- Mas que belo dia! – Gritou o flautista do centro da cidade, em seguida tocou algumas notas, e todos se animaram a trabalhar e vender.

Era realmente um belo dia, e a grama parecia crescer ao longo das horas que se arrastavam, parecendo não quererem passar. Uma estrada vinha do portão principal da cidade, de lá vinha praticamente tudo. Comida, bebida, conhecidos, forasteiros...

Era o portão de entrada da cidade, e também o cartão postal da mesma. A grande razão para tanta atenção neste portão era a arquitetura ousada. Como a cidade de Infhez era estada em um meio vale, havia uma grande passarela maciça de pedra, ligando o alto da montanha ao baixo vale, onde ficava o portão leste. Aos lados deste, havia duas enormes torres brancas de vigília, com janelas altas e estreitas, onde só o vento passava (e flechas, em caso de uma batalha).

Lá de cima, sempre dois arqueiros com roupas brancas ficavam à espreita de qualquer ruído voluntário. Chamava-se roupa branca todo tipo de vestimenta que protegia o corpo de projéteis sem comprometer a velocidade do guerreiro.

Um forasteiro apareceu cruzando o portão aberto. Estava montado em um cavalo marrom maltratado e cansado. Tinha uma longa barba caída sobre o peito, e usava um gorro marrom que cobria seu rosto de forma a se ver somente uma sombra abstrata.

- Senhor, não se pode andar de cavalo pela zona comercial! Senhor! – Gritou educadamente o flautista, que parava de tocar bruscamente, perseguindo o forasteiro. Como costume do povo Mahlfhi, era deselegante andar de cavalo nos centros de compra e venda da cidade. Dizia claramente a lei:

“Qualquer sujeito, pertencente ou não de nosso reino, caso seja flagrado sobre cavalo em centro urbano, se sujeitará a qualquer espécie de pergunta.”.

Maghgrä fora um dos filhos preferidos da Realeza, se é que esta preferia algum dos filhos. Havia mais dois, Maghgad e Maghfhi. O grande Rei Siudörc, de seus grandes feitos, criara a todos os filhos com imenso amor e dedicação, procurando cada ponto onde ensiná-los a arte de viver para um povo. Este crescera como todos os outros dois irmãos, em meio a flechas, tigres, ursos e lobos. Matara seu primeiro lobo exatamente em seu aniversário de doze anos, foi considerado prodígio pela família Real, e em conversa íntima com seu pai, recebeu sinceras palavras de encorajamento.

- Ó meu ajuizado filho, é de grande valor minha admiração por tua grande habilidade com estes arcos e flechas. És do meu sangue, e tenho orgulho de saber do grande potencial de minha raça através de ti, meu pequeno Sábio Guerreiro.

O meio do dia já se aproximava e o almoço já era preparado no palácio Cnaialla. Serventes de Siudörc, a autoridade máxima, já punham bonitas e enormes frutas ao redor da bancada do Salão de Refeições, onde havia uma imensa toalha estivada sobre a mesma, com detalhes feitos à mão pelas melhores costureiras da cidade. A toalha se espalhava pelos cantos do mesão, sobrando alguns metros jogados ao chão.

A mesa agora já estava posta, e nela havia todo tipo de comida que se conseguia naquela região. Tudo em grande quantidade, para muitas pessoas, e muito para cada uma delas. Talvez fosse exagero tanta comida para tão pouca gente, não fosse ela dada para os animais posteriormente.

Logo o salão encheu-se, cadeiras foram ocupadas. Do lado direito da mesa sentaram-se Maghgäd e Maghfhi, lado a lado. Ao lado direito sentou-se Siugrä, e ao lado desta, sentou-se Maghgrä. As paredes brancas brilharam contra as janelas quando uma servente as abriu. Iniciou-se a refeição, todos comeram muito bem, enchendo-se de frutas, legumes, carnes, sementes, e muito vinho. Tudo ficou em um silencio reflexivo, típico do pós-almoço.

Depois disso, Siugrä retirou-se da mesa e andou em direção à porta. Uma servente morena e um pouco mais velha do que as outras a abriu, Siugrä saiu e sumiu por entre os corredores, para talvez descansar em seu quarto. Os que ficaram na mesa já batiam papo genuíno de homens da realeza, sobre negócios da cidade e futuro. No meio de tantas palavras, Maghgäd pergunta a seu pai Siudörc.

