Jason Twigger entrou na casa sem observar nem um canto. Seguiu James, olhando para baixo sempre.

–Gente? -as duas olharam para cima quando James perguntou. -Esse é o Sr. Jason Twigger, advogado. Ele quer falar sobre o testamento.

Ao falar em testamento, Rachel começou a chorar novamente. Jason o guiou para a sala e falou que ia buscar o chá para ele, deixando Verônica sozinha com o homem, já que a mãe tinha saído para jogar uma água no rosto.

–Você deve ser Verônica Miller. -A garota acenou com a cabeça. -Nuria falava muito de você.

–Ela falou sobre mim?

–Muitas vezes. Toda vez que ia lá contava algo sobre você, como o dia que você comeu todo o bolo antes da festa e fez as outras crianças chorarem. Essa foi a ultima.

A garota deu uma risada.

–Esse dia foi muito bom.

–Parece realmente.

–Ela deixou algo para mim?

–Vamos esperar seus pais virem, é melhor tratar com todos aqui.

Esperaram em silencio até que James voltou. Colocou chá para todos e abraçou a filha de lado. James e o homem puxaram algum assunto falso para matar o tempo até que Rachel chegasse.

Quando essa entrou, o advogado começou a falar.

–Bom, vamos tratar de negócios. A Sra. Nuria Segger deixou para mim seu testamento. Nele, ela diz que a casa em si vai para sua filha, Rachel Segger Miller...

E assim ele continuou. Algumas coisas para outras pessoas, até para o carteiro. Deixou um relógio antigo para James, mas a vez de Verônica nunca chegava.

–...e por último, mas não menos importante, Verônica Miller. Sua avó deixou para você um quadro, mais um retrato dos anos 30. Seus bens estão todos ainda no local original, só precisa ir lá, apresentar os nomes e pegar o que são seus. Exceto você, Sra. Miller, que terá de esperar todos irem lá para depois ter a casa. Posso saber se está interessada em vender?

–Eu ainda vou pensar sobre isso. -Rachel respondeu bem baixinho.

O homem foi embora e Verônica foi se trocar. Ouviu o pai perguntar aonde ia, e só respondeu que ia ver o que a avó tinha deixado para ela.

–Volte logo, entendeu? Eu não vou falar para sua mãe aonde você vai, ela não está bem para isso.

–Voltarei logo. Nem trarei o tal quadro. Só o verei e me despedirei da casa da vovó.

James a abraçou e ela se foi, levando um guarda chuva amarelo. Andou sem falar com ninguém e ignorou todos os olhares de pena, além de um grupo de estudantes que a chamaram de esquisita por sair mais cedo da formatura. Mal sabiam de tudo.

Dez minutos depois que Verônica saiu de casa, sua melhor amiga, Rose Perrin apareceu. Todos estavam dizendo que Verônica passou mal e até que a própria mãe havia morrido, mesmo que todos tinham a visto na formatura saindo com Verônica.

–Rose, Verônica acabou de sair. Foi até a casa da avó. Acontece que Nuria faleceu essa tarde. Ela deixou umas coisas para nós e Verônica foi ver o que a avó deixou para ela.

–Sinto muito Sr. Miller. Vou procurar por ela.

E então a garota saiu sem nem se despedir. James ouviu o barulho da televisão sendo ligada e foi ver como estava a esposa.

Verônica entrou na casa da avó com os olhares dos vizinhos queimando suas costas. O quarto dela estava trancado, o que já era esperado. Encontrou um dos vizinhos procurando algo por lá.

–Posso ajudar? -Perguntou Verônica.

–Olá! Sou Phillip, vizinho de dona Nuria. Ela deixou uma estatueta para mim e eu pensei em pegar. Além da receita dos seus bolinhos. -o homem deu uma risada falsa.

–Eu sou Verônica. -apertou a mão de Phillip. -Sou neta dela. Ela deixou um quadro, algo assim.

–Ah claro. O retrato. Quando era menor ela me contava várias histórias de terror sobre esse retrato. Ele está na sala. Venha, te mostrarei.

Verônica seguiu o homem até a conhecida sala onde passou praticamente todas as tardes de sua vida sentada. Em cima da lareira tinha um quadro. Verônica nunca reparou muito nele. Era uma mulher numa clareira extremamente bonita. Algumas fadas ou algo assim voavam ao redor da mulher, que estava de costas. Algumas delas tinham asas coloridas, mas a maioria era apenas com roupinhas brancas, assim como as asas. Ficou observando por o que achou ser muito tempo, pois o homem chamou sua atenção.

–Ah, você quer pegá-lo?

–Claro. Ah, eu vou pegar a única estatueta que eu sei que minha avó tinha enquanto isso.

Ela se dirigiu para o quarto de hóspedes, onde em uma prateleira tinha uma estatueta de uma deusa egípcia. Pegou e foi de volta para a sala onde Phillip estava em cima de uma cadeira e tinha acabado de tirar o quadro, colocando-o no chão. Saiu de cima da cadeira e sorriu para a menina.

–Essa estatueta é de uma deusa. Seu nome me fugiu agora, mas minha avó dizia ser uma relíquia valiosa, não só uma réplica. Isso você vai ter de pesquisar. -A garota deu uma risada e o homem sorriu novamente.

–Bom, obrigado por me ajudar. Foi bom te conhecer. Eu tenho que ir agora. Espero que tenha gostado do retrato.

–Porque chamam de retrato e não de quadro? -Ela perguntou enquanto o homem pegava a estatueta com um cuidado exagerado.

