O Ritual da Sétima Lua

5 Capítulo 4 - Progressus Vitae


Notas iniciais
Com um dia de atraso, aqui está o capítulo 4 do nossa "Ritual". Espero que gostem e sintea-se livres para deixar seus comentários. Boa leitura ♥

12/08/2005

NOME: Maria Tereza Estípano Braga

IDADE: 25

ESTADO CIVIL: Noiva

PAIS: José Juarez Braga e Ilda Braga

MOTIVO DE INTERNAÇÃO: Paciente apresenta sinais de esquizofrenia, alegando ouvir vozes e ver coisas que não existem. Seu caso parece ser bem grave e trataremos da melhor forma que pudermos em nossas instalações.

Status: Fazer testes com a paciente para diagnosticarmos algum tipo de demência rara dado seu comportamento, que não mostra melhora alguma com os medicamentos dados.

Nota sobre paciente – 18/07/05

Cada vez mais achamos prováveis os sintomas de demência em Maria, que se recusa a alimentar-se a maioria das vezes e passa horas gritando, ainda alegando ouvir vozes em sua cabeça falando alguma língua que ninguém consegue entender, nem ela mesma. A colocamos na solitária por um tempo e um tratamento com choque talvez seja recomendado.

Nota sobre paciente – 20/07/05

Depois dos tratamentos intensivos com choque, Maria parece ter se acalmado e não relatou mais ter ouvido as vozes, sabemos que ela é de grande importância, mas não sabemos porque estava sendo tão atormentada assim, talvez seja a provação que deva passar.

É o arquivo de minha esposa, que recolhi no armário ao sair daquele depósito antes do terrível banquete que nos foi servido. Estou em choque com tudo que leio e percebo que já deveria estar amanhecendo novamente. Me intriga essa última parte, sobre a importância de minha noiva e algum tipo de provação, mas essas coisas não significam muito para mim, me sinto cego.

— Acho que eles perdem um pouco seu poder durante o dia. — Martha comenta, evitando o assunto o qual perguntei mil vezes e se negou a responder e para falar a verdade, nem sei se quero saber mais agora, é tanto coisa que ainda preciso digerir e estou tão cansado que resolvo nos dar um pouco de tempo, já que aquele ser, aquela bruxa, parece ter parado de nos perseguir e examino a sala, diferente da precária estrutura do manicômio. — Ou o que deveria ser dia...

As paredes de concreto branco e luzes fluorescentes em todo o teto, a construção com pelo menos 4 metros de altura com todos os tipos de horrores, tento não olhar para eles e foco em gravar com a câmera. Há mais alguns computadores, os quais não consigo ligar e mais gavetas cheias de arquivos e mais arquivos, coloco tudo na minha mochila e começo a ler alguns deles sentado em um canto, enquanto Martha me ignora, olhando para os lados apavorada pois parece não haver saída do maldito cômodo.

Acho muitas coisas desinteressantes, em maior parte sobre a história do lugar, que tem uma longa data de existência, por outro lado, também acho outras muito intrigantes.

“BB-13 falhou, o Mestre não ficará feliz, mas continuaremos em nossa busca por herdeiros compatíveis para a força do grande e único Deus.”

É uma nota escrita em um papel velho que achei em uma das gavetas desse cômodo aterrorizante então uma ideia vem em minha cabeça.

— Foram as bruxas que fizeram isso? — pergunto de repente para Martha, que sentou-se no chão também, abraçando as pernas grudadas ao peito balançando de um lado para outro, em estado de pânico, minha pergunta não causa nenhum efeito então me aproximo violentamente de um dos tubos de vidro com o pé de cabra na mão. — Me conta agora o que é tudo isso ou eu juro por Deus que quebro esse vidro e acabo com nossas vidas de uma vez.

Acredito que quebrando as cápsulas os monstros se libertem, talvez assim tenha aparecido aquela espécie de ogro deformado que Martha salvou minha vida matando-o no meu segundo dia nesse inferno. E parece que estou certo, em minha primeira investida no vidro grosso, que se racha, Martha grita para que eu pare.

— Me responda então ou vou dar mais uma pancada e esse vidro vai se quebrar. — levanto a mão veemente para cima mas não sei se tenho coragem de realmente quebra-lo, felizmente, Martha interrompe meu braço em um último segundo antes de dar outro golpe forte e talvez libertar uma fera roxa e deformada que encontra-se suspensa nos tubos cheios de um líquido azul escuro. Suor de alivio escorrem por meu rosto depois de tanta tensão, mas não deixo transparecer. — O que é isso e quem fez? Foram as bruxas?