- Meu pai! Estou curioso para saber desde o mês passado, como andam os negócios agrícolas na região? – Perguntou então, felicitado. – Ouvi dizer que perdemos alguma coisa ao leste com a chuva de ontem, é verdade?

Siudörc ficou em silêncio, pareceu não ter ouvido, ou fingiu isto. Maghgrä arrancou um pedaço de alface do prato, cortou-a em um formato cúbico e entregou-a para o cachorro que vinha correndo, alegre, por baixo da bancada. Abriu a boca e respondeu alegre:

- Querido irmão, é certo que perdemos mais de quinze por cento das terras plantadas com a chuva de ontem, mas acredito que a grandeza do Império supere isto como um cavalo pula um muro de árvores caídas. – Disse Maghgrä, com confiança e um olhar sereno para o irmão.

- Se me lembro bem, Maghgrä, iniciei conversando com nosso pai, Siudörc, e não com você. Peço-lhe para não interromper novamente. – Disse Maghgäd, lançando um olhar penetrante, direto aos olhos do irmão ao outro lado da mesa. Enquanto isso, Maghfhi observava tudo ao lado de Maghgäd, com expressão de medo e incerteza.

- Pois nosso pai não respondeu, deve estar inquieto com suas perguntas medíocres e rotineiras. Não é isso, meu pai? – Disse Maghgrä, ironicamente olhando ao mesmo tempo para o irmão e para o pai.

- Calem-se agora mesmo – retrucou Siudörc, interrompendo a fala de Maghgrä – ou me sentirei na obrigação de expulsá-los desta sala imediatamente. Não admito discussões entre membros de nossa família, a não ser que estas sejam civilizadas, e não arrogantes como esta.

- Gosta mais dele, não é meu pai? Gosta mais do caráter limpo e aparentemente sincero dele, não é? Sem problemas meu querido pai. Sem problemas. Acha que consigo lidar com isto, não é mesmo? Está tudo bem nesta casa, está tudo em ordem, e todos são tão amados quanto o filho mais novo do Rei Siudörc! – Antes de completar a palavra “Rei”, Maghgäd apanhou uma faca da bancada e atirou-a em direção a Maghgrä, e esta voou com rapidez, cortando o vento, em direção ao peito. Este desviou para o lado direito, e a faca continuou seu trajeto em direção à parede, quase no rodapé, onde ficou cravada, afiada e brilhante como o aço usado em armaduras de batalhas de longa data.

Maghgäd não esperou ao menos seu pai manda-lo sair, e saiu por conta própria acompanhado de Maghfhi. Antes de sair porta afora, lançou um olhar para o pai que continuou sentado. Uma lágrima caiu dos olhos de Maghgäd, e depois disto saiu da sala e rumou para a rua.

Maghgäd e Maghfhi andavam sempre juntos, e apesar de Maghfhi nunca entender ao todo as falas do irmão, sempre concordava com tudo o que este dissera, sem hesitar nem questionar. Maghfhi parecia ser a pessoa mais atenciosa de todas as terras do mundo, quando na verdade silenciava ao tentar entender o que falavam. Tinha mente fraca, pensamento lento e sempre estava coçando a barba negra e rasa no rosto.

Atravessaram a praça principal da cidade do Vale Cortado e adentraram a floresta ao oeste, onde havia imensas árvores, todas esbeltas e com troncos que cobriam a visão interna do lugar. Maghgäd parecia procurar um lugar seguro para dizer algo bastante importante ao irmão, e enquanto isso Maghfhi olhava para todos os lados, assustado como uma criança ao atirar pedras em uma casa vizinha. De relance, viu o que parecia uma figura negra e baixa perseguindo-os.

- Meu irmão! Creio ter visto algo atrás de nós! – Disse Maghfhi, muito baixo, ao ponto de seu irmão nem ouvir. Fora ignorado completamente.

