O Rugido no Silêncio

1 CAPÍTULO 1: O BAILE DAS MÁSCARAS


Londres, Dezembro de 1949.


ATO I: O INVERNO DA ALMA


O ar dentro do Savoy Hotel tinha o cheiro adocicado e enjoativo de gardênias mortas,

misturado com a fumaça azulada de charutos caros. Era o cheiro do “sucesso”.

Lá fora, Londres ainda sangrava fuligem e cinzas, uma cidade de viúvas e edifícios amputados

pela Blitz, mas ali dentro, sob os candelabros de cristal que tilintavam como gelo, a guerra

parecia nunca ter acontecido.

Susan Pevensie estava parada diante do espelho dourado do toalete feminino, as mãos

apoiadas na bancada de mármore frio. Aos vinte e um anos, ela era o que as revistas de moda

chamavam de “o ideal moderno”. Alta, composta, com uma beleza que parecia esculpida em

marfim — fria e intocável.

Ela aproximou o rosto do vidro.

Havia uma linha fina de tensão no canto de seus olhos.

— Sorria — ela sussurrou para o reflexo. — Você está se divertindo. Esta é a vida real. Isso é

tudo o que existe.

Ela pegou o batom vermelho-sangue, Rouge Baiser, e traçou o contorno dos lábios com

precisão militar. Era sua pintura de guerra. Não para enfrentar exércitos de lobos ou bruxas,

mas para enfrentar algo muito mais insidioso: a banalidade.

A porta do toalete se abriu com um estrondo, trazendo uma onda de risadas agudas e o som

abafado de uma banda de jazz tocando La Vie en Rose.

Marjorie, sua companheira constante nas noites londrinas, entrou arrastando a seda de seu

vestido.

— Susan! Pelo amor de Deus, o Sr. Sterling está perguntando se você fugiu pela janela. —

Marjorie riu, retocando o pó de arroz com movimentos frenéticos. — Ele acabou de comprar

uma nova fábrica têxtil. Dizem que ele vale uma fortuna.

Susan sentiu um gosto metálico na boca.

— O Sr. Sterling tem a profundidade de um pires, Marjorie. Ele passou os últimos quarenta

minutos me explicando como o algodão egípcio é superior ao indiano.

— Ah, querida, pare com isso. — Marjorie virou-se, os olhos brilhando com uma sabedoria

cínica. — Nem todos nós vivemos em... onde foi mesmo que você disse que brincava quando

criança? Aquele lugar imaginário? Nárnia?

A palavra atingiu Susan como um estilhaço de vidro.

O som do jazz pareceu sumir.

Por um segundo, o cheiro de gardênias foi substituído pelo aroma agudo e limpo de pinheiros

congelados e o cheiro salgado do Mar Oriental.

Ela sentiu o peso fantasma de uma aljava em suas costas e a leveza de pés descalços na areia.

— Eu era uma criança — Susan disse, a voz saindo mais dura do que pretendia. Ela fechou a

bolsa com um estalo seco. — As crianças inventam mundos quando o mundo real é

assustador demais. Nós crescemos. Nós superamos essas coisas.

— Exatamente — concordou Marjorie, alheia à dor nos olhos da amiga. — O mundo real é

sobre fábricas têxteis, maridos banqueiros e casas em Kensington. Venha. Vamos antes que o

champanhe esquente.

Susan olhou uma última vez para o espelho.

A mulher que a encarava de volta era linda, elegante e absolutamente oca.

Onde estava a Rainha Susan, a Gentil? Aquela que chorava pela dor dos faunos e ria com as

dríades?

Morta, pensou Susan.

Ela ficou naquele trem.

Ela ficou na estação.

Aqui, só sobrou a Susan prática.

Ela endireitou a coluna, ergueu o queixo e saiu para o salão de baile.

Enquanto dançava nos braços do Sr. Sterling, ouvindo sobre taxas de juros, Susan Pevensie

sentiu o frio de um inverno que durava dez anos se instalar em seus ossos.

Não era o inverno da Feiticeira Branca, que podia ser quebrado com uma espada.

Era o inverno da indiferença.

E ela não sabia se existia primavera suficiente no mundo para derretê-lo.

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