O Retorno Dos Seis
15 Capítulo 14 - Denver, CO
Notas iniciais
Retiro a faca de meu ombro e coloco a mão em cima do ferimento. Sarah está em pé, bem a minha frente. Confiante e corajosa. O sangue escorre pela jaqueta e a mancha até o final da manga. Ela olha para Nove e Oito, que estão boquiabertos e confusos. Ela agora gosta de Nove? Penso comigo mesmo. Mas eles acabaram de se conhecer!
Tento me levantar, e estendo a mão para Sarah me ajudar, porém ela vira as costas e fica ao lado de Nove. Meu corpo se enche de raiva, minha mente me faz querer acabar com os dois agora, mas isso seria menos ajuda para a Garde. E se eu fizesse isso, Seis me mataria.
Oito me ajuda e assim que fico de pé, bato as mãos para limpar o resto de neve que as sujou. Limpo a calça e ando até Nove. Coloco as mãos em suas costas e ele geme, contraindo os músculos. Mas logo os relaxa, como se a dor estivesse indo embora.
Ele retira a camisa suja de sangue e mesmo com o vento frio soprando, ele não a coloca de volta.
– Tudo bem? –
– Tudo sim... Obrigado. – Ele diz e se senta em uma pedra, bem a frente ao “início” da montanha, localizada atrás de nós.
A clareira que estamos é grande, cerca de 30 metros de largura. Ela é quase perfeitamente redonda, tirando alguns pinheiros localizados à frente de outros. Sento-me ao seu lado, e pretendo conversar e pedir desculpas, mas ele toma à frente. Mais uma vez.
– Olha John... Precisamos conversar. –
– Eu sei. Pretendia fazer isso agora... –
– Não, não só eu e você. Nós quatro. – Ele olha para Sarah, e já sei quem ele falará a seguir. – Eu, você, Sarah e Seis. –
Eu balanço a cabeça em movimento afirmativo. E ele continua:
– Não sei o que está acontecendo comigo. Nunca tive meus sentimentos tão afetados assim, de uma forma rápida e tão forte. Achei que gostava de Seis, mas não. Sarah me conquistou no momento que a vi. –
Ele soa romântico e verdadeiro pela primeira vez. Eu sinto ciúmes disso, mas foi o que aconteceu comigo e com Seis. Como se eu me sentisse vivo outra vez. Tivesse um motivo para continuar. Forças para lutar. Um objetivo para vencer.
– Acho que sei o por que de estarmos assim... – Eu falo. Ele olha para mim com atenção, virando algumas vezes para Sarah, que está olhando para a paisagem. – Não vejo Sarah há cinco anos. E nunca me aproximei de garota nenhuma, nem mesmo Seis, por todo esse tempo. E você também não. Nós desaprendemos como amar. Como é ser amado. E quando me envolvi, nem que seja só um pouquinho, com Seis, eu relembrei como era ter e sentir essa sensação tão boa. O mesmo com Sarah e com você. Não vamos julgar ninguém por enquanto... Mas isso não significa que não ficarei com ciúme de vocês dois. – Eu o encaro sério, mas logo sorrio. É bom ter Nove como amigo, agora passando pela mesma situação que eu. Mas Sarah não aceitará facilmente o que aconteceu, como ele aceitou.
Olhamos para ela, e quando ela se vira, eu desvio o olhar. Já Nove não. Ele a chama, e antes que ela chegue, eu me levanto e vou até Oito.
Vou até Nove e sento em seu colo. Passo as mãos em seus cabelos curtos despenteados e o olho nos olhos. Olhos castanhos profundos, afundando nos meus azuis.
– Venha aqui. – Ele puxa meu queixo, e me beija lentamente. Fecho os olhos e me sinto uma idiota, mas não resisto. O fato de beijá-lo na frente de John é algo estúpido. John é meu namorado. Não conversamos sobre isso ainda, mas precisamos.
Assim que paramos de nos beijar, sorrimos. Entrelaço sua mão na minha e nos olhamos. Apenas isso. Ficamos assim por dois, talvez três minutos, até ouvirmos os cascalhos de uma estrada não muito próxima. Ele se afasta, me coloca na pedra e se levanta, olhando para o horizonte. Logo avisa:
– Pessoal, vamos nos mexer... Acho que temos companhia. –
FBI. E mais mogs. SUVs pretos se aproximam cada vez mais na estrada sinuosa que deve estar a uns cinco, ou seis quilômetros de nós, depois da floresta. Os carros param com os faróis “apontados” para a floresta, que ofuscam nossos olhos, mesmo estando tão longe. Vejo sombras passarem por entre as árvores e raízes que saem da terra.