–Ninguém sabe quem pintou, mas sua avó me dizia que esse quadro era real, então era um retrato. Ela dizia que essa mulher existiu, assim como essas fadas. Isso era como uma foto.

–Isso é interessante. Pena que ninguém nunca poderá saber.

–Quem sabe, não é mesmo? Os mistérios existem para serem resolvidos. Vai pensar em algo.

Então o homem saiu e Verônica ficou sentada em frente a lareira, observando o quadro encostado no sofá. Ouviu um barulho na porta e passos. Ficou parada pensando em quem seria. Levantou e esperou algo. Os passos pararam e depois de alguns segundos recomeçaram, agora vindo para a sala.

–Por favor, seja quem for, pegue seja lá o que minha avó deixou amanhã! -gritou e ouviu uma voz conhecida. Rose.

–Ai meu Deus! Eu estava tão preocupada com você! Saiu de repente da formatura, não falou nada! Fui à sua casa e seu pai disse que estaria aqui, fiquei tão preocupada! -Disse e abraçou Verônica com força. -Sinto muito pela sua avó, Vê.

–Sem problema. Eu to um pouco melhor agora. Obrigada por vir. Como foi a formatura?

–Foi ótima. -Rose se empolgou, esquecendo até de consolar a garota. -Você não sabe o que aconteceu! -a garota deu um gritinho animado. -Depois de toda aquelas fotos, etc, eu fui até o meu armário tirar as coisas de lá, porque eu tinha esquecido. Nisso encontrei o professor Smith pelo corredor. Ele pediu minha opinião num artigo e você sabe que eu seeeeeempre achei ele um fofo né? Aí eu fui com ele e a gente se beijou! -Verônica estava com expressão de assustada, mas estava só tentando entender toda a informação que a amiga tinha jogado nela de uma vez só.

–Sério? Isso não é errado ou algo assim?

–Seria contra as regras, mas eu me formei hoje! Ah, ele é tãooo fofo!

–Fico feliz por vocês dois.

–Que quadro psicodélico é esse? -Rose disse apontando para o retrato.

–É um retrato. Foi o que minha avó deixou para mim. Acho que ela deixou algo para você, mas tenho que confirmar.

–Eu a adorava. Nunca reparei nesse quadro estranho, mas eu adorava as histórias que ela me contava. Quando fugi de casa aos sete anos por alguma razão, vim para cá. Ela me acalmou, me contou histórias e depois ligou para meus pais.

As duas sorriram. Rose começou a observar o quadro.

–Porque só algumas fadas são coloridas e as outras brancas? -disse encostando a cabeça no ombro da amiga.

–Acho que elas são especiais ou algo assim.

–Seria divertido ver essas fadas. Parece um lugar mágico. Dizem que existe uma clareira quase igual no bosque atrás da sua casa.

–Pena que nunca vou descobrir. Meu pai me proibiu de entrar lá, lembra? Parece que ele viu fantasmas lá. -Rose riu.

–Talvez ele tenha visto monstros horríveis correndo atrás dele. -As duas soltaram gargalhadas.

–Acho que tenho que ir para casa. Quer dormir lá hoje? -Perguntou Verônica.

–Claro. Só podemos passar em casa para avisar minha mãe?

–Claro. Vamos logo. -puxou a amiga pela mão e elas andaram. Na saída, Verônica estava trancando a casa quando Rose se lembrou do quadro.

–Hey, você não vai levar o quadro para casa?

–Hoje não. Lá em casa já está uma loucura, não quero dar outro infarto para minha mãe.

As duas ficaram quietas pelo caminho todo. Pararam na casa de Rose. Verônica entrou e ficou no quarto enquanto a amiga contava tudo para os pais. Na saída, Rose com uma pequena mochila com algumas coisas saiu e Verônica passou por uma fila do abraço, que consistia nos pais e nos dois irmãos de Rose.

Todos falaram que sentiam muito, e todos os clichês que conseguiram encontrar. Perguntaram quando seria o enterro mas Verônica não soube dizer e eles apenas presumiram que não estavam deixando a garota totalmente dentro dos assuntos da morte da avó. Apenas concordaram e pediram para avisá-los.

Verônica concordou e assim conseguiu sair. Rose pediu desculpas no caminho e puxou assunto sobre coisas e pessoas aleatórias para distrair a amiga.

Chegando na casa da menina, tudo foi como esperado. A mãe não saia do quarto e o pai corria para lá e para cá pegando coisas para ela. Abraçou Verônica e disse para elas se ajeitarem e fazerem algo para comer.

Elas concordaram e logo foram dormir. Fora um longo dia.

Acordaram no outro dia e desceram. Rose falou que precisava ir para casa resolver alguns assuntos da faculdade e Verônica se despediu. Desceram as escadas e Verônica foi até a cozinha, onde a mãe pensava sem parar.

–Bom dia! Dormiu bem? -perguntou o pai.

–Sim, tudo bem.

–Verônica, o que acha que eu deveria fazer com a casa? -a mãe perguntou, saindo de um transe. -Eu não quero vende-la. Tenho tantas memórias daquele lugar.

–Então só reforme.

–E depois? Não consigo ir lá por enquanto, mas também não quero outra pessoa lá.

–Não sei, sinceramente. Alugue talvez. Daqui a algum tempo, quando estiver bem para voltar lá, a senhora vê o que faz. Não precisa resolver tudo agora.

–O velório vai ser hoje, ok Verônica? -disse o pai e a mãe voltou para o transe. -Depois do enterro, daqui umas 4 horas, eu vou com você até a casa da vovó para buscar seu quadro. Você gostou dele?

–Ainda não decidi. -A garota sorriu, tranqüilizando o pai.