O Rosário De Nyahzi

4 Capítulo 3 - A Academia de Artes de Guerra


Notas iniciais
Odeio essa capítulo.
Chato chato chato.

CAPÍTULO TRÊS

A Academia de Artes de Guerra

— Pelos Deuses, Nupie! – ele esbravejou quando a viu. – Não sabe obedecer às ordens?

— Na verdade não – ela admitiu rindo.

— Por onde você esteve? Procurei por você em cada centímetro dessa floresta.

— Amanhã eu lhe conto – a mestiça bocejou. – Estou cansada.

— Cansada?! – Eriel vociferou. Nupie riu, a bochecha pintando-se levemente de rubro.

— Meu caro Eriel, se soubesse o que passei não falaria assim comigo – ela gargalhou um pouco mais. – Vamos para a toca.

Um novo dia, então, surgiu. Os primeiros raios da manhã iluminavam suavemente a amena floresta. Pássaros voejavam e cantarolavam, anunciando a chegada do sol. Nupie foi a primeira a esgueirar-se para fora da toca. Espreguiçou-se, o corpo um pouco doído devido à falta de comodidade do esconderijo. Eriel projetou-se para fora num átimo e, em seguida, Luse fez o mesmo.

— Estou pronta para ir – a mestiça anunciou, sorridente. O homem ergueu uma sobrancelha.

— Ir para onde?

— Anaea – ela ergueu os sobreolhos de modo que parecia estar dizendo o óbvio.

— Não vai voltar para lá – uma sombra passou pelo rosto do mago, dando-lhe um aspecto sombrio. Todos os vestígios de sorriso abandonaram o rosto de Nupie.

— Como não? – a menina inquiriu incrédula.

— Anaea foi reduzida a cinzas – ele noticiou com pesar. – O ataque foi certeiro, os rashllons foram mandados para destruir Anaea, isto ficou óbvio. É muito perigoso voltar.

— Rashllons? – Luse chacoalhou a cabeça num sinal de confusão. – Havia mais?

Eriel assentiu, fitando o rosto devastado de Nupie. Algo palpitou em seu coração; vê-la daquele jeito o deixava profundamente melancólico.

— Você não está entendendo – ela disse, a voz embargada. – Eu preciso voltar. Não posso simplesmente abandonar Anaea, minha mãe, os civis, a Academia! Pelos Deuses, minha Academia de Artes de Guerra!

— Você não pode voltar, Nupie – ele impôs, sua voz dura e impassível. – Não há mais nada em Anaea. Os civis estão espalhados por Euron, esperando tudo se acalmar. Eu sou do Exército Real de Castarya, não há nenhuma academia que possa treiná-la melhor que eu.

— Mas... – começou, mas foi interrompida.

— E eu não posso lhe deixar ir por mais um motivo: creio que você seja quem eu estava procurando a mando de meu rei.

Nupie paralisou-se. Encarava Eriel com agressividade e medo. Não tinha ideia do que o mago procurava – e ver diante de si a possibilidade de ser procurada por alguém a encheu de pavor.

— Como assim? – a mestiça cerrou os olhos, desejando apenas acordar de um sonho ruim.

— Não posso lhe dizer agora – o homem virou-se para recolher os suprimentos que encontrou à noite.

— Se não me disser do que se trata, eu... – Nupie parou por alguns segundos para pensar – Eu volto para Anaea sozinha.

Ela cruzou os braços e lançou um olhar intimidador para Eriel. Luse soltou uma gargalhada estrondosa, ecoando pelo silêncio da alvorada. O mago arqueou uma sobrancelha para a menina.

— Ah, é mesmo?

— É – disse, a voz vacilante.

— Bom, neste caso...

Eriel levou breves segundos até chegar à Nupie. Segurou suas pernas com firmeza e num movimento sutil jogou o corpo da mestiça por cima de seu ombro, de modo que ela ficasse pendurada nele com as pernas miúdas no tórax dele.

Quando ela se deu conta, o mago já estava em movimento com Luse – que foi encarregado de carregar tudo que Eriel encontrara na floresta – ao seu lado. A mestiça tentou acertar o mago com seus poderosos chutes, mas suas pernas eram curtas demais e estava ainda muito cansada. Ela tentou socar as costas dele, mas ele não reagia. Nupie estava ficando sem opções, então começou a esbravejar.

