O Sacrifício da Sétima Lua

3 Segundo Capítulo: O Silêncio dos Violinos


Notas iniciais
Olá, sejam bem vindos!

“... Because I still believe in destiny.

That you and I are meant to be...”

— Cinderella.

***

A noite caiu leve e fria. O agradável clima morno de Yucatán estava adormecido desde o dia que Julieta havia retornado a cidade. Mas isso não a incomodava, a fina chuva que caía de vez em quando era bela e refrescante, fazia Julieta se sentir presa num bonito globo de neve de natal.

Quando terminou de se arrumar, faltando apenas os sapatos, Julieta puxou de leve a cortina do seu quarto e espiou pela janela. A rua estava iluminada com os postes e pequena brisa que balançava as árvores denunciava uma chuva eminente. As luzes da última casa da rua estavam totalmente apagadas, não havia ninguém na janela desta vez. O coração de Julieta acelerou três batidas.

— O que está olhando? — Brianna perguntou saindo do banheiro colocando seu par de brincos.

Julieta tomou um susto e saiu de perto da janela.

— Estou vendo se está chovendo. — ela disse com rapidez andando pelo quarto procurando seus sapatos.

Brianna olhou a janela e depois olhou Julieta com desconfiança, mas ficou quieta. Ambas terminaram de se arrumar em silêncio. Brianna foi a primeira a terminar e ficou olhando no espelho seu longo vestido verde escuro e perguntando-se qual seria o melhor batom para sua pele bronzeada, por fim acabou decidindo ficar com um gloss.

Julieta maquiou-se muito levemente e calçou seus saltos não tão altos e brancos. Olhou-se no espelho apenas para ter certeza que não estava usando um brinco diferente do outro e em seguida ouviu Constância as chamando para descer, estavam quase atrasadas. Brianna e Julieta desceram as escadas juntas, enquanto abuela – que usava um vestido vinho liso abaixo do joelho e um xale cinza – e Constância com um vestido longo azul e de alças, as esperavam na sala.

Julieta entrou os ingressos à sua mãe e pegou sua caixinha de lentes de contato no banheiro do andar de baixo e colocou-a em sua pequena bolsa branca de mão, as quatro saíram de casa. No momento que Constância deu partida no carro, as luzes da última casa da rua acenderam.

***

Ao longo do caminho a chuva começou a cair com mais força e abuela agradeceu por ter colocado dois guarda-chuvas no carro. Quando enfim chegaram à frente do Teatro Peón Contreras conseguiram estacionar do outro lado da rua. O teatro era alto e cor de areia, à noite tomava um encantador tom iluminado – quase fluorescente— por conta das várias luzes que o cerca. As portas que ficavam ao redor da construção eram todas pequenas e de madeira antiga negra. Na parte de cima as grandes colunas gregas e bem brancas chamam a atenção, assim como o busto de José Peón Contreras – um dramaturgo, poeta e novelista, que levou seu nome no teatro como homenagem –, que fica bem no meio das duas colunas da entrada principal do teatro.

— Vamos, está quase na hora. — Julieta desceu do carro com pressa, não suportando sequer a ideia de se atrasar para o concerto.

Julieta e Brianna dividiram um guarda-chuva e Constância e Alma o outro. As garotas atravessaram a rua com rapidez, segurando seus vestidos para que as barras não fossem molhadas pelas poças d’água.

— Sempre me sinto como uma princesa da Disney com esses vestidos. — Julieta soou mal-humorada ao terminar a travessia.

Ao pisarem na calçada do teatro, andaram ainda mais rápido ainda que tomassem cuidado para não pisarem em nenhuma poça de lama. Quando chegaram à entrada principal entregaram os quatro ingressos, fecharam os guarda-chuvas, sacudindo-os um pouco para tirar o excesso de água e atravessaram a porta de madeira.

O interior de Peón Contreras era tão lindo, ou mais, que o lado de fora. Os vários assentos de veludo avermelhado espalhavam-se pela parte baixa do teatro. Ao olhar para cima via um teto arredondado e cheio de pinturas grandiosas cheias de história e um enorme lustre antigo bem centralizado que dava conta de iluminar todo o lugar, deixando aquela deliciosa sensação de meia luz, como se estivessem à luz de velas. As laterais altas do teatro são completas por vários andares de assentos mais reservados. O teatro estava bem cheio naquela noite, Julieta e Brianna sentaram-se mais a frente que Alma e Constância. Enquanto acomodavam-se, no palco o maestro e seus músicos faziam o mesmo. Julieta já trazia um semblante diferente.

— Eu nunca vou entender como você é doida por isso. — Brianna observou sua amiga.

— Eu nunca vou entender como você não é. — Julieta olhou sua amiga e depois focou no palco, ou pelo menos tentou.

