O Ritmo do Coração

3 Linhas de Impedimento



​A manhã de segunda-feira começou com uma agitação diferente na casa dos Pavanelli. Era o primeiro dia de Elise no colégio e, após um processo ágil conduzido pelos advogados de Letícia, a jovem agora portava orgulhosamente o nome de Elise Pavanelli em seus documentos.

​Lucian terminava de amarrar o cordão de seu moletom escuro no topo da escada quando a mãe o barrou no corredor.

​— Lucian, espere. Quero que você leve a Elise hoje. Ela está nervosa e não quero que vá de carona com o motorista no primeiro dia.

​O rapaz soltou um suspiro pesado, cruzando os braços.

​— Mãe, a gente combinou que cada um...

​A frase morreu na garganta de Lucian. A porta do quarto de hóspedes se abriu e Elise pisou no corredor. O impacto visual fez o rapaz travar o maxilar. O uniforme padrão do colégio — uma saia de pregas xadrez azul-marinho e uma camisa polo branca com o brasão bordado — parecia ter sido desenhado sob medida para ela. Com os cabelos ruivos escovados e caindo em ondas perfeitas pelos ombros, a postura ereta de bailarina e uma maquiagem quase invisível, ela não parecia em nada a menina vulnerável do orfanato. Parecia uma daquelas patricinhas ricas que frequentavam o colégio desde o jardim de infância. Ela estava, sem esforço algum, linda.

​Percebendo que havia ficado encarando-a por tempo demais, Lucian pigarreou, fechando a cara para disfarçar o desconcerto.

​— Anda logo. Pega a mochila e vai atrás de mim pro carro. Não gosto de atrasos — ele disparou, virando as costas abruptamente e descendo os degraus aos tropeços.

​Elise olhou para Letícia, que apenas lhe deu um sorriso encorajador e um polegar erguido.

​No caminho para a escola, o silêncio imperou dentro do veículo. Elise manteve o rosto colado ao vidro da janela, os dedos batucando levemente na coxa no ritmo de uma música imaginária, tentando aplacar a ansiedade. Lucian dirigia com os olhos fixos na estrada, mas, pelo canto do olho, não conseguia parar de notar como o perfil dela mudava a energia do seu carro.

​Ao estacionarem no pátio do colégio, a transição foi imediata. Lucian desceu e Elise o acompanhou, os passos firmes dela chamando a atenção de alguns alunos que passavam. Eles cruzaram as grandes portas de vidro e o rapaz a guiou pelos corredores barulhentos até o setor dos terceiros anos.

​— Esse aqui é o seu armário. O meu é aquele ali no fim do corredor — ele explicou, apontando de forma seca. — Guarda as suas coisas e...

​— Pavanelli! — a voz de Enzo ecoou pelo corredor.

​Enzo e Murilo se aproximaram a passos largos, mas a energia do grupo mudou no instante em que os dois pousaram os olhos em Elise. Enzo parou quase que instantaneamente, os olhos castanhos arregalados, a postura desleixada sumindo no ato.

​— Caramba... — Enzo murmurou, antes de recuperar a compostura e abrir um sorriso charmoso. — Você deve ser a Elise. Lucian falou de você, mas... ele esqueceu de mencionar os detalhes. Sou o Enzo.

​— Prazer, Enzo. Elise Pavanelli — ela respondeu, estendendo a mão com o seu clássico sorriso fácil, o tom de voz doce que fez o rapaz esticar o aperto de mãos por dois segundos a mais do que o necessário.

​— Eu sou o Murilo — o outro se adiantou, ajeitando os óculos com um sorriso simpático. — Bem-vinda ao hospício. Se o Lucian te irritar, avisa a gente.

​Lucian observava a cena de braços cruzados, sentindo uma pontada inexplicável de irritação no estômago. Ele notou perfeitamente o jeito que Enzo olhava para Elise — como se estivesse diante de uma obra de arte rara.

​— Já deu de apresentações — Lucian cortou, a voz fria. — O sinal vai bater. Vamos para a sala.

​O dia passou rápido, mas o verdadeiro teste veio na hora do intervalo. O refeitório estava lotado e Elise havia se sentado em uma mesa próxima à janela com alguns livros de literatura. Lucian e seus amigos estavam na mesa central, o reduto clássico dos atletas.

​Foi quando a silhueta imponente de Gustavo, o capitão do time de futebol americano, cruzou o refeitório. Gustavo era o típico veterano intocável: jaqueta do time perfeitamente alinhada, sorriso arrogante e a certeza de que o colégio girava ao seu redor. Ele notou a presença da ruiva e mudou sua rota imediatamente.

​Lucian, que conversava com Murilo, tencionou o corpo no mesmo segundo em que viu Gustavo se aproximar da mesa de Elise.

​— Cadeira ocupada? — Gustavo perguntou, apoiando uma das mãos no encosto da cadeira vaga ao lado de Elise.

​Ela ergueu os olhos do livro, mantendo a calma.

​— Não, está livre.

