O Sacrifício da Sétima Lua

5 Quinto Capítulo: A Fera


Notas iniciais
Olá, sejam bem vindos! ♥

"... Sentimento assim

Sempre é uma surpresa

Quando ele vem

Nada o detém

É uma chama acesa... "

— A Bela e a Fera.

***

Julieta parou o carro numa vaga do estacionamento do La Nación faltando quinze minutos para a sua entrevista. O lugar estava bem iluminado e apenas três carros estavam parados ali, quase nenhuma movimentação era vista na entrada do grande prédio.

— Repassando...

Brianna interrompeu Julieta com um suspiro exaustivo.

— Depois da entrevista nós vamos para a minha casa, nos arrumamos e pedimos um táxi para conseguirmos entrar na sua rua sem que madrinha ou abuela reparem que estamos a caminho da casa do novo vizinho, o mesmo que estamos proibidas de sequer chegar perto. — Brianna pontuou pacientemente fechando seu brilho labial. — Não é difícil.

Julieta inspirou e expirou devagar, apertando as duas mãos no volante.

— Tudo bem. — ela disse e desceu do carro.

Ambas deixaram o automóvel. Brianna observou sua irmã fechar o carro e revirou os olhos.

— É impressionante como você sempre esquece alguma coisa. — ela disse e tirou os dois brincos que usava, caminhando até Julieta e os colocando em suas mãos. — Falta um toque especial.

Julieta observou o par de brincos que Brianna a entregou. Um fio dourado com duas pedras de rubi, mesmo que não entendesse de moda, Julieta sabia que eles combinavam com seus saltos cor de vinho.

— Obrigada, Anna. — a jornalista sorriu enquanto colocava os brincos.

— Disponha. — ela disse com um sorriso de lábios. — Agora vamos catar esse emprego pra você!

Brianna enlaçou seu braço no de sua irmã e elas caminharam juntas até a entrada do prédio. Quando atravessaram o salão, o viram inteiramente vazio, ou quase. Julieta acenou pra Enrique na recepção, e Brianna logo reparou que havia uma mulher alta, de costas e com um cabelo negro e volumoso, parada em frente ao elevador. As duas irmãs caminharam devagar, sem fazer nenhum barulho com seus sapatos bonitos naquele chão espelhado, e ficaram esperando pelo elevador atrás da tal mulher alta.

Houve um estalo e a porta do elevador se abriu. As três mulheres entraram uma atrás da outra. A desconhecida sacou o celular logo que a porta fechou-se e o pôs no ouvido, foi atendida rápido.

— Estou subindo. — ela disse com a voz amarga.

Brianna e Julieta se entreolharam.

— Eu não me importo se você vai receber alguém agora, Murillo. — a mulher falou áspera e com impaciência. Revirou os olhos em seguida. — Não vou bater.

Ela disse e desligou o celular bem no momento em que a porta do elevador se abriu. A mulher saiu como um raio, indo em direção a última porta do primeiro corredor do andar. A sala do diretor do La Nación. Brianna e Julieta a observaram sem dizer nada até que ela tivesse sumido de vista, entrando agressivamente na sala de Murillo Vicenzo.

Brianna olhou no relógio de parede, eram seis horas e cinquenta e cinco minutos.

— Parece que alguém roubou seu horário com o tal diretor. — a fashionista riu e jogou-se numa das poltronas do corredor.

Julieta cruzou os braços e assentiu com a cabeça.

— Alguém está com problemas com a namorada. — a jornalista sugeriu e também se sentou na outra poltrona, esperando ser chamada.

***

Quase sete horas da noite, Murillo esperava pelo horário no qual teria que conhecer e entrevistar a candidata a ser a mais nova jornalista do La Nación. Era tudo o que ele – e também todo o corpo do Jornal – estava precisando: uma moradora local especializada em relatar os fatos da cidade.

Murillo não estava surpreso pela ligação incômoda e mal educada de Morgana. Já era quase uma rotina.

Vicenzo! — uma voz estridente e espalhafatosa invadiu a sala pequena do diretor do La Nación.

Murillo não a olhou de imediato, estava organizando sua mesa, jogando fora papéis inúteis, colocando os importantes em uma pasta e apontando seus lápis vermelhos num apontador automático elegante.

— Olá, Morgana. — ele disse com a voz arrastada e enfim a olhando nos olhos.

Os profundos olhos verde-escuro que ela carregava. Morgana sentou-se na cadeira em frente à mesa de Murillo e cruzou as pernas. Seu belo vestido vermelho incrivelmente apertado valorizava seus seios enormes e coxas bonitas.

— Como assim eu não sou a vice-diretora do La Nación?!

