Discursos bonitos, pessoas felizes. Estudantes aliviados e pais orgulhosos. Diplomas passando de mão em mão e fotos sendo tiradas a todo o momento. Um grupo de garotas estava chorando e se abraçando, fazendo milhares de promessas para os próximos anos. Garotos davam tapas nas costas uns dos outros e faziam brincadeiras imbecis.

É assim que deveria ser uma formatura da faculdade. Verônica Miller tinha essa ideia desde o dia que entrou na faculdade. Infelizmente, no meio da premiação, sua mãe, Rachel, foi até ela em prantos, avisando que sua avó, Nuria, havia falecido. Um vizinho a encontrou no quarto, aparentemente dormindo e ligou para a polícia quando percebeu o acontecido. John, o vizinho, ia toda terça na casa de Nuria para fazer alguns serviços na casa e passar um tempo com a velha e adorável Nuria, que era conhecida na vizinhança por ser gentil e carinhosa com todos, além de fazer ótimos bolinhos.

Assim que pegou o diploma, Verônica contou ao diretor da escola, Sr. Jenkins, o que havia acontecido e ele a liberou. Ela procurou a família e eles saíram ignorando todos os chamados da amiga de Verônica, Rose. Todos passaram na funerária para deixar os pais de Verônica, James e Rachel Miller, quarentões tentando disfarçar uma crise de meia idade. Verônica seguiu viagem até sua casa, um pouco afastada da pequena cidade de Longshire. Os Millers moravam num sitio muito bonito e muito conhecido por todos. Tinham uma casa enorme, um estábulo e uma pequena plantação de várias coisas diferentes, um hobby da Sra. Miller. Quem dirigia era Julian, um homem que trabalhava no sítio desde sempre.

Verônica nunca soube como Julian tinha chegado e porque trabalhava lá, mas também nunca se atreveu a perguntar. Por todo o caminho, Julian tentou puxar assunto, tentando distraí-la com assuntos comuns, como por exemplo, um dos cavalos preferidos de Verônica, que tinha ficado doente.

O problema era que Verônica sempre teve uma relação muito próxima da avó. Nuria sempre a aconselhou e toda vez que a neta aparecia, fazia os bolinhos preferidos dela. Sempre dava de presente de Natal, um cachecol ou alguma blusa tricotada por ela o ano todo, enquanto Verônica sempre dava para a avó um par de luvas, porque esta sempre reclamava que suas mãos estavam frias. Ela iria sentir falta de tudo aquilo.

Julian logo percebeu que nada iria fazer a garota melhorar, então desistiu de puxar assunto. Mesmo que fosse sobre a tão sonhada formatura. Dirigiu em silêncio e parou somente quando chegou na frente da enorme casa. Verônica desceu e foi direto para o quarto.

Julian Smith tinha uma dívida de vida com Nuria Segger. A mãe do garoto o deixou com apenas alguns meses num orfanato e ficou com seu irmão em casa. Esse era professor de Física na faculdade de Verônica. Chamava-se John Smith. Julian tinha o conhecido em algumas ocasiões, mas nunca conversaram de verdade sobre tudo. Julian era jovem, tinha no máximo 27 anos e seu irmão, 25. A vida no orfanato não fora fácil, mas tudo melhorou aos seus 15 anos.

Nuria Segger encontrou Julian tentando invadir sua casa e esse fugiu como o diabo foge da cruz. Dias depois, ele a viu no mercado. Ela estava prestes a chamar os policiais quando ele a puxou para um canto e explicou que não tinha casa. Todos na cidade sabiam do orfanato sendo fechado e de como as crianças maiores de 15 anos foram soltas nas ruas, agora cheias de mendigos e as mais novas foram enviadas para todos os cantos do país. Ela o levou para sua casa e o convidou para morar lá. Nessa época, Rachel já namorava James então mal ficava em casa.

Ele ficou lá por um bom tempo e criou uma enorme amizade com Rachel. Quando essa saiu de casa e foi morar no sítio com James, ele foi junto. Ajudava em tudo que precisava. James sentia um ciúme incrível da amizade dos dois, que contavam tudo um para o outro. Tanto que, quando esta descobriu que sua mãe tinha morrido, a primeira pessoa que procurou foi o criado.

John o procurou na formatura para falar o quanto sentia muito pela mulher que foi uma mãe para o moço por tanto tempo.

