O Rico e Lázaro-A profetisa
15 Capítulo 15
Notas iniciais
"Então Sammu-Ramat,o que viemos fazer aqui exatamente?",perguntou Issa enquanto via a sacerdotisa arrumar o altar de ritual.Havia um véu em meio a velas e ervas daninhas.
"Estamos aqui para acabar com a nossa rival,Issa.Só por isso.",disse a outra colocando as estátuas de Pasusu e Ishtar no altar.A princesa de Judá ergueu as sobrancelhas ao ouvir aquilo.
"Mas pensei que Kassaia já estivesse fora do nosso caminho,vai matá-la por acaso,Sammu-Ramat?Posso ter concordado em torná-la estéril,mas matar não.",disse assustada,mas então a mão de Sammu-Ramat acertou-lhe em cheio um tapa no rosto.
"Pare de fazer escândalo,não percebe que podem ouvir?E não,não é Kassaia que vamos eliminar esta noite.Não reconhece o véu?",disse maliciosa e Issa olhou bem o véu,percebendo que era o mesmo que quase fizera Nebuzaradã enforcá-la sem medo.
"Karen?É ela quem vamos matar hoje?",perguntou,um sorriso demente surgindo em seu rosto ao imaginar o corpo da irmã desfalecido enquanto todos pareciam chorar aquela perda.
"Sim,Issa.Agora,me ajude.Pasusu e Ishtar não gostam que fiquemos de moleza,eles vão realizar nosso desejo,eliminando aquela sonsinha da sua irmã.",respondeu Sammu-Ramat e logo ambas entoaram o ritual de morte,enquanto Darice parecia fazer algo com as ervas que estavam sendo amaldiçoadas.Quando o ritual terminou,ambas estavam sentadas exultantes enquanto a serva terminava o líquido maldito.
"E agora,o que precisa ser feito?Quer que eu entregue a taça à minha adorável irmã?",perguntou a mais nova olhando a taça de ouro.Mas Sammu-Ramat negou firmemente seu pedido.
"Não podemos dar bandeira de que a princesa foi envenenada.Então,Darice,sabe o que fazer?",perguntou à serva.
"Sim,minha senhora.Com licença.",disse e saiu do aposento,levando a taça escondida nas mãos.
Darice caminhou até chegar nos aposentos de Karen.Não havia ninguém ali,a serva dela devia estar junto com aqueles sábios hebreus.Deixou a taça ali,ao lado da cama com uma bandeja cheia de frutas,e saiu furtivamente do aposento.Encontrou pelo caminho Edissa,serva da rainha cativa de Judá,Neusta.
"Nossa,quanta pressa.",disse Edissa quando a outra bateu em seu ombro com violência.Parecia apressada e ansiosa.Mas não deu muita atenção,Darice não era certa da cabeça mesmo,devia ser só uma loucura dela.
*****
Sadraque e Abdenego estavam silenciosos,enquanto Mesaque derramava uma infusão de ervas nos lábios de Daniel.Internamente,os três faziam suas preces ao Senhor dos Exércitos para livrar o amigo da morte.
Karen apareceu ali,o semblante esperançoso e feliz,fazendo com que ambos ficassem surpresos.
"Não se preocupem,amigos.Logo,logo,Daniel estará recuperado,palavra de Deus.",disse e então ergueram as mãos.Oraram mais um pouco,mas desta vez,para agradecer.Ao terminarem,viram os olhos do amigo se entreabrirem.
"Como está se sentindo,Daniel?Lembra de alguma coisa?",perguntou Sadraque enquanto Mesaque ajudava-o a sentar-se na cama.Daniel pensou um momento e então olhou para cada rosto presente no aposento.
"Eu só lembro de começar a me sentir mal na sala,então vim para cá quase caindo de tonto e então cheguei aqui,tudo ficou escuro.",respondeu,Abdenego olhou Karen de modo insistente,tentando se comunicar sem falar nada.A jovem acenou quase imperceptivelmente,para não dizer nada.Os outros três perceberam e então olharam-nos de modo perspicaz.
"O que está havendo,estão escondendo alguma coisa?Falem,por favor.",disse Sadraque e então sentaram-se ao redor da cama,olhando para os dois com ansiedade.
"Acho que sabemos muito bem quem fez isso,não concordam?",disse Karen e então acenaram em concordância.
"O sumo-sacerdote e a sacerdotisa."
"Exatamente,então temos que tomar cuidado.Mesmo que nossa fé seja poderosa,parece que os métodos deles conseguem nos afetar ao menos um pouco.",Abdenego explicou a teoria que formulara com Karen.Aquilo não fora trabalho envolvendo nenhuma divindade caldeia,e sim de ervas e raízes usadas para matar.
"Por isso,devemos sempre nos manter vigilantes.Nunca,em hipótese alguma,devemos abaixar a guarda.",disse a garota com convicção.Os quatro rapazes concordaram com veemência.
*****
No trabalho dos escravos,Asher estava sentado quase fora da área determinada,com uma imensa vontade de fugir para procurar por Joana.Mas não poderia,seu amigo precisava dele ali e abandoná-lo seria a pior coisa que poderia fazer.