— Quando você me soltar, ah, você vai ver só! – gritou, a voz aguda incomodando os ouvidos de Eriel, mas nem mesmo cogitou mostrar desgosto. – Aliás, onde está Vakërash?

— Comigo – Luse apontou para uma bainha negra com espirais e curvas abertas como adorno presa em sua cintura, junto a outra bainha negra com desenhos também espirais bordados com uma bela linha prateada.

— Dê-me, Luse – Nupie disse, imponente.

— Nups, querida, só lhe devolvo esta espada quando sentirmos que é seguro.

Ela grunhiu, desgostosa. Mal conseguia acreditar que seu melhor amigo bandeara-se para o lado do mago. Sentiu-se, por um instante, quase traída.

Eriel os guiava pelo oeste, o caminho mais rápido até Castarya, apenas fazendo rápidas paradas para refeições curtas.

Nupie cruzou os braços e, silenciosa, viu a noite escurecer o caminho a sua volta. Luse encontrou, a poucos metros da trilha principal, uma toca desabitada de algum animal desconhecido grande o suficiente para os três e os suprimentos. O humano guiou o mago e a mestiça – que ainda era carregada – para o abrigo.

Eriel, enfim, deixou Nupie descer de seu ombro. Ela adentrou o esconderijo ainda com os braços cruzados. Luse e o mago também entraram com as provisões e os suprimentos.

— Ora essa, vamos, Nupie – o humano acariciou os ombros da mestiça. – Fizemos isso pelo seu bem.

Nupie apenas abaixou a cabeça, deixando seus cabelos esconderem seu rosto. O amigo retirou a bainha que abrigava Vakërash de sua cintura e a agitou em frente a ela, que prontamente ergueu o olhar.

— Aqui – ele sorriu para a mestiça, que retribuiu. Luse pôde ver os olhos dela brilhando.

— Mais um dia de caminhada intensa e chegamos à Castarya – Eriel mirava os arbustos a sua frente. – Mas agora é melhor descansarmos. Amanhã teremos um dia intenso.

Nupie acordou antes que o dia raiasse. Acariciava a lâmina de sua espada sorrindo. Lembrava com clareza do dia que a ganhou.

Era um lindo dia; o céu estava limpo, o sol brilhava intenso. A luz solar aquecia os corpos recém-acordados dos comerciantes da rua principal de Anaea. A garota já estava pronta há horas, apenas esperava Myahne acordar para levá-la à Academia de Artes de Guerra. Finalmente havia sido admitida e aquele dia seria sua introdução. Ganharia uma espada e começaria a treinar. Seu sonho mais profundo era ser uma guerreira do Exército Real de Castarya. Ela só tinha cinco anos, mas já tinha planos altos para seu futuro.

A mestiça não aguentava mais esperar; correu até o quarto da mãe e jogou-se na velha cama de madeira onde a sielah ainda repousava.

— Mamãe, acorde! – ela pulava no colchão surrado. – Vamos, acorde!

— Nupie, saia agora de cima de mim! – vociferou.

Nupie saltou da cama com um sorriso astuto. Myahne levantou-se bufando e expulsou-a de seu quarto para que pudesse se aprontar. A pequena não conseguia manter-se parada; andava pelos corredores, dava voltas pela cozinha, pelo banheiro e pela sala. Após alguns minutos – que para ela pareceram milênios – a sielah, ainda brava e atordoada, pegou a filha pela mão e escancarou a porta. A mestiça correu para fora e os ventos fustigaram seus cabelos.

—Nupie, espere – Myahne advertiu.

Ela bufou e cruzou os bracinhos miúdos, assistindo sua mãe trancar cuidadosamente a porta da frente do casebre. A sielah agarrou o pulso de Nupie e juntas começaram uma caminhada preenchida pelo silêncio. A mestiça mal podia esperar. De excitação, enrolava os dedos finos nos cabelos esverdeados. Um tempo depois, de súbito, algo a tirou de seu transe, um grito cortou a quietude do ambiente.

— Ei! Espere! – a voz era fina e claramente masculina. Nupie virou-se para trás e pôde ver um menino de sua idade correndo ofegante. – Espere!

A menina puxou a mão de Myahne para si, um sinal para que esperasse. O garoto enfim as alcançou. Pôs as mãos nos joelhos, sua respiração estava pesada e difícil. Ele ergueu os olhos, que foram ao encontro dos da mestiça, que o encarava com curiosidade.

— Vocês vão à Academia de Artes de Guerra? – ele perguntou, ainda um tanto ofegante.

