O Sítio

1 Capítulo Único


A dor. Profunda, indissociável, infinita. Um caos estranhamente ordenado em seu interior. A escuridão contornava o seu ser enquanto o tormento eterno se acercava, ameaçando-a em sua essência.

Emma reconhecia a existência de luz em si, e ela se encerrou ali: uma ilha de ternura, cercada por um mar de desolação. Ela temia erguer os olhos, sair de si e observar o que a cercava. Não haveria esperança?

Havia. Havia a sua luz interna e, enquanto ela estivesse ali (aquecendo-a, protegendo-a), existiria esperança. Era necessário acreditar naquilo, fundamental, pois da dúvida e do desespero nasciam as trevas.

E, é claro, lado a lado com a luz, existia um nome que lhe parecia ter perdido seu sentido há muito tempo: Merlin.

Haviam outros nomes, é claro, outras memórias perdidas no mar de escuridão. Mas Emma se refugiava na sua pequena ilha iluminada, recusando-se a sair e vasculhar para descobrir o sentido deles.

Merlin era, sem dúvida, a figura mais fundamental em si naquele momento, o único nome que ela protegera. Quem era? Um pai, um filho, um amante? Mas a dúvida era irrelevante naquele momento, a dúvida que alimentava a escuridão cercando-a, cada vez mais próxima. Merlin, afinal, era um sonho distante de alguém que não precisava se preocupar com a perda do eu, porque arriscar-se a procurar um sentido nele.

"Emma."

Uma voz. Uma voz que evocava memórias à superfície de seu ser, e, mesmo não sendo capaz de compreender o motivo por trás daquilo, Emma precisava reconhecer que o dono (ou a dona) daquela voz era alguém importante, fundamental.

Ela estendeu as mãos na tentativa de agarrar aquela memória localizada no limite do seu eu, mas havia dor em demasia ali, onde a escuridão predominava, e Emma precisou recuar, ferida. De repente, soube que a voz era parte do motivo pelo qual não podia deixar a escuridão tomá-la.

Ela abraçou as pernas em posição fetal, a ilha de luz pareceu expandir em seu entorno, como que respondendo à voz tenra, completamente feita de luz.

"Emma," chamou novamente e, em algum lugar, ela sentiu o toque iluminado e suave do amor.

Há luz em meu exterior! Talvez não fosse sequer algo secundário e completamente subjugado pela escuridão, como Emma pensara à princípio. Havia esperança, de fato, pois uma luz tocava a sua superfície com delicadeza tão tamanha que conseguia atenuar a dor.

Emma desejava alcançar aquele toque, ela precisava reagir àquele gesto; mas havia escuridão e dor em demasia entre a sua ilha iluminada e o toque de luz em sua superfície, entretanto, e ela não podia enfrentar aquilo. Precisava ficar na luz. Afinal, se Emma se atrevesse a lançar-se contra o mar de escuridão, corria o risco de retornar à superfície mudada tão completamente que a luz não mais teria importância.

Não, ela não podia. Não. Não me chame de novo, não me force a mudar. E Emma se recolheu novamente, abraçando com força as suas pernas, cravando as unhas contra as palmas de suas mãos; sangue! Cheiro de sangue, dor, trevas.

E a escuridão acercou-se dela novamente, fechando-se contra a luz que se recusava novamente a crescer.

Não!

"Emma."

Novamente. Um suave, iluminado toque em sue rosto, rompendo as barreiras de escuridão na superfície do seu ser, cavando uma saída, uma escapatória. Emma sabia, entretanto, que também precisaria cavar de dentro de si para alcançar aquela voz sem comprometê-la eternamente.

Mas doía em demasiado erguer os olhos e estender os braços para tocar a luz. Ela estava perdida, quase completamente desprovida de memórias, mas ainda era capaz de se recordar da primeira vez que estendera as mãos: a dor súbita que muito ultrapassava a que sentia agora nas palmas de suas mãos.

Não se aproxime! Ela se encolheu dentro de si, mas tentou projetar o pensamento para o dono (ou a dona) da voz. Não podia permitir que outra vida se perdesse.

"Swan."

E Emma finalmente ergueu os olhos, a curiosidade (o primeiro sentimento que não possuía filiação na luz ou na escuridão) tomando-a. Swan. Swan era seu nome, ela sabia; um nome importante, embora ela o tivesse perdido diante da escuridão. Ou talvez a escuridão tivesse lhe tivesse arrancado contra a sua vontade.

O que seus olhos encontraram foi uma silhueta cercada por uma luz ofuscante. Antes que a iluminação a forçasse a fechar novamente os olhos, ela percebeu que se tratava de uma mulher que ela conhecia, cujo nome finalmente vinha à superfície de sua mente.

"Regina," ela respondeu, sua voz rouca.