Morgana soou infantil e mimada, o que não era uma novidade para Murillo que massageou as têmporas suavemente antes de respondê-las.

— Morgana, eu não levo isso como você. — ele começou. — É um trabalho sério pra mim, eu gosto disso. Você...

Morgana soltou um urro exasperado e levantou-se brutalmente da cadeira.

— É manipulação, Murillo! — a mulher exclamou com rancor. — A ideia do La Nación sempre foi esta!

Murillo levantou-se controlado e apoiou as duas mãos na mesa.

— Um dia pode ter sido. — ele disse sucinto. — Mas depois de algumas experiências, eu mudei de ideia. Você não serve para estar aqui e ser profissional.

Morgana revirou os olhos.

— E vai colocar Alexandra no meu lugar? — ela soltou uma risada debochada. — Estou com você há tanto tempo, Vicenzo.

Murillo apenas sentou-se e apontou para a porta.

— Saia, Morgana. Por favor. — ele pediu. — Nos vemos mais tarde.

Ela negou ajeitando o decote.

— Não. — cortou-o. — Eu tenho uma festa para ir. Volto de manhã.

Morgana deu as costas indo em direção a porta.

— De manhã? — Murillo perguntou franzindo o cenho.

Morgana tirou um anel azul escuro de dentro de sua bolsa pequena e o colocou no dedo do meio, mostrando-o com agressividade para Murillo que apenas assentiu. Após isso, Morgana bateu a porta do escritório com força. Murillo abaixou o rosto e tapou os olhos com a mão, como se um dor de cabeça estivesse a caminho, quase se esquecendo que Julieta o esperava do lado de fora.

Murillo ouviu três batidas suaves na porta e no mesmo instante corrigiu sua postura.

— Desculpe, achei que não fosse me chamar. — era Julieta com uma voz mansa atípica.

Ela entrou e fechou a porta atrás de si. Murillo a olhou e aproximou sua cadeira para mais perto da mesa, soltando um sorriso clássico.

— Julieta? — ele perguntou.

— Eu mesma. — ela assentiu e caminhou devagar até a cadeira em frente à mesa do diretor do La Nación.

Murillo estendeu a mão e Julieta a apertou, ajeitando-se na cadeira – lembrando-se de Alexandra e sua postura –, cruzou as pernas e sorriu.

— O senhor analisou o meu currículo? — Julieta perguntou.

Murillo pigarreou e piscou com rapidez, virando seu olhar para a tela do seu notebook onde o currículo de Julieta estava digitalizado.

— Sim, claro. — ele falou um pouco rápido demais. — Você sabe muitas línguas e é formada por uma instituição de renome. Claro que lhe falta experiência, mas precisa ter por onde começar, certo?

Julieta assentiu.

— Exatamente. — ela disse mexendo no cabelo sutilmente. — Yucatán é o meu lar e eu adoraria trabalhar num veículo de notícias que falasse da minha cidade, de tudo o que temos aqui e de como é a vida das pessoas em Yucatán. Sinto que posso crescer profissionalmente e também com meu lado pessoal. Posso agregar a cultura história da minha cidade às páginas do seu jornal, Sr. Vicenzo.

Julieta segurou a respiração, ela passou as últimas oito horas treinando aquelas palavras. Murillo a observava extasiado, aos seus olhos Julieta era encantadora, ele poderia admirá-la por horas.

— Pode me chamar de Murillo. — ele disse. — Você começa na segunda-feira, nesta semana começaremos a assinar os papéis e definir mais alguns pontos burocráticos. Alexandra é melhor do que eu nisso.

Julieta riu e sentiu seu peito encher-se de felicidade e realização. Ela levantou-se devagar e Murillo repetiu o ato.

— Foi um prazer conhecê-lo. — ela disse com um largo sorriso. — Muito obrigada pela oportunidade.

Murillo sorriu de volta. Qualquer um que o conhecesse a tempo o bastante para saber seus trejeitos, estaria surpreso com as feições que ele trazia naquele momento: um rosto de sorriso largo.

— O prazer é meu, Julieta. — ele disse enquanto a observava detalhadamente. — Eu gostei dos brincos, são lindos.

Julieta por um momento não entendeu, mas logo levou a mão à orelha e lembrou-se que usava os brincos de rubi de Brianna.

— Obrigada. — ela agradeceu. — Até segunda-feira, senhor... Murillo.

Julieta saiu da sala em passos vagarosos e bateu a porta devagar. Quando se viu sozinho, Murillo jogou-se em sua cadeira, desapertou a gravata escura e bagunçou o cabelo castanho. Ele sabia muito bem como era estar obcecado por algo e também por alguém.'

Notas finais
Muito obrigada por ler. ♥