O Romancista e o Homem da lei.
1 Uma nova história.
Aburame Shino, um famoso escritor de romances policiais, retornava do supermercado numa manhã de sexta-feira quando encontrou preso à porta do seu apartamento, um bilhete escrito por seu novo vizinho. Segundo informações obtidas com o síndico do prédio, o morador do 201 era um policial federal, se chamava Inuzuka Kiba, e tinha vinte e sete anos. Oriundo de uma cidadezinha do interior, foi transferido para Tóquio no início do mês. O romancista ainda não havia cruzado com o rapaz pelo condomínio, pois quando entrava em seus processos criativos, como o que estava vivenciando no momento, costumava ficar imerso no projeto até concluir o primeiro esboço e apresentar a seus editores.
No pedacinho de papel, em uma caligrafia apressada e nada fácil de decifrar, estava escrito:
Caro vizinho.
Espero que este bilhete o encontre bem e que possamos nos conhecer pessoalmente em breve. O motivo do meu contato é que acabei de adotar um cachorrinho. Ele é um filhote adorável, mas ainda não se acostumou com o apartamento. Infelizmente, meu amigo peludo chora bastante durante o dia, como deve ter notado. Sou policial e meus horários estão uma bagunça, sem contar que mais longos que o normal, além disto, sou natural do campo e não me adaptei completamente a essa megalópole. Peço sua paciência e compreensão, enquanto nos ajustamos.
Agradeço de coração. Abraços, Inuzuka Kiba. 🤪
Shino ergueu os cantos dos lábios. Ao lado da assinatura havia uma careta desenhada, o que dava indícios sobre a personalidade do vizinho. De fato, há dias ele vinha notando um choramingo ocasional, principalmente quando estava em seu quarto descansando. Deduziu que o vizinho tinha um amigo de quatro patas, e apesar de adorar silêncios, não se importou com o barulho. Sabia o quão difícil poderia ser acomodar um filhote em um ambiente tão pequeno e solitário, aliás, a ideia de haver um cachorro no prédio o deixou curioso. Poucos moradores possuíam pets naquele bloco, então, a fim de ajudar, preparou biscoitos caseiros assim que entrou em casa. No final do dia, percebendo movimentação no apartamento ao lado, tratou de comunicar formalmente suas boas-vindas.
Quando bateu à porta do apartamento 201, O Aburame foi recebido por um homem uniformizado que segurava uma bolinha de pelo branca nos braços:
— Boa noite, sou seu vizinho do 202, me chamo Abu…
— … rame Shino! — O policial parecia exausto, mas o interrompeu demonstrando um excelente humor. Seus olhos castanhos, possuíam um aspecto selvagem. Somado ao sorriso de presas salientes e a pele bronzeada, eram traços físicos tão marcantes, quanto interessantes, na visão de Shino. — Nossas caixas de correio também são vizinhas e te denunciaram.
— Desculpe-me a demora. Eu escrevo romances e meu trabalho também tem tomado muito do meu tempo. — Sem saber como lidar com a tamanha demonstração de amabilidade e simpatia, Shino ajeitou os óculos antes de estender o pote de biscoito para o outro, que colocou o cachorro no chão para receber o presente de boas-vindas. — Seja bem-vindo ao seu novo endereço.
— Cara, obrigado. No interior apreciamos demais esse tipo de coisa, sem falar que tu chegou na hora certa,eu tava varado de fome e pensando o que ia comer. Cheguei faz uns minutinhos, vou até pegar um suco de morangos na cozinha pra acompanhar. Entre e fique à vontade! — O vizinho abriu passagem e Shino não viu outro jeito, senão entrar no apartamento. Na velocidade da luz, o policial seguiu com a conversa: — O trampo tava uma loucura hoje. Porra, como tem gente fora da lei nesta cidade. Você se incomoda se eu tirar meu uniforme primeiro? Depois a gente come, pode ser? Tô fedendo muito
— Fique à vontade — Shino respondeu.
