O velório e o enterro foram normais. Lágrimas, abraços e pessoas falando frases clichês. Verônica não esperava a hora de ir pegar o retrato. A avó foi enterrada e essa foi a única hora em que chorou. Não era muito emotiva, ao contrário da mãe, que chorou do começo ao fim. Quem a abraçou e ficou do lado dela foi Julian já que Rose ficou com a família.

Quando tudo acabou, o pai foi com a mãe para casa. Sorriu para a menina e pediu para Julian pegar o quadro com ela. Entraram no carro e seguiram em silêncio. Julian parecia que não dormia em dias. A morte de Nuria tinha o afetado muito. Era um dos que mais se importava com ela.

Ao pararem na frente de casa, Julian não quis entrar. Perguntou se a garota aguentava o quadro e ela respondeu que sim. Ao sair do carro, encontrou Phillip.

–E aí garota, tudo bem? -Phillip tinha cara de ter mais de 20 anos mas eles tinham a mesma idade.

–Tudo e você?

–Também. Eu ouvi que você se formou na faculdade. Quem se forma numa faculdade de física aos 19 anos? -Ele perguntou assustado.

–Bom, eu e minha amiga, Rose, nos formamos. Vamos dizer que somos geniais.

–Percebo. Eu ainda nem entrei.

A garota riu.

–Veio pegar o quadro?

–Vim sim. Você pode me ajudar a carregar? -Ela perguntou e o garoto sorriu.

Tomou isso como um sim e entrou na casa. Pegaram o quadro e o garoto o carregou o caminho todo até o carro. Era um quadro pesado, mas ele disse que não se importava.

–Boas maneiras são sempre bem vindas. É o que meu pai costumava dizer. Não me importo de carregar.

–Seu pai parece ser bem sábio.

–Meu pai era. Formou-se aos 19, assim como você.

–Era?

–Ele morreu quando eu tinha sete anos.

–Sinto muito.

–Relaxe. Já faz tempo. Você está bem? Nós acabamos de voltar do funeral.

–Eu estou. Minha mãe e Julian -apontou para dentro do carro- estão bem ruins. Eles eram muito apegados. Eu também era mas não sou muito de chorar.

–Mesmo sem todas as lágrimas e maquiagem escorrendo, vejo que vai sentir muita falta dela.

–Sentirei. Ela era muito especial. Vai continuar sendo, apesar de tudo.

Julian buzinou.

–Eu tenho que ir. A gente se esbarra por aí. -Verônica disse e Phillip assentiu.

Chegando a casa, Julian ajudou Verônica a retirar o quadro e o colocar no quarto dela. Não havia nenhum sinal de James e Rachel. Verônica procurou em todos os lugares da casa, até encontrar os dois nos dois balanços em baixo de uma árvore. Em cima, tinha uma pequena casa na árvore. Foi até eles e a mãe a puxou para sentar em seu colo. Eles ficaram ali por algum tempo. O pai saiu antes e deixou as duas ali

Quando ele saiu, Verônica se sentou no lugar do pai. A mãe pegou sua mão e Verônica começou a balançar, arrancando um sorriso de Rachel. Ela olhou para a mãe e apertou sua mão ainda mais, convidando ela a se balançar junto. Rachel concordou e risos começaram a ecoar pelo lugar, aumentando conforme a altura em que se balançavam. O pai apareceu na porta da casa e sorriu para as duas. Foi para elas correndo e as empurrou, fazendo-as rir ainda mais.

Julian apareceu também e sorriu para a família. Ficou sentado na varanda da casa, observando. Foi ele que alertou todos quando começou a nevar. A neve caia densa, deixando todos com narizes e cabelos brancos. Todos sorriram ao ver aquilo e Rachel quase caiu no choro novamente.

–Ela amava a neve. Dizia que era um modo das fadas se comunicarem com a gente.

–Talvez ela tenha razão. -Disse Julian. Verônica o puxou para perto e ele a abraçou.

