O Retorno De Um Estranho
20 Três Suspeitos, Um Criminoso
Notas iniciais
Alguns policiais saíram na rua a procura do criminoso, mas não o encontraram mais. Barreto levou Maria até a pequena enfermaria que havia no distrito policial. Demorou alguns minutos para que ela acordasse.
– Graças a Deus você despertou! — disse Barreto aliviado, ao ver que Maria abria os olhos.
– Onde...onde estou? — falando com certa dificuldade.
– Está bem agora, não se preocupe. Porque saiu da delegacia, Maria? Poderia ter esperado a chuva passar.
– Eu esperei você, mas como demorou...
– A máquina do café estava com defeito. Se você tivesse esperado isso não teria acontecedido.
– Você viu se era homem ou mulher? — referindo-se ao criminoso.
– Não, estava com uma toca preta e jaqueta da mesma cor, de costas ainda, para piorar.
– Alguém tentou me matar! — retrucou com voz quebrada.
Barreto ficou em silêncio. Sabia disso. Quem quer que fosse o meliante poderia tê-la imobilizado com um golpe e roubado o carro, se assim o quisesse, no entanto tentava estrangulá-la.
– Recolheu a arma do crime?
– Sim mas... Um perito a analisou e não viu digital alguma. O sujeito usava luvas e a corda era virgem. Com certeza a comprou empacotada... A pergunta é: Quem tentaria te matar?
– Não sei... Sinceramente não sei...
Demétrio ouvia ao diálogo escondido, observando através da porta entreaberta. Se distanciou dos dois e retirou a jaqueta preta que o envolvia. Um sorriso de satisfação lhe brotou na face.
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Já era tarde quando Fabiola retornou ao apartamento. Fechou a porta atrás de si e suspirou, chateada. Não havia conseguido o que queria. A sala estava escura. Enquanto se dirigia ao seu quarto, alguém atrás de si iluminou o local surpreendendo-a:
– Onde estava, Fabiola? — indagou Carlos.
– Ca... Carlos. — com a mão no peito. — Você me assustou!
– Onde estava? — repetiu, com cara de poucos amigos.
– Eu...eh... Fui me encontrar com uma amiga. — mentiu.
– Fabiola você tem outro? — perguntou, frustrado. — Por favor não minta pra mim. Se não estiver satisfeita comigo, eu...
– Não, gatinho. Como diz uma coisa dessas? — fazendo-se de enamorada.- Eu só gosto de você.
– Não é o que parece.
– Nunca fui de demonstrar o que sinto... — aproximando-se dele. — Falou com sua mãe sobre o jantar?
– Sim, falei.
– Ah e o que ela disse? — fingindo certa alegria.
– Ela...bem, ela não tem tempo para fazê-lo por agora.
– Não tem tempo ou não quer? Vi que ela não me olhava com bons olhos no dia do aniversário de seu primo.
– Não liga para ela, cisma com qualquer um. Mas não se preocupe, ela não morde. — rindo.
– Espero que eu e ela consigamos nos dar bem... — acariciando o peitoral de Carlos.
– Sabe... Essa jaqueta preta lhe cae muito bem... Mas eu prefiro ver você sem ela. Começaram a se beijar.
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Geraldo chegou na casa de Daniela, cabisbaixo. Tinha saído para ver se conversava com Maria e revê-la de novo, estava morrendo de saudades, mas Vivian o recebeu e disse que ela estaria na delegacia. Daniela correu para os seus braços, saltitante.
– Onde foi à tarde, Geraldo?
– Tinha um encontro com alguns comerciantes no centro da cidade. A conversa estava bastante agradável e não percebi a hora...
– Hum...compreendo. Que tal sairmos para jantar?
– Está maluca? Esqueceu que sou motivo de chacota pública? — arrogante.
– Me...me desculpa. — assustada. — Mas você não pode viver a vida toda isolado. Precisa superar isso e recomeçar.
– Jamais! — afastando-se dela. — Você não compreende o que é amar e não ser correspondido da mesma forma. — o pior de tudo era que ela sabia: Amava-o.
– Então ainda a ama. — não foi uma pergunta e sim uma afirmação.
– Sim a amo! — admitiu, aumentando o tom de voz. — A amo e jamais serei capaz de esquecê-la!