As memórias retornavam enquanto Emma se acostumava com a luz em seu entorno, seu coração repleto de alegria e esperança. Memórias de felicidade, heroísmo, compaixão; e memórias de tristeza, isolamento, egoísmo.

Não era uma sensação desagradável, como fora nas primeiras duas vezes em que ela recuperara lembranças esquecidas. Era, de fato, um sentimento de plenitude que a preenchia, pois ela finalmente reconquistava o seu eu.

"Você está bem?"

Era uma pergunta tola, mas Emma estava feliz que a outra mulher a tivesse feito. E, embora a resposta lhe parecesse óbvia e igualmente tola, não sabia como elaborá-la.

Sim, eu estou bem. Pois finalmente a luz parecia preencher e reduzir a escuridão dentro e fora dela. Não, eu não estou bem. Porque, afinal, ela era agora a Senhora das Trevas, e a escuridão seria, para sempre, uma ameaça constante.

E como que respondendo, a escuridão se mexeu, expandindo-se suavemente contra a barreira de luz que ela e Regina haviam criado de modo inconsciente. A dúvida alimenta a escuridão. Emma encarou a mulher diante de si forçando um sorriso confiante em seus lábios.

"Eu estou bem."

Regina a encarou, e Emma percebeu que ela não acreditara em suas palavras. Deixou escapar um suspiro resignado, entretanto, como quem soubesse que precisavam ter certeza de que tudo estava bem para que tudo, de fato, ficasse bem.

Pelo menos até que finalmente encontrassem Merlin.

A antiga Rainha se levantou e estendeu a mão para ajudar Emma a se levantar. Quando a mulher mais nova ergueu a sua, entretanto, Regina deixou escapar um som de espanto e terror, e Emma notou que a sua mão estava coberta de sangue.

Raiva, dor, trevas: algo gargalhou em seu interior, profundamente satisfeito, enquanto Emma tentava controlar os sentimentos que afloravam dentro de si. Ela se encolheu novamente em posição fetal, tentando reencontrar a sua luz interior, mas Regina tomou as suas mãos (com uma brutalidade assustadoramente gentil) e, em um gesto rápido e eficiente, fez com que o ferimento e o sangue desaparecessem sem deixar rastros.

Enquanto Emma sentia seu coração se acelerar diante do toque da morena, ela percebeu que as trevas novamente se recolhiam.

"Venha, o pirata, seus pais e Henry estão muito preocupados," disse Regina, por algum motivo sorrindo.

Emma olhou para a prefeita sem compreender como ela era capaz de sorrir e falar de modo tão jovial. Não teria ela percebido o quão próxima a loira estivera de ser completamente tomada pela escuridão?

Não, Regina sabia (como haveria de não saber depois de tudo pelo que passara?). Ela estava apenas escolhendo ignorar aquilo e confiar na loira, pois a escuridão se alimentaria do temor que ela mesma provocava.

Emma assentiu lentamente e se levantou com a ajuda de Regina. Talvez, quando reencontrasse com as pessoas que amava, a escuridão a deixasse em paz (talvez, entretanto, estivesse colocando todos em perigo com a sua presença; mas não podia pensar nisso).

"O Aprendiz tem uma pista de onde está o mestre dele, Merlin," disse Regina, anunciando a última palavra com sarcasmo, enquanto as duas caminhavam lado a lado até a cidade. "Não se preocupe, logo faremos com que você volte ao normal, Swan."

Emma sorriu, deixando que a esperança a preenchesse, e segurou a mão de Regina contra a sua. Ela precisava daquilo; não compreendia muito bem o motivo por trás da necessidade de tocar aquela mão, que a curara, que a tirara da escuridão. Bom, talvez soubesse, mas o amor era um sentimento delicado, que podia evocar grandes quantidades de trevas e luz antes que a pessoa pudesse contê-lo.

A prefeita olhou para ela com curiosidade, mas não a soltou. Ela sabe e entende, pensou Emma com alegria.

E as duas entraram juntas e de mãos dadas na cidade, tomadas por um verdadeiro sentimento de esperança enquanto a luz incidia sobre e dentro delas. Tudo terminaria bem.

Notas finais
Eis a minha primeira fanfiction genuinamente Swan Queen. Antes desse momento, era um ship que não saía naturalmente, mas após o último arco eu conseguiram dar um embasamento para que eu conseguisse trabalhar as duas em uma fic.

Não, eu não as shippo e a ideia das duas juntas não me agrada muito, mas, nessa fic, a interação das duas me soou tão natural e adequada que não ousei colocar a Elsa ou o Henry no lugar da Regina. Nenhum dos dois teria compreendido tão bem o que estava acontecendo ali, e seriam necessárias demasiadas palavras.

Enfim, espero que tenham gostado. Eu não listei a Regina como personagem para que a participação dela gerasse surpresa.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!