O Sacrifício da Sétima Lua

4 Terceiro Capítulo: La Nación


Notas iniciais
Olá, sejam bem vindos!

"Cansado de perder suas folhas, o camaleão saiu de cima do outono."

— Marina Colasanti.

***

— Aonde você vai? — Genevieve perguntou levantando os olhos do livro que lia ao ver Logan passar pela sala como um vulto.

Esta foi a última coisa que Logan ouviu antes de sair de casa e sequer respondeu, fez um sinal com as mãos como se dissesse "deixa pra lá" e bateu a porta da frente. Atravessou a rua vazia sem ter certeza do que estava indo atrás: apenas estava. O instinto que percorria seu corpo naquele momento estava adormecido desde quando estava no teatro. Iria bater na porta daquela casa que tanto olhava pela sua janela. Não sabia quem iria abrir. Ao se aproximar o bastante para estar na varanda da casa e encostar sua mão na porta, ele desfez o punho e deu as costas, prestes a desistir. Porém, seu íntimo gritou novamente, então ele bateu três vezes e viu-a tão bela quanto da primeira vez.

Julieta soltou sua mão e pigarreou.

— Eu vi você. — ela disse e Logan surpreendeu-se por ela não carregar sequer um quê de timidez. — Hoje, no teatro.

Ele olhou para baixo e soltou um sorriso de canto.

— Minha irmã sempre gostou de musicais, foi ideia dela. — Logan disse levantando o olhar devagar.

Julieta assentiu e houve um silêncio.

— Por que fica na janela? — Logan o cortou.

Julieta não esperava aquele questionamento e cogitou bater a porta. Mas manteve-se firme.

— Por que você fica na janela? — ela replicou. — Sei que fica olhando pra cá.

— Sempre gostei de observação. — Logan começou. — E quando notei que havia alguém olhando também fiquei intrigado.

Julieta o olhou com desconfiança e começou a soltar a porta. Um vento frio passou e um trovão soou. Logo depois, o céu ficou iluminado por raios. Logan soltou uma risada fraca.

— Sempre chove muito por aqui? — ele perguntou segurando um sorriso.

Julieta franziu o cenho sem entender.

— Não, na verdade estamos na época mais seca no ano. — ela fechou seu roupão com mais força. — Ou deveríamos estar.

Logan assentiu e se afastou devagar.

— Boa noite, Julieta. — ele disse já se distanciando. — Foi um prazer.

Ele soltou um largo sorriso, saiu da varanda e começou a andar em direção á sua casa. Julieta saiu de sua porta e andou até a beirada da varanda, quase já na calçada e observou o rapaz se afastar com inquietude.

— Boa noite, Logan. — ela sussurrou e entrou.

Julieta trancou a porta e foi deitar-se, teria que acordar cedo na manhã seguinte. Entretanto, demorou a dormir, sua noite foi longa e emergida em pensamentos sobre o que tinha acontecido nas últimas cinco horas.

***

Brianna foi a primeira a aparecer para o café da manhã, com uma bolsa jeans pendurada em sua cadeira, ela comia torradas com geleia e suco de uva enquanto lia as notícias – dos famosos – logo pela manhã.

— Um dia farei os vestidos do Met Gala para a Jennifer López. — Brianna disse após ouvir alguém descendo as escadas.

Julieta sentou-se em frente à Brianna que ainda tinha os olhos no celular e mordiscava sua última torrada.

— Eventos de moda estadunidenses me dão sono. — Julieta comentou enquanto cruzava as pernas.

Brianna levantou os olhos para questionar, mas apenas arqueou as sobrancelhas observando o blazer bege que sua irmã usava.

— Você só pode estar brincando comigo. — a aspirante de moda colocou a torrada de volta no prato e largou o celular. — Levanta, Julieta.

Julieta revirou os olhos e levantou-se da mesa, deu alguns passos pro lado e mostrou o que vestia: calça social da mesma cor que o blazer e sapatos fechados pretos.

— Eu não acredito que tive ótimas oportunidades para me livrar dessas roupas enquanto você estava fora e não o fiz. — Brianna resmungou. — Afinal, por que você está vestida como se fosse um envelope?

Julieta soltou o cabelo e dispersou os leves cachos castanhos que caíram em seus ombros.

— Está horrível? — ela perguntou, colocando o elástico de cabelo em seu bolso.

Brianna negou.

— Está ótimo se você tem trinta e seis anos e trabalha em um escritório. — a garota disse. — Aonde você vai?

Julieta sentou-se novamente.

— Vou deixar meu currículo no La Nación, minha mãe que indicou. Afinal, eles acabaram de chegar à Mérida. — ela fez uma pausa. — E podem estar precisando de alguém, certo?

Brianna tomou o último gole do seu suco colocando sua bolsa jeans em seu ombro, depois se levantou.

— Tenho certeza de que eles precisam de você, Jules. — ela disse tocando o ombro da irmã. — Mas eu gosto dessa blusa branca que você está usando debaixo dessa coisa horrorosa. Você tem uma calça social mais moderna e preta. Saltos são legais. Bom dia.