Dirigindo-se ao interior do apartamento, o rapaz indicou o sofá para que Shino se sentasse. Diante dele, alerta e ainda parado no lugar em que havia sido deixado, o peludo ficou lhe observando.
— Amiguinho, você se incomodaria se eu desse uma olhadinha em volta?
O cãozinho inclinou a cabeça para a direita e abanou levemente o rabo. Aproveitando a deixa, Shino analisou a sala, cuja planta não era muito diferente da sua. No cômodo havia muitas caixas ainda lacradas evidenciando a mudança recente, um sofá de dois lugares e mais um rack. O móvel continha um televisor grande e um PlayStation 5, além de um porta-retratos delicado, no qual o homem da lei vestia farda de gala e estava acompanhado de duas mulheres, ambas lhes puxavam as orelhas e ele fingia chorar.
— Dona Tsume, minha mãe, e Hana, minha irmã mais velha. São lindas, não são? — o policial entrou no espaço segurando uma bandeja. — Mamãe trabalha como adestradora de cães no canil da polícia militar, em nossa cidade natal. Hananee é veterinária. Se formou faz cinco anos e só há alguns meses realizou seu maior sonho que era abrir sua clínica. Faz um favor, traz essa caixa pra cá.
Shino acatou a ordem e imitou o outro, que havia sentado no sofá e acomodado a bandeja sobre a caixa de papelão.
— Desculpe não ter uma toalha ou um pano de prato, ainda tenho que equipar a casa com essas tranqueiras ou tirar um tempo para comprar um enxoval pela internet. Eu morava com as duas no interior e eram elas quem cuidavam de tudo em casa. No passado, esse sujeito aqui nem sabia o quão esses itens eram importantes em um lar, sabe? Quando me formei na academia militar, decidi por puro impulso prestar concurso para a polícia de Tóquio e fui aceito. Resumindo, tive que crescer na marra nesses últimos meses.
Shino se encantou com a naturalidade com a qual como o rapaz mudava de assunto e falava sem parar, embora fosse perceptível em sua falação um leve sentimento de desamparo.
— Posso perceber o quanto sente saudades das duas, Inuzuka-san.
— Corta essa, Shino! Não trabalhamos com formalidades nessa casa, além disso, devemos ter a mesma idade. Por favor, me chame apenas pelo primeiro nome, Kiba! — ele disse, e Shino, que, na verdade, havia feito trinta e nove anos no mês anterior, gostou tanto do elogio que deixaria correções para outra ocasião. — E sim, você está certíssimo, sinto muita falta das duas, mas estou começando a gostar da maturidade que a ausência delas tem me permitido experimentar, entende?
— Com certeza, Kiba. — Shino gostou da sonoridade que o nome do outro adquiriu em sua voz.
— Viu, nem doeu.
Enquanto conversavam e degustavam os lanches, Shino e Kiba perceberam a aproximação sorrateira do cachorrinho, que primeiro olhou desconfiado para o Aburame e em seguida cheirou sua canela.
— Akamaru, você não vai acreditar no quanto esses biscoitos estão gostosos. Tu que fez? — Kiba encheu a boca com dois biscoitos e colocou a mesma quantia diante do pet, que não se fez de rogado.
— É uma receita do meu pai. — o romancista acariciou a pelagem do pet que agora sabia se chamar Akamaru. — Ele também mora nesse condomínio, mas no momento está viajando a trabalho. O senhor Aburame Shibi, é entomólogo e costuma percorrer o mundo envolvido em suas pesquisas.
— Caralho, que dahora! A profissão do seu pai parece ser foda. — Kiba falou de boca cheia e parecia verdadeiramente impressionado diante daquela informação. — Desculpa, quase engasguei. — ele deu um soquinho no próprio peito e enfiou outro biscoito na boca como se nada tivesse acontecido.
