​A manhã de terça-feira nasceu com um céu limpo e um vento fresco que balançava as cortinas da sala de estar. Na varanda da casa dos Pavanelli, Elise conferia o relógio no pulso, ajeitando a alça da mochila preta. Ela esperava pelo motorista da família, conforme Letícia havia sugerido na noite anterior para não incomodar o filho.

​A porta principal se abriu com um estalo e Lucian passou por ela. Ele vestia uma camiseta preta básica que destacava os braços e a mesma jaqueta jeans escura de sempre. Ao ver a ruiva parada ali, um meio sorriso — o primeiro sorriso leve e genuíno que ela realmente recebia dele — surgiu em seus lábios.

​Antes que Elise pudesse dizer qualquer coisa, Lucian deu dois passos firmes em sua direção e, com um movimento ágil, puxou a alça da mochila dos ombros dela, carregando-a em uma das mãos.

​— O que você está fazendo? — Elise perguntou, piscando, surpresa. — Eu estou esperando o motorista, Lucian.

​— Deixa o motorista descansar — Lucian respondeu, inclinando a cabeça na direção da garagem, onde o seu carro brilhava sob o sol matinal. — Vamos comigo.

​Elise sorriu, sentindo um calorzinho bom no peito, e o acompanhou até o veículo. Assim que os dois entraram e os cintos foram afivelados, Lucian ligou o motor e o som do rádio começou a tocar uma melodia suave de rock acústico. Ele engatou a marcha, mas antes de acelerar, olhou diretamente para ela.

​— Pensando bem sobre o que aconteceu ontem... acho melhor a gente ir todos os dias juntos para a escola — ele começou, a voz firme, mas sem nenhuma daquela aspereza de antes. — Aquele colégio tem muita gente idiota, Elise. Eu vou cuidar de você. Ninguém vai mexer com a minha irmã.

​Elise sentiu o coração acelerar de leve com a palavra "irmã", mas a sensação de segurança foi maior. Ela ergueu o pulso esquerdo, mostrando a pulseira de bailarina que ele havia lhe dado na noite anterior, brilhando contra a luz do sol.

​— Com um protetor desses, acho que não preciso ter medo de nada — ela brincou, o sorriso fácil iluminando o interior do carro.

​Lucian soltou uma risada baixa, os olhos fixos na estrada, sentindo que aquela rotina já começava a lhe fazer bem.

​O dia no colégio foi surpreendentemente leve. A presença de Elise parecia ter quebrado uma barreira na própria energia de Lucian. Durante as aulas de história e literatura, eles se sentaram próximos, trocando bilhetes com desenhos rápidos e piadas internas sobre os professores. Nos corredores, sempre que Enzo e Murilo se aproximavam, o clima era de pura descontração. O medo que Elise sentia de não se encaixar evaporou ao perceber que, sob a liderança velada de Lucian, as outras pessoas a tratavam com respeito e curiosidade genuína.

​Quando o último sinal tocou, anunciando o fim das aulas, Enzo praticamente pulou na frente do armário de Lucian.

​— Povo, o dia está quente demais para ir direto para casa. Sorveteria da esquina agora, por conta do Murilo! — Enzo exclamou, rindo.

​— Por que por minha conta? — Murilo protestou, empurrando os óculos pelo nariz. — Você que ganha mesada em dobro do seu pai.

​— Não importa quem vai pagar, contanto que a Elise vá — Enzo disse, direcionando um olhar galanteador e um sorriso aberto para a ruiva. — Você vai, não vai, Elise?

​Elise olhou para Lucian, esperando a aprovação dele, e o rapaz apenas assentiu com a cabeça, passando o braço pelos ombros dela de forma protetora.

​— A gente vai. Mas o Enzo paga o dela.

​A sorveteria Gelatto & Cia estava movimentada, cheia de estudantes rindo e conversando. O grupo de amigos se acomodou em uma mesa redonda perto da janela. Elise saboreava uma taça de sorvete de morango com calda, enquanto ouvia Enzo contar uma história exagerada sobre o último jogo de basquete, fazendo todos na mesa caírem na gargalhada.

​No entanto, a atmosfera descontraída mudou ligeiramente quando a sombra de uma jaqueta do time de futebol americano se projetou sobre a mesa. Gustavo, o capitão, havia acabado de entrar no local acompanhado de outros dois atletas. Ao avistar Elise, ele não pensou duas vezes antes de se afastar dos colegas e caminhar até a mesa deles, exibindo seu melhor sorriso magnético.

