O Rosário De Nyahzi
5 Capítulo 4 - O Rosário e o Dragão
A trilha da floresta de Eori estava marcada por grandes pegadas. O animal que ali passara era, obviamente, colossal e muito pesado.
— Rashllons – Eriel concluiu após uma curta verificação.
Os pelos da nuca de Nupie se eriçaram e um arrepio desceu por sua espinha, chacoalhando seu corpo frágil.
— Vamos tomar o caminho depressa antes que voltem – o mago tomou a dianteira.
A mestiça tratou logo de iniciar a intensa caminhada. De súbito, tateou sua cintura a procura de Vakërash. Seus dedos ávidos logo encontraram a bainha de couro que protegia a espada. Pousou sua mão lá por alguns minutos, pronta para libertar sua companheira a qualquer sinal de rashllons.
— Relaxe, Nupie – aconselhou Eriel. – Os rashllons estão distantes. Saberíamos se estivessem por perto, acredite.
Ela o encarou com o semblante tenso. O mago a enviou um sorriso tranquilizador e Nupie, por fim, relaxou seu braço. Suspirou e concentrou-se no caminho.
— Se continuarmos neste ritmo, chegaremos a tempo para a Noite de Shazram! – o homem cortou o silêncio muitos minutos depois.
— Noite de quem? – a menina perguntou, juntando as sobrancelhas finas.
— Noite de Shazram. É uma comemoração castaryana. Há festa, comida e bebida sem restrições pela noite inteira. A festa em si tem um significado muito antigo e acho que não vale a pena explicar agora. Achei que, por morarem nas adjacências, também comemoravam.
Luse meneou a cabeça.
— Na verdade, não fazia ideia do que era isso – o humano deu um sorriso breve para o mago.
— Eu muito menos – Nupie concordou, dando de ombros.
— Vocês nunca saíram de Anaea? – Eriel ergueu um sobrolho e encarou os dois.
— Eu, não – a mestiça prontamente disse.
— Eu morei em Barva até meus cinco anos – o garoto contou. – Depois disso, nunca mais saí de Anaea.
—Nunca visitaram Castarya? – o mago parecia surpreso.
— Não – responderam num uníssono.
Ele fez uma careta.
— Não posso acreditar que nunca visitaram Castarya. É a cidade mais bela dos dois continentes. Suas árvores pincelando de verde as ruas cinzentas é o espetáculo mais bonito que já vi. A Grande Muralha que separa a Floresta de Eori e a Cidade é simplesmente fantástica. E até o ruído incessante dos vendedores na rua comercial é agradável de certo modo. Dá equilíbrio.
O sol já quase se deitava no horizonte quando foi possível avistar ao longe uma grande parede de blocos cinzentos com uma fina película de poeira encobrindo-a. O homem pôde sentir o coração explodindo sua caixa torácica. Enfim em casa, pensou, um sorriso bobo possuindo seus lábios.
— E aquela é a Muralha de Castarya, nossa grande protetora – o mago fez uma pequena mesura.
Ele pegou Nupie e Luse pelos pulsos e correu com eles até que a muralha estivesse com toda sua magnificência a poucos metros. Era feita de centenas blocos cinzentos enormes, maciços e muito resistentes. No topo havia torres de guarda e em cima delas, bandeiras vermelhas, cada uma adornada com um dragão negro perfeitamente desenhado e bordado.
O homem conduziu os dois jovens para a esquerda, onde estava o magnífico portão de madeira lisa e bem polida. Eriel bateu ritmicamente três vezes na grande porta e deu um passo para trás. Uma abertura foi feita em uma das tábuas, revelando dois olhos castanhos entediados.
— Quem são o que querem? – a sentinela questionou.
— Sou Eriel, mago do Exército Real de Castarya, soldado da Guarda do Rei. Estes dois são convidados do rei.
— Preciso dos nomes, senhor – disse ele com falso interesse.
— Nossos nomes não são assunto seu – Nupie respondeu com rispidez.
— Deixe-nos passar de uma vez, pelos Deuses! – Eriel deu sinais de profunda irritação. – Não portam bombas nem são procurados, se é o que quer saber.