Depois dos momentos sentimentais, Verônica voltou para o quarto. Os pais iam fazer o jantar e ela queria ver mais do quadro. Colocou-o encostado na cabeceira da cama e sentou de frente para ele. Observou a clareira, as árvores gigantes que faziam o céu sumir. Não sabia se as árvores eram muito grandes ou se a garota sentada ali era muito pequena. Observou as fadas. Pensou se as coloridas seriam as “rainhas” e se as de branco fossem apenas fadas iniciantes, se é que isso existiu. Adormeceu ali mesmo, jogada na cama e sonhou com um mundo de fadas e elfos.

James encontrou a filha dormindo e a acordou para o jantar. Disse que tinha seu favorito: espaguete com molho branco. A menina se animou e desceu as escadas atrás do pai, tentando tirar da cabeça o elfo que falou com ela, as fadas, as cachoeiras que davam para mares cheios de sereias, desde as boas até as ruins.

Comeu feliz e os pais pareciam bem melhores. Julian também pareceu melhor, até sorriu um pouco.

Depois do jantar, Verônica foi para o quarto novamente. Queria ver agora as partes técnicas do quadro. Para isso, pegou uma lupa que tinha e luvas, que guardava para as experiências que fizera para a faculdade e começou a investigar. Descobriu o tipo de madeira da moldura, e bem no cantinho, escondido por uma tinta marrom, via-se algo escrito em caneta preta. Dizia “procure no sótão. Com amor, A. L.”.

Verônica colocou uma roupa qualquer e foi até a casa da avó. Queria saber quem é A. L. e o que tinha no sótão, que a avó não arrumava desde que Rachel foi para a faculdade.

Pegou a chave e ia entrando quando Phillip apareceu.

–Procurando algo? -ele disse quando chegou atrás dela e a assustou.

–Você é um belo de um vigia, não é?

–Só do que acho legal. -Ela sabia que ele falava dela, mas ignorou.

Verônica não tinha muitos garotos assim. Sua amiga Rose era rodeada, mas ela não. Era comum. Olhos azuis era a única coisa que a diferenciava. Uma pele clara, cabelos pretos, corpo sem nenhum atrativo em especial.

–Então deve estar apaixonado por essa casa.

–Não pela casa.

–O que faz aqui?

–Já disse, vigio o lugar.

–Não precisa, sei me cuidar. -Verônica falou e entrou na casa.

Phillip, insistente, entrou logo atrás dela.

–Phillip, pode me deixar.

–E você pode me chamar de Lip. E diga, o que está procurando?

–Não te interessa Lip.

–Eu quero te ajudar. -falou puxando a garota, a fazendo olhar para ele.

–E eu não preciso de ajuda.

–Onde está indo?

–No sótão, onde você não vai me seguir.

–Tente me impedir.

Ele seguiu atrás dela, que andou reclamando até uma escada que dava ao sótão.

–Nunca tinha visto isso.

–Pois é, Lip. Agora eu preciso procurar algo. -ela subiu pela escada e o deixou sozinho.

Entrou e bateu a mão em um interruptor que encontrou. Quando luzes se acenderam pelo sótão todo, percebeu que estava ferrada.

Caixas empilhadas iam do chão até o teto, coisas jogadas por todo o lugar. O estranho é que parecia limpo, então suspeitou que a avó deixasse as coisas ao mínimo limpas.

–Ah, você deve estar de brincadeira comigo. Poxa vó!

–Precisa de ajuda? -uma cabeça apareceu na porta.

Verônica olhou para ele se odiando pelo que ia falar. Ele ia achar que ela era louca mas iria precisar de ajuda.

–Me chame de Em. Preciso de ajuda.

O garoto andou até o lado dela e sorria.

–O que vamos procurar?

–Eu não sei.

–Não entendi.

–Aquele retrato, sabe? Eu queria saber quem pintou ele. Encontrei um recado escondido, dizendo para minha avó procurar no sótão da casa dela. Foi deixado pelo pintor, um tal de A. L. Não sei o que significa, mas talvez se achar seja lá o que ele deixou no sótão, descobrirei seu nome.

–Você tá realmente empenhada nisso, não é?

–É só um modo de entender minha avó. Ela nunca falou muito sobre a vida dela, sabe? Sempre contava histórias maravilhosas, mas a vida dela sempre foi um grande mistério. Não sei de nada dela antes de ela ter minha mãe. Sei um pouco sobre Julian, o cara que estava no carro. Ele é meio que um adotado da família. Irmão de um professor da faculdade, John Smith, mas a mãe o deixou num orfanato. Minha avó cuidou dele, pelo que sei.