Brianna deixou a cozinha e em pouco tempo bateu a porta de casa. Julieta ficou sentada durante mais alguns segundos à mesa até que Alma e Constância desceram as escadas, fizeram café e todas comeram juntas. Quase nunca era possível estar com Brianna a tempo de tomar café da manhã com ela. Após tomar a última golada do seu café preto, Julieta subiu as escadas devagar, tirou seu blazer e trocou de calça. Colocou saltos baixos pretos e brincos compridos prateados. Guardou o elástico em sua gaveta e deixou seus cachos abertos serem livres em seu ombro. Limpou as lentes dos óculos com um lenço antes de sair do quarto.

Sem sequer olhar-se no espelho, Julieta pegou sua bolsa – uma que ela sabia que Brianna adorava – e saiu de casa naquela manhã com o carro de sua mãe. O sol começou a se abrir quando ela cruzou a esquina.

***

Antes de descer do carro, Julieta apertou o volante e observou o enorme novo prédio da cidade. La Nación devia ter uns sete metros e parecia ter três andares. Completamente moldado em tons de azul claro, tinha longas janelas e cortinas brancas que não deixavam ver nada do que se passava lá dentro. Um letreiro com uma grafia metálica trazia o nome da empresa bem no topo. Julieta sentiu como se seu estômago ruísse e seu pensamento ao descer do carro foi: eu tenho um e sessenta e cinco de altura, serei uma bonequinha de plástico dentro desse lugar.

Bateu a porta do carro e espremeu os dedos dentro do sapato. Respirou fundo e deixou o estacionamento pisando forte no chão como se não temesse a nada. Ao atravessar a porta de entrada do prédio, Julieta sentiu o resfriar do ar-condicionado e deslumbrou-se com um lindo salão. Observou os arredores. Lindos tapetes e pinturas. Foi direto ao recepcionista.

— Bom dia. — ela cumprimentou sem encostar ao balcão.

O rapaz demorou alguns segundos para olhá-la e quando o fez, deu um sorriso singelo.

— Bom dia. — ele disse e estendeu a mão para Julieta.

Ela apertou sua mão e não entendeu por que o rapaz riu.

— O seu cartão, senhorita. — ele disse e depois teclou alguma coisa no computador.

Julieta olhou para os lados na esperança de que o recepcionista estivesse falando com outra pessoa. Quando ele notou o silêncio, fechou os olhos com impaciência e respirou fundo.

— É a segunda vez que eu faço isso. — ele disse e olhou Julieta. — Você não trabalha aqui, certo?

Julieta assentiu.

— Desculpe, eu sou novo aqui e ainda estou aprendendo. — o rapaz se justificou. — Deixe-me começar novamente. Olá, senhorita, como posso ajudá-la?

Julieta deu uma risada sentindo-se mais confortável e colocou sua mão com unhas coloridas no balcão.

— Queria saber com quem eu posso deixar o meu currículo. — ela abriu a bolsa preta cheia de zíperes e tirou uma pasta de dentro, colocou-a em cima do balcão. — Eu sou jornalista formada.

O rapaz assentiu devagar.

— Eles estão loucos por gente como você. — ele disse pegando no telefone fixo. — Vou te anunciar. Terceiro andar, segunda porta à esquerda. Aliás, meu nome é Enrique.

Julieta observou enquanto ele discava no telefone e falava com rapidez.

— Prazer, sou Julieta. — ela disse falou baixinho.

Enrique assentiu.

— Bom dia, tem uma moça aqui no térreo. Ela trouxe o currículo para avaliação. — o recepcionista fez uma pausa. — É uma jornalista.

Julieta suspirou de leve e apertou sua pasta. Enrique assentiu e colocou o telefone no gancho.

— A senhora Ramirez está te esperando. — Enrique avisou e apontou para o elevador. — Ah, bata na porta.

— Obrigada. — Julieta agradeceu e afastou-se.

Entrou no elevador e discou o número três. Por algum motivo, Julieta se sentia tranquila. Quando a porta do elevador fechou, ela mexeu de leve no cabelo volumoso e considerou que deveria deixá-lo crescer mais, sem tempo de planejar mentalmente o próximo corte de cabelo, Julieta saiu do elevador que rapidamente parou no terceiro andar.

A primeira coisa que viu foi um longo corredor com uma porta de vidro no final, e a pequena passagem antes dele trazia do lado direito duas poltronas e uma mesinha com café e biscoitos. Do lado direito outro curto corredor com duas portas. Uma tinha uma pequena placa de metal que dizia Murillo Vicenzo, que Julieta lembrou ser o mesmo nome do homem que estava no jornal. A outra porta dizia Alexandra Ramirez.

Segunda porta à esquerda, indicou Enrique.

Julieta limpou a garganta, colocou uma mexa atrás da orelha e caminhou devagar até a sala de Alexandra Ramirez. Deu três batidas solenes na porta de madeira escura.

Entre. — Julieta ouviu a voz vir de dentro da sala.