O chão escorregadio derruba alguns homens, que eu acredito que sejam agentes, pela estatura.
Eles se aproximam rapidamente e começam a atirar. Assim que o terceiro tiro nos alcança, saímos correndo. John e Oito estão na frente, eu e Nove atrás deles. Corremos na direção contrária, que leva a mesma floresta, porém, acho eu, que leva à região mais montanhosa.
John se vira de vez em quando para jogar algum agente para longe com sua telecinesia. Eu e Nove ultrapassamos os dois, e eu quase caio quando tento pular uma raiz grande. A floresta se acaba e estamos na frente de um lago congelado.
– Temos que atravessar! Não tem jeito! – Oito grita, olhando para trás, temendo que os agentes se aproximem. – Agora! –
Começo a correr e tenho medo que o gelo se quebre, mas continuo. John vem logo atrás de mim, e Oito e Nove vem alguns minutos depois. Sinto o gelo rachando sob meus pés, mas não desisto. A costa está a uns três quilômetros de nós, e quanto mais corro mais ela se aproxima.
Sarah corre mais rápido que nós três. Ela flutua no gelo, como se estivesse patinando. Os cabelos curtos voando para trás e as mechas rosas desenhando no ar. Olho para trás para ver se os agentes nos seguem, mas eles param quando atingem a “borda” do lago. Eles continuam atirando, mas as balas atingem o chão. Nove grita para mim e assim que dou mais um passo, o chão se abre na minha frente e tudo o que vejo é preto.
A água gelada percorre meu corpo, congelando-o. Mexo os braços e as pernas freneticamente para voltar a superfície mas é inútil. Estou paralisado. Essa água deve estar congelada há uns quatro, cinco meses. Fecho os olhos e as últimas coisas que vejo são os rostos de Nove e Oito olhando para baixo.
Abro os olhos novamente e estou em Paradise, Ohio. O último treinamento que tive com Henri. O fogo consome meu corpo e eu não respiro. Movimento os objetos a minha frente sem mexer um músculo. Bernie assiste tudo deitado, com a cabeça em cima das patas da frente. O sorriso largo no rosto de Henri me trás paz. Seus cabelos grisalhos ao vento, as rugas apreensivas em seu rosto, os olhares de incentivo. Sam olhando para nós, alegre e sorrindo. Como se estivesse assistindo um filme, diante de seus olhos. Tudo isso me faz falta.
Fecho os olhos e quando os abro novamente, estou deitado na neve fofa, do lado do lago. Meus olhos demoram para se acostumar com a claridade e vejo apenas formas vermelhas ao meu redor. Nove e Oito estão tentando decidir para onde vão, enquanto Sarah estuda o lugar onde estamos.
Olho para o outro lado do lago e vejo corpos caídos ao seu redor. Todos mortos. Acredito que apenas a telecinesia de Nove bastou para detê-los. O que me intriga é que dessa vez mogs não vieram atrás de nós. Apenas agentes. Por que?
Olho para trás e vejo John acordando. Ele olha para os lados, como se não soubesse que lugar é esse. Aviso os meninos que seguem para ajuda-lo. Olho tudo de longe e escuto sua conversa.
– John, precisamos ir. Não estamos seguros aqui. – Oito diz.
– Para onde iremos? – John questiona.
– Para longe daqui. Agora vamos. Levante-se e coloque suas roupas. – Nove responde.
John olha para seu corpo, que está coberto apenas com seu casaco e olha assustado para os dois. Não consigo me conter e rio baixo.
– Só me troco se vocês me derem licença né! –
– Ok, ok estressadinho... – Oito e Nove saem de perto, me puxam e vamos para trás de uma pedra gigante. Troco olhares com Nove, porém Oito está entre nós, tentando disfarçar o clima entre nós dois.
– Pronto! – John grita, depois de dois demorados minutos.
Saímos de trás da pedra e olhamos para ele. Ele mexe a cabeça e começamos a caminhar até a rodovia, que está há um quilômetro de nós. Ao chegarmos, olhamos para os dois lados tentando decidir qual rumo tomar.
– Vamos para a direita. – Eu falo, informando todos.
– Por mim tudo bem. – Nove concorda.
– Por mim também... – Oito dá sua opinião. – E você John? –
– Vamos então. –
Começamos a correr pelo acostamento, mais afastado da rodovia. Nove me leva de “cavalinho” em suas costas e John e Oito estão à nossa frente. Estamos a quase quarenta quilômetros por hora, algo inacreditável para o ser humano.
Avistamos uma placa logo a nossa frente uns vinte minutos depois de começarmos a correr. A placa informa:
BEM VINDOS A DENVER, COLORADO.
– Acho que estamos no caminho certo, pessoal! – Oito nos avisa.
