande problema era como se livrar dos dois animais nobres que os perseguiam.
Susan corria em direção a tocha para pega-la, Feng percebeu a manobra um pouco tardiamente e voltou para correr atrás dela, Rusth continuava a perseguir Bastian, o plano por enquanto estava indo bem.
Quando colocou as mãos na tocha acabou demorando três preciosos segundos para arranca-la do solo e gritar para que Bastian voltasse, ela esperava que ele tivesse conseguido escapar do lobo, pois estavam muito próximos de fugir com vida daquela floresta traiçoeira.
Afaste-se ou eu queimo seus belos pelos listrados. – disse Susan apontando a tocha para o grande tigre que rugia com muito ódio para ela, mas sem arriscar a se aproximar dela.
Bastian chegou segundos depois, ficando ao seu lado e ofegando muito depois de tanto correr, Rusth, o lobo, chegou logo depois, ficando ao lado de Feng, sem demonstrar cansaço, com seus olhos brilhando de raiva, assim como as de seu amigo.
O olhar deles, principalmente de Feng, assustava e fazia Susan tremer de medo, mesmo que ela não demonstrasse.
– Bastian, já sei como nos livrarmos dele. – disse Susan em voz alta, para que seus inimigos ouvissem alto e claro.
– Como? – quis saber Bastian.
Ela sussurrou algumas palavras no ouvido do amigo, sem perder a atenção nos nobres que os encaravam com ódio e sede de sangue.
Assim que ela terminou Bastian sorriu e assentiu positivamente com a cabeça.
– Você é demais sabia? – disse ele.
– Deixe os elogios para depois que sairmos vivos daqui. – respondeu Susan.
– Não importa o que vocês planejem, não sairão vivos daqui, e só pela insolência de vocês em tentar fugir, irei mata-los da forma mais lenta e dolorosa possível. – rosnou o tigre.
– Pronto, agora. – gritou Susan.
Susan e Bastian correram juntos em direção a uma grande árvore que estava a alguns metros distantes deles, e os animais correram imediatamente atrás, reiniciando a perseguição.
Ambos deram um salto assim que passaram exatamente do lado do tronco da árvore e continuaram a seguir o caminho correndo, porém o tigre o lobo não saltaram, correndo normalmente quando passaram do lado do tronco da árvore, e isso foi o maior erro deles.
Em três segundos ambos os nobres estavam presos em uma rede no topo da árvore, que devia ter quase dez metros de altura.
Eles haviam caído em uma armadilha feita por um caçador qualquer, e pela grossura da rede, era uma armadilha especial para animais nobres.
Susan e Bastian enfim estavam livres.
– Susan você conseguiu. – disse Bastian dando um apertado abraço em sua amiga.
– Nós conseguimos. – corrigiu ela, abraçando-o de volta com um braço, enquanto que o outro segurava a tocha.
– Sua desgraçada, como sabia que havia uma armadilha? – perguntou Rusth, quase sem conseguir se movimentar.
– Vocês deviam saber que a floresta é cheia de armadilhas feitas para pegarem vocês nobres desprevenidos, como agora. – disse ela. — Eu já havia identificado essa armadilha no momento em que peguei a tocha, apenas esperei o momento certo para atrair vocês até ela.
– Agora vocês terão o que merecem seus cretinos. – praguejou Bastian para os nobres que tentavam sair da armadilha.
– Vamos embora, devem faltar poucas horas para o amanhecer, nós precisamos descansar. – disse Susan.
Assim ambos os amigos saíram daquela região, voltando para casa, eles conheciam bem a floresta, por isso não teriam dificuldades em achar a cidade.
Andaram por alguns minutos até que Susan conseguiu avistar algo.
– Meu arco. – disse ela com felicidade quando visualizou sua arma estirada no chão, com as algumas flechas nos arredores.
– Minha espada. – falou Bastian com alegria ao ver sua arma também no chão.
– Não fomos levados para muito longe. – disse Susan.
– O que significa que a cidade está a poucos minutos a pé. – concluiu Bastian.
– Já que estamos bem perto, não haverá problema se eu voltar até lá rapidamente. – disse Susan tomando a direção de volta.
– Está brincando não é? – perguntou Bastian incrédulo. – Vai fazer o que lá garota?
– Você vem se quiser. – foi apenas o que ela respondeu.
Bastian praguejou alguns palavrões e seguiu Susan.
Voltando a cena da batalha, os nobres continuavam tentando se soltar da armadilha, e ficaram surpresos ao ver seus algozes novamente.