– Então... Então porque está comigo? — chorando. — Você disse que iríamos viajar, abri uma conta pra você no exterior com meu nome e desviei uma fortuna da empresa por sua causa... está brincando comigo, Geraldo?
Geraldo lembrou-se que não poderia colocar tudo a perder. Se deixasse Daniela ela poderia dar com a lingua nos dentes e delatá-lo sobre o desvio de dinheiro. Além disso ela poderia lhe ser útil no futuro.
– Desculpa, Dani...desculpa. — Segurando o rosto dela entre as mãos.
– Eu sei que me exaltei, mas você tem que compreender que foi tudo muito recente e estou muito machucado. Perdoe-me.
– Disse que jamais a esqueceria.
– Sim... Jamais a esquecerei...se você não me ajudar.
Ela ficou em silêncio enquanto enxugava as lagrimas.
– Eu estou aqui com você, não?
– Sim, você está aqui...Mas não está por inteiro...mas não estará por toda a vida.
– Estou aqui agora e isso é o que vale.
Abraçou-a e ela descansou a cabeça em seu ombro.
– Estava mesmo em uma reunião com comerciantes?
– Claro que sim... Não tenho porque mentir pra você. Uma nova lágrima ameaçou cair dos olhos tristes e vazios de Daniela.
A reunião com os comerciantes era só na semana seguinte...
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Um novo dia chegou. Os San Romãn estavam nervosos naquela manhã de quinta-feira. Reunidos a mesa, Carlos, Alba e Estevão discutiam sobre o julgamento.
– Não há o que temer, Carlos. — disse Estevão. — A pena prevista é a de serviços comunitários.
– Tomara, mano. Tomara...
– Demorou a chegar em casa, Carlos... — resmungou Alba.
– Passei a noite com Fabiola. — sendo direto.
– Onde estava depois que conversamos ontem, tia? Procurei você na biblioteca mas não a vi, tampouco na sala de estar.
– Se tivesse me procurado no quarto teria me achado. — sorvendo o chá de erva doce seu favorito.
– Não precisa tratá-lo desse jeito, ele vai falar com Geraldo sobre Maria. — retorquiu Carlos.
– Não é esse o assunto, querido. Tome o café direito, temos que chegar cedo ao tribunal...
Dez e meia da manhã já estavam na frente do juiz. Luciano, profissional competente, empenhou-se na defesa do cliente, e o veredito do juiz não poderia ter sido melhor: cinco meses de serviço voluntário em uma ong voltada para crianças com câncer.
– Melhor que varrer rua. — Disse Alba, após o término da sessão.
– Obrigado pela defesa, Luciano.
– Fiz o meu trabalho, Estevão. — sendo modesto.
– O que acha de irmos a um bar para comemorar? — sugeriu Carlos.
– Boa ideia! Nos acompanha, Luciano?
– Por que não? — respondeu, sorrindo. Estava satisfeito pelo resultado de seu esforço.
– Melhor irmos para casa, Estevão. Estou indisposta. — disse Alba.
– Então Arnaldo te leva. Vamos no carro de Luciano.
– Mas...
– Tchau, mãe. — despediu-se Carlos com um beijo na bochecha.
Deixaram-na sozinha.
Essa atitude dos dois filhos a deixou deveras irritada. Entrou no carro da família furiosa.
– Para onde vamos, senhora? — perguntou o choffer.
– Me leve para a igreja mais próxima...
********
Devido ao atentado, Maria foi recomendada por um médico da polícia a repousar o dia seguinte, longe do tumulto da delegacia. Muito a contragosto, ela obedeceu. Vivian tomou conta dela o tempo todo.
Dava-lhe atenção, hora ou outra lhe perguntava se necessitava algo. Sim, ela necessitava. Precisava de Estevão junto a si, mas não queria importuná-lo, deveria estar no julgamento ainda. Pouco a pouco o sono foi lhe vencendo.
Adormeceu e sonhou com um homem com caracteristicos olhos verdes a lhe sorrir, tão perto e tão longe ao mesmo tempo, inexpressivo no olhar...
Tempos depois Estevão chegou em seu apartamento. Ainda não sabia do atentado e ao ser informado por Vivian correu em disparada ao quarto de Maria.
Iria despertá-la e lhe questionar se, de verdade, estava bem, mas a face tranquila e livida em estado de sono reprimiu sua ideia. Como era linda!
