Em Paris, era um dia como outro qualquer, exceto pelo fato de ser o décimo oitavo aniversário de Joseph, um garoto órfão que vivia em busca de respostas sobre sua origem. Nada era mais triste para ele do que a ausência de uma família que o amparasse. Viveu boa parte da sua vida em um orfanato e atualmente trabalhava de ajudante em uma padaria. Já era noite, seus braços já não aguentavam mais exercer qualquer tipo de movimento, suas pernas já não mais o sustentava, logo resolveu voltar para o quartinho em que vivia. Sua casa, se é que podemos chamar assim, era simples e bem apertada mas a única que o seu salário poderia oferecer.
As ruas já não estavam mais movimentadas como durante o dia, o frio parecia ter tomado conta da cidade e as pessoas desfrutavam desse clima encostados em suas lareiras dentro de casa. Ao mesmo tempo que Joseph caminhava, refletia também sobre sua trajetória durante esses anos, mas isso não o agradara. Sua vida nada mais era do que uma história sem o toque essencial de criatividade, seus dias eram iguais, não havia nada de tão especial do qual pudesse contar para as pessoas. Enquanto pensava, sem perceber, esbarrou em um senhor que caminhava contra a sua direção derrubando os objetos que este carregava.
– Oh! Mil perdões — Disse ele um pouco envergonhado pela sua falta de atenção.
– Não tem problema garoto. Pelo visto você estava tão mergulhado nos seus pensamentos que acabou se desligando do mundo ao seu redor, isso acontece comigo quase sempre — Disse o velho senhor tentando tranquilizá-lo.
Os dois começaram a dialogar enquanto recolhiam os pertences que haviam caído. Quando menos esperavam, já estavam ali, sentados no banco da praça, conversando como se fossem grandes amigos.

– Antes que me pergunte, me chamo Donovan, sou escritor, e como tal tenho a capacidade de identificar e conhecer a alma das pessoas apenas em olhar suas expressões. Vejo nos seus olhos que está se sentindo um pouco solitário, onde estão seus pais? — Perguntou-lhe com um tom que o fez parecer já saber a resposta.

Joseph ficou impressionado com a capacidade que aquele senhor tinha de decifrar sua alma, parecia que ele o conhecia há anos. As feridas que a ausência de uma família provocou nas suas emoções eram enormes. Responder aquela pergunta que lhe foi feita era como trazer de volta tudo de ruim que foi enterrado no cemitério da sua alma.

– Não tenho pais, sou órfão. — Disse ele.
– Ora, todos nós temos pais, apenas há alguns que não os conhecem. Mas me diga, o que te fazia refletir tanto?

Antes de responder essa pergunta Joe refletiu um pouco. Aquela situação parecia sem lógica. Onde já se viu contar a própria vida para alguém que mal conhecia? Mas, por incrível que pareça, havia algo naquele senhor que o transmitia confiança, algo que não podia explicar mas simplesmente sentia:
– Hoje é meu aniversário, assim como diversas e diversas vezes, me peguei pensando um pouco sobre o que poderia ter acontecido com eles. Não acho justo para uma criança crescer longe do colo da mãe ou do afago do pai, mas acredito que a solidão seja o meu destino. Nunca encontrei um sentido ou algo que me motivasse a existir — Disse em tom de desabafo.
– Não julgue a atitude de ninguém sem antes saber o motivo, meu jovem rapaz — Replicou o velho senhor — Acredito que seus pais devam ter alguma explicação para isso. Não podemos tirar conclusões sem antes conhecermos as intenções. E a propósito, meus parabéns!
– Obrigado!
Enquanto conversavam, o velho senhor tirava de um dos seus bolsos um colar que mais parecia um amuleto. Seu brilho era enorme, parecia ter sido comprado na loja mais nobre da cidade. Joe não conseguia tirar os olhos do amuleto. Pensara como um senhor que aparentava ser pobre poderia ter conseguido algo tão valioso.
– Meu jovem, gostaria que ficasse com isto — Disse ele sem hesitar — Esse colar pertenceu a grandes e nobres guerreiros que lutaram bravamente e se sacrificaram pela sobrevivência do seu povo. Ele representa bravura e coragem, algo que sei que você precisará para poder seguir em frente. Posso não te conhecer direito meu caro, mas sei que a sua busca por um sentido tem te torturado. Acredite em mim, esse presente irá ajudá-lo a encontrar respostas a perguntas que você tanto faz a si mesmo.
– Oh, não! não posso aceitar algo de tamanho valor. Não sou nobre, muito menos guerreiro para usar algo de tamanha importância.
– Ora, deixe de lado esse orgulho meu querido. Não vai recusar o presente de um velho e pobre senhor, vai? — Disse o velho senhor interrompendo sua fala.

Sentindo-se pressionado, Joseph acabou aceitando aquele brilhante colar e decidiu então guardar em um dos seus bolsos. Enquanto o guardava, em questão de segundos o velho já não estava mais ali, parecia mágica. Joe olhou para todos os lados em busca de rastros que pudessem dizer para onde aquele velho senhor poderia ter ido, mas não havia ali nenhum indício, nem mesmo pegadas na neve que indicassem que alguém tivesse passado por ali. Cansado de procurar, decidiu voltar para o seu quartinho, caminhou apenas alguns metros até que chegou ao seu destino. Subiu as escadas, deu um suspiro e tirou tudo que havia em seu bolso, inclusive o presente que acabara de ganhar. Ficou alguns minutos encarando aquele amuleto e logo percebeu que poderia haver algo ali dentro. Tentou abri-lo mas suas tentativas foram em vão, parecia que aquele objeto havia sido selado com mágica ou coisas do tipo que são impossíveis de serem abertas, até que ele, cansado de tentar e dominado pelo sono, decidiu ir deitar. Foi questão de segundos para que Joe entra-se em sono profundo.
Passaram-se alguns minutos e algo começou a iluminar aquele quarto escuro. Era um brilho tão forte que parecia que o sol havia chegado mais cedo, mas como isso seria possível se a noite ainda estava lá fora? Joseph logo acordou com o clarão em seu rosto, era exatamente meia-noite, nem segundos a mais, nem a menos. Assustado, decidiu encostar um pouco mais perto da mesa ao qual estava o objeto que iluminava toda a casa. Quanto mais se aproximava, mais o seus pés formigavam, seu corpo se esquentava, parecia que havia uma energia mística ali perto que tomava conta do seu corpo. Mas uma coisa era certa: Algo estava prestes a acontecer ali.

A cada passo que dava, uma energia poderosa o tomava conta de tal forma que, mesmo que tentasse, não conseguiria mais se afastar daquele objeto. E ali estava ele, o colar que havia recebido de presente, seu brilho era capaz de ser visto a quilômetros de distância. Seus dedos se aproximavam cada vez mais daquele objeto, seu coração pulsava rapidamente, já não havia mais controle sobre seus movimentos e foi quando o inesperado aconteceu. Quando tocou o amuleto, a luz refletida pelo colar se intensificou ainda mais, um vento forte começou a entrar pela janela do seu quarto, os objetos começaram a cair, as cadeiras pareciam ter ganhado vida, o lustre balançava, folhas voavam livremente como se um tornado tivesse entrado em sua casa, até que algo começou a puxá-lo. O clarão emitido o impedia de enxergar o que estava acontecendo, apenas podia sentir que seu corpo havia ganhado vida própria.
Foi questão de minutos até que o objeto perdesse todo o seu brilho e tudo aparentemente tivesse voltado ao normal, mas havia algo de errado ali, Joe não estava mais em sua casa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.