O Ritual
4 Primeiro dia
Notas iniciais
– Quem você pensa que é pra tratar ele assim? – pronunciou a garota em voz aguda, seus olhos acinzentados me fitando esperando uma resposta. Como era intrometida!
– Desculpa, mas o quê você tem a ver com isso?
– O Nestor é meu amigo. – ela deu um passo à frente e as ondas dos seus cabelos tremularam, eram tão descoloridos que estavam quase brancos, e o volume em excesso. Segurava um caderno e um livro, o que justificava ela ser amiga daquele nerd, mas não parecia de todo uma fracassada. – Olha, eu já entendi tudo. Você é do tipo que pensa que pode chegar mandando em todo mundo e tratando os outros como bem entender... Mas não pode. Você é a garota nova, essa terra não é sua. É minha. Esta escola é minha.
Seu tom de voz já estava me irritando e o jeito como ela sorria enquanto argumentava era perturbante. Eu precisava deixá-la a par de quem é que mandava na escola de verdade.
– Por acaso sabe quem eu sou? – dei um passo à frente, mas a garota reagiu rápido:
– Não! Não se mexa!
O pátio estava vazio, mas de repente surgiram algumas pessoas que deviam estar mais afastadas antes. Ela lançou olhares para alguns sem deixar de me encarar ao mesmo tempo.
– Sim Shalia? – um rapaz negro, alto e forte falou enquanto outro da mesma estatura me cercava.
– Como vê, não estamos sozinhos. Você que está. E se mexer com algum de nós de novo, mexerá com todos. – seus olhos não saíam de mim. Pude perceber que não poderia enfrentar todos eles sendo só uma. Ela virou as costas e se retirou. – Vamos. Nestor venha.
O nerd dirigiu o olhar a mim, mas logo a seguiu, assim como os rapazes e as meninas. O primeiro dia de aula não foi legal, além de não conhecer ninguém, em todos os períodos Shalia e sua turma estavam presentes, e ela fez questão de fixar seu olhar em mim, como uma afronta.
Quando fui usar o banheiro feminino, lá estava ela, com duas amigas. Suas roupas de frio me faziam imaginar maliciosamente como ela se vestia quando estava calor. O par de olhos me fuzilou novamente, e eu já saberia o que viria a seguir.
– Pedágio. – as amigas exclamaram em coro, me barrando.
– Sua vida acadêmica pode ser um inferno, Becky. – Shalia disse; como sabia meu nome? – a não ser que faça uma coisa. — fiz uma cara de paisagem pra ela. Afinal o que ela queria de mim?
– O quê é?
– Peça pra entrar na minha gangue.
Permaneci séria.
– Está me zoando é?
– Você só precisa fazer uns testes de iniciação e está dentro.
– O que eu ganho?
– Vida social garantida?
– Não é o bastante.
– O que você quer?
– Não sei... Mas irei pensar. Tudo bem eu estou dentro. – Dei as costas e saí.
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