— Sim! – Nupie exclamou.

— Vocês, bem, poderiam me mostrar o caminho? – perguntou com timidez. – Recebi a carta de admissão, mas não sei bem aonde é.

O menino coçou a nuca e deu um sorriso torto a ela.

— Vem com a gente – a garota enviou uma piscadela ao garoto, que riu. A mestiça estendeu a pequena mão para ele. – Sou Nupie.

— Meu nome é Luse.

Chegando à Academia, Nupie e Luse juntaram-se a uma multidão que esperava a abertura dos portões no lado de fora. As muralhas que protegiam a Academia eram feitas de tijolos negros. Nos pontos onde uma parede de tijolos encontrava-se com a outra havia torres, e lá em cima, bandeirinhas da cidade de Anaea. Os portões eram feitos de grades de metal cor de carvão.

Atrás deles soldados guardavam as portas com afinco, sem mover nem um músculo, apenas prestando atenção na multidão do outro lado. Nupie estava mais do que apenas impaciente; ela bufava, agitava as pernas curtas, remexia os cabelos, encarava os guardiões dos portões para ver se o tempo transcorria com mais rapidez. Por um momento, ela parou para analisar Luse. Ele tinha cabelos castanhos e lisos que batiam no meio de suas orelhas. Suas roupas eram simples e claras, mas estavam sujas de terra. Seu rosto tinha um pouco de fuligem e parecia cansado.

— Luse, de onde você veio? – perguntou. – Nunca te vi antes.

O menino coçou a nuca e hesitou um pouco antes de responder.

— Venho de Barva. Saí de lá por minha conta. Longa história.

Minutos depois – que para a menina pareceram mais alguns milênios – os guardas moveram-se e abriram os portões. Os admitidos adentraram e os acompanhantes tiveram de esperar do lado de fora. Luse e Nupie estavam no meio da multidão de crianças aceitas, caminhando pela trilha que levava para o interior do lugar. Nervosos, olhavam para todos os lados, admirando cada detalhe da imensa Academia.

Chegando ao final da trilha de cascalhos, desembocaram em um lugar imenso e circular, um gramado perfeitamente verde com arquibancadas em torno. No meio dele, seis figuras perfeitamente alinhadas esperavam pelas crianças. A multidão hesitou por alguns segundos no fim da trilha, imaginando a identidade das silhuetas.

— Aproximem-se – um dos seis disse.

E assim o fizeram. No campo, o sol matutino inundava os corpos com seu calor gratificante. A leve brisa brincava com os cabelos safira de Nupie, que roia as unhas miúdas de nervosismo. Quando estavam há três metros das seis figuras – homens adultos, a mestiça os reconheceu como os Mestres da Academia – uma voz pediu para que parassem.

— Vocês são as cem crianças de todo o continente de Euron que foram julgadas capacitadas para fazer parte de nossa família, a Academia de Artes de Guerra – um homem de cabelos castanhos e ondulados roçando em seu pescoço deu um passo à frente. Ele vestia elegantes roupas de veludo verde escuro. – Sem mais delongas, cada um de vocês deverá escolher a arma que quer trabalhar. A escolha da arma é algo grandioso. Não se trata de escolher a mais bonita, ou a que você considera mais divertida. É preciso ter uma conexão com a arma, é com ela que vocês vão dividir segredos, temores, felicidades. É ela que vai salvá-los, lutar com vocês, lutar por vocês. Contudo, a decisão deverá ser rápida. Sigam suas intuições, elas sempre estarão corretas. Mas tomem cuidado, não será possível trocar de arma uma vez que você a escolheu.

Ele voltou à fila e um rapaz com cabelos louros e bem cuidados com vestes rubras tomou seu lugar à frente. O mestre pigarreou e encarou a multidão por alguns segundos.

— Cada um de vocês será individualmente encaminhado ao armazém de armas – puxou de seu bolso traseiro um papel amarelado que lembrava papiro, o desenrolou e leu o primeiro nome. – Pethers Maian.

Um menino de pele morena sorriu largamente ao lado de Nupie. Ele foi até o homem de vestes escarlate com os olhos cintilando.

— Você é Pethers?

O garoto assentiu com afinco.

— Ótimo. Acompanhe-me – o mestre pegou o menino pelas mãos e o levou ao armazém, logo atrás do campo.