Aproximou sem fazer barulho e acariciou com a face da mão, o rosto macio de Maria. Ela era tão delicada, tão forte ao mesmo tempo...
Estevão dedicou-se ao passatempo de estudá-la. Parecia que sonhava com algo bom, pois um sorriso de leve se fixava em seu rosto, deixando Estevão fascinado.
– Como é bonita! — sibilou enquanto repousava os labios na testa de sua amada. Retirou o paletó, a gravata, desabotoou a camisa, desfez-se dos sapatos e se juntou a ela para velar seu sono. Envolveu-a nos braços e, sentindo-se cansado, também adormeceu...
*********
Alba saía da igreja quando o padre Lopes lhe deteve.
– Alba, espere! — bradou enquanto descia com dificuldade as escadas da paróquia.
– Sim, padre? — voltando-se para ele.
– Sobre o que me contou em segredo de confissão... Preciso saber se há arrependimento de sua parte.
– E porque precisa saber disso?
– Porque conheço os segredos dessa família e você sabe disso. — referindo-se ao passado de Alba e Estevão. — Admiro a você e a Estevão, grande homem. Me preocupo com o bem-estar de ambos.
– Estamos bem, padre...na medida do possível.
– Então se arrepende do seu erro?
– Não, padre... — respondeu, conicta. — O único arrependimento que tenho foi de haver abandonado meu filho, de resto, nada me importa. — respondeu seca, entrando no carro e dando ordens para que Arnaldo a levasse de volta à mansão.
Chegou em casa e subiu ao quarto. Sentou pesadamente sobre uma poltrona e se pôs a meditar. Alguém bateu na porta e ela mandou que entrasse. Era Rebeca.
– Senhora, deseja alguma coisa? — Sim, Rebeca...meus filhos de volta... — contestou, distante.
– Perdão...não entendi.
– Não...não é nada. — respondeu, não sentia-se disposta para começar o assunto.
– Hoje de manhã vim limpar seu quarto e tinha marcas de lama no carpete. A senhora saiu? Eu não vi.
– Nâo saí — respondeu, nervosa. — Deve ter sido Estevão hoje de manhã quando veio me buscar para o café.
– Sim, senhora... Se precisar de alguma coisa, estarei à disposição.
– Muito obrigada, Rebeca. Pode ir, agora...
********
Já estava escuro quando Maria acordou. Sentiu algo prendendo-lhe na cama e se assustou. Sentou-se apavorada, despertando Estevão que, prontamente, lhe tranquilizou.
– Não tenha medo, sou eu!
Depois de horas sem ouvir aquela voz, Maria sentiu-se confortada. Abraçou-o forte querendo senti-lo perto de si, protegendo-a.
– Que bom que está aqui. — sussurrou, com a cabeça repousando no largo ombro de Estevão.
– O que fizeram com você, meu amor?
– Tentaram de matar, Estevão. Tentaram me matar... — agitando-se de novo.
– Shhh, fique calma. Ninguém irá te fazer mal. Prometo. — era uma promessa falsa pois, futuramente, tinha certeza de que seria a primeira pessoa a machucá-la.
– Eu amo você! — sussurrou fraca, sentindo medo de estar admitindo seus sentimentos.
Estevão já previa isso, mas a confissão inesperada acabou desesperando ainda mais seu coração. Relutante, segurou de forma delicada o queixo de Maria e direcionou seu olhar ao dela.
– Desculpa, Maria. — disse ele, amargurado.
– Pelo que se desculpa?
– Por você não ter seguido seus sonhos.
– Não entendi. — respondeu, confusa.
– Um dia você saberá... Mas se eu pudesse voltar no tempo e prever tudo isso, eu jamais teria falhado com você. Aconteça o que for, saiba que também te amo...muito.
– Mas do que você está falan...
Não concluiu a frase. Estevão pressionou duramente seus labios nos dela, fazendo-a calar. Ao terminarem o beijo, Maria sentia uma leve dormencia na boca.
– O que foi isso? — perguntou sem fôlego, enquanto levava a mão aos labios inchados. — Hum...saudades... Voltaram a se beijar. Estevão a deitou de novo e recomeçou as carícias, mas quando estava tirando a blusa de Maria, Vivian abria abruptamente a porta.