O guarda resmungou e permitiu a entrada dos visitantes. Logo o cheiro da cidade preencheu os pulmões do grupo. Nupie arquejou, encantada. Respirou fundo, tentando capturar aquele aroma castaryano para sempre. Parecia-lhe uma junção aprazível de damasco, rosas e couro. Eriel tomou a dianteira, acordando os dois de seus devaneios.
— Temos que ver o rei. Depois vocês podem respirar o que quiserem.
O Castelo Real ficava no coração de Castarya. Todas as ruas principais levavam até ele, que se localizava na colossal Praça de Kraul – a maior praça dos dois continentes.
Eriel, Luse e Nupie seguiram com pressa por uma das cinzentas e barulhentas vias e depois de poucos minutos estavam numa área circular de proporções gigantescas. Sob uma colina mostrava-se imponente o castelo negro como a noite, reinando sozinho. Nas adjacências erguiam-se torres e campos, todos cingidos por uma enorme espécie de cerca negra.
Eriel disse algo breve para os guardas do portão, que rapidamente liberaram a passagem. Subiram a colina esverdeada em silêncio. Nupie já estava ofegante, os brônquios dilatados impedindo parcialmente a passagem do ar. Quando chegou ao topo, ela jogou-se na grama verde, fechou os olhos e, exausta, tentava normalizar a respiração. Ficou assim por poucos segundos, até ser brutamente erguida do chão. Já podia imaginar quem cometera o ato somente pela força da única mão que a segurou.
— Deixe-me no chão, Eriel – resmungou.
Ele resfolegou e pôs a menina de pé.
— Só mais alguns minutos, Nupie. Aguente firme.
A mestiça resmungou enquanto tirava um pouco de grama do seu cabelo. Eriel liderou a entrada no castelo negro; ao adentrá-lo, a garota arfou, tamanha a beleza daquele aposento.
O chão da imensa sala era de porcelana bege, com escrituras élficas matizadas em tinta dourada nas bordas. Nas paredes brancas feito pétalas de margarida erguiam-se gigantes janelas de vidro. Havia também tapeçarias da mais pura seda e do mais caro ouro. No extremo norte da sala havia uma escada de mármore bege e seu corrimão era de prata pura.
Luse tirou a menina de seu transe, puxando-a pelo pulso para os flancos de Eriel, que já subia a bela escada. No segundo andar, uma porta colossal de madeira, adornada com elementos dourados e prateados reinava soberana. Dizeres élficos também foram escritos ali.
O mago envolveu a maçaneta de aço com a mão e a girou. Empurrou de leve o portão, deixando um espaço para que metade de seu corpo pudesse entrar.
— Meu rei – ele chamou. – Trouxe-lhe a menina.
— Deixe-a entrar – uma voz austera e grave ecoou pelo salão do outro lado da grande porta.
— Trouxe também seu fiel amigo – informou.
O rei suspirou longamente, quase entediado.
— Deixe-os entrar, Eriel.
O mago abriu a passagem, revelando a magnificência da sala. As paredes eram tão brancas como as do salão de entrada. Nela havia janelas de vidro negro e tapeçarias bordadas com fios de ouro, prata e seda. O chão era negro, com faixas de puro diamante. No fim da sala havia três degraus baixos cristalinos e no altar estava a mais bela peça de toda a Sala Real: O trono. Era feito de ouro puro, seus braços eram povoados de safiras, rubis e outras pedras preciosas que Nupie desconhecia. Frases élficas também foram escritas nele, mas em tinta prateada.
Havia um senhor ali acomodado: Ansaat, o rei Elfo. Estava trajado em roupas verde-escuras com detalhes bordados em ouro. Seus cabelos louros e macios acomodavam-se em suas coxas e suas orelhas pontiagudas estavam à vista. O corpo do elfo era voluptuoso, o que mostrava que estava no auge de seus trinta e oito anos. Nupie entrou na grande Sala Real a passos lentos, admirando cada detalhe. Luse estava em seu encalço, também boquiaberto.
— Olá, crianças – Ansaat direcionou a eles um sorriso gentil. – Sou Ansaat, o Primeiro dos Ankhër, o Elfo.
