O Sangue dos Nobres
12 Capítulo 12 – A Surpresa
Notas iniciais
– Chegou a hora. – anunciou o tigre.
Susan levantou-se com dificuldade, ainda com as mãos amarradas e seguiu Feng para fora da caverna, já havia anoitecido por completo, ela não conseguia enxergar absolutamente nada na caverna, por muitas vezes acabou tropeçando, quase caindo de cara no chão, e Feng parecia não se importar muito com aquilo.
Do lado de fora a visão de Susan melhorou consideravelmente, já não era mais lua cheia, mas o satélite natural ainda brilhava bastante e com a ajuda das estrelas que enchiam o céu de vida em meio às trevas clareavam ainda mais a floresta densa e fria.
A maioria das árvores estava perdendo suas folhagens, algo natural, visto que não faltava muito para o inverno, o clima também já estava bastante frio, fazendo com que Susan se sentisse congelada em meio às roupas surradas e sujas que usava.
Andaram por cerca de dois minutos até chegarem a uma árvore que se destacava dentre as demais daquela região, tinha o tronco mais espesso e parecia ser bem mais antiga.
– Fique encostada de frente para mim nesta árvore. – ordenou Feng.
Susan caminhou até a árvore em silêncio, ainda com a mente vazia, adotando uma expressão serena e neutra no rosto.
– Excelente, prometo que serei rápido, vou acabar com isso com apenas um golpe. – disse o tigre.
Susan concordou com a cabeça, neste momento ela não conseguiu mais se conter, e começou a chorar copiosamente, entregando-se ao desespero e a angustia, ela sabia que estava muito próximo de seu fim, e assim como qualquer pessoa comum, tinha medo da morte, afinal era uma viagem sem volta para o desconhecido.
Repentinamente o lobo cinzento Rusth surgiu no local, e colocou-se a poucos metros de Feng e sentou-se sob as patas traseiras, com o olhar fixo em Susan, ela não viu raiva no olhar, apenas indiferença, o que a fez se sentir pior do que estava.
– Os outros não irão assistir? – perguntou Susan em meio a soluços desesperados.
– Não, só permiti que Rusth assistisse para caso de algum imprevisto. – respondeu Feng.
Susan apenas assentiu positivamente com a cabeça e fechou os olhos.
– Acabe logo com isso. – disse ela por fim.
Um silencio agonizante se fez naquele lugar por longos quinze segundos, Susan lutava para manter os olhos fechados, não queria ver o momento em que seu carrasco lhe desferisse o golpe final, Feng estava a cerca de oito metros de distancia de Susan, o que a fez cogitar uma fuga desesperada, mas com as mãos amarradas para trás ela perderia facilmente o equilíbrio e seria apanhada novamente, despertando a fúria de Feng, fazendo com que sua morte fosse lenta e terrível.
Não, ela preferia ter uma morte rápida e menos dolorosa.
Feng enfim resolveu agir com um grande e amedrontador rugido e correu na direção de Susan como uma flecha pronta para atingir o seu alvo. Susan sentiu que o momento final havia chegado, os paços do tigre estavam se aproximando cada vez mais e isso a fez se preparar para levar o golpe mortal.
Um. Dois. Três segundos se passaram.
E o silencio voltou a reinar.
Quatro. Cinco. Seis segundos.
O silêncio não foi quebrado.
Sete. Oito. Nove. Dez segundos.
E o silêncio continuava.
Susan perguntou-se se já estava morta, se o ataque de Feng fora tão rápido e eficiente que ela sequer havia sentido algo. Por conta disso resolveu abrir os olhos, e quando fez, viu a cena mais intrigante de sua vida.
A enorme e mortal pata de Feng estava a menos de dois centímetros de seu rosto, ela estava equilibrando-se apenas sob as patas traseiras e seu rosto estava apenas três centímetros de distancia do rosto de Susan, e sua expressão revelava extrema confusão, e até certo remorso.
Susan não disse nada, nem se moveu, apenas arregalou os olhos com a surpresa.
– Algum problema Feng? – perguntou Rusth levantando-se ao ver a estranha cena.
– Eu... Não... Consigo. – disse Feng.
– Não consegue o que? – perguntou Rusth já sabendo da resposta de seu mestre.
– Eu não consigo matar esta humana, eu não sei porque, mas não consigo. – disse Feng voltando a ficar sob as quatro patas e afastando-se alguns centímetros de Susan.
– Então me permita que eu faça a execução por você. – ofereceu-se Rusth.
– Não. – descartou Feng. – Eu sinto que essa humana deve viver, mas não sei por quê.
Susan continuava em silêncio, extremamente aliviada e confusa com tudo aquilo, parecia que os ventos estavam voltando a soprar a favor dela.
– Vire-se de costas. – ordenou Feng a Susan.
O medo voltou a tomar conta da garota, o que será que ele iria fazer? Mesmo assim ela obedeceu sem mais questionamentos.
Em um rápido golpe Susan enfim pode ter suas mãos livres novamente, aquele gesto só poderia significar uma coisa, ela estava livre.
– Vá embora daqui, você está livre. – disse Feng.
– Isso é sério? – perguntou Susan ainda um pouco desconfiada.
– Vá logo antes que eu me arrependa. – disse o tigre secamente.
Em um ato instintivo e de extrema gratidão Susan agachou-se um pouco e deu um apertado abraço em Feng, fazendo com que o tigre ficasse extremamente surpreendido com o gesto, assim como Rusth, que chegou a ficar em posição de alerta para ataca-la.
– Muito obrigada mesmo, eu prometo que você não irá se arrepender de ter poupado minha vida. – disse ela desfazendo o abraço e se afastando alguns passos de Feng.
– Eu espero que sim. –disse ela com certa amargura.
– Eu só queria poder levar meu arco e a espada de Bastian de volta para a cidade, seria possível?
– Ambos estão na caverna. – disse Feng. – Rusth irá pegar para você as armas de batalha.
Depois de ter o arco e a espada em mãos, Susan começou a fazer o caminho de volta para a cidade, sozinha, não precisava mais de ajuda, ficou tanto tempo na floresta nos últimos dias que ela já conseguia entrar e sair da mesma sem se perder.
Ela agora estava voltando para seus amigos, seu bando, para aquelas pessoas que davam sentido a sua vida.
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