A garota não conseguia distinguir as partituras dos músicos de suas blusas brancas.

— Ah, não. — Julieta murmurou colocando a mão esquerda nos olhos.

Brianna a olhou enquanto fazia um coque charmoso com seu longo cabelo negro.

— Com toda a pressa para descer do carro e com a chuva eu esqueci a minha bolsa no carro com as minhas lentes. — Julieta reclamou pegando o guarda chuva.

— Eu vou buscar pra você, o concerto já vai começar. — Brianna se ofereceu.

Julieta levantou-se e negou.

— Obrigada, Anna, eu vou bem rápido. — a menina disse e disparou andando com rapidez pelo salão.

Seus pés no salto branco e úmido começaram a escorregar, mas Julieta se concentrou em seus passos afincados até a saída do teatro. Quando atravessou a porta de madeira, abriu o guarda chuva e se ajeitou embaixo dele, pegando a saia do seu vestido e caminhando agora com calma pela calçada, tentando não acertar nenhuma poça de lama. A chuva estava mais forte.

A cena poderia ser vista em câmera lenta. Julieta deixando o teatro e caminhando vagarosamente pela não tão longa calçada. Seu vestido longo e cor de lavanda balançando com o vento que a chuva trazia e a luz da lua parecia procurar seu rosto para se refletir nele. Do outro lado da rua vinha um rapaz, caminhando com pressa debaixo da chuva, mas sem parecer se importar com ela. Ele vinha abotoando os botões da sua blusa social branca. No momento que o rapaz terminou de subir seus botões ele pôs os pés na calçada, e levantou seu olhar tão distraído quanto bonito. Julieta levantou seu rosto junto ao guarda-chuva, mas ela não olhou o rapaz de imediato. Quando enfim o fez, uma imensidão de olhos verdes a invadiu. Nenhum dos dois parou de andar, mas desaceleraram o passo, sustentaram o rosto levantado que analisava um ao outro, seus ombros quase se esbarram com delicadeza. Mas não houve toque algum. Quando enfim se ultrapassaram, Julieta franziu a testa de leve e ficou tentada a virar-se para olhá-lo outra vez, mas conteve-se. Mas o rapaz virou e parado em meio aquela chuva gelada, observou Julieta atravessar a rua indo até o carro e antes que ela retornasse, ele adentrou no teatro.

Logan tinha certeza que aquele era o rosto mais distinto— e belo – que já tinha posto os olhos em toda a sua vida.

Julieta entrou no carro e bateu a porta devagar. O guarda-chuva encostado nos pés pingava gotas geladas em sua pele. Com menos pressa que antes, ela colocou as lentes de contato e deixou a bolsa no carro. Quando retornou ao teatro, a chuva tinha diminuído. Atravessou o salão devagar e ao sentar em seu lugar, apoiou o longo guarda-chuva ao lado do seu assento e notou que os músicos já tinham iniciado.

— Você demorou. — Brianna murmurou baixinho com expressão de tédio.

— É. ­— Julieta assentiu e focou os olhos no palco, pelo menos num primeiro momento.

Ao longo do espetáculo, Julieta começou a varrer os olhos por todo lugar. Ela estava inquieta e suas mãos finas apertavam a barra da saia macia do vestido. Depois de algum tempo, encontrou o rosto conhecido na terceira fileira de assentos na parte superior do salão e desviou o olhar no mesmo instante que havia o repousado: ele também a olhava, porém, há mais tempo. Logan encontrou Julieta no momento em que ela pisou os pés novamente no teatro, ele não tirou os olhos da porta até então.

Depois de alguns segundos, Julieta o olhou novamente e agora Logan já observava o espetáculo, então ela decidiu fazer o mesmo. Sem conseguir prestar atenção nas violas e nos violinos, ambos aplaudiram de pé o final.

***

Logan permaneceu em seu assento até os músicos começarem a retirar os instrumentos do palco. Ele estava com os olhos grudados em um ponto fixo e vago do outro lado do salão. As cadeiras inferiores já estavam todas vazias.

— Logan. — uma mão macia tocou seu braço com delicadeza.

Ele levou alguns segundos para balançar a cabeça e piscar seus olhos verdes de forma tão suave como se seus cílios não se encontrassem, parecia estar saindo de um transe.

— Genevieve. — Logan respondeu com sua habitual voz rouca e baixa.

Genevieve franziu as sobrancelhas finas e piscou os grandes olhos cor de mel.

— Você está alheio. — ela disse após um suspiro curto.

Logan passou a mão pela barba bem feita e curta e depois olhou Genevieve com doçura.

— As mudanças sempre me deixam assim. — ele disse com um sorriso brando, pegando na mão de Genevieve.

Ela deu um sorriso de lábios.