— Sou Nupie – ela disse, a voz vibrante.
— Luse – disse com firmeza.
— Creio que não saibam o motivo de terem sido chamados. Estou certo?
— Eriel fez questão de não contar – Nupie dirigiu ao mago um sorriso obviamente forçado. O rei gargalhou.
— E fez bem! – exclamou. – Queria contá-lo eu mesmo.
A majestade levantou-se de seu trono, desceu apenas um degrau e pousou o olhar sério na mestiça e no humano.
— Há alguns dias, fui visitar um amigo. Contei a ele sobre algumas preocupações que me foram trazidas pelos ventos. Senti uma ameaça vinda das províncias do Norte. Este meu amigo é também um profeta, e ele usou suas habilidades a meu favor. Vou lhes contar o que ele me disse. Se isto sair desta sala, sinto em alertar, mas algo bem ruim acontecerá. Voltando à profecia, vou recitá-la para vocês.
No festejo das terras férteis
Os sinos cruéis trovejarão as canções de treva
Anunciando a volta das esperanças malignas.
O mal que repousa em sono eterno terá seu aguardado retorno
E junto com ele o tormento lendário.
Apenas aquela cujo fogo salvador ainda crepita no âmago de sua alma
Aquela cujas raízes são negadas veementemente
Poderá deter o mal que se alastra.
Tragam-na, tragam-na das terras sienas
A Salvadora de Arthen!
Um silêncio obscuro preencheu a sala.
— Acredito que você, Nupie, possa ser a salvadora que a profecia cita. Do contrário, não estaria aqui – Ansaat a fitou com tranquilidade.
Nupie arregalou os olhos e arfou. Nunca em mil anos imaginaria tal responsabilidade caindo sobre seus ombros.
— Mas eu não me encaixo ali! – ela exclamou. – Eu n-não nego nada e...
— Mas passou parte de sua vida ouvindo que era uma sielah enquanto era mestiça – Eriel interviu. – Sua mãe tentou apagar todos os vestígios humanos da sua vida. Se isso não é negar as raízes, eu não sei o que é.
A menina o encarou, espantada.
— Como sabe disso? – Nupie pousou no mago um olhar furioso.
— Tive uma conversa com a sua mãe, se não se recorda – ele calmamente enviou-a um sorriso cordial.
— Mas a pergunta é – Ansaat disse, calando os dois – vocês nos ajudarão? Precisamos de ajuda. Se esta profecia se concretizar... Não quero nem pensar no que pode acontecer. E também prefiro acreditar nos dons de meu fiel mago Eriel. Se ele diz que você pode ser a salvadora citada pela profecia, assim será. Vocês nos ajudarão?
— Claro – Luse deu de ombros.
A mestiça abaixou o olhar, que estava pousado no rei, e deu um longo suspiro. Odiava admitir, mas sentia um pouco de temor dentro de si. Queria negar, espernear, berrar. Queria ver-se longe daquilo tudo. Tinha medo. Entretanto, limitou-se a cruzar os braços finos.
— Se meu melhor amigo concorda com toda esta loucura... – ela deu um sorriso fraco.
— Loucura e Inconsequência são seus nomes do meio, Mandrell – brincou o garoto.
Nupie riu longamente.
— Eu havia me esquecido – caçoou, levemente corada.
— Então ambos aceitam o convite de se juntar a nós e defender Castarya? – Ansaat perguntou, um sorriso largo adornando seu belo rosto.
— Sim! – os dois disseram num uníssono.
— Isto é ótimo! – o elfo lhes ia dizer mais algumas coisas, mas foi interrompido por uma criada na porta.
— Vossa Majestade, desculpe a intromissão, mas Senhor Bryace enviou algo para os visitantes – informou em baixo tom, constrangida.
— Entre – a majestade convidou, a voz um pouco entediada.
A aia abriu a porta por completo, revelando outra criada e duas caixas aparentemente de cobre. Prontamente, Luse foi ajudá-las a carregar os baús para o centro da sala. Elas fizeram uma longa reverência para o rei e abandonaram a Sala Real.
— Bryace – Ansaat riu-se brevemente. – Sempre generoso. Vamos, abram!