— Sim. — ela murmura baixinho, desviando seu olhar de mim, envergonhada. — O São Marcos tem acordos muito antigos com as bruxas, quantos anos você acha que esse lugar tem?

Sei a resposta pois vi em um dos arquivos que recolhi, séculos, uma instituição católica construída desde os tempos da idade média, quando o homem ainda não havia descoberto a América e bruxas e outros seres reinavam aqui, com a interferência do ser humano, eles se esconderam, como em todos os lugares do mundo, mas nunca perderam realmente seus poderes. É um conhecimento tão incrível e surreal que não acredito que esteja em minhas mãos. — Estou há alguns anos aqui e sei alguns segredos que apenas as Madres Superiores e as irmãs mais velhas conhecem, o antigo acordo de 1766, quando as bruxas chegaram pela primeira vez ao São Marcos depois dos humanos terem tomado conta do que era seu, como elas diziam, foi a primeira vez que tentamos enfrentar com o poder divino seu mal, mas nunca fomos fortes o suficiente contra seu poder maligno, então elas tomaram conta desta parte das instalações, queriam fazer experimentos em pacientes que estivessem insanos demais, velhos e o pior, elas queriam bebês, então as freiras deixavam homens e mulheres transarem como loucos e terem filhos, que logo eram tirados deles e colocados nesses... nesses tubos, com seus peitos abertos e corações arrancados.

E agora reparo que em todos os bebês nos vidros há uma cicatriz em forma de cruz invertida, suas barrigas foram abertas e seus corações foram retirados dali pelas bruxas para servirem em algum propósito oculto d’O Mestre, segundo continua me narrando Martha.

— Como você pode concordar com isso? — pergunto atônito com lágrimas de horror nos olhos.

— Elas diziam coisas sobre os humanos serem uma raça inferior que deveria ser escravizada, nós nunca tivemos uma escolha. — ela rebate com a voz rouca e os olhos carregados de uma pesada tristeza. — Pelo menos foram pedidos menos bebês ultimamente, já que insistiram tanto que queriam as sete Marias.

— Para que querem tanto elas? — pressiono-a, mas ela nega saber mais informações além de explicar que as freiras recebiam ordens restritas das bruxas, para prepararem as Marias para o ritual, porém, sem nunca dar grandes informações, ela também revelou que com o passar dos anos as freiras foram se acostumando com o lugar e aprenderam a respeitar o poder das bruxas, algumas até as adorando, ela alega não ser uma delas. Não acho que haja nenhuma inverdade em suas palavras, não há sentido em mentirmos um para o outro neste ponto onde podemos morrer a cada segundo que passa. — E esses... essas coisas? Porque elas as querem, e os bebês?

— Acredito que os experimentos sejam algumas seres que desejam criar, talvez para serem seus escravos, mas de uma forma mais forte e eficaz, já que desprezam a raça humana. — é uma explicação plausível se formos pensar irracionalmente do ponto de vista sobrenatural, que é o único que conheço ultimamente, então não me causa mais surpresa. — Mas não sei o que fazem com os corações dos bebês, elas simplesmente os abrem, arrancam e costuram de volta, colocando nos vidros, nunca nos disseram nada além de mantermos distância dessa sala o máximo possível, vindo aqui apenas quando requisitado, mas já havia estado aqui antes.

Céus, não sei mais quanto tempo aguento as coisas ficando cada vez mais macabras e perigosas, estou conhecendo um universo que nunca achei que fosse possível existir. As horas passam e eu vasculho mais arquivos e livros que encontro em busca de mais informações. Há alguns muito interessantes que parecem haver instruções de como conservar os corpos, e como realizar todo o processo, além de palavras e símbolos de bruxaria que não entendo, e tenho medo de descobrir seus significados ao mesmo tempo em que fico ávido para saber. Quando encontro mais uma nota assinada por outra Maria, dando-me calafrios só de pensar o que pode estar escrito dessa vez e como essas anotações estão chegando a mim de forma nada natural e me pergunto a razão de continuar encontrando-as em meu caminho tortuoso.

“Meu corpo mudou desde que recebi a comida diferente e deliciosa que as freiras me trazem, me sinto mais forte e parece de haver um motivo de estar em São Marcos, a única coisa estranha que notei foi o sangramento excessivo que tive por minha vagina, as freiras insistiram impertinentemente para que eu recolhesse o máximo possível de sangue que saísse, me deram um balde, não sei porque estou fazendo isso, mas tenho apenas 15 anos e me sinto segura com as freiras, acho que elas querem meu bem.