Conforme o tempo passava, as crianças eram chamadas e saíam do depósito com uma bela arma – em sua maioria de aço barvario – e um sorriso contagiante no rosto. Faltavam cerca de quinze crianças para escolher seus armamentos, dentre elas Nupie e Luse. A mestiça estava ainda mais agitada; andava em círculos, enrolava mechas de seu cabelo safira nos curtos dedos com rapidez, não conseguia manter-se parada por muito tempo. Já o menino estava calmo, concentrado e observava com curiosidade a nova amiga.

— Nupie Mandrell – o homem de vestes escarlate enfim chamou, e ela deu passos rápidos até ele, com um sorriso largo no rosto. O rapaz pegou em seu pulso fino e sorriu com ternura. – Venha comigo.

Guiou-a por todo o campo de treinamento e a conduziu por uma curta trilha de cascalho até o armazém. O espaço era amplo, revestido por metal prateado. O mestre abriu as portas metalizadas e deu passagem à Nupie.

Lá dentro, várias mesas também de metal construíam os corredores e comportavam uma infinidade de armas variadas: espadas, arcos, lanças, machados e alguns armamentos que a mestiça nunca ouvira falar. Andou maravilhada pelos corredores, obsevando cada objeto.

Na sexta mesa que passou, uma arma chamou-lhe mais a atenção: era uma espada mediana, a lâmina de aço obviamente barvario com espirais e curvas abertas em relevo como adorno. A guarda era em forma de nó, e o punho era de metal rubro, com belas safiras incrustadas. É esta!, ela pensou, seus olhos lucilando à luz artificial. É perfeita.

Agarrou o punho da espada com as duas mãos delicadas e a mostrou para o homem loiro.

— Tem certeza? – ele perguntou com pouco interesse. Ela assentiu com afinco e recolheu a bainha negra que repousava na mesa metálica. – Então vamos.

Nupie admirou sua espada por todo o caminho até o espaço circular. Quando Luse entrou em seu campo de visão, ela sacudiu a nova arma.

— É uma bela espada, Nupie – ele disse, sorrindo com sinceridade. – Mal posso esperar para escolher a minha. Já sabe qual será o nome?

— Vakërash – a mestiça respondeu e riu da confusão estampada no rosto do menino. – Significa “tormenta” na Língua Siena, a Língua Perdida das sielahs.

— Demais! – o entusiasmo era facilmente detectado na voz de Luse.

Traços de ansiedade podiam ser vistos nos olhos do humano naquele momento. Ele fitava o homem de vestes rubras concentrado. Acompanhou com o olhar o mestre elegante erguer a lista na altura dos olhos e ler o próximo nome.

— Luse Malphus – ele franziu as sobrancelhas enquanto encarava o menino de vestes surradas se aproximar. – Ora, se não é mesmo um Malphus. Esta fisionomia não esconde tuas origens. Onde está Ivich?

— Em Barva – disse, a voz rígida. – Com o resto da família a qual eu não pertenço mais.

Na expressão do homem via-se que ele não levava o pequeno a sério. Deu um curto sorriso para Luse e segurou seu pulso fino, conduzindo-o ao armazém.

Nupie fitava a porta metálica ao longe com ansiedade, a espera do novo amigo. Minutos depois, ela pôde vê-lo na trilha de cascalhos com o mestre loiro a seu lado. Ele portava uma bela espada mediana, a lâmina brilhante feita de um material diferente, não era de aço barvario como a maioria.

Os olhos de Luse brilhavam ao admirar a nova arma. Quando ele percebeu que Nupie o encarava, direcionou a ela um sorriso largo, que foi prontamente retribuído. O menino apertou o passo para encurtar a distância entre eles.

— Veja como é bela! – gritou para a mestiça, ainda um pouco distante.

— Não consigo ver muito, mas parece uma linda espada.

Poucos segundos se passaram e ele já estava ao lado da mestiça. Ergueu a espada, a fim de exibi-la. A lâmina era serrilhada e continha um brilho alaranjado indescritível. A guarda tinha o formato de asas de anjo e o punho era negro com belos diamantes estrategicamente incrustados. A bainha, na outra mão do garoto, era negra e com espirais prateadas bordadas.

— É magnífica, Luse! – disse, admirada.

— E veja como a bainha lhe cai bem! – ele embainhou a arma, deitando sobre ela um olhar orgulhoso. Luse a desembainhou para continuar a admirar-se com sua beleza. – Nupie, como é “bravura” em sieno?

— Kënish – prontamente respondeu. – Por quê?