— Quem é Bryace? – Nupie perguntou, as sobrancelhas unidas.
— Um velho amigo e profeta – ele sorriu para si mesmo. – Abram.
O garoto foi o primeiro. Agachou-se em frente à grande caixa acobreada e destrancou a tampa. Ele arquejou e, com um sorriso largo, retirou dali seus presentes.
Era uma bela cota de malha de prata pura, via-se que era bem resistente e maleável. No meio dela havia bordada com linha vermelha a letra “L” numa caligrafia elegante. Havia também um manto escarlate feito da mais pura seda. Os olhos de Luse brilhavam ao exibir os presentes de Bryace – conhecido também no castelo como Lorde Bryace.
— Belíssimos presentes, Luse – o elfo elogiou.
— São realmente belíssimos! – disse, ainda admirando as peças – Há uma carta também.
O humano passava seus dedos delgados pelo requintado papel da carta enquanto Nupie arriou-se para destrancar seu baú e o fez com rapidez. Ela franziu a testa para seu presente, certamente com dúvidas sobre o que era.
Ela o retirou do baú e o analisou. Era decerto um ovo. Tinha escamas cinzentas, mas mudava sua coloração para anil e verde conforme o movia. O objeto era grande e não conseguia segurá-lo apenas com uma mão. Ele exalava vida, quente e frágil. Fitou Ansaat, que estava pálido e balbuciava algo que a mestiça não pôde entender.
— O que é isso? – Nupie perguntou.
— Um... – Eriel engoliu em seco antes de responder, o palor somando anos ao seu rosto – Um ovo de dragão.
A garota gargalhou alto.
— Isso é demais! – seus olhos prateados brilhavam como a luz da lua.
— Nupie, os dragões foram extintos há anos! – informou o mago. – Só há rumores de que existam numa ilha afastada perto do extremo norte de Arthen.
— E agora, um lindo dragão foi trazido até Castarya para aninhar-se em meus braços – ela envolveu o ovo com os braços finos.
— Ele, ou ela, será lindo, Nups! – Luse exclamou, entusiasmado. – Veja as escamas! Três tonalidades diferentes! Li uma vez num livro na biblioteca de meu pai que estes são os mais raros.
— Temos que pensar em um nome para ele, ou ela. Um nome em sieno, talvez?
— Com certeza!
Ansaat, ainda estupefato, sorriu para a menina.
— É inacreditavelmente belo, Nupie, mesmo que seja de cerâmica ou porcelana, como eu, sinceramente, acho que seja – disse, a feição tornando-se séria. – Mas é melhor guardá-lo. Você bem saberá, as paredes deste castelo têm olhos e ouvidos.
E assim fez a mestiça. Pôs o ovo de dragão dentro do baú e, quando estava levantando-se, ela sentiu um peso forçar seu pescoço para baixo. Era seu rosário, havia escapado de suas vestes negras e agora estava à vista de todos.
O rei o fitou com curiosidade e se aproximou. Ele pôs apenas um dedo no pingente e um choque elétrico desceu por sua espinha, provocando arrepios. A majestade ofegou. Levou a mãos à boca escancarada.
— É uma Delas! – estava claramente num misto de felicidade e agonia.
Nupie pôs as mãos na cintura e encarou Eriel – duplamente pálido ao entender o que estava acontecendo – e o elfo com cara de poucos amigos.
— Já é a segunda vez que me chamam deste nome! – esbravejou. – Podem me contar o que há de errado comigo agora?
— Como assim segunda vez? – perguntou o mago, saindo de seu transe.
— Provavelmente quando ela se perdeu na floresta – Luse enviou à menina uma piscadela.
— Uns seis fantasmas malucos me encurralaram, viram meu colar e desapareceram – ela deu de ombros.
— Você foi encontrada pelas Seis da Morte!? – exclamou Eriel levando as mãos aos seus cabelos cinzentos, o rosto rubro.
— Oh, sim, era este o nome! – Nupie estalou os dedos, lembrando-se daquela enfadonha noite.
— Tens sorte por ainda estar neste mundo, Nupie – advertiu Ansaat, os lábios selados numa linha tênue. – As Seis da Morte são perigosas.