— Qual a raça dele? Ele é bem pequeno, não deverá crescer muito. — Enquanto assistia cãozinho e tutor se deliciarem com os seus biscoitos, o Aburame quis sanar a curiosidade.
O Inuzuka também acariciou o pelo do animal e as mãos dele e de Shino acabaram se tocando por alguns segundos. Foi como se ambos tivessem tomado um choque, a julgar suas reações.
— Não se engane, esse pestinha fofo aqui, é um Cão de Montanha dos Pirenéus. Vai virar um monstrão em pouco tempo. —Kiba explicou.
Suas bochechas estavam vermelhas feito um tomate e Shino fingiu não perceber. Depois daquele instante tenso, a conversa fluiu confortavelmente entre eles, com o Inuzuka demonstrando uma preocupação genuína com o pet em diversos momentos enquanto as horas passavam.
— Se precisar de alguém para cuidar dele enquanto trabalha, eu ficaria feliz em poder ajudá-lo. — Surpreendendo a si, Shino viu -se propondo. Desejava conhecer mais daquele policial, logo aquela proposta, se aceita, seria um facilitador. — Meu trabalho como escritor me permite horários flexíveis, quem sabe dessa forma ele se adapta mais rápido à mudança.
Kiba arregalou os olhos. Era uma ideia genial, pois o permitiria ter mais conversas agradáveis com o escritor que mesmo falando pouco se revelou ser uma ótima companhia, além disso, Akamaru teria companhia durante o dia. Aquele arranjo solucionaria todos os seus problemas.
— Isso seria maravilhoso, não é Akamaru? — o animal que abanou o rabo parecendo concordar com o tutor. — Muito obrigado de verdade, Shino. Tenho certeza de que ele vai adorar passar os dias contigo.
O Inuzuka aceitou a oferta com gratidão. Com o avançar dos dias, uma gostosa rotina se estabeleceu entre os vizinhos de porta. Quando ia trabalhar, após ter levado Akamaru para fazer suas necessidades na rua, Kiba deixava Akamaru no apartamento do Aburame. O cachorrinho chegava munido de seu coelhinho de pelúcia na boca e com sua mochilinha nas costas, contendo ração e petiscos. Shino, por sua vez, passava suas manhãs interagindo com o filhote, que logo parou de chorar, confortado pela presença amiga. A interação diária, mediada pelo cuidado com o pet, permitiu que um sentimento crescente e uma conexão inexplicável se estabelecesse entre os humanos. Naturalmente, o policial desbocado e o escritor introvertido começaram a compartilhar histórias pessoais e anseios futuros. Os vizinhos perceberam o quanto suas personalidades eram distintas, mas que também possuíam muitos interesses em comum. Essa intimidade surpreendente se aprofundava à medida que mais afinidades surgiam, criando um espaço seguro para que cada um se mostrasse ao outro como realmente era.
E assim, a passos lentos, a convivência deles não só trouxe conforto para o cão, mas transformou a vida dos três. O Aburame, com sua sensibilidade de escritor, compreendeu de imediato que a conversação, muitas vezes sem filtro de Inuzuka, nada mais era que uma forma inconsciente do rapaz extravasar o estresse acumulado em seus expedientes na delegacia. Com Kiba aconteceu o mesmo. Nas entrelinhas, ele logo percebeu que a gentileza e disponibilidade de Shino em sempre o ajudar, era um desejo não expresso de afastar-se da solidão na qual sempre viveu e com a qual se acostumou.
Dessa forma, sem que o romancista e o homem da lei se dessem conta, aquela conversa despretensiosa que tiveram há alguns meses por meio de um bilhete e do choro de um filhotinho fofo, proporcionou aos dois a formação de um vínculo incondicional, um encontro único e inspirador que transcende o tempo e o espaço, e que poucas pessoas têm ao longo de toda a sua vida. Um encontro que muitos denominam como, um encontro de almas gêmeas.
Fale com o autor