O Retorno dos Antigos
10 Mundo de Mudanças
Notas iniciais

Chris não sabia mais por quanto tempo iria aguentar. Ele simplesmente não suportava mais, com o gosto de sangue presente na boca enquanto levava golpes na barriga e no rosto. A dor contínua fez sua visão ficar turva e suas pálpebras pesarem. A opção de dormir para entorpecer a dor era tentadora, e tudo que ele queria era se jogar nela. Chris não sabia qual a necessidade daquilo. Tudo o que estava dentro dele, naquele momento, era raiva e ódio, escondido pelo sofrimento na qual teria de suportar.
Fala sério. O homem era forte o suficiente para acabar com ele com um soco certeiro capaz de quebrar suas costelas e perfurar seus órgãos, mas não estava usando toda a sua força. Só queria se divertir um pouco, para variar. A dor não era menos intensa, de qualquer modo, mas o cara apenas queria vê-lo sofrer.
Não falara nada a respeito do que sabia de Katy, e, mesmo sem nenhuma prova sobre o caso, apesar de terem encontrado o livro de Teceu escondido no baú embaixo de sua cama, o que de certa forma não confirmava nenhuma ligação direta com a hospedeira da escrita, aquela tinha sido a sua punição.
E duvidava muito que tinha acabado.
Chris estava semi-inconsciente quando o levaram embora pelo mesmo corredor na qual havia entrado. O chão parecia um caminho cinza desfocado de um sonho. Seus braços pendiam dos ombros e as pernas mal se moviam voluntariamente, enquanto o arrastavam. Sua visão escurecia brevemente e eventualmente, voltava aos borrões.
Foi quando ele viu. A mente de Chris estava igualmente exausta ao seu corpo e aquilo poderia ter se passado facilmente por uma breve alucinação ou coisa parecida. Era um daqueles momentos em que a memória fraca não consegue distinguir exatamente se estava realmente acontecendo ou não se passava de um sonho.
Mas, naquele caso, era exatamente os dois.
De relance, Chris viu uma porta. Uma simples como qualquer outra na delegacia. Pelo menos era o que ela — a porta — queria que os outros achassem dela. Uma simples porta. Afinal, ninguém pensava muito a respeito de portas.
Mas Chris viu sua verdadeira identidade, embora não fizesse sentido para ele. Um homem idoso segurando um cajado enquanto se fundia à madeira…
Poderia ter se passado por alucinação, e, à princípio, foi exatamente isso que aconteceu. Entretanto, mais tarde, aquele pequeno detalhe poderia fazer toda a diferença.
Chris então fechou os olhos e deixou o vazio do sono tomar conta…
…
Minerva ficou com os olhos arregalados, paralisada. Seu corpo pareceu ficar mais frio, porém, suor passara a escorrer pelo seu rosto, enquanto observava a tela do celular. Ligação encerrada…
Havia acabado de receber uma chamada da hospedeira do futuro, afirmando que a nova fase começara e que Minerva precisava correr para salvar a hospedeira da Escrita. De alguma forma, Katy corria perigo. Acima de tudo, a garota era sua responsabilidade.
Minerva precisava salvá-la. Se Annie lhe dizia que precisava correr, era isso que ela faria.
Ela jogou o celular em um canto, terminou de se secar e colocou uma calça jeans e uma camiseta. Infelizmente, não havia tempo para arrumar as malas, então a única coisa que levaria seria as roupas do corpo.
Ela conhecia como o sistema da central de monitoramento funcionava. Naquele momento, a delegacia já deveria estar recebendo um aviso e sua localização. Um grupo ativo já deveria estar recebendo as novas ordens, que era de capturá-la.
Minerva tinha um carro veloz, que sempre ficava no estacionamento atrás do quarteirão onde morava, na qual poderia ter acesso através de um beco estreito ao lado do prédio.
Era exatamente para lá que ela estava indo. Aquele era o plano. Chegar de carro na casa dos Bruhmar, pegar Katy e os outros, seguir para o portal do espírito das portas, Dáo Shigar, e sair de vez dali.
Mas, como devia suspeitar, as coisas nem sempre eram tão simples como se imaginava. Na verdade, já até se imaginava que ia acontecer alguma coisa inesperada, o que realmente não fazia sentido, já que inesperado significava algo que não era esperado.
Mas que confusão.
Ela saiu do prédio e andou apressada pela ruazinha escura, dando uma breve olhada para a praça que ficava a algumas quadras de distância. Quando Minerva chegara em casa, poucas horas atrás, ela pôde ver algo à distância que se assemelhava a um palco de madeira. O tipo de palco que a Cavalaria usava para a execução dos considerados cúmplices do terrorismo, como fizera com a esposa do hospedeiro do Destino, tantos anos antes. Antes mesmo de Katy ser adotada por Lissandra e Blake. Minerva observara tudo, encolhida atrás de um poste, transtornada enquanto o povo torcia e se agitava com sede da morte alheia.