— Este será o nome da minha – o garoto sorriu confiante. – Kënish.

Passados alguns minutos, foram liberados da Academia. Ainda acariciavam com o olhar as brilhantes lâminas um do outro fora de suas bainhas. Atravessaram a trilha de cascalhos, cruzaram o portão negro e encontraram Myahne do lado de fora, com uma aflição na face jamais vista.

Quando as duas crianças entraram no campo de visão da sielah, ela sorriu, deixando para trás qualquer vestígio de preocupação. Estavam bem, sorridentes, os olhos lucilavam e pareciam estar hipnotizados pelas espadas, analisando e contemplando cada centímetro.

— Mas que belas espadas vocês ganharam – ela elogiou. – Compreendo o brilho nos olhos de vocês. Mas, antes que ocorra algum acidente, é melhor embainhá-las.

­— Deixe-me observá-la apenas um pouco mais – Nupie pediu, os olhos pidões.

Myahne sorriu, desculpando-se.

— Embainhe-a, Nupie – a sielah foi o mais gentil possível. – Armas são perigosas. É melhor embainhá-la também, Luse.

Eles soltaram um muxoxo de desagrado, mas obedeceram-na.

O sol já se posicionava no meio do céu azulado. Estava na hora do farto almoço. A Senhora Mandrell olhou para os lados, procurando o responsável pelo pequeno humano.

— Querido, onde estão seus pais? – ela perguntou. Luse abaixou os olhos e suspirou.

— Em Barva – contou. – Vim sozinho.

A sielah arfou, os olhos saltando de suas órbitas.

— Veio sozinho de Barva até Anaea? É um caminho muito longo a se fazer!

— Bem, sim – o pequeno encolheu os ombros. – É uma longa história.

— E você vai contá-la – Nupie sorriu com confiança. – Onde está vivendo?

— Numa cabana abandonada em Eori.

— Você está vivendo na floresta?! – Myahne passou as mãos pelos cabelos sedosos e alaranjados, o semblante rijo.

— Sim – Luse abaixou o olhar, sentindo as lágrimas invadirem seus olhos, mas logo as afastou.

— Mas por que você... – a mestiça foi interrompida por sua mãe.

— Deixe a conversa para depois do almoço, Nupie – ela agarrou os pulsos finos das crianças e os guiou para a estrada terrosa que levava até o casebre dos Mandrell. – Hoje você será nosso convidado, Luse.

O almoço era uma refeição sagrada em Anaea. Era ele que mantinha os trabalhadores de pé em sua longa jornada de atividades durante o dia, portanto deveria ser farto e saboroso.

Myahne lidava muito bem com as artes culinárias, preparava pratos deliciosos e suculentos; Nupie, por sua vez, era um desastre na cozinha, seus bolos solavam, suas carnes queimavam e seus cozidos passavam do ponto.

A mestiça já desistira de aprender a cozinhar, então a tarefa era sempre de Myahne. A sielah havia preparado naquela manhã um delicioso pato com mel temperado com ervas da floresta de Eori. Levou-o ao forno e pediu a sua filha que aprontasse a mesa, e ela o fez. Luse estava sentado no surrado sofá vermelho, os ombros encolhidos. Era muito tímido e esta seria a primeira vez que teria uma refeição digna em meses.

Nupie, ao concluir o que lhe fora pedido, atirou-se no sofá, chacoalhando o corpo de Luse de maneira divertida. Conversaram sobre coisas banais por breves minutos, até que o forno avisou-lhes que o pato estava no ponto.

Myahne rapidamente desligou o aparelho precário e retirou o animal, bronzeado e suculento. A sielah derramou mais um pouco de mel na carne e então pôs a travessa com a refeição na mesa. Também pôs a disposição pães brancos e pretos preparados por ela, uma jarra de suco de amoras silvestres e uma vasilha de vidro com o tempero de ervas de Eori, que dava o gosto exótico e delicioso no pato.

A mestiça salivava. Sentou-se ávida na cadeira de madeira negra, pegou o prato de porcelana branca e serviu-se de uma grossa fatia da carne macia do pato. No copo de vidro verde despejou uma boa quantidade do suco e, como estava faminta, não esperou que os outros terminassem de se servir. Atacou voraz um pedaço da refeição e arfou de prazer.

— Pelos Deuses, Nupie, tenha modos! – repreendeu Myahne. – Temos visitas.