— Eu gostei daqui. — Genevieve apertou a mão de Logan e se ajeitou no seu assento. — É a melhor escolha de Antônio desde o Rio de Janeiro.

Logan soltou um sorriso e concordou de leve, Genevieve levantou-se balançando devagar seu vestido amarelo até os joelhos e ajeitando uma pequena presilha de borboleta em seu cabelo.

— Vamos? Estão nos esperando. — ela chamou.

Logan olhou pelo salão rapidamente e assentiu para Genevieve. Quando deixaram o teatro, as luzes começaram a se apagar.

***

— Sempre fico encantada com esse concerto. — Alma sorriu quando entrou em casa.

— Eu também, mamá. — Constância assentiu ao colocar sua bolsa de mão na mesa de canto da sala.

Julieta passou por última pela porta de entrada, trancando-a. Brianna começou a tirar os sapatos e ficou segurando-os na ponta dos dedos.

— Eu consegui cochilar em cinco momentos diferentes e não acabou. — ela disse com orgulho.

Alma suspirou cansadamente e tirou seu xale, enrolando-o em sua mão.

— Boa noite, queridas. Já não tenho mais idade para as noitadas. — a senhora brincou enquanto subia as escadas devagar.

— Boa noite. — Brianna e Constância disseram em uníssono e os olhares das duas se voltaram para Julieta que estava tirando seus saltos.

— Está tão quieta. — Constância observou-a. — Onde estão suas críticas ilustres?

— Estou um pouco cansada também. — Julieta soltou um bocejo que no fundo ela sabia estar fingindo. — Vou me deitar.

Brianna a observou com leve desconfiança e sorrateiramente subiu as escadas indo para o seu quarto.

— Espere um pouco, quero te mostrar uma coisa. — Constância chamou sua filha indo em direção à cozinha.

Julieta seguiu-a arrastando seus pés descalços pelo piso morno. Ao chegar à cozinha sua mãe segurava um jornal e quando o pegou notou ser da semana passada.

— Leia. — Constância disse com animação.

Primeiramente Julieta pensou que aquilo não poderia ser um jornal local, mas nos meados da notícia que estava lendo descobriu que era. La Nación, o jornal em suas mãos, era o mais novo veículo comunicativo em Yucatán, sendo trago para a cidade por uma corporação espanhola. A notícia que Julieta lia, falava sobre a inauguração da central jornalística do La Nación em Mérida, que tinha acontecido na última semana. A matéria falava sobre as ramificações do veículo, como: o jornal impresso, o jornal digital e a estação de rádio, esta se inaugurando apenas no próximo mês, enquanto os dois primeiros já rodavam pela cidade.

Na matéria tinha uma foto que mostrava o prédio comercial do La Nación com um homem na frente, logo abaixo dizia que ele se chamava Murillo Vicenzo e era o diretor administrativo da mais nova franquia do jornal La Nación, não era possível enxergar muito seu rosto naquela foto.

“Estamos satisfeitos com essa nova etapa do jornal, numa cidade diferente e com pessoas diferentes. Inovação é a chave para o sucesso” Murillo declarou.

Julieta fechou o jornal devagar e levantou o olhar até sua mãe, que estava com um belo sorriso. Julieta sorriu também.

— Quem melhor que uma cidadã local para escrever sobre a cidade? — Constância falou.

— Acha que eu deveria tentar? — Julieta perguntou num sussurro.

— Definitivamente. — Constância deu um beijo na testa de sua filha e saiu da cozinha.

Julieta ficou observando a foto no jornal do grande prédio do La Nación, reconheceu o lugar e logo abaixo da foto leu o endereço. Guardou o jornal e subiu as escadas devagar, todas já estavam deitadas e não queria acordar ninguém. Fechou a porta do seu quarto devagar e começou a tirar seu belo vestido e guardá-lo. Julieta vestiu-se com um fino roupão branco e começou a finalmente desfazer as malas.

Guardou roupas, acessórios, portas-retratos que havia levado a fim de diminuir a saudade, todos os seus livros e por fim deixou seu notebook em cima da cama. Guardou a mala vazia na terceira porta do guarda-roupa. Foi ao banheiro para escovar seus dentes com rapidez, Julieta estava funcionando tão automaticamente que ainda não tinha tido tempo para pensar novamente no que a deixou tão alheia durante o concerto. Quando retorno ao quarto abriu a cortina rosa e instantaneamente ela colocou os olhos na última casa. Droga, eu não deveria, ela pensou. Mas ainda assim, ficou observando. As luzes estavam acesas, mas não havia ninguém na janela. Julieta não se deixou alimentar por mais nenhuma ideia louca e saiu da janela, mas sem fechar as cortinas.