— É, eu fiquei sabendo – a mestiça sorriu, sarcástica. – Agora passemos para a parte dos meus problemas.
— Nupie, este colar... Onde você o achou? – o mago segurou seus ombros e a encarou.
— Myahne, minha mãe, me deu quando tinha em torno de dois anos. Ela disse que ele iria me proteger dos perigos e que eu nunca deveria retirá-lo.
A majestade suspirou. Uma expressão séria habitou seu rosto.
— Isso era considerado apenas uma lenda, mas vejo que todos os nossos conceitos estavam errados. Vou lhe contar. Há muito tempo atrás, os criados de Rewyn, o Mal, queriam aniquilar as criaturas fêmeas de Nyahzi. Queriam fazê-lo para jogar os corpos delas em labaredas e oferecê-las ao próprio Rewyn como sacrifício. Nossa Deusa Primordial implorou a Rewyn que ele concedesse a ela o poder de escolher as mais fortes para sobreviver aos ataques. E o Mal concedeu. Nyahzi fez de seu símbolo, a cruz, um amuleto; forjou nos Céus rosários exatamente iguais ao seu, Nupie. Deu-os às suas protegidas e as chamou de Abençoadas. As Abençoadas de Nyahzi. O que Rewyn não sabia era que o rosário continha uma parcela de poder, que fora sugada pelos corpos das Abençoadas. Elas desenvolveram inúmeras habilidades e lutaram por seus povos. Rewyn, sempre muito sagaz, esperou que as Abençoadas saboreassem o temporário gosto da vitória. Diz a lenda que ele raptou uma por uma e as devorou, absorvendo, assim, todos os poderes concedidos por Nyahzi.
— Então eu sou a sobrevivente? – a mestiça zombou.
— Você foi corretamente escondida, Nupie – o elfo tinha alguma incerteza na voz.– Não consigo compreender o porquê. Mas deve continuar a ser.
Nupie rapidamente pôs o pingente para dentro de suas vestes negras.
— Vou chamar meus filhos para que os levem para seus aposentos – Ansaat disse, ainda recuperando o fôlego. – Eladel! Nathen!
O silêncio reinou, soberano, por alguns minutos. Lá fora, no grande corredor do castelo, duas pessoas caminhavam apressadas. A porta da Sala Real abriu-se num átimo, revelando magníficas criaturas.
A primeira, uma elfa. Seus cabelos dourados caiam em sutis cachos até a sua cintura. Suas orelhas pontiagudas estavam à vista. Seus olhos eram turmalinas verdes, perfeitamente polidas para seu rosto de expressões calmas e finos traços. Seu vestido era verde claro, perceptivelmente feito das mais caras sedas provenientes de Cartesy. Ela fez um cumprimento gestual com elegância, sorrindo para Nupie e Luse.
— Sou Eladel, Princesa de Arthen, Dama das Flechas – apresentou-se.
O segundo, um elfo. Seus cabelos louros recém cortados emolduravam seu rosto de traços élficos fortes. Seus olhos eram tão anis quanto uma espinela. Estava trajado com uma cota de malha tênue e prateada, e por cima dela um colete de couro negro. Exalava elegância e requinte a cada sutil movimento. Fez uma grande vênia a Nupie e um cumprimento gestual para os demais.
— Sou Nathen, futuro ocupante do Trono Dourado, Domador de Espadas – ele aclamou-se.
— Eladel, leve Nupie para seus aposentos na Segunda Torre – o rei ordenou. – Nathen, leve Luse aos seus aposentos também na Segunda Torre. Quero os dois prontos para a Noite de Shazram ao pôr do sol.
— Vamos, Nupie! – a princesa agitou os braços finos com animação. – As criadas levarão seus presentes.
Eladel caminhou a passos largos até Nupie, agarrou-a pelo pulso com um enorme sorriso no rosto e a encaminhou em direção à porta. A elfa a guiou até o extremo leste do corredor, que terminava em uma rampa.
— Você vai adorar isto aqui – disse, dando um longo suspiro. – Vejo que porta uma bela espada.
Ela sorriu largamente para a elfa.
— Ganhei aos cinco anos – comentou, corada. – Seu nome é Vakërash.