Ela abriu a porta e viu uma mulher de batom vermelho vivo e com uma postura impecável sentada a uma mesa cheia de papéis, lendo um deles. Quando Julieta fechou a porta, Alexandra tirou os óculos que usava e a olhou.

— Bom dia. O terrível novo recepcionista não me disse seu nome. — a mulher disse e riu discretamente. — Enrique tem sorte que eu gosto dele. Sente-se.

Alexandra apontou para a cadeira a sua frente. Julieta assentiu e sentou-se.

— Meu nome é Julieta González. — apresentou-se e tentou ao máximo imitar a postura da mulher que a recebia.

— E eu sou Alexandra Ramirez, mas isso a senhorita já sabe. Sou a redatora chefe do La Nación, talvez isso você não saiba. E também vice-diretora do jornal, isso definitivamente você não sabe. — ela disse aproximando sua cadeira da mesa e fechou a tela do seu notebook. — Posso ler o que trouxe?

Julieta levou alguns segundos para entender que ela se referia ao seu currículo e quando o fez, entregou sua pasta à Alexandra. A redatora chefe tirou a folha de dentro da pasta e colocou seus óculos de volta. Enquanto ela lia, Julieta concentrou-se em contar até vinte e cinco, foi interrompida no número vinte e três.

— Interessante. — Alexandra repousou a folha em sua mesa. — Irei repassar ao Murillo, o diretor. Dependendo da decisão dele, mandaremos um email marcando uma entrevista. Tudo bem?

Julieta assentiu devagar enquanto levantava-se.

— Claro. — ela disse com lentidão. — Obrigada pelo seu tempo, senhora Ramirez.

— Disponha. — Alexandra disse com um sorriso de canto.

Quando Julieta estava do lado de fora da sala, respirou com alívio. Esperar pela resposta do diretor a daria um tempo de sossego. Decidiu descer de escadas e quando passou pelo salão, acenou para Enrique de longe. Quando entrou no carro de sua mãe, já sabia para onde iria, afinal, estava morrendo de fome.

***

A campainha tocou repetidas vezes e Brianna segurou-se para não revirar os olhos.

— O senhor disse nachos com queijo? — ela perguntou apertando a caneta com força no papel.

O homem assentiu e Brianna fez o mesmo. Caminhando irritada até o balcão, ela bateu o bloquinho num baque surdo.

— Eu ouvi a campainha da primeira vez! Mas estava anotando a droga de um pedido. Eu não posso me virar em duas, Raquel! ­— Brianna alterou seu tom de voz enquanto apontava para a garota atrás do balcão com sua caneta.

Raquel Santiago era filha do dono da lanchonete onde Brianna trabalhava há três anos. Embora nunca tivesse desejado estudar algo e tornar-se profissional, Brianna sabia que não era saudável ficar sem fazer nada. Gostava de trabalhar nem que fosse para lavar pratos, atender clientes rabugentos, carregar nachos e conviver com Raquel.

— Talvez você devesse ser mais rápida, querida. — Raquel jogou discretamente seu cabelo loiro para trás enquanto acomodava-se em sua cadeira alta.

— Talvez vocês devessem contratar alguém pra me ajudar! — Brianna reclamou e enfiou o bloco e a caneta no bolso do seu avental.

Apertou o rabo de cavalo e saiu de perto do balcão. Pegou a bandeja de burritos com refrigerante e deixou-a na mesa cinco. Após servir mais outras duas mesas, foi à cozinha lavar os pratos. Quando terminou, pegou uma limonada e aproveitou os quinze minutos de pouco movimento para sentar-se pela primeira vez desde que havia chegado. Pegou o bloco e a caneta no seu avental e começou a rascunhar aproveitando não só sua limonada, mas também o silêncio que denunciava a ausência de Raquel. Brianna enfiou o bloquinho no bolso quando ouviu a porta do Santiago – nome nada original da lanchonete – ser aberta.

— Já está exausta? — Julieta murmurou enquanto se aproximava.

A Brianna agradeceu por não ser um cliente convencional.

— Fale baixo, estou me fingindo de morta. — Brianna sussurrou.

Julieta sentou-se numa das mesas.

— Já gritou com a Raquel hoje? — ela perguntou num tom baixo.

Brianna revirou os olhos e entregou um cardápio à irmã.

— Essa garota me faz quebrar as regras do feminismo! — a garçonete rangeu os dentes e depois soltou um suspiro. — Mas tudo bem, tudo bem. Vamos lá, me diz como foi com o La Nación.

Julieta abriu o cardápio.

— Foi ok, eu acho. Deixei meu currículo e agora estou esperando um email deles. Estou tentando não pensar muito nisso, na verdade. — Julieta fechou o cardápio. — Nem sei por que li isso, eu só quero café preto e torradas.

Brianna assentiu e recolheu o cardápio.

— Estou de meio expediente hoje. — ela disse. — Vamos ao cinema?

— Definitivamente. — Julieta se acomodou na cadeira.

Notas finais
Muito obrigada por ler ♥