Sentou-se em sua cama e ligou seu notebook, abriu o navegador e pesquisou por La Nación. O jornal estava sendo bastante lido e a primeira matéria presente era uma resenha sobre A Orquestra Sinfônica de Yucatán. Julieta soltou um sorriso e sentiu-se empolgada com a ideia de conseguir seu segundo emprego, considerando que o primeiro foi numa floricultura perto da escola aos dezesseis anos. Sem mesmo ler a matéria, Julieta fechou o navegador e procurou em seus documentos salvos seu currículo e o releu várias vezes. Após isso ela desceu rapidamente até o ateliê de sua mãe. Uma grande sala pintada de verde claro e com vários plásticos sujos de tinta pelo chão, telas pintadas e vasos de cerâmica em andamento. Lá havia uma impressora que tinha um ou outro pingo de tinta sobre ela. Julieta conectou seu notebook à impressora e selecionou o arquivo de seu currículo e o imprimiu. Quando tinha as duas folhas em mão, subiu de volta ao seu quarto rapidamente e com o grampeador que havia acabado de guardar, Julieta anexou ambas as folha e sentou-se em sua poltrona. Sorriu observando o que tinha em mãos.

Quando abaixou as folhas olhou pela janela. Era impossível não observar aquela casa que despertava tanta curiosidade e tanta urgência aos olhos de Julieta. Desta vez, havia alguém na janela. Julieta levantou-se e se aproximou, encostando a mão no vidro e olhou com afinco através dele. A pessoa fazia o mesmo. Não satisfeita, Julieta abriu sua janela e estirou-se um pouco para o lado de fora, tentando ver algo mais claramente. Não conseguia ver o rosto. Então, Julieta ficou mais uns segundos naquela posição, até que a pessoa que ela observava saiu com rapidez da janela e deixando o lugar vazio. Julieta franziu o cenho e persistiu em olhar. Nada, nenhuma movimentação. Julieta fechou o vidro e se afastou um pouco, ia fechar as cortinas quando alguém começou a andar pela rua, alguém saindo diretamente da última casa onde agora vivia a nova família de Mérida, a qual Julieta era proibida de ter contato. Ela aproximou-se novamente da janela e este alguém andava com rapidez pela rua, e quanto mais perto ficava, mais se podia ver. Era um rapaz. Num estalo, Julieta fechou as cortinas fazendo o primeiro ruído em minutos de silêncio.

A respiração de Julieta se tornou irregular, ela permaneceu parada no mesmo lugar sentindo o corpo todo gritar por um movimento: então ela ouviu. Julieta deixou o quarto e desceu as escadas quase pulando os degraus, mas evitando qualquer barulho possível. Quando chegou a sala, ligou a luz. Olhou pela longa janela ao lado do sofá e o viu se aproximar mais da casa.

— Não. — Julieta murmurou e foi com fugacidade até a janela.

Ela o olhou durante um curto momento, logo o rapaz já estava fora do seu campo de visão. Mas ainda assim, ela pôde reconhecê-lo. Julieta afastou-se da janela e andou devagar até a porta de entrada e ficou a olhando com expectativa. O silêncio era tão alto que lhe doía os ouvidos. Julieta inspirou e expirou devagar e deu as costas à porta, indo em direção à escada. Antes de pisar no primeiro degrau, três batidas secas foram ouvidas. Julieta estremeceu num susto.

Sem hesitar ou oscilar no meio do caminho, Julieta foi até a porta e a destrancou. Deslizou a mão até o trinco e girou-o. O rosto revelado não era estranho e isso fez Julieta apertar o trinco com força. Logan ainda estava com a blusa social, mas agora o botão mais alto estava aberto e seu cabelo negro estava menos arrumado. Julieta o olhou nos olhos.

— O que faz na minha porta? — ela sussurrou, olhando discretamente para os dois lados da rua que estava deserta.

Logan deu um passo pra trás, Julieta deu um a frente, sem soltar o trinco.

— Eu vim me apresentar, sou... hm, o novo vizinho. — ele disse com a voz que parecia prestes a travar.

Julieta segurou um sorriso ao ouvir o notável sotaque do rapaz.

— Às onze horas da noite? — ela questionou sem conseguir conter a risada.

Para sua felicidade, Logan também riu e deu um passo a frente.

— Logan Hausen. — ele estirou a mão.

Naquele instante, Julieta lembrou-se de sua abuela.

— Julieta González. — e neste esqueceu-se completamente dela.

Apertou a mão do rapaz sem sentir medo de ter um estranho à sua porta tão tarde da noite, após ter sido claramente avisada para afastar-se.

Ao menos seu nome não é Romeu, este foi o pensamento de Julieta ao tocar Logan pela primeira vez.

Notas finais
Obrigada por chegar até aqui! ♥