​— Sou o Gustavo. Capitão dos Wolves — ele se apresentou, a voz mansa, os olhos varrendo o rosto dela com um interesse predatório. — Não me lembro de ter visto um rosto tão bonito por aqui antes.

​— Elise Pavanelli — ela respondeu com polidez, mas sem o sorriso caloroso que havia dado para Enzo. A menção ao sobrenome fez Gustavo arquear as sobrancelhas. Ele olhou em direção à mesa dos atletas e encontrou os olhos de Lucian fixos nele, como duas frestas de gelo.

​Gustavo soltou um riso contido, erguendo a mão em um aceno cínico para Lucian.

​— Pavanelli! Valeu pela carinha nova no pedaço, cara! A família de vocês tem bom gosto — Gustavo disse em tom alto o suficiente para que alguns ouvissem, antes de piscar para Elise. — A gente se vê por aí, Elise.

​Ele se afastou, deixando um rastro de colônia cara e uma tensão palpável no ar. Na mesa dos atletas, Enzo semicerrou os olhos.

​— O Gustavo não perde tempo. O cara é um predador.

​Lucian não disse nada. Apenas cravou os dedos na lata de refrigerante até o metal ceder de leve.

​A viagem de volta para casa foi bem diferente da matinal. Assim que o carro ganhou a rodovia, Lucian quebrou o silêncio, a voz dura.

​— Fica longe do Gustavo.

​Elise tirou os olhos do celular e o encarou, confusa com a ordem repentina.

​— O quê?

​— Você me ouviu. O capitão do time. Fica longe dele. O cara não presta, Elise. Ele coleciona garotas e descarta na mesma semana. Não quero você envolvida com o tipo dele.

​Elise sustentou o olhar dele por alguns segundos. Ela percebeu que, por trás da aspereza na voz de Lucian, havia uma genuína preocupação de irmão — ou algo muito próximo disso. Ela apenas assentiu com a cabeça, com calma.

​— Tudo bem, Lucian. Eu não sou boba. Sei reconhecer o tipo dele de longe.

​O rapaz relaxou os ombros minimamente, satisfeito com a resposta direta dela.

​Quando entraram na casa dos Pavanelli, o aroma de bolo de cenoura com cobertura de chocolate invadia o ambiente. A mesa da tarde estava posta e Letícia os esperava com um sorriso caloroso. Os dois se sentaram e, para a surpresa de Letícia, começaram a conversar sobre as matérias do colégio de forma quase natural.

​— O professor de física é um porre, mãe. Ele fala arrastado, dá sono — comentava Lucian, servindo um pedaço de bolo para Elise.

​— Ele não é tão ruim, Lucian. Você que não tem paciência — Elise rebateu, soltando uma risada leve que fez Lucian dar um meio sorriso de lado.

​Letícia observava a cena da ponta da mesa, segurando a xícara de chá com as duas mãos para esconder a emoção. Desde a morte de seu marido, há três anos, a casa havia se tornado um templo de silêncio e luto. Lucian havia se fechado em uma redoma de rebeldia e isolamento. Aquela era a primeira vez em anos que ela via o filho tentando ser normal, dialogando e dividindo o mesmo espaço com alguém sem armaduras. A presença de Elise estava operando um milagre silencioso.

​Mais tarde, a noite já havia engolido a cidade. Elise estava deitada em sua cama, a luz do abajur iluminando as páginas de um caderno onde ela anotava algumas coreografias.

​Três batidas leves na porta a fizeram olhar para cima.

​— Entra — ela disse.

​A porta se abriu e Lucian apareceu. Ele parecia um pouco sem jeito, uma das mãos escondida atrás das costas. Ele caminhou até a beirada da cama, mas não se sentou.

​— Eu estava mexendo em algumas caixas antigas no meu armário... coisas que meu pai trouxe de algumas viagens de negócios dele — Lucian começou, a voz baixa, o tom rouco típico da noite. Ele estendeu a mão, revelando uma caixinha de veludo preto. — Achei isso aqui. Acho que era para ser um presente de aniversário atrasado para alguma prima que nunca veio. É a sua cara.

​Elise pegou a caixinha com cuidado e a abriu. Dentro, repousava uma pulseira de prata delicada, com um pequeno pingente detalhado de uma bailarina em pleno voo. Os olhos de Elise brilharam.

​— Lucian... ela é linda. É perfeita. Obrigada de verdade.

​— Não é nada. Estava jogada lá — ele mentiu, tentando parecer desinteressado, mas seus olhos entregavam o contentamento ao ver a reação dela. — Só achei que combinava com a garota que não para de dançar. Boa noite, Elise.

​— Boa noite, Lucian.

​Ele deu meia-volta e saiu, fechando a porta com cuidado.

​De volta ao seu próprio quarto, Lucian se jogou na cama de casal, os braços cruzados atrás da cabeça, encarando o teto escuro. A imagem de Elise sorrindo com a pulseira não saía de sua mente. Ele sentia uma vibração estranha no peito, uma sensação de que as engrenagens da sua vida pacata e protegida estavam mudando de rumo. E tudo por causa daquela garota ruiva que, até poucos dias atrás, era apenas uma desconhecida sem história e sem um sobrenome.