O Ritual
8 Natal
Notas iniciais
25 de dezembro de 2015 — Mystique Campus em recesso escolar
Abri o caixote que estava sobre a mesa do salão principal do colégio, alguns alunos ainda estavam ao redor da lareira, a árvore natalina se situava no centro; conversando e rindo, mas eu estava sozinha no canto do cômodo me sentindo isolada e soltária, lá fora nevava e fazia muito frio. Luvas cobriam minhas mãos, que vasculhavam com dificuldade os papéis na caixa que amorteciam um telefone celular, Iphone 6 da Apple. Meu rosto não mudou a expressão de desânimo, eu já tinha um Iphone 5 e poderia me sentir feliz ganhando um 6 de natal, mas o que eu queria mesmo era estar com meu pai neste dia, no entanto ele preferiu gastar com esse presente. Fexei o embrulho e fui até a porta que estava entreaberta e o vento congelando, tinha pessoas fazendo bonecos de neve, usando trenós e esquiando, e eu me abraçava tentando me aquecer mesmo usando uma jaqueta grossa.
Deitei no chão branco e abri meus braços e pernas os balançando até formar um anjo e afastar meu tédio e vazio no dia de natal. Antes que pudesse me levantar e conferir se minha sombra de anjo estava completa, um vulto surgiu no meu campo de visão. Cachos negros, pele branca, um olho de cada cor e muitos agasalhos, um casaco grosso, um lenço e um cachecol peludo. Era Wendy, o garoto que eu conheci esses dias.
– Olha se não é a Becky. Está fazendo outro lance de beleza?
– É claro que não — respondi a zombaria me levantando, não tão bem afinal eu estava cheia de roupas. — eu estava fazendo um anjo de neve.
– Eu não lembro de ter te visto tão bem vestida. — ele soltou mais uma gracinha, da última vez que me viu ele acabou vendo mais do que devia, eu esperava que não tanto. É, a minha impressão com ele não estava das melhores, mas entre tantas garotas bonitas do campus que ele conhecera eu deveria ser a mais exótica.
Não falei nada, apenas corando de vergonha.
– Está sozinha no natal?
– Sim, meu pai está ocupado demais pra mim e ele é minha única família. — disse fitando o chão nevado.
– Eu sinto muito. Quer conhecer minha casa? Eu também estou sem nada pra fazer. — ele sorriu de leve e eu ainda estava pensando em uma resposta quando ele tocou em minha mão de luvas e a segurou, me puxando — eu não aceito não como resposta. Vamos lá.
Andamos por uns cinco minutos pelo terreno da Academia, árvores coníferas ambientando a paisagem, a neve por toda parte. Deixávamos pegadas na mesma e uma casinha se avistava de longe.
– Você vai gostar.
– Você mora aqui mesmo? Em Mystique Campus? — questionei o que estava perturbando a minha cabeça.
– Sim, espero que não se importe. — quanto mais nos aproximávamos, mais se notava que a casa era pequena e humilde, e um vapor incessante saía pela chaminé.
– Mas você não é um aluno? Não deveria usar um dormitório?
– Eu não estudo aqui. O que te fez pensar... — Wendy não terminou de falar, dirigiu seu olhar até a varanda da casa, onde estava uma menininha de cadeira de rodas, se antecipando até lá — Eu te falei pra não vir pra fora, está muito frio!
Me aproximei dos dois, observando a garotinha que provavelmente seria a irmã mais nova dele, tinha longos cabelos ruivos e era uma graça, era realmente lamentável ela estar nesta situação. O garoto virou a cadeira a levando pra dentro de casa pela porta de entrada.
– Ah, espere eu quero vê-la! — exclamou a pequena — ela é a sua namorada, não é irmão?
– Olga! — Wendy interveio.
– Não! — a resposta veio imediata, mais do que deveria — sou apenas... uma amiga. — cheguei mais perto dela pra poder ser vista, no entanto o gorro tampava meu cabelo todo, e eu deveria estar parecendo uma baranga. — eu sou a Becky, Olga.
– Você é muito bonita, Becky. — Olga falou em sua voz meiga de criança. Geralmente eu não curto os infantes, só os vejo como um bando de pirralhos ranhentos, porém essa criatura me conquistou.
– E você é uma fofa, Olga. — apertei sua bochecha de leve, arrancando um sorriso da mesma.
– Bem eu tinha saído pra buscar lenha, nós estamos em falta. — o moreno interrompeu nosso momento.
– Ah, você pode ir, eu não quero incomodar, já estou de saída.
– De jeito nenhum! — Wendy começou, e sua irmã o parou:
– Por favor me levem junto! Eu quero muito sair, e eu gostaria de fazer um boneco de neve!
– Não acho que é uma boa ideia. — o mais velho retrucou, e eu intervi:
– Está tudo bem, é só ela se vestir um pouco mais. — sugeri e no rosto de Olga estava estampada sua felicidade.
*
A garotinha, agora usando um dos casacos do irmão, feito de lã, esticava os braços segurando um galho e colocando no rosto do boneco de neve, no lugar onde deveria estar seu nariz, e onde geralmente se usava uma cenoura mas não tínhamos uma à disposição. Ela virou-se com um sorriso radiante no rosto, completando o corpo da escultura. Sorri de volta e Wendy provavelmente também, enquanto segurava as lenhas que precisava. Um silêncio pairava pelo local até então.
– Por favor me ajudem! — soou uma voz feminina pela floresta, capturando a nossa atenção; nos movimentamos tentando encontrar a autora da frase, descendo o morro coberto de neve se encontrava um pequeno riacho congelado, a moça estava deitada no mesmo e o pé esquerdo invadia a água em estado líquido por um buraco no gelo.
Wendy se adiantou a tentar ajudá-la e Olga vagarosamente rodava as rodas da cadeira com dificuldade na neve enquanto eu visualizava a figura da mesma de costas, me parecendo estranhamente familiar, quando uma mão tapou minha boca, fazendo meus olhos saltarem e meu coração bater mais forte; o raptor, notoriamente masculino pela força que me segurou, foi rápido e não se expôs nem a Wendy nem à irmã, no entanto eu sumi e já estava longe quando eles deram por minha falta.
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