O Ritual

16 Íncubo & Súcubo


Notas iniciais
Boa leitura.

— Não vamos mais perder tempo. A cerimônia terá que começar. — a líder, Shalia, pronunciou em voz alta, tomando o grande livro de Nestor e o folheou. — Adão! Vá buscá-lo! — ordenou, e o rapaz alto se foi rapidamente pela estrada nevada, obedecendo e arrastando seu longo manto negro.

Turbida tempestate, illuminat! Mando agnoscat ritu publice discipuli manent. — pronunciou novamente em latim, lendo das páginas da antigo obra, o consultando enquanto proferia as palavras. Seja o que for que viria a seguir, não seria nada bom. — esta noite Baphomet será invocado! — a bruxa gritou, me encarando com um sorriso no rosto, enquanto retirava uma das mãos do livro, a direita e levava à fogueira, estando em frente a mesma, atiçando o fogo e fazendo as chamas se elevarem e soltarem faíscas. Isso era uma provocação, afinal, ela guardava agora os meus antigos poderes.

Chris, aplique o soro nos dois! — a líder bradou mais uma vez, ordenando a serva, que saiu de seu lugar no bosque, sendo seguida pelo colega negro, igualmente uniformizado de capa preta e capuz cor vinho, ela retirou da manga do blusão duas seringas, idênticas e já estava se aproximando de mim e de Wendy quando o mesmo berrou:

— Espera, o que é isso? — o moreno se remexia inquieto no tronco de árvore onde estava aprisionado.

— Calma, isso só vai deixá-los cansados. Não podemos correr o risco de ter o ritual atrapalhado por vocês, ele só será executado uma única vez. — a voz feminina de Chris explicou, chegando mais perto de mim e afundando a agulha afiada em meu pescoço, doeu mas eu quase não senti nada de tão exausta que já estava. O outro bruxo recebeu a outra seringa e aplicou o soro em Wendy, que mesmo relutando não conseguiu impedi-lo.

Depois disso comecei a ficar mais tonta e zonza do que já estava, mas ainda conseguia ver todos eles, Chris e seu colega já retomaram seus postos. Não tardou muito Adão estava de volta, o alto e forte integrante da seita, trajado do mesmo modo, carregava agora um sujeito quase do mesmo porte que ele, o continha pelas pernas com um braço e o outro segurava suas costas, era um homem, que reconheci imediatamente como o refém do grupo, seus cabelos eram louros e longos, claros e presos em um rabo de cavalo. Suas roupas eram de inverno como o resto, no entanto estava com a boca vendada; os olhos não, e as mãos e pés amarrados. O bruxo foi rápido em atravessar a floresta e logo deixou a estrada nevada e atingiu o local onde estávamos.

— Aqui se encontra o receptáculo da besta, o escolhido que guardará a essência de Baphomet! — Shalia gritou novamente, enquanto o moreno liberava o refém e removia a venda de sua boca, pude notar seu par de olhos azul da cor do mar.

— Vamos começar. — a líder continuou, solícita enquanto todos os integrantes do grupo se aproximavam do prisioneiro, ela, Chris, os dois capangas altos, e por último Nestor. Reunidos todos com suas capas escuras juntas. O refém permaneceu no centro, e a bruxa tirou uma fina agulha da manga de seu blusão e furou seu próprio dedo, o fazendo sangrar de leve. O homem apenas assistia, sua expressão era de pavor; o resto parecia apenar compactuar com aquilo, deviam ter ensaiado antes.

Eu continuava em silêncio, queria me soltar e fugir enquanto era tempo, mas o cansaço do soro me dominava, e creio que à Wendy também. Em seguida o dedo da jovem se dirigiu até a boca do refém, que a manteve fechada em negação. Alguém segurou seu rosto com força o obrigado a abrir, e o dedo ensanguentado invadiu-o o forçando a beber. Shalia passou a agulha adiante, e todos os bruxos fizeram a mesma coisa, deram seu sangue de beber ao loiro. Ele tentou resistir algumas vezes, porém Adão não permitiu envolvendo seu pescoço com suas mãos enormes.

— Por favor, me deixem ir! Eu não fiz nada! — a voz grave e adulta do mesmo saiu implorando, após terminado o rito; ele parecia uma criancinha choramingando, mas me dava pena.

Ninguém deu ouvidos a ele, embora eu desconfiasse que Nestor sentia piedade pelo mesmo. Uma risadinha provocativa veio de Shalia, que pronunciou: — Está tudo pronto. — eu não poderia imaginar o que viria agora.

Notas finais
O que Shalia disse estava em latim (de novo) e significa: "Furiosa tempestade, acenda-se! Eu ordeno que reconheça essa cerimônia como oficial, seus discípulos o aguardam." Até amanhã!