Apesar disso, aquela plataforma poderia ser qualquer coisa. Minerva não parou para pensar muito no assunto. Ela tinha uma missão. Coisas mais importantes para lidar naquele momento. E como as coisas não eram tão simples, ela precisava se apressar
E Minerva sentiu que as coisas estavam ruins naquele beco. Quando um grupo de jovens, aparentemente bêbados, caminhavam em sua direção. O grupo de amigos ocupava todo o espaço da rua pequena, e a medida que Minerva se aproximava, esperava que eles gentilmente abrissem passagem para ela passar (nossa, como ela era trouxa), mas não foi isso que aconteceu. Como se não bastasse todos os problemas envolvendo uma rebelião… Já tinha até esquecido que os meros mortais tinham seus problemas, como a violência pública.
Nossa, se a Cavalaria lidasse tão bem contra os bandidos como fazia com os hospedeiros e seus aliados, as coisas seriam realmente interessantes.
— Ora, e o que uma mulher como você está fazendo por aqui, a essa hora da noite?
Eles agora formavam um círculo a sua volta, falando um monte de babaquices.
— Não estou com muita paciência, então é melhor ir saindo do caminho. — disse Minerva. Afinal, ela nunca estava com muita paciência, quando o assunto envolvia vidas.
Ela e o outro homem se encararam. Um longo momento enquanto os outros pareciam observar ansiosos o que quer que estivesse por vir.
Que droga. Mal saíra do prédio e já havia alguma coisa para atrasá-la. A Sorte estava brincando com ela — ou será que era o Azar? — De qualquer modo, os gêmeos filhos do Destino eram tão complicados quanto seu pai. Minerva não sentiria pena de deixar alguns olhos roxos por ali, assim como eles não aparentavam que iriam sentir pena de fazer o que quer que estivessem pensando em fazer. Ela estava sem tempo.
Minerva avançou em um soco no primeiro, que cambaleou para trás, desorientada pela surpresa de ter sido atacado tão repentinamente. Em seguida, os outros foram partindo para cima dela, tentando segurá-la, enquanto repelia suas mãos com socos rápidos focados nos ossos e nas juntas das mesmas.
— DESGRAÇADA! — xingou o primeiro, com a mão no nariz. Minerva certamente havia feito um belo estrago (Sua própria mão também estava doendo de maneira proporcional à força do golpe, mas não se importou).
O homem avançou em um soco giratório, tirando a mão do nariz Minerva abaixou e o homem vacilou, de modo que Minerva ficou atrás dele, lançando uma investida com múltiplos socos eu seu ombro. Ele gritou de dor, tropeçando de novo para frente, tentando girar novamente para acertá-la com o cotovelo, mas notou que seu braço não se movia. Parecia que uma descarga elétrica a partir de seu ombro impedia que o resto do braço se movesse.
Minerva então atacou a coxa do homem com mais uma de sua série de socos e se lançou em uma joelhada na mesma. O homem caiu no chão, sem conseguir se mover.
— AHH! Minhas pernas!
Os outros não ficaram muito tempo contemplando a situação. Logo partiram para pegá-la enquanto Minerva nocauteava seus braços e punhos.
Porém, ela não foi rápida o suficiente. Rápida o suficiente para impedir que um deles a agarrassem por trás, mobilizando. Ela se contorceu, desesperadamente para atacar, enquanto os outros, com os braços que ainda funcionavam, por assim dizer, começaram a lhe lançar socos na barriga. Minerva gemeu e tentou encolher a barriga, para fazer seus músculos se contraírem para formar uma camada que absorvesse melhor os golpes, mas não conseguiu.
Ninguém percebeu, naquela escuridão, enquanto a espancavam por entre a escuridão de um dos intervalos regulares das lâmpadas espalhadas pelo beco, quando ela fez surgir uma moeda por entre os seus dedos. Ela não podia ficar simplesmente esperando ali, enquanto Katy poderia estar correndo grave perigo. Minerva precisa chegar até ela. O destino de seus amigos corria perigo e ela estava ali, morrendo para um bando de jovens em um beco. Parecia uma piada.
Minerva se concentrou na moeda, enquanto era atingida por mais golpes.