— O que significa? – a princesa perguntou com uma intensa curiosidade brilhando nos olhos.
— Tormenta na Língua Siena, a Língua Perdida das sielahs – explicou. Deu uma olhadela para trás, fitando Luse, que conversava animadamente com Nathen.
— Isso é demais! E também me lembra de que meu arco não possui um nome. Papai sempre nos diz que uma arma nomeada obtém mais poder.
Ela fitou o grande teto arquitetado pelos gênios da Era de Ouro, mordendo os finos lábios. Mirou Nupie e a enviou uma piscadela travessa.
— Como é gelo em sieno? – perguntou. – Vou batizar meu arco com esta língua, com certeza. Soa tão... Bonito.
— Norrëhan. – a mestiça respondeu com um sorriso. – E obrigada.
— Então este será o nome de meu belo arco. Norrëhan. Um dia a mostrarei para você.
Elas desceram toda a rampa e atravessaram um campo verde e muito bem iluminado, onde alguns soldados repousavam ou treinavam. A princesa virou-se para a esquerda, lançando-se numa nova e mais íngreme rampa. Saíram numa torre luminosa e clara composta por várias escadas. Eladel guiou Nupie para a escada no extremo norte. Nathen e Luse dirigiram-se para a escada à direita.
— Seus aposentos são estes – a elfa apontou para uma porta no centro do andar. Era de madeira negra que contrastava de forma bela com o ambiente níveo.
A menina girou lentamente a maçaneta de ouro puro, suspirou e abriu a porta. Arfou de surpresa. Seus aposentos eram maiores que sua casa em Anaea. O chão era de mármore branco, nas extremidades fora feita uma linha tênue de tinta dourada e no centro havia um losango preto com o logo do Clã Real – uma majestosa letra A de caligrafia cursiva – feito de tinta rubra, que lembrava labaredas dançantes do fogo. As paredes eram alvas e comportavam quadros feitos exclusivamente para os aposentos do Castelo Real, que em sua maioria retravam elfos e florestas.
No quarto havia também um guarda-roupa de madeira negra com adornos florais em relevo, uma bela cama de hastes douradas e lençóis de seda azul-turquesa, uma mesa de cabeceira de madeira onde, a convidada pensou, que Vakërash caberia com perfeição, um gigantesco espelho cuja moldura era de prata pura e, no ponto mais longínquo, uma porta idêntica à de entrada.
— A cama é feita do mais puro ouro e seus lençóis da mais pura seda – Eladel tinha nojo em sua voz. – Não que eu ligue para isso. Vamos ver o banheiro.
— Banheiro? – Nupie arregalou os olhos e a princesa sorriu.
— Claro que tens seu próprio banheiro! – riu-se. – Venha.
Ela puxou a mestiça pelos pulsos até a porta do toalete e a abriu. Deu passagem à garota, que se esgueirou lá dentro, os olhos brilhantes e a mandíbula descaindo enquanto descobria o aposento.
Havia lá uma imensa banheira de cobre, a maior que já vira, prateleiras de vidro que comportavam toalhas alvas e uma latrina de cerâmica branca. As paredes cândidas comportavam quadros serenos e solenes.
— É maior que metade da minha casa – Nupie comentou.
Eladel gargalhou alto.
— Venha, vamos ver seus vestidos e suas sedas. Presentes de meu pai – a princesa pôs-se fora do banheiro privado e abriu as portas do guarda-roupa negro.
A garota atravessou o umbral da porta para segui-la, mas parou de súbito. Ao lado da cama jazia algo como um berço minúsculo de ouro com detalhes de rubis, safiras verdes e pequenos diamantes.
— Eladel, o que é isto exatamente? – ela questionou, apontando para o ignoto objeto.
— Não sei bem – a elfa deu de ombros. – Bryace mandou hoje cedo.
— Bryace?
— É – Eladel sorriu. – Mas venha, vamos admirar suas novas sedas.
Elas riram e puseram-se a contemplar por toda a tarde os vestidos magníficos que Nupie ganhara. Por aquelas curtas horas, a mestiça esqueceu-se da grande responsabilidade que carregava sobre seus ombros.
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