– O que vocês estão fazendo aqui novamente? – perguntou Feng. – Vieram rir e zombar de nós?
– Não. – respondeu Susan apontando seu arco para eles.
Ao verem o arco com uma flexa pronta para ser disparada na direção deles, ambos os nobres estremeceram, e Susan os viu pela primeira vez em expressões de medo e angustia.
– É eu sei, todos nós temos medo da morte. – disse ela. – Quando estamos próximos dela nos entregamos ao medo e a angústia, não importa o quão sofrido seja nova vida, queremos continuar vivendo, a morte nunca é bem vinda.
– O que você sabe sobre uma vida sofrida sua hipócrita? – rosnou Feng, com sua voz demonstrando ansiedade. – Você não deve ter nem vinte anos, eu pelo contrário já tenho dois séculos de vida, Rusth também, perdemos muitos amigos que tiveram seus sangues derramados injustamente e de maneira cruel na Grande Guerra e após ela, até os dias de hoje, nós perdemos tudo, nós sabemos o que é ter uma vida sofrida. – completou o tigre.
– Cale a boca seu nobre desprezível. – gritou Susan de volta para Feng que desta vez estava com uma expressão séria no rosto. – Você pensa que é o único ao lado do seu amiguinho por aqui que perdeu tudo? Eu assim como Bastian também perdemos tudo, somos filhos bastardos e fomos abandonados pelos nossos pais aos sete anos, condenados a viver nas ruas de Roston sem nenhum direito, passamos fome, frio, humilhações, fomos espancados, rejeitados e desprezados por todos porque é assim que um bastardo está fardado a viver. Eu não sei quem é minha mãe, meu pai me odeia e hoje só sobrevivo porque tenho Bastian e outro amigos bastardos pelo qual valem a pena viver e lutar. – Susan deu uma pausa para recuperar e fôlego, voltando a falar em seguida. – Então não me venha dizer que eu não entendo de sofrimento, pois o mundo não gira em torno de você meu caro, ao invés de alimentar o ódio você devia alimentar o amor, eu posso garantir que você viverá muito melhor assim, o ódio apenas nos destrói.
– É muito fácil falar. – respondeu rispidamente Feng.
– Não, não é fácil não, é mais difícil do que pensa. –respondeu Susan no mesmo tom de rispidez. – Acha mesmo que eu já não tive vontade de me vingar do meu pai por ter me abandonado? Ou de ter virado uma marginal na cidade? – Ele ficou rapidamente em silêncio. – É muita ingenuidade para um tigre nobre de duzentos anos de vida. – respondeu ela.
Feng ainda estava com expressão de raiva, mas por várias vezes sua expressão acusava reflexão a cerca do que Susan havia falado, e isso deixou a garota muito satisfeita.
– Vamos logo, acabe com isso. – disse ele.
– Serei rápida. – disse ela pronta para atirar.
Segundos depois, ela atirou, certeiro.
Um barulho de impacto formou-se quando os dois animais se chocaram contra o solo.
Os animais se desvencilharam da rede.
– Ficou louca, quer nos levar pra morte depois de termos escapado com muita dificuldade dela? – quis saber Bastian segurando fortemente os ombros dela.
– O quê? – disse Rusth.
– Você não ia nos matar? – perguntou Feng, muito confuso.
– Eu já disse que alimentar o ódio apenas nos destrói. – falou Susan. – Se eu matasse vocês eu estaria sendo hipócrita, algo que jamais serei, soltei vocês porque acredito que vocês podem mudar, ficar se corroendo por uma guerra lendária que aconteceu a um século atrás não vai ajudar vocês, vivemos outros tempos agora, quase todos os homens odeiam vocês, e vocês fazem o mesmo, mas nem todos são iguais, eu entendo seu sofrimento, nenhum de nós está tendo a vida com que sempre sonhamos é verdade, mas viver ao lado de aqueles que se importam com você é o grande prazer da vida. – disse ela segurando a mão de Bastian, que retribuiu o aperto. – Provavelmente nunca mais nos veremos, mas eu espero que vocês possam ouvir minhas palavras, adeus. –disse ela virando-se e indo embora de mãos dadas com Bastian.
Feng e Rusth tinham expressões pensativas e tristes em seus rostos, e em silêncio sumiram na escuridão da noite na floresta.
Susan e Bastian voltaram para a cidade, eles precisavam voltar para a cabana discretamente, provavelmente Brandon estaria acordado e a espera deles, e os outros procurando por eles, eles teriam de se explicar com o líder do bando.
Fale com o autor