No mundo de Teceu, havia dois deuses supremos, cuja união de ambos formaram todo o universo. O Tempo e o Espaço. Tudo girava em torno dessas duas coisas, em constante equilíbrio. Se ela precisava de força, precisava sacrificar algo para tê-la. Para equilibrar sua balança. E, naquele momento, ela não optou por diminuir seu tempo de vida em troca de poder. Além do dízimo do deus do Tempo, havia o outro tipo de dízimo. O dízimo do deus do Espaço. A dor em troca de poder… Aquele era o melhor momento para usá-lo. Transformar cada golpe em força.
Esperou e esperou, até estar completamente subjugada. Sua barriga doía. A vontade de deitar no chão em posição fetal era bastante tentadora, mas ela não faria isso, enquanto a moeda em sua mão acumulava tudo o que seus nervos sentiam.
Os jovens pararam, obviamente cansados. Talvez estivessem desistindo, como se ela já houvesse aprendido a lição.
Ah, eles iriam pensar duas vezes antes de esbarrar por qualquer pessoa sozinha num beco escuro. Nunca se sabe que tipo de pessoas pode se encontrar nesses cenários, não é mesmo?
Quando o homem atrás dela a soltou com um empurrão, ela tacou a moeda no alto e fez o pedido em silêncio.
Nem sequer dera tempo para eles demonstrarem alguma reação de surpresa ou indignação, enquanto a mulher começara a esboçar um sorriso de pura loucura.
Ah… Nunca se sabe…
Quando viu as sirenes de um carro de polícia ao longe, se aproximando cada vez mais, ela percebeu que estava completamente atrasada. Diziam que o Tempo passa quando a gente se diverte, assim como o Espaço passa quando a gente não o faz.
Minerva passou por entre os jovens desmaiados no chão, em um sono profundo, ou acordados, pelo menos, sem a capacidade de mover nada abaixo do pescoço.
— Ai, como vocês foram estúpidos. — Disse emitindo uma gargalhada, com uma assassina que acabara de sair do manicômio. — Muito estúpidos.
Ela foi até o carro, ainda com o efeito da magia percorrendo por suas veias, sentindo-se mais acordada e ativa do que nunca. Se sentia mais preparada do que nunca para o que quer que estivesse por vir.
E pisou no acelerador.
Rezou para que conseguisse salvar Katy de seja lá o que estivesse prestes a acontecer com ela. Rezando para que não fosse tarde demais.
As sirenes estavam ficando mais alta e quando ela olhou pelo retrovisor, notou que estava sendo perseguida.
Bom… rezando para que não fosse tarde demais…
Talvez estivesse errada
…
— Eles estão vindo para cá. Já arrumamos tudo. É hora de ir.
Andrea, Igor e Renata pegaram suas coisas e foram até a porta que dava acesso a uma escadaria caracol até o alto da torre. Aquela antiga porta de madeira seria a passagem de saída.
— Até que foi interessante ficar por aqui. — comentou Igor.
Andrea fez com que Aquila, antes empoleirada no alto da torre, observando a cidade, se materializasse em sua frente na típica fumaça brilhante e colorida que os espíritos emitiam quando faziam esse tipo de coisa, para logo depois acariciar as penas de sua amiga espiritual que sempre estivera com ela desde que se lembrava de que era uma hospedeira. Às vezes, ficava se imaginando no que Aquila estaria pensando, com seus incríveis olhos que, assim como os de Andrea, poderiam ver à quilômetros de distância, e com suas penas que constantemente mudavam de cor. O espírito da constelação da Águia era seu espírito patrono, mas diferente dos outros, ela mostrava o que pensava, não falava. Apenas a deixava observar…
Igor e Renata chamaram pelo espírito de Dáo Shigar e abriram a porta quando sentiram uma onda de magia deixá-los em alerta. Um vento frio invadiu a biblioteca, vindo de algumas janelas abertas que deixavam o ar livre para circular pelo ambiente. Andrea observou a imagem da sala da casa de campo em Náturi enquanto pensava no que iria fazer.
As penas de Aquila mudaram novamente de cor, aderindo ao seu conjunto original de penas brancas e azul-escuras. Os fantasmas do passado sempre atormentavam Andrea, rondando sua mente, mas assim como as penas de uma águia espiritual que oscilavam constantemente de tom para se adaptar, ela também precisava se deixar mudar.
— Você não vem? — perguntou Renata, ao lado de Igor, do outro lado do portal. Seus olhos reluziam aos de uma serpente.
— Não… Eu preciso ir a outro lugar. — disse Andrea, abaixando brevemente a cabeça e desviado o olhar. — Desculpem.
Antes que seus amigos pudessem protestar, Andrea fechou a porta, esperando a magia do portal recém-formado se dissipar, para depois escolher outro destino para seguir. Ela estava confiando em seu espírito patrono para ajudá-la a seguir o seu caminho.
Sentiu o poder inundando novamente a maçaneta da porta sob sua mãe e a abriu…
Fale com o autor