Paramos ao lado da placa, e bem ao longe avistamos as luzes da cidade se acendendo. Deve ser 19h pelos meus cálculos, sendo que já está anoitecendo. Carros e mais carros passam agora pela rodovia movimentada. Correr seria inútil, chamaria muita atenção. Vemos um caminhão pequeno se aproximando e pedimos carona. Ele para e nós quatro sentamos na carroceria. O vento bate em nossos rostos, refrescando-nos. Começa a nevar assim que chegamos à cidade.
Descemos e agradecemos o motorista, dando-lhe uma nota de cinquenta dólares. Andamos até um hotel pequeno e decidimos passar a noite ali. Não é exatamente no centro, mas não é tão afastado como eu estava acostumado a morar. Reservamos dois quartos. Um para mim e Oito e, infelizmente, um para Sarah e Nove. Minha mente corrói só de pensar que os dois estarão no mesmo quarto juntos daqui a pouco. A sorte é que são camas separadas. Obrigado, Deus, penso.
Estamos sentados na recepção, conversando, até que Oito pergunta:
– Então, o que faremos? –
– Bom, pretendo ligar para Seis, mas preciso ir ao centro comprar um celular novo. E amanhã mesmo já embarcar para Vegas. Quanto mais rápido deixarmos Denver, melhor. –
Todos assentem com a cabeça.
– Quem me acompanha? – Pergunto, levantando-me e indo em direção a porta pequena de madeira da entrada do hotel. Oito levanta a mão e responde:
– Eu! –
Eu pisco para ele.
– Alguém mais? –
Nove olha para Sarah, e depois para mim.
– Acho que não Johnny. – Ele sorri para mim.
– Ok então. –
Saio do hotel e fecho a porta. Converso com Oito até chegarmos a uma loja de eletrônicos. Pego qualquer aparelho barato e dou trezentos dólares ao vendedor. Assim que saímos, disco o número de Seis e espero.
– Alô? –
– Alô, John? –
– Sam? –
– John! Tudo bom por aí? –
– Sam! Tudo bem sim, e por aí? –
– Tudo ótimo! Sabe, Ella desenvolveu o legado de suportar temperaturas elevadas, igual você! Seis e Marina não param de treinar... –
– Wow, que legal cara! E seu pai? –
Ele suspira, e logo responde, com um ar triste.
– Ele está um pouco doente... Acho que foi o monte de drogas que deram para ele enquanto ele estava trancado em uma base mogadoriana no Canadá. Espero que ele esteja bem até amanhã, para podermos embarcar sem preocupações. –
– Claro, claro... Onde nos encontraremos? –
– No hotel Eight Ball, em Vegas. É pouco conhecido, mas fica ao lado do Casino White Wings, ok? –
– Tudo certo. Estamos em Denver, chegamos em Vegas amanhã a noite. Até mais. –
– Ok, até. –
Um sorriso se forma eu meu rosto assim que desligo. Ella desenvolvendo legados, Seis e Marina treinando. Nossa... O que me preocupa é Malcolm. Então ele esteve o tempo todo no Canadá, tão perto de nós, sendo drogado, provavelmente torturado e não pudemos fazer nada. Espero que ele fique bem.
– Que foi, hein? Um sorriso como esses não se formam assim por uma coisas bobas... Pode ir contando. – Oito cutuca minhas costelas com o cotovelo.
– Que tal comermos uma pizza, e aí eu te conto tudo, hein? –
Subimos para nosso quarto e me sento na cama. Nove se senta na outra, e ficamos nos olhando. Um de frente para o outro. Até que ele levanta, vai até mim e me levanta. Ele me abraça, me levanta e me gira no ar. Não desgrudamos o olhar nenhuma vez. Quando ele me para, eu o beijo. Um beijo suave e que se intensifica. Depois de um tempo, eu me afasto. Sento na cama e penso no que estou fazendo.
Isso não está certo, Sarah, penso. Não está nada certo.
Saio do quarto sem dizer uma palavra e vou para rua. Vejo Nove vindo atrás de mim e ele me puxa com sua telecinesia, sem ninguém ver.
– Me desculpe. Precisamos ir devagar. Que tal um passeio? – Ele encosta os lábios nos meus e me beija. Eu assinto com a cabeça e, quando acabamos de chegar na porta da cafeteria, vemos uma explosão acontecer no nosso hotel.
~~~~~~~~~~~~Sky, é você?~~~~~~~~~~~~~
Meus olhos brilham ao ver as chamas e eu me abraço a Nove. Ele coloca os braços ao meu redor e me puxa contra seu peito.
Precisamos avisar John e Oito. E sair daqui, agora.
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