-Se precisar de algo, é só falar comigo. Dou um jeito de te ajudar. E mamãe está de volta na cidade.

Isso foi tudo. Já não bastava a sua mãe postiça ter morrido, agora a que o abandonou estava de volta. Ele nunca a conheceu, nunca a procurou e vice versa. Não sentia falta. O irmão disse que ela queria conhecê-lo.

-Apenas diga que eu sou uma versão sua que deu errado.

E deu uma risada falsa, voltando para os Millers.

James Miller nunca havia gostado de Nuria Segger. Desde o primeiro momento que os conheceram, quando ela o pegou pulando da janela do quarto de Rachel Segger numa terça-feira do verão e o fez um interrogatório vergonhoso. Mandou ele nunca mais chegar perto da sua filha, a que tinha criado sozinha com tanto esforço.

Dois dias depois, Rachel Segger e James Miller estavam namorando.

Nuria tentou de tudo para impedir. Ex namoradas raivosas, manipulando e criando brigas entre os dois, mas eles nunca desistiram. O porquê, ela nunca iria entender. Mas era simples: James Miller amava Rachel Segger tanto quanto amava sua mãe. Ela era a mulher da vida dele e todos da cidade sabiam e apoiavam os dois. Sabiam que o garoto era uma boa pessoa e Rachel era amada por todos no lugar. Na época os dois estavam na faculdade, mas na formatura, James pediu a amada em casamento. O fato foi a coisa mais romântica que aconteceu na pacata cidade, e foi comentado por dias.

Nuria odiou aquilo. Via sua filha sair de casa com um garoto esquisito, com uma carreira na medicina altamente duvidosa -de acordo com a velha, claro. Todas as vezes que via os dois juntos, Nuria desejava poder fazer algo para impedir. No dia do casamento, não foi convidada. No dia que Rachel descobriu que estava grávida, Nuria ficou sabendo por uma vizinha que estava comentando com todos o que tinha descoberto no hospital quando foi levar seu anjinho, Eugene, para a emergência. Nuria quase morreu de raiva.

Quando a garotinha nasceu, Nuria foi visitar. Ninguém ficou feliz com aquilo, nem a própria filha, que nunca mais falou com a mãe. Mas a garotinha ficou. Verônica Miller cresceu perfeitamente bem e tinha uma relação com a avó que a mãe invejava. Todos os dias Verônica passava por lá e Nuria começou a frequentar os feriados na casa dos Millers, depois maiores datas até que ia quase todos os dias ver a pequena. Todos a amavam. A garotinha havia trazido vida a todos.

Mesmo assim, James Miller não conseguia gostar de Nuria Segger.

Um dia, viu Nuria andando pelo bosque que fazia fundo a casa dos Millers e a chamou, mas ela não ouviu e seguiu entrando no bosque. Ele a seguiu, achando que talvez estivesse perdida ou algo assim.

James Miller nunca falou sobre o que viu naquele dia, naquele bosque, onde foi achado dois dias depois. Os policiais preferiram dizer que ele estava bêbado e entrou no bosque sem querer. Ele nunca mencionou sobre Nuria e ela nunca falou nada para a polícia.

Ninguém menciona nada disso perto dele, mas quando Verônica era pequena, resolveu perguntar. Viu o pai ficar branco como papel e começar a gaguejar falando que não era uma boa ideia falar sobre aquilo e a mãe, sorrindo, falou o mesmo. Incentivou Verônica a perguntar sobre como foi no trabalho do pai, e ela o fez. Ele sorriu para ela e após uns segundos voltou ao normal.

Verônica nunca mais perguntou sobre aquele dia.

James e Rachel chegaram à casa rápido e Rachel chorava descontroladamente. Verônica desceu e abraçou a mãe, que repetia quase que roboticamente que tudo ia ficar bem. Verônica pensou que aquilo não seria para tranqüilizá-la, mas para si mesma. James estava na cozinha fazendo um chá para tentar acalmar a esposa e a filha, quando alguém bateu a sua porta.

Sr. Twigger era um advogado gordinho, usava óculos e carregava sempre uma pasta grande, sem uso aparente.

-James Miller? -o homem perguntou.

-Eu mesmo.

-Sou o advogado de Nuria Segger, Jason Twigger. Gostaria de falar com o senhor sobre o testamento que ela deixou.