Larsa havia separado os dois,deixando Lior no canto onde não haviam construções e sim plantações.Asher estava entre os que separavam o ouro destinado a construção da estátua do rei.Mas nenhum deles poderia prever o que aconteceria naquele dia.
Enquanto o amigo separava toneladas e toneladas de ouro,Lior pensava em Karen.Quase todo fim do dia,ela estava presente em sua frente com aquele sorriso contagiante e aqueles olhos doces voltados para ele.Distraído,acabou derrubando água aos pés de um dos feitores.
"Escravo maldito,aonde está com a cabeça?",perguntou o homem rudemente,enquanto o rapaz olhava para o chão sem ter o que dizer.Estava realmente apaixonado,como explicar isso a um feitor?
"Senhor,perdoe-me.Não foi por querer,eu realmente não sei o...",começou a se desculpar mas a pesada mão do feitor acertou em cheio seu rosto,lançando-o ao chão.Em seguida,o homem puxou o chicote e começou a agir,Lior sentia os cortes provocados em seu corpo,o sangue começar a escorrer mas já estava acostumado.Não era primeira vez que era chicoteado,e agora tinha um motivo para não se entregar à dor e a morte.
Depois de deixar o escravo semi-consciente no chão,o feitor saiu sem dizer nada.Cora,uma velha senhora também escrava,levou o rapaz até debaixo de uma árvore e começou a tratar das feridas,tentando fazer com que Lior voltasse a consciência.
"Onde estou,e quem é a senhora?",perguntou depois de acordar do desmaio que tivera devido ao calor.
"Está seguro,longe dos feitores.E não se lembra de mim,Lior?",disse a mulher em um tom bondoso.
"Não,desculpe não lembro,senhora.",respondeu o rapaz confuso.Cora tinha lágrimas nos olhos.
"Eu estava junto com você,quando o trouxeram para cá,menino.",disse e Lior sentiu-se culpado ao extremo.Lembrava de ter sido tirado do beco escondido onde vivia sem família,com outros sem teto quando um soldado apareceu e levou-os dali,para serem escravos.
"Sinto muito,senhora.É que faz tanto tempo que nem lembrava daquele dia.",disse e então começaram a conversar enquanto voltavam ao alojamento de escravos.Cora estava admirada do quanto a criança que conhecera havia se tornado aquele belo rapaz.
*****
"Isso é um ultraje,mamãe.",dizia Mayumi quando a escrava Maia contara sobre as palavras de Benjamin e Kiara a respeito de divindades.
"Não é para tanto,Mayumi.O rapaz é hebreu,naturalmente,seguirá as próprias crenças,não me preocupo tanto com ele.",rebateu Lúcia,com uma imensa vontade de dar um tapa no rosto da filha.Mas não fez,porque Hiro apareceu na porta sorridente,o mesmo sorriso psicótico do pai.
"Mamãe,posso conversar com você?",perguntou e Lúcia acenou para Mayumi e Maia saírem,deixando-os a sós.
"O que deseja,meu filho?Sabe que não posso me demorar muito nesses dias,os negócios estão indo tão bem.",disse entediada.
"O que pretende fazer com Kiara?",disse e Lúcia ficou surpresa com as palavras do filho,Hiro nunca se interessara por nada exceto diversão.O que causara aquela mudança repentina?
"Por quê da pergunta,meu filho?",soltou as palavras mas o menino simplesmente ignorou a pergunta.Lúcia suspirou."Eu não sei,ela está crescendo muito rápido,logo terei que decidir.Mas por hora,ainda é minha escrava.",disse e Hiro deu o mesmo sorriso de antes,ficando terrivelmente semelhante ao pai.
"Que bom,mamãe.Faz muito bem em mantê-la como escrava,ela é tão prendada.Não a tire de nós.",disse numa voz estranha,mas Lúcia não percebeu,ocupada com alguns pergaminhos dos negócios.Hiro saiu rapidamente,decidido a ir falar com Kiara e desta vez,sem nada para impedi-lo.
Rumou,desta forma,para o quarto da escravinha.Iria esperá-la chegar ali.
*****
Já era noite quando Karen voltara a seus aposentos.Lia,sua serva,deixara sua refeição desde a tarde,mas ainda dava para comer.A princesa pegou uma uva e comeu,depois a taça para beber.Tomou metade da taça e então sentiu uma vertigem,o mundo girava ao seu redor e imagens horríveis apareciam em sua frente.
Fora envenenada.E precisava agir,seguiu até a varanda de seus aposentos,olhou para o céu e orou ao Senhor.Não podia morrer,sua missão ainda não estava concluída.
Em meio as tonteiras,Karen viu algo que a aterrorizou.Sua irmã Issa estendendo uma taça em sua direção,e compreendeu.A taça continha veneno,não fora Lia quem a deixara ali mas outra pessoa.
Mesmo quase caindo,seguiu até aonde encontraria os amigos,Mesaque poderia salvá-la daquele veneno.Precisava ter fé de que chegaria até lá.
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