Pela primeira vez na vida a curiosidade de Katy de ver aquilo que ela chamava de O Mundo do Lado de Fora, localizado além dos grandes muros que circundavam o jardim da mansão dos Bruhmar, se tornou tão grande que ela simplesmente não conseguiu mais aguentar as diversas regras que lhe foram impostas, com o intuito de protegê-la, de acordo com seus pais.

Katy esperou o momento certo para sair, agachada embaixo da grande mesa da copa.

Ela sabia muito bem que ninguém ali iria gostar de sua nova ideia de se tornar uma fugitiva. Mesmo se fosse pega pelo mordomo Bernard, a única pessoa que ela tinha para poder chamar de amigo e, na verdade, a única pessoa que ela poderia conversar dentro naquela mansão, a punição pela sua desobediência (que poderia ser até mesmo letal) não lhe era considerada muito relevante.

Afinal, Katy considerava que não havia muita coisa para perder. Ela estava cansada da típica desculpa de que aquilo era para protegê-la de pessoas ruins, que caçavam pessoas especiais como ela.

Katy não era uma adolescente comum. Katy era uma hospedeira. Uma hospedeira poderosa, embora não soubesse disso na época. Ela sempre se fascinava com as coisas que sua magia podia fazer.

— Ah, eu amo o poder das palavras.

Katy se encolheu embaixo da mesa, hesitante enquanto Bernard passava ali perto. Ela estava com medo de que fosse descoberta. Bernard passou direto e foi para o outro cômodo, subir uma das duas grandes escadas duplas do salão principal da mansão. Certamente ele iria para o quarto dela, lhe fazer uma breve visita, como sempre.

Precisava ser agora. Se demorasse muito, Bernard acabaria notando sua ausência.

Katy saiu rapidamente de baixo da mesa. Seu cabelo longo balançou quando ela olhou de um lado para o outro, atenta. Ela seguiu direto para os armários da cozinha, procurando qualquer coisa para lhe ajudar com sua magia.

Uma das regras da casa era a proibição de qualquer coisa que pudesse ser usada para escrever, o que incluía coisas como lápis, canetas, tinta, e até mesmo alfinetes, como se Katy fosse usá-las para furar sua própria pele e escrever as palavras com seu sangue. Ela já havia pensado nisso antes, mas tinha achado uma ideia melhor do que se furar.

Os pais de Katy confiavam nela, é claro, mas não gostavam muito que ela saísse por aí escrevendo coisas. Eles não gostariam de chegar do trabalho e encontrar a casa pegando fogo só porque Katy escreveu a palavra "fogo" na parede. Por isso não gostavam de facilitar esse tipo de coisa nem um pouco.

Não havia muito tempo. Katy estava procurando por Mel. Ela sabia que estava ali em algum lugar.

Mel era a única coisa (e olha que Katy já havia pensado em bastante coisa) que ela podia usar para escrever e que poderia eventualmente ter acesso. Ela precisava ser rápida.

Freneticamente, mas ao mesmo tempo de forma cuidadosa, Katy analisou e investigou os armários até encontrar uma garrafa de plástico com uma tampa em forma de cone, com um rótulo amarelo escrito exatamente aquilo que procurava: Mel.

— Achei. Tomara que funcione. — sussurrou para si mesma.

— Katy?

Droga. Ele estava vindo. Estava começando a descer as escadas. Não faltava muito tempo para Bernard aparecer pela porta e perguntar que merda que Katy estava fazendo, espalhando mel na própria pele

Enquanto a garota escrevia em seu braço com letras totalmente descuidadas, usando o dedo para fazer isso, ela xingou mentalmente o fato da palavra “invisibilidade" ser bem grande. Não havia tempo para escrever aquilo tudo antes de ser pega, por mais rápida que fosse.

— Funciona...

Katy ficou encarando o braço melado com a palavra “invisível” escrita nele, brilhante pela luz que entrava pela janela. Não era a mesma coisa que “invisibilidade”, mas não deveria ter problemas, considerando que as palavras tinham praticamente o mesmo significado.

— Katy?

Bernard passou os olhos por ela e pela bagunça que havia acabado de fazer. Katy ficou esperando que ele a notasse, acostumada com que suas magias não dessem muito certo. Ficou imaginando que talvez ele pudesse estar vendo seu vestido florido flutuando enquanto apenas seu corpo não estivesse visível. Felizmente isso não aconteceu.

A magia da palavra havia funcionado de acordo com seu plano. Ela estava invisível.

Pela primeira vez em muito tempo ela finalmente iria ver de perto o Mundo do Lado de Fora.

Quando uma pessoa fica presa durante muito tempo em um lugar, independente do motivo e por mais altruísta que este fosse (embora Katy ainda não entendesse muito bem disso), um dia de total liberdade valia muito mais que uma vida inteira isolada atrás de paredes.