Estou sangrando muito ultimamente e isso parece tê-las animado, mesmo que para mim seja um tanto desconfortável, ouvi dizerem que o sangue de uma virgem é muito importante para “elas” e desde então fiquei assustada e tentei recusar que recolhessem mais meu sangue, fui espancada à chicotadas e recolheram à força o sangue de dentro de mim, não tento mais lutar desde então, sinto que algo grande está se aproximando e que não posso fazer nada para mudar minha situação nisso.

Maria Eduarda Prestes”

— Vocês estavam alimentando as Marias com carne humana? — volto-me novamente para Martha, surpreso com o que acabei de ler.

— O...O quê? — ela parece realmente surpresa. — Do que você está falando?

Então mostro a nota encontrada para ela, junto com todas as outras que encontrei relatando o tratamento diferenciado que sofriam.

— Como eu disse, elas davam algumas instruções para nós, mas nunca sobre a comida, só para as alimentarmos melhor que as outras. — ela fala balbuciante em sua defesa. — Mas conheço a comida da cozinha, eu mesma já preparei, sei de onde os alimentos vêm.

— Mas parece ter algo que você não sabe, tinha algo nessas refeições, leia. — e entrego para ela a última nota encontrada, mas ela parece tão surpresa quanto eu e decido que discutir com Martha não nos levará à lugar algum, apesar de estar enlouquecendo aqui.

Cada vez fico mais apavorado com as condições de tratamento da instituição, imaginando o que aconteceu com minha esposa, que aplicaram ondas elétricas em sua cabeça porque acharam que estava louca, quando estava apenas vendo e dizendo a verdade o tempo todo? Se eu tivesse acreditado nela com mais afinco, se tivéssemos fugido ou ter a impedido de pôr seus pés neste lugar satânico. Sinto vontade de confrontar Martha de novo pela crueldade que tratavam os pacientes aqui, mas não vejo porque, já que o que está feito está feito, e toda a crueldade nunca poderá ser apagada do passado.

Estou imundo e gostaria de tomar um banho, mas o cansaço vence e acabo adormecendo no chão frio, agarrado em meu pé de cabra e a mochila como travesseiro. Em meus pesadelos, sou perseguido pelas criaturas horrendas dos tubos de vidro, outra hora, me viro e estou em um cômodo escuro e Maria, minha esposa, encontra-se a metros na minha frente. “Fred” ela chama meu nome e tenta me alcançar com um dos braços e por mais que eu corra, é como se estivesse numa esteira e nunca consigo alcança-la, até que seus gritos se tornam mais altos e tudo começa a se tremer, algo agarra seu corpo e o leva para as sombras.

— Fred, acorda! — desperto de meus sonhos com sacudidas de Martha, e logo noto o motivo de seu pavor, há barulhos de batidas e golpes contra a porta de metal que adentramos. — Nós dormimos demais, já é madrugada de novo, precisamos achar um jeito de sair daqui, tem de haver.

Levanto-me rápido e organizo tudo na mochila, o pé de cabra sempre em minha mão e analiso bem o lugar, por onde poderíamos sair?

— Deve haver alguma passagem secreta que as bruxas usam para entrar aqui sem serem notadas. — sugiro na hora do desespero.

— Elas são bruxas, podem entrar onde quiser. — rebate ela de volta.

— Então porque aquela vadia não está aqui dentro e nós não estamos mortos ainda? — exclamo em contraposição. — Tem de haver uma saída. Me ajuda!

Começo a vasculhar todas as prateleiras e coisas que acho, procuro botões secretos embaixo de mesas, dentro de gavetas ou alguma coisa que eu mexa e abra alguma porta em algum lugar, mas parece não haver nada e a porta de metal parece que não vai aguentar muito tempo, ela está sendo sacudida contra a parede, rachando a estrutura em volta, parece que a bruxa está fazendo uma espécie de feitiço para quebra-la já que ouço palavras indistintas do outro lado, e é quando encontro Martha olhando para cima, paralisada.

— Ou talvez elas queiram que a gente escape. — ela murmura entorpecida e seguindo seu olhar, acho uma saída de ar. É nossa saída!

Não presto realmente atenção ao que ela disse, mas peço ajuda para mover uma mesa até lá para que possamos alcançar a portinhola, que encontra-se trancada metros acima, subo em uma cadeira colocada em cima da mesa e bato repetidas vezes com o pé de cabra contra os parafusos, tentando até mesmo puxá-los, um dos lados cede e é o que preciso, pulo e agarro-me a porta, que aguenta alguns segundos meu peso, despencando em cima de mim assim que caio de costas no chão, o ar foge de meus pulmões, e alguma coisa aconteceu com minha perna ao cair. Martha está recolocando a cadeira em cima da mesa e grita para que vamos logo. Com o corpo todo dolorido levanto-me desajeitado com sua ajuda e ela é a primeira a subir e adentrar os tubos, quando pulo para a entrada, meus braços não têm força suficiente para escalar sozinho, uma dor latejante na perna e o corpo todo dolorido devido à queda. Nesse momento a porta é derrubada de vez e vejo novamente a criatura da noite passada.