Nupie deu de ombros e ingeriu uma grande quantidade de suco para empurrar a carne por sua garganta seca.

— Estou faminta. E este pato está divino.

Luse e a sielah terminaram de servir-se e, constrangidos, começaram a comer. Após o sabor do pato rechear sua boca, o barvario pôde entender do que a menina falava. Era suculento, macio e agridoce, e o fazia recordar os tempos alegres na casa dos Malphus. Ele deu um sorriso fraco.

O almoço transcorreu silencioso. Os pratos, talheres, copos e travessas foram retirados da mesa e Myahne convidou as crianças para sentarem-se ao seu lado no sofá.

— Luse, quer nos contar sua história? – ela disse, incitando-o a revelar sua jornada.

O humano abaixou a cabeça e suspirou. Ergueu-a novamente e encarou a mulher, determinado.

— Eu venho de uma família tradicional de Euron, vocês talvez conheçam: os Malphus. É um dos Sete Clãs que dominam a economia de nosso continente. Meu pai é Ivich Malphus, o Ferreiro. Às suas filhas só é permitido casar-se com homens de um dos Sete Clãs. E assim fez minha irmã mais velha, Deonys, e assim o farão minhas outras irmãs, Cailin e Belair. Aos filhos dele só é permitido seguir a linhagem tradicional e tornar-se ferreiro. E assim fez meu irmão Roddy e assim fará meu outro irmão, Neal. O mais velho, Roddy, está para casar e sairá de casa em breve. Mas eu não. Nunca me tornarei um ferreiro. Contei a meu pai, há alguns meses, que queria me tornar um guerreiro do Exército Real de Castarya e que havia feito a inscrição para ocupar uma vaga na Academia de Artes de Guerra de Anaea. Contei também que fui admitido. Ele não aceitou tal, bem, ofensa. Disse-me que se quisesse me tornar um guerreiro, deveria abandonar seu teto e viver por conta própria, sem mesmo levar um único pertence que fora pago com seu ouro. Minha doce mãe, Alle, preparou uma mochila com provisões e roupas. Quando saía da imensa casa de meu pai, entrei em sua loja e roubei um facão, para me proteger e caçar. Levei cinco dias para chegar até as adjacências de Anaea, e foi lá que encontrei uma velha cabana abandonada, onde me abrigo na noite fria.

Quando terminou de contar sua história, Luse fez-se em lágrimas, que foram afastadas de seu rosto por Nupie. Ela abraçou o amigo com ternura e ele a abraçou de volta, as gotículas quentes ainda escorrendo por seu rosto.

— Se quiser, pode morar conosco – Myahne disse enquanto enxugava os olhos com sua seda vermelha.

O menino se recompôs prontamente e sorriu.

— Obrigado pela oferta, senhora Mandrell, mas acredito que eu deva enfrentar isso sozinho. Creio que seja um teste da grande Deusa, quero que ela veja que sou digno do Paraíso.

— A Deusa não diz que se deve recusar ajuda num momento difícil, por mais que seja um teste proposto por Ela – a sielah sorriu, exalando sabedoria. – Quero que me prometa que virá até nós sempre que precisar.

Ele sorriu, sua alma fervilhando alegria.

— Prometo.

Os raios matinais já aqueciam a terra e os arbustos do lado de fora da toca. O céu reinava azul, sem uma nuvem sequer. Os pássaros nas árvores acima deles voejavam para diferentes direções, buscando o alimento para suas crias. Nupie rastejou para fora da toca e encontrou Eriel sentado num pequeno monte de terra, pedras e folhas amarronzadas.

— O que faz aí? – ela perguntou, os olhos emitindo curiosidade.

— Pensando – lhe disse, surpreso. – Achei que estivesse chateada. Nem mesmo me dirigiu a palavra quando falei com você há pouco.

A mestiça riu e corou. Subiu o curto morro e sentou-se ao lado do mago.

— Desculpe-me. Não ouvi.

— Parecia pensativa.

— Estava recordando de alguns momentos – admitiu.

Silenciaram por alguns minutos, apenas admirando a floresta despertar. A luz da grande esfera esbranquiçada fazia lucilar a pele pálida de Nupie, acentuava o verde dos cabelos e o cinza dos olhos. De súbito Eriel saltou do monte, limpando a terra de suas vestes.

— Não podemos nos demorar – disse –, acorde Luse. Vi pegadas de rashllons ainda frescas. Posso afirmar com certeza que passaram por aqui há no máximo uma hora.