E assim aconteceu com Katy, quando pela primeira vez na vida, ela pulou o muro e viu outras pessoas sem que fossem seus pais, Blake e Lissandra, seu mordomo Bernard ou Minerva, uma grande amiga dela e de sua família.

Katy estava vendo pessoas de verdade.

Elas pareciam tristes aos seus olhos, com grandes guarda-chuvas (Katy achava que o nome era esse. Se lembrava meio vagamente de ter lido sobre aquilo em algum lugar.) e roupas para se protegerem da água que caía do céu.

Deuses, aquilo era a chuva?

Katy estava sorrindo quando olhou para cima, enquanto ficava toda encharcada.

Primeiro, a garota correu. Correu como nunca havia feito antes, para fora da mansão, percorrendo a rua principal do condomínio onde morava. Ela correu sentindo o vento em seu rosto balançar seus cabelos molhados.

Liberdade é a palavra que descreveria aquele momento. Katy estava se sentido livre pela primeira vez desde que se lembrava de qualquer coisa.

Não demorou muito para a água da chuva forte limpar a palavra doce em seu braço, fazendo com que Katy se tornasse visível novamente. Por um lado foi bom, pois não seria legal que alguma pessoa notasse aquela deformação na água.

Antigamente, Bernard contara a Katy, as pessoas chamavam os padres e os exorcistas para esse tipo de coisa. Hoje em dia chamavam logo a Cavalaria. Era como chamavam os caçadores. Katy não sabia como era sentir o perigo de perto. A sua família havia feito um bom trabalho até então, mas não contavam que aquilo fosse afetar a mente da garota.

Como havia começado a cair uma tempestade, não havia muita gente no parque adiante, apenas algumas pessoas preocupadas com seus guarda-chuvas que ameaçavam sair voando. Ninguém pareceu notar a menina dançando e girando no gramado, em meio às árvores, enquanto sorria e dava gargalhadas.

Katy estava em paz. Despreocupada com o mundo e com os problemas que futuramente teria de carregar.

Ela se sentia tão viva. Feliz...

Para ela, as outras pessoas pareciam como corpos ocos. Uma mulher ainda ameaçou lhe lançar um olhar e balançou a cabeça em desaprovação, provavelmente murmurando sobre a possibilidade de Katy estar drogada.

Havia uma única pessoa em meio aquilo tudo que não parecia apenas um corpo oco.

A princípio, mal desconfiava Katy que, no momento em que seus olhos se encontraram com os olhos daquele garoto; no momento em que os dois se juntaram para conversar, sentados em um banco embaixo de uma árvore naquele mesmo parque... Mal desconfiava ela que aquele detalhe em sua vida iria mudar o mundo para sempre.

Katy Bruhmar, a estranha adolescente criada escondida em uma mansão, que tinha a magia de conceder poder à suas palavras escritas. Poder que poderia finalmente salvar a todos.

Poder que conseguiria unir os rebeldes, rumo a um novo destino...

Naquele momento, em algum lugar do mundo, o Caçador de Olhos colhia mais um par de troféus para sua coleção. Os gritos de uma garotinha se silenciaram quando seu corpo foi escorregando das pedras para o fundo do mar. O Caçador encarou o que acabara de conseguir, como se fosse um par de pedras preciosas.

Ele notou a inquietude de Henry, seu assistente pessoal, por assim dizer, e o encarou.

— Ah, você está comovido? — perguntou o caçador.

— Não, Senhor. — respondeu sério, controlando suas emoções, mesmo sabendo que o homem a sua frente podia senti-las pelo olhar.

— Então, me responda. Por que isso foi necessário? — perguntou, caminhando até ele e colocando os olhos da garota em uma bolsa de couro, que o assistente segurava.

— Porque sacrifícios precisam ser feitos para uma causa maior.

Henry falou isso como se a frase estivesse latejando em sua cabeça, depois de tanto repeti-la mentalmente. Ele estava com medo, mas tentou não demonstrar. A qualquer momento o homem parecia querer lançar suas mãos em seus olhos e pegar para ele, como fizera com tantas outras pessoas.

— Ótimo. Vamos chamar o próximo.

O Caçador se virou e caminhou pela encosta, onde uma enorme fila de centenas de homens, mulheres e crianças, se estendia por toda a praia daquela ilha vazia.

— Uma causa maior. — repetiu. — Muito maior.

Notas finais
Obrigado por lerem.Se você leu e gostou, comente e acompanhe a história :)Não existiríamos sem vocês ♥ PS: Se você começou a ler a história agora, mesmo com outros (muitos, para variar) capítulos postados, deixe seu review também sobre o que está achando sobre o capítulo lido. Isso me ajuda bastante. Abraços!