O Rosário De Nyahzi

1 Prólogo - A Profecia


Notas iniciais
Este prólogo é o ANTIGO!
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Ele marchava precípite. A barra de sua capa élfica arrastava-se na lama e na sujeira das ruas da periferia de Castarya. Cobria seu rosto de forma enigmática. A intensa chuva fina ainda caía, o incomodando. Mantinha sua cabeça baixa enquanto os civis corriam a sua volta procurando abrigar-se. De vez em quando esbarrava em algum indivíduo, murmurava um pedido de desculpas breve e recomeçava a caminhada. De súbito o homem parou. Levantou a cabeça de modo que seu rosto ainda era coberto por sombras. Lançou um longo olhar para o casebre de madeira ao seu lado direto. Estava caindo aos pedaços – a madeira estava gasta e roída, o limo alastrava-se por algumas partes do segundo andar, obviamente abandonado. A casa estava escura e a poeira compunha um manto bege sobre os vidros trincados das janelas. Ele aproximou-se e timidamente segurou a alça de metal enferrujada e a lançou contra a porta algumas vezes, produzindo um som grave e distinto. Deu dois passos miúdos para trás e esperou obter uma resposta. Já estava impaciente quando uma fresta da porta abriu-se.

— Quem está aí? – uma voz frágil e banhada em grosserias cortou o ar gelado.

— Sou eu – respondeu o homem encapuzado. Sua voz viril e grave fez o senhor abrir a porta num átimo.

—Ansaat! – cumprimentou – A que devo a honra de sua visita?

Era um senhor de muita idade. Seus cabelos grisalhos e ressecados acariciavam seus ombros. Sua pele franzida lhe dava um caráter frágil. Ele vestia uma velha túnica alaranjada com alguns adornos em verde e azul. O homem gentilmente empurrou o velho para trás e entrou no casebre empoeirado. Despiu sua capa, revelando seu corpo voluptuoso, seus longos cabelos louros e suas vestes reais verdes entalhadas com caracteres élficos em ouro puro, e a deixou nas mãos do senhor, que, por sua vez, pôs a toga no encosto do sofá.

— Vamos deixar as formalidades de lado, Bryace – o altivo homem, Ansaat, disse e o velho riu.

— Claro, ó, rei – ele zombou – Como quiser. Mas ainda não entendo o motivo de sua visita. Preocupações reais?

— Sim – Ansaat admitiu. – Os ventos me alertaram sobre uma guerra. E quero evitá-la.

— Inspirador – Bryace sorriu.

— Não é somente isso – o rei lançou a ele um olhar de reprovação. – Sinto também o gosto da minha morte. E ela virá do Norte.

— Se é Anglea que te aflige, – Bryace separou dois assentos claros e os pôs nos extremos sul e norte de uma pequena mesa quadrada de madeira negra perfeitamente polida – por que simplesmente não manda uma carta a Arachne?

— Não! – esbravejou Ansaat. – Nunca quero estabelecer qualquer tipo de comunicação com Arachne. – o rei sentou-se aflito em uma das cadeiras, o que invitou Bryace a sentar-se na outra. – Quero uma profecia.

— Oh, uma profecia? – o velho parecia impressionado. Há muitos anos não pratica suas habilidades proféticas.

— Sim – Ansaat parecia decidido. – Quero ter uma noção do que devo fazer, Bryace. Se os ventos estiverem certos, Castarya não está preparada para suportar um ataque. Ainda mais se for do Norte. Chegou a mim que seu exército passava dos trinta mil homens.

— Se é isto que você quer – Bryace franziu a testa, o que lhe dava uma aparência terrível.

Ele fechou seus olhos e fixou as palmas das mãos na mesa. Sua respiração de súbito mostrou-se pesada e difícil. Ele entreabriu os lábios e de dentro de sua boca uma fumaça negra escapou. O profeta tremia em demasia e Ansaat estava assustado. Estava prestes a sacudi-lo e acordá-lo quando, de repente, Bryace parou. Abaixou a cabeça num movimento rápido. As palavras saiam de sua boca com um tom fora do normal.

No festejo das terras férteis

Os sinos cruéis trovejarão as canções de treva

Anunciando a volta das esperanças malignas.

O mal que repousa em sono eterno terá seu aguardado retorno

E junto com ele o tormento lendário.

Apenas aquela cujo fogo salvador ainda crepita no âmago de sua alma

Aquela cujas raízes são negadas veementemente

Poderá deter o mal que se alastra.

Tragam-na, tragam-na das terras sienas

A Salvadora de Arthen!

Bryace arfou, tentou recuperar o ar o mais rápido que pôde. Dentro de seus brônquios dilatados a passagem da grande quantidade de ar que ele precisava era laboriosa. Ansaat levantou-se e prontificou-se a ajudá-lo.

— Traga-me... Água.

O rei vasculhou os cômodos da casa a procura da cozinha. Achou-a sem grandes dificuldades. Agarrou com firmeza um copo de vidro e o encheu de água, pura, cristalina. Quando voltou a sala, Bryace já respirava um pouco melhor.

— Fico agradecido – o velho deu um sorriso magro para Ansaat. O rei o entregou o copo e Bryace agarrou-o com avidez.

— Eu lhe agradeço, Bryace – ele envolveu as mãos franzidas e frágeis do senhor nas suas próprias, jovens e suaves. – Sabe os riscos de profetizar e o fez por mim. Muito obrigado.

Ansaat recolheu sua capa e direcionou um sorriso ao velho profeta, que o mirou com compaixão. Abriu a porta do casebre com violência e rapidamente escondeu seu rosto, numa fuga sem um real perseguidor até seu castelo.


— Eriel! – gritou Ansaat. O mago logo surgiu pela grande porta de madeira, ouro e prata. Ele fez uma longa reverência.

— Meu rei – Eriel o saudou. – Em que posso ser útil?

— Corrija-me se estiver errado, meu caro mago – Ansaat começou – mas é em Anaea que vivem as famosas sielahs, correto? Anaea é a terra siena, não é?

— Perfeitamente, meu senhor – ele agitou os precoces cabelos cinzentos.

— Ótimo – Ansaat sorriu. – Quero que pegue o mais rápido cavalo e vá até lá.

— Mas por qual motivo, meu rei?

Ansaat levantou-se de seu trono e caminhou até o mago.

— Fui até Bryace – ele revelou – E lhe pedi uma profecia.

Contou a ele sobre o agouro. Eriel empalideceu e moveu-se com agitação incomum.

— Partirei para Anaea agora mesmo – fez-lhe uma última reverência e andou a passos largos até o estábulo real.

Precisava encontrar a sielah que salvaria o seu reino. E o mais rápido possível.


Notas finais
Tá uma merda isso aí, mas...