​Lucian tencionou os ombros imediatamente, o corpo assumindo uma postura defensiva na cadeira, os olhos semicerrados.

​Gustavo ignorou os rapazes e apoiou as duas mãos na mesa, inclinando-se levemente na direção de Elise.

​— Olha só quem eu encontrei por aqui. O dia acabou de ficar bem mais interessante — Gustavo começou, jogando todo o seu charme, a voz mansa e o olhar fixo nos lábios dela. — Elise, certo? Sabe, o time vai dar uma festa na sexta-feira à noite. Só os escolhidos. Eu adoraria que você fosse a minha convidada de honra. O que me diz?

​Enzo e Murilo assistiam à cena em silêncio, segurando o fôlego. Lucian já estava prestes a se levantar da cadeira quando a voz de Elise cortou o ar, surpreendendo a todos.

​Ela colocou a colher de lado de forma extremamente calma, olhou para Gustavo de baixo para cima com uma expressão de tédio profundo e deu um sorriso amarelo, quase de pena.

​— Uma festa do time? Ah, obrigada, Gustavo, mas eu acho que vou passar — Elise disse, o tom de voz doce contrastando com a acidez das palavras. — Tenho medo de ir a uma festa onde o ego do capitão ocupa todo o espaço do salão. Além disso, eu prefiro companhia de pessoas que tenham mais assunto do que apenas o tamanho de uma bola de futebol.

​Um silêncio sepulcral caiu sobre a mesa por um milésimo de segundo. Gustavo piscou, em choque puro, o sorriso de galã desmoronando no ato. Ele abriu a boca para tentar recuperar a postura, mas as bochechas já estavam coradas de vergonha.

​— Você... você quem perde, Pavanelli — Gustavo resmungou, tentando manter a pose de durão, embora estivesse visivelmente humilhado. Ele deu meia-volta rapidamente e marchou de volta para os seus amigos, saindo da sorveteria logo em seguida.

​Assim que a porta de vidro se fechou atrás de Gustavo, a mesa explodiu. Enzo deu um tapa na mesa, gargalhando tão alto que outras pessoas olharam.

​— Caramba! Alguém chama os bombeiros porque o capitão saiu queimado daqui! — Enzo gritava, limpando uma lágrima no canto do olho. — "O ego ocupa todo o espaço do salão"! Meu Deus, Elise, eu te amo!

​— Essa foi histórica — Murilo ria, balançando a cabeça em negação. — O Gustavo nunca levou um fora desses na vida inteira. Ela destruiu o cara com um sorriso no rosto.

​Lucian olhava para Elise com os olhos arregalados, mas um sorriso largo e orgulhoso que ele não conseguia conter desenhou-se em sua face. Ele estendeu a mão para ela, batendo em um "high-five" comemorativo.

​— Você é genial, garota — Lucian disse, a voz cheia de admiração. — Eu passei três anos querendo colocar aquele idiota no lugar dele, e você resolveu isso em duas frases.

​Elise deu de ombros, dando mais uma colherada no seu sorvete, os olhos brilhando de diversão.

​— Eu avisei que sabia cuidar de mim mesma.

​O caminho de volta para casa foi preenchido por risadas e música alta. A cumplicidade entre os dois havia dado um salto gigante. Eles cantavam desafinados as músicas que passavam no rádio, dividindo uma energia leve que Lucian não experimentava há muito tempo.

​Quando cruzaram a porta da residência dos Pavanelli, Letícia estava na sala terminando de organizar alguns papéis de seu consultório. Ao ouvir a porta se abrir, ela olhou para cima e testemunhou uma cena que aqueceu seu coração: Lucian e Elise entraram empurrando um ao outro de brincadeira, rindo alto de alguma piada que haviam feito no caminho.

​— Mãe, você não faz ideia do que a Elise fez com o Gustavo na sorveteria — Lucian já entrou na sala falando, jogando a mochila no sofá de forma descontraída e caminhando até a mãe para lhe dar um beijo na bochecha. — Ela acabou com a raça do capitão do colégio.

​— É mesmo? Me contem tudo — Letícia sorriu, os olhos brilhando ao ver os dois tão unidos, dividindo o espaço sem nenhuma das barreiras que existiam na semana anterior.

​Enquanto Elise começava a narrar a história com gestos teatrais de bailarina, Lucian a acompanhava com o olhar, pontuando os detalhes mais engraçados e rindo junto. Letícia apenas observava, sentindo uma paz profunda. A nova saga daquela família estava apenas começando, mas o ritmo que agora regia aquela casa era o mais bonito de todos: o ritmo da união e do recomeço.