O Ritmo do Coração
14 O Silêncio do Atlântico
A manhã da partida chegou cinzenta, com uma garoa fina que insistia em embaçar os vidros da mansão dos Pavanelli. No pátio de entrada, o motorista de Lucinda organizava as malas no porta-malas de um sedã preto executivo. A atmosfera na casa era sufocante, impregnada com o peso das palavras que nunca seriam ditas.
Na sala de estar, Elise vestia um casaco pesado de lã escura, apropriado para o clima que a esperava na Europa. Seus olhos estavam vermelhos e inchados, denunciando uma noite inteira em claro. Letícia a segurava pelas duas mãos, tentando manter a postura forte de mãe, embora seu próprio coração estivesse apertado.
Lucinda Clark aproximou-se com passos elegantes, quebrando o silêncio do cômodo.
— Elise, querida... O carro está pronto. Nós precisamos ir para o aeroporto se quisermos evitar o trânsito — Lucinda disse com a voz mansa, demonstrando uma paciência cuidadosa com o momento da filha.
Elise assentiu levemente e voltou-se por inteiro para Letícia. As lágrimas que ela tanto tentou segurar finalmente transbordaram.
— Obrigada por tudo, mãe... Por favor, não me esquece — Elise sussurrou, jogando-se nos braços de Letícia em um abraço desesperado.
— Eu nunca esqueceria você, minha menina — Letícia respondeu, apertando-a contra o peito e acariciando seus cabelos ruivos. Ao se afastar milimetricamente, a psicóloga olhou diretamente nos olhos de Lucinda, assumindo um tom de firme autoridade materna. — Lucinda, eu estou abrindo mão da guarda da minha filha para que ela cure o passado dela. Mas eu te peço, como mãe: cuide da carreira de bailarina da Elise. O talento dela é a alma dela. Não deixe isso morrer.
Lucinda colocou a mão sobre o coração, emocionada com a generosidade de Letícia.
— Eu prometo a você, Letícia. Pela minha vida. Eu já entrei em contato com os diretores da Royal Ballet School, em Londres. Vou colocá-la na melhor escola de balé do Reino Unido. Ela vai ter o mundo aos seus pés.
Elise limpou o rosto com as costas das mãos, olhando uma última vez para a grande escadaria de madeira da casa. Estava vazia. O corredor do segundo andar permanecia imerso na escuridão. Um nó doloroso apertou sua garganta.
— Mãe... — Elise chamou Letícia, a voz falhando em um fio de voz. — Diz... diz adeus ao Lucian por mim. Diz que eu sinto muito pelo jeito que as coisas terminaram.
Letícia apenas assentiu com um sorriso triste, sabendo que as feridas da noite anterior ainda estavam abertas e sangrando.
Quando o sedã preto deu a partida e começou a se afastar lentamente pelos portões da propriedade, o som dos pneus na gravidade úmida parecia ditar o ritmo da despedida.
No segundo andar, escondido atrás da cortina pesada de seu quarto escuro, Lucian assistia a tudo. Ele estava de braços cruzados, a mandíbula travada ao ponto de doer e os olhos azuis fixos no veículo que levava a única garota que ele já havia amado. Ele viu o perfil ruivo dela sumir na curva da rua. Foi um adeus silencioso, dilacerante e cheio de uma emoção que ele se recusava a deixar transbordar.
No segundo em que o carro sumiu de vista, a expressão de dor no rosto de Lucian transformou-se em uma máscara de pedra. O menino vulnerável que Elise havia despertado foi trancado a sete chaves. O bad boy frio, ranzinza e implacável estava de volta.
Dois dias depois, o ambiente no Colégio Pavanelli era de pura fofoca. A notícia de que a nova estrela das líderes de torcida e irmã do capitão havia sumido das listas de chamada correu os corredores como pólvora.
No intervalo, o grupo de amigos estava reunido perto dos armários. Enzo e Murilo se aproximaram de Lucian, que descontava sua raiva fechando a porta de metal do armário com um estrondo violento.
— Cara, o que está acontecendo? — Enzo perguntou, preocupado, segurando a jaqueta do time. — A Larissa me disse que a Elise não foi aos treinos e a galera está comentando que ela limpou o armário. Onde ela está?
Lucian virou-se para os amigos com um olhar tão gélido e carregado de ignorância que até Enzo deu um passo para trás.
— Aquela garota foi embora — Lucian disparou, a voz ríspida, destilando um veneno que chocou os presentes. — Ela pegou as coisas dela e foi pro Reino Unido com a mãe rica. Sinceramente? Eu não quero saber mais daquela menina fútil. Para mim, ela morreu. Não repitam o nome dela perto de mim.
Murilo ajeitou os óculos, observando o amigo com seriedade. Ele conhecia Lucian o suficiente para saber que toda aquela agressividade era apenas a armadura de um coração completamente destruído, mas preferiu ficar calado. Lucian deu as costas ao grupo e marchou pelo corredor, pisando fundo, deixando um rastro de tensão no ar.
Enquanto isso, a milhares de quilômetros de distância, a realidade era completamente diferente. O céu de Londres era cinzento e imponente. Da janela do seu novo quarto em um apartamento de alto padrão com vista para o Rio Tâmisa, Elise observava a chuva fina bater no vidro.
O quarto era imenso, o figurino da Royal Ballet School já estava pendurado no closet e Lucinda fazia de tudo para lhe dar o conforto que a medicina rica podia comprar. Era o início de uma nova etapa em sua vida, um futuro brilhante e cheio de promessas no berço do balé mundial.
No entanto, Elise apertava contra o peito a caixinha de veludo preto que trouxera na bolsa de mão. Ela abriu a tampa, deixando que a luz fraca de Londres refletisse na pulseira de prata com o pingente de bailarina em pleno voo.
Seus olhos se encheram de lágrimas. Ela tinha o mundo, tinha a sua história e tinha o seu passado desvendado... Mas seu coração havia ficado do outro lado do oceano. Em uma casa barulhenta, em uma praia de sol, sob o olhar protetor e ranzinza do seu capitão. Seu coração continuava no Brasil, inteiramente entregue a ele. Seu Lucian.
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