Adentraram finalmente a mata intensa, e os barulhos de folhas se quebrando os envolvia, à medida que corriam em direção ao local mais imerso da região da mata fechada. Correram durante alguns minutos para o extremo leste, e finalmente pararam diante de um círculo grande no chão raspado, semelhante a uma trilha. E incrivelmente, ali não havia árvore alguma, parecia algo desenhado por humanos, algo como um refúgio, uma pequena fortaleza no meio da floresta. Um círculo perfeito no meio da mata fechada, com fendas de luz entrando e saindo do céu, através das poucas folhas que o cobria. Mais incrível ainda eram os troncos de árvores perfeitamente cortados ali, formando belos e, até que confortáveis bancos de madeira bruta exatamente no meio do círculo de trilha. Maghgäd apontou um deles, como quem convidasse o irmão para sentar-se. Ficou de pé admirando o local.

- Irmão – disse Maghfhi – desde quando frequentas o meio da mata? E pior, desde quando conheces este lugar? Tenho medo e receio não ser um local seguro, quero minha confortável cama, quero ouvir as histórias de nosso pai. Vamos retornar!

- Não mesmo! – disse Maghgäd — Poderás ficar o tempo que eu precisar. É totalmente seguro por aqui. Todos nós precisamos de espaço e privacidade. Eu não fugia das reuniões familiares à toa, certo? Eu mesmo podei as árvores, formando este lugar aconchegante. Aqui penso nos detalhes.

- Que detalhes? Creio que não tenhas detalhes a pensar, meu querido irmão. Tem a vida ganha, assim como qualquer herdeiro Real, como qualquer um dos filhos de Siudörc, o Viajante do Escuro. – Retrucou Maghfhi.

- Há coisas, meu irmão – disse Maghgäd – que nem os mais sorrateiros jantares em família podem esconder. Há coisas que o poder não compra, não conquista. Há coisas que são normais em famílias, assim como poder ser totalmente normal não sermos de acordo, é que me entende...

- Bom... Não, não entendo. – Disse Maghfhi, se pondo a pensar e coçar a barba mais do que nunca.

- Trata-se de um plano – disse Maghgäd – um plano no qual precisarei imensamente da tua ajuda. Não se trata de algo comum de se fazer. Não se trata de algo em curto prazo, e muito menos de algo fácil de fazer. Trata-se da libertação de nossa família, trata-se da mudança total que nós merecemos.

- Nós mataremos Maghgrä!

- Você só pode estar ficando louco, meu irmão. – Disse Maghfhi, deixando escapar algumas risadas tímidas. – Acha mesmo que isto é possível? Além do mais, não acho que seja uma boa ideia, e não lhe ajudaria nisto nem que fosse o filho mais incompetente destas terras, se é que me entende...

- Nem por admiração de nosso pai? – Respondeu Maghgäd, chantageando, e em paralelo, furioso com a repentina consciência do irmão. – Nem por parte da herança? Nem por milhares de coisas ao seu alcance? Nada disso te convence Maghfhi? Confesse! Somos humanos, humanos têm necessidades de infligir limites, e mais do que nunca, infligiremos o limite do nosso próprio senso, porém, para uma boa causa.

- Não sei, – respondeu Maghfhi, coçando a barba, confuso e pensativo – realmente não sei o que pensar. Dê-me um tempo, estou confuso e preciso tentar armar consequências para rebater sobre isto e talvez tirar esta ideia maluca de sua cabeça.

Maghfhi fechou os olhos e pôs se a pensar por um instante, e quando os abriu, viu na longitude do lugar uma pequena e rápida sombra se movendo.

Enquanto a noite chegava e o frio vinha junto em pequenos impulsos vindos do sul, Maghfhi ainda pensava estático, sobre o pequeno tronco de árvore cortado. Maghgäd quase dormiu, não fosse pela folha que caiu e entrou em sua boca completamente aberta, acordando-o subitamente.

- O que pretende fazer de início? – Perguntou espontaneamente Maghfhi, acordando de vez o irmão. – Digo, qual é o plano engajado para tudo isto? Você tem um plano, não é mesmo?

- A sua parte neste negócio é fria e calculista, irmão. – Disse Maghgäd. – Trarás a informação que conseguir até minhas mãos, aqui, neste local. Sem ser visto, obviamente. Farás o que não posso fazer, vigiarás.