–Ela me contou algumas coisas sobre antes da sua mãe. -Lip disse.

–Jura? Como o que?

–Como o pai da sua mãe. Vincent Baker. Parece que eles foram casados. Ela ficou com o nome de solteira, nunca quis mudar. Sua mãe nasceu e quando ela tinha um ano e seis meses, ele se foi. Disse que ela era maluca, que suas histórias iriam deixar a menina louca e não queria estar aqui para ver. Ela me disse que começou a trabalhar em qualquer coisa que a aceitassem, na verdade.

–Minha mãe não faz nem ideia disso. Sempre me falou que não sabe nem o nome do pai. Ele nunca quis conhecê-la. Teve um tempo em que foi atrás dele, mas desistiu.

–As coisas muitas vezes não são como a gente quer.

–Pois é. Mas me diga, Lip. Porque passou tanto tempo ouvindo histórias de uma velha ao invés de fazer algo com gente da sua idade? -Verônica perguntou. Mexiam nas caixas de modo até robótico, checando em tudo para ver se achavam algo sobre o tal A. L.

–Minha história é simples. Meus irmãos me enchiam o saco e eu comecei a vir para cá. Passava as tardes em que você não vinha ou então a noite no dia que você vinha, falando com ela. Eu contava pra ela tudo. Ela virou meio que uma melhor amiga, o que especialistas disseram que ela era a imagem da mãe que eu gostaria de ter. Minha mãe é ausente, sabe? Vive viajando. Desde que meu pai morreu, não foi a mesma. Ninguém foi, mas eu acho que fui o que me dei melhor.

–Isso é bom, não é?

–É sim. Apesar de que sinto falta da minha mãe.

–Ela ainda viaja muito?

–Ela viajou a dois anos e nunca mais apareceu. Nenhuma carta, e-mail, cartão postal, nada. Eu não fui pra faculdade por isso. Tinha 17, meus irmãos todos mais novos, o mais velho em Nova York, tive que dar meu jeito.

–Sinto muito, de verdade. -Ela falou e ele sorriu.

–Ah, relaxe. Tá tudo bem agora.

–Pensa em ir pra faculdade?

–Claro. Mas eu preciso garantir que meus irmãos tenham idade para trabalhar e estudar para eu também fazer o mesmo.

–Eu sei que ela não está mais aqui e que não vai ser o mesmo, mas se quiser alguém para conversar, estou aqui. -Verônica disse. -Prometo que vou tentar fazer a receita de bolinhos o mais igual que eu conseguir.

Eles riram. Continuaram procurando a noite toda, até que adormeceram, cada um apoiado em uma caixa. O que os acordou foi o celular de Verônica, que tocou no meio da madrugada. Ela viu que era o pai ligando e lembrou que esqueceu de avisar aonde ia.

Atendeu e os gritos começaram.

–Verônica Miller! Onde você está?!

–Na casa de vovó.

–O que pensa que está fazendo aí?

–Pesquisa de campo, talvez? -disse ela incerta.

–Ah, que ótimo! Enquanto isso, eu e sua mãe mortos de preocupação aqui em casa!

–Pai, olha, eu to bem, tá? Eu já tava dormindo aqui na sala, amanhã volto pra casa cedo.

–Ok, ok. Eu entendo que é difícil desapegar mas Verônica, você precisa avisar antes de ir fazer essas “pesquisas de campo”. -ele falou dando um tom irônico no final.

–Eu sei, eu sei. É que foi de repente.

–Não faça mais isso.

–Prometo.

Assim que desligou viu um sorriso na cara amassada de Lip.

–Já que vamos dormir, vamos fazer isso direito. Venha. -a garota falou.

Os dois desceram a escadinha e foram até a sala que já estava praticamente vazia.

–Hoje a visitação para pegar os bens foi forte. O advogado ficou aqui o dia todo preenchendo papeis de quem veio e o que pegou.

–Posso ver isso.

Ela pegou cobertores deixados lá e entregou um para ele e pegou um. Pegaram almofadas e se deitaram em frente a lareira, com os pés se encostando.

–Boa noite.

–Boa noite.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.