O Rockeiro E A Patricinha
30 Só ocupando o tempo
Notas iniciais
-e a sua banda? – pergunta Joey – me lembro de ter me dito em um e-mail que tinha uma, deve fazer quase um ano já...
-acabou – diz Jason. Joey fez uma careta, ao contrario das outras pessoas, não perguntou o motivo, ele mesmo já tivera uma banda aos 16 anos, sabia como as coisas aconteciam – e então, quer tocar o que?
-sabe alguma do Iron Maiden? – pergunta ele
-de cabeça? Ahnn... Fear of the dark, Dance of death, The number of the beast, The trooper… – diz Jason enquanto ia lembrando-se de mais músicas.
-vamos de The trooper então – diz Joey
Jason abre o baú onde guarda cabos para ligar ao amplificador, tablaturas, pedaleiras, capas para guitarra, jogos de corda de diversas espessuras, um estojo (desses normais usados para ir à escola) e letras de musicas que tinha começado a escrever e que nunca se preocupara em terminar ou mostrar para alguém...
Ele pega o estojo e dois cabos de seis metros. Os dois amplificadores que tinha ficavam um de cada lado do baú, ele os liga, conecta os cabos neles e depois nas guitarras. Jason pega a MG22 e para na frente da cama, de frente para Joey, que segurava a Explorer olhando fixamente para o pote de água de Jake ao pé da escrivaninha, como se fosse a primeira vez que a tivesse visto um pote para cães e achado surpreendente.
Jason não tinha prestado muita atenção no visual do tio até esse momento. Ele parecia um rock star no inicio de sua carreira, uma carreira que levaria por pelo menos 20 ou 30 anos, como os caras do Ratt quando eram mais jovens (porém sem as roupas coladas e cabelos extravagantes como se tivessem passado quatro horas na frente de um ventilador).
Usava um jeans surrado, All Star simples preto, uma camiseta preta do Motley Crue, e uma jaqueta de couro aberta. Em setembro faria 30 anos, mas podia muito bem ser confundido com um cara de 20 ou 21 anos. Tinha cabelo castanho claro liso que, solto, ia até o peito, mas ele sempre deixava amarrado com um rabo de cavalo baixo, de um jeito que não parecesse uma mulher (virado de costas). Tinha olhos castanhos quase negros, onde mal dava para diferenciar a pupila da íris.
-e então? Vamos tocar? – pergunta Joey, tirando Jason de sua “reflexão”.
-ahnn? Ah, sim – ele olha para a guitarra e solta um suspiro.
-o que foi? Esqueceu como se toca?
-tocar guitarra é a única coisa que eu sei fazer direito, se me esquecer disso, bom, terei que me matar... – diz Jason
-e isso não seria legal – diz Joey
-provavelmente não... Joey, qual foi a ultima vez que tocamos juntos? Quer dizer, me lembro de que quando eu tinha uns sete anos e você uns 20 a gente tocava direto... Quando paramos? – pergunta Jason
-bom, a ultima vez foi no aniversário de 13 anos de Drew, há quase três anos... – ele estende a manga da jaqueta, tinha uma cicatriz em seu pulso – se lembra disso?
-sim – Jason ri um pouco – você foi dar uma de Zakk Wylde e a corda estourou...
-é... – Joey sorri, como se a cicatriz representasse uma boa lembrança – doeu...
-acho que depois do aniversário do Drew você só veio aqui para o meu de 15, mas a gente nem tocou na guitarra... – diz Jason pensativo
-e a gente parou de tocar direto quando eu fiz 23 anos, que comecei a viajar, você tinha uns 10 anos... – lembra Joey
-é – concorda Jason – mas enfim, vamos tocar!
-já tava na hora – diz Joey ajeitando a guitarra.
Na primeira tentativa, o som pareceu ser de alguém matando um gato, horrível e que faz doer os ouvidos, então eles se lembram de que tinham que afinar as guitarras antes. O erro não foi por serem ruins na guitarra, até por que Jason já tocava há 10 e Joey há 16 anos, foi apenas esquecimento mesmo, acontece com todo mundo.
Depois de afinarem, fizeram uma segunda tentativa, e mesmo de improviso, o som ficou quase perfeito, Joey quem fez o solo e Jason manteve a base.
Tocaram mais uma vez ainda, desta vez com o microfone conectado, ambos sabiam cantar, mas como a voz de Joey era mais grossa, ele resolveu cantar, e Jason fazia apenas os “ooooooooo”. Dessa vez foi Jason quem fez o solo.
Tocaram outras músicas: “And The Band Played On 1” do Saxon, “Paranoid” do Black Sabbath, “Bad to the bone” do ZZ Top, “I Wanna Live” do Ramones, “Forest Gump” do Creedence e “Aerials” do System of a Down.
Enfim, tocaram até Marcio ir ao quarto de Jason mandar “as crianças” dormirem porque os vizinhos já estavam reclamando do barulho e Breno, o velho rabugento da casa da frente, já estava ameaçando chamar a policia.
-vai mesmo embora amanhã? – perguntou Jason um tanto desanimado
-sim, mas o voo para São Paulo sai só às sete da noite, se quiser eu posso passar lá no seu trabalho no final da tarde pra gente ir tomar um sorvete – diz Joey. Os dois riem.
-faz tempo que você não me leva tomar sorvete também...
-acho que paramos junto com os “ensaios” – diz Joey – não sei...
-acho que sim – diz Jason – quando você volta?
-bom, vou para a Filadélfia na semana que vem, quarta-feira eu acho, vamos ficar por lá um tempo meio indefinido... Então, volto para o Brasil em um mês mais ou menos, mas não vai dar para vir para cá porque eu e o Henrique vamos ter que fazer uma exposição no Rio de Janeiro no dia 1º de maio, e até organizar... Bom, acho que volto pelo final de maio ou no inicio de junho... Mas isso ainda depende de muita coisa...
-mas vem de certeza? – pergunta Jason
-sim, no máximo em julho, essa viagem não é muito longa... Da ultima vez fiquei quanto tempo sem vir aqui? Um ano?
-um ano e meio – diz Jason
-nossa... Mas é verdade, eu fiquei um ano na China mesmo, e depois mais uns quatro meses em São Paulo e depois mais um pouco no Rio... Puta que pariu...
-onde você fica quando vai para São Paulo? – pergunta Jason
-não contei? Tenho uma casa lá, pequena, mas não precisa de muita coisa já que é só para mim mesmo... – diz Joey – e no Rio tem meu meio-irmão, o Lucas, ele mora sozinho e não de importa que eu passe um tempo lá, pelo menos tem alguém pra cozinhar para ele... – diz Joey, Jason faz uma careta, às vezes ele se esquecia de que Joey tinha outro irmão além de sua mãe e de Kevin, que Jason não chegou a conhecer direito, pois Kevin morreu quando ele ainda tinha dois ou três anos.
-ah – diz Jason – então... Vamos mesmo tomar sorvete amanhã?
-ora, por que não? – diz Joey
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