- Espere! Ainda não decidi se quero entrar nesta história. Parece-me perigoso, e me cheira a confusão. Não quero fazer isto, e não farei. Por mais que o contato entre eu e Maghgrä seja muito breve, tenho imenso carinho por ele. Ensinara-me coisas que mais ninguém poderia ensinar. – Disse Maghfhi, com um brilho alegre nos olhos, olhando para o céu estrelado que já ficava parcialmente escuro.

Ora, consegues ver a lua lá em cima? – Disse Maghgäd – Se não aceitares, ela cairá sobre sua cabeça. Digo, suas responsabilidades pesarão o triplo em suas costas, enquanto me carrega. E observe, não sou leve!

- Não reconheço meu próprio irmão! – Disse Maghfhi, levantando-se na mesma hora. – Não reconheço! A ganância tomou-te por completo, Maghgäd, filho do grande Rei Siudörc! Já não enxergas um passo à tua frente, a não ser terras vermelhas com sangue da nossa família! Queres acabar com a linhagem dos Reis? Acaso não saibas Maghgrä com certeza é o mais querido para sucessor de nosso querido pai, e nem eu nem você podemos fazer nada para impedir a vontade da Realeza!

Maghfhi estava de costas para o irmão, falando ao vento para as palavras irem de encontro a Maghgäd. A noite chegara, era exatamente o horário em que os grandes sinos da cidade batiam em para o horário de dormir. Maghgäd tocou o ombro do irmão, e o virou subitamente. Retirou uma faca muito afiada do bolso, e esta fez brilhar e ascendeu uma chama imaginária de energia. Em perfeita sincronia com a primeira badalada dos sinos, ouviu-se uma faca tinir velozmente, assoviando contra o vento.

- A sombra... – sussurrou Maghfhi enquanto tentava recuar, e estas palavras ficaram na mente de Maghgäd.

Maghfhi: filho mais novo de Siudörc, estava agora morto, e não se conhecia ainda o assassino.

Maghgrä não matara seu próprio irmão, e nem faria isto. Nunca, em hipótese alguma, pois não reservava nenhuma raiva deste, e sim de Maghgrä.

Ajoelhou-se, chorando incontrolavelmente, e pôs uma das mãos sobre a cabeça de Maghfhi. Colocou a outra sobre o ombro, e fechou os olhos arregalados do irmão, procurando a paz.

Alguém chegou nesta hora.

- Mas o que pessoas fazem há esta hora na floresta? – Disse o flautista, que se aproximou correndo sem tomar conhecimento de Maghfhi estirado no chão. – Já não passou a hora do toque de recolher?

Maghgäd não parava de chorar, não disse palavra alguma. O flautista saiu novamente, recuando e tomando conta de que Maghfhi estava morto. Rumou diretamente em direção ao palácio do Rei.

A sombra continuava a observá-los.

A cidade de Infhez amanheceu de luto, todos de vestes pretas. A grama da fronte ao palácio parecia seca e diferentemente mais escura.

- Mas que belo dia! — Gritou o flautista, sem piedade alguma do povo que sentia a morte do grande príncipe Maghfhi. – Animem-se! Não se deve deixar que a tristeza tome conta! É preciso que lutem por seus ideais!

Neste momento uma voz seca e chorosa gritou.

- Não posso animar-me enquanto perco meu irmão para a morte! – Era Maghgäd.

O flautista abriu um sorriso irônico e maléfico, e balançou os cabelos encaracolados e sua roupa excêntrica.

- Como podes ser tão falso, Maghgäd, filho de Siudörc? Como podes fingir não ter assassinado teu próprio irmão? – Gritou o flautista.

Todos haviam parado de trabalhar e barganhar suas coisas, e ouviam a discussão em pleno centro da cidade.

- Ó caro povo de Infhez, saibam agora que este homem que podem ver à minha frente teve a cautela e coragem de assassinar o próprio irmão! – Disse novamente o flautista.

Sem dizer palavra, Maghgäd voou no cangote do flautista, que caiu no chão de pedra. Levou muitos murros no rosto, e até que guardas armados conseguissem retirar Maghgäd de cima dele, não parou de sangrar por um segundo.

- A ignorância não o favorece, filho do Rei! – Disse o flautista, enquanto carregavam Maghgäd à força para o grande palácio. Deram-no uma forte pancada na cabeça.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.