— Me ajuda! Rápido! — grito desesperado enquanto tento com toda força que tenho mesmo com os músculos prestes a estourar, até que Martha segura firme meu braço e me levanta para dentro dos tubos escuros. — Vamos, vamos, ela está aqui.

Rastejamos freneticamente apavorados o mais rápido que conseguimos pelos túneis imundos com Martha liderando o caminho, que não sei ao certo se há algum a ser seguido, ouvimos os ruídos da criatura andando de forma reptiliana pelos tubos, duvido que se quisesse não poderia ter nos alcançado, cada vez me assusto mais com isso ser apenas uma espécie de jogo e que estamos caindo direto em uma armadilha planejada, lembrando das palavras de minha companheira ao olhar a saída do duto, que não tínhamos notado até então.

Martha dá um grito e para subitamente e logo percebo o motivo, começa a aparecer muitas baratas andando pelo túnel, tento espantá-las de mim, também gritando de pavor.

— Precisamos continuar. — digo em pânico enquanto os insetos tentam achar espaço dentro de meu corpo e então vejo Martha se contorcendo como louca tentando matar os animais em seu corpo que vejo que não existem, são apenas uma ilusão, um encanto. — Não são reais, Martha, é uma alucinação para nos atrasar.

É difícil acreditar nisso quando sinto os animais subindo por minhas pernas entrando por minhas roupas enquanto tento continuar em frente e ignorar sua falsa existência pois ouço um sopro de voz aterrorizante como se estivesse em meu ouvido “Du aystegh kmerrnek’” e por ser um historiador e conhecer algumas línguas como o latim, identifico algo como armênio, mas não sei dizer o significado agora, mas tenho certeza que deve ser um convite para a morte. Martha finalmente parece dar-se conta das ilusões e rasteja como um animal muito rápido pelos túneis e tenho que apressar-me com a perna lesionada, possivelmente uma torção no joelho ou algo assim, espero, além do corpo dolorido cada centímetro depois da queda para abrir a porta do tubo de ventilação.

Olho para atrás e dou-me de cara com a criatura, pálida como a luz que brilha eternamente no céu.

— Você também foi escolhido. — ela responde e antes que eu possa expressar algo além de ficar paralisado tamanho é meu pânico vendo seu rosto pálido e olhos negros, ela rasga minha pele no braço com suas garras uma cruz invertida e então se vai, andando como um animal pelos túneis de metal e antes que eu consiga me dar conta do corte que arde em meu membro, apesar de pequeno, as estruturas dos tubos parecem tremer e Martha e eu voltamos a rastejar, sem ter tempo para discutir agora o que acabou de acontecer. O que essa bruxa fez comigo e o que quis dizer quando disse que fui escolhido também, tudo isso me assusta e se não fosse Martha não sei se ainda estaria aqui lutando pela vida, estou enlouquecendo nesse lugar e...

Tudo se quebra, caímos sem conseguir nos agarrar a nada junto com pedaços de metal em um lugar que parece estar inundado de água. “Droga, minha câmera, penso” e então certifico-me de que ela fique seca, pois apesar de haver muita água no ambiente escuro, ela não passa da cintura e serviu para amortecer a queda. Ligo a lanterna e ilumino o lugar onde nos encontramos e o grito extenso de terror de Martha junto com lágrimas são o primeiro indício que vejo de que não há água nenhuma no lugar, ela está coberta de sangue, olho para minhas mãos e para o chão do pequeno cômodo de madeira, onde encontram-se empilhados diversos corpos de freiras e pacientes do local, todos com mortes horríveis. Gargantas cortadas em sua maioria, cabeças arrancadas, buracos no coração, todo o tipo de morte agressiva que possa imaginar resultando em uma piscina de sangue que acabamos de cair e estamos cobertos. Trancados onde despejaram todos os corpos massacrados, manchados com seu sangue dos pés a cabeça. Martha continua gritando e chorando desesperada, talvez tenha visto rostos conhecidos e amigáveis, deixo a câmera gravar o resto e vou ajuda-la rezando uma das primeiras vezes na minha vida com toda fé que não sabia existir dentro de meu coração.

“Se existe um Diabo, como essas bruxas parecem servir, que exista um Deus, e que ele me ajude.”

Notas finais
Seus lindos, não deixem de comentarem, favoritarem e tudo mais para não perder um capítulo. Até sexta que vem pessoal :))