– Oh meu Deus, desculpa! — levando a mão à boca, desconcertada. Maria afastou Estevão rapidamente e ajeitou a blusa.
– Não... Não é o que pensa. — sem jeito.
– Anda, vamos. Não parem por minha causa. Podem continuar. — fechou a porta. Uma gargalhada foi ouvida do lado de fora do quarto.
– Vamos seguir o conselho dela e...
– Vamos para a cozinha. — cortou Maria. Levantando-se e calçando a sandália.
– Mas eu pensei que poderíamos...
– Pensou errado. Não vou fazer nada com Vivian aqui. Anda, te espero lá fora. Se quiser pode tomar um banho de agua fria. — E saiu, rindo. Estevão seguiu o conselho de Maria e tomou uma ducha fria para aliviar a tensão que sentia. Seu membro estava dolorido, precisava aliviar-se mas Maria se portou com uma egoísta.
Ao sair do quarto, encontrou Maria e Vivian sentadas na mesa da cozinha, conversando.
– Posso me juntar a vocês? — com um sorriso largo expondo os dentes brancos.
A visão de Estevão com seus cabelos molhados e despenteados, a camisa aberta revelando o peito e um sorriso peculiar intimidaram Maria. Instintivamente, ela virou o rosto para Vivian, que o olhava, impressionada.
– Claro, meu amor. Sente-se aqui do meu lado. — puxando uma cadeira para ele. Esse "claro meu amor" era uma indireta para a amiga, que, desconcertada com o "simancol" ajeitou-se na cadeira e manteve o olhar firme sobre o jarrinho de flor que enfeitava a mesa. Estevão percebeu o real motivo daquelas palavras nas entrelinhas, e um brilho de satisfação faiscou nos seus olhos sedutores.
Não era culpa de Vivian se Estevão era irresistível, mas sabia que a amiga tinha um fraco irremediável por homens bonitos.
– Sobre o que conversavam? — quis saber Estevão, servindo-se de café.
– Sobre moda... Maria e eu gostamos de trocar sugestões e críticas sobre o tema. Falávamos sobre o último desfile da Calvin Klain.
– Parece...interessante. — disse Estevão, sincero.
– Mas vamos mudar de assunto que isso é coisa de mulher. — sorrindo.- Esqueci de lhe dizer, Maria... Seu noivo esteve aqui...digo, ex- noivo... — sentindo-se idiota pelo erro de palavras.
– O que ele veio fazer aqui? Procurei Geraldo na empresa e me disseram que estaria muito ocupado... — Claro, Geraldo estava mentindo.
– Ele disse que precisava falar com Maria, que haviam dito para ele que ela regressou. — A que horas foi isso? — quis saber Maria.
– Lá pelas cinco e meia da tarde...
– Maria... — disse Estevão, desconfiado.
– Diga.
– Que horas você sofreu o atentado?
– Bom... antes de sair da delegacia eu verifiquei meu relógio e ele indicava sete horas. — E porque saiu tão cedo se seu turno termina pelas dez e meia?
– Eu...eu fui me encontrar com Geraldo. Estava aflita e me sentindo culpada por ocultar que estamos juntos.
Estevão passou a mão no cabelo, nervoso.
– Eu não havia dito que resolveria isso?
– Ah e você resolveu? — sarcástica.
Ele ficou calado.
– Hum... Vou...vou procurar uns biscoitos no armário. — falou Vivian, que não queria estar no meio da primeira discussão do casal.
– Será que foi ele que tentou...você sabe... — ele não conseguia terminar a frase. A simples ideia de que havia alguém perseguindo sua amada o machucava. Por mais que aparentasse que a situação estava no controle, ele também estava preocupado.
– Não, ele me ama. Não faria isso comigo. Mas prometo ser mais cautelosa da próxima vez.
– Eu não quero te perder. — murmurou enquanto acariciava uma das mãs de Maria com seu nariz.
– Isso nunca vai acontecer... — retrucou, tentando confortá-lo.
– Não estou tão certo disso.
– Por que diz isso? Acaso duvida do meu amor por você? — com uma ponta de mágoa na voz.
– Sei que você me ama de verdade. Mas tenho medo de que não acredite no meu amor por você.
– Mas é claro que acredito, seu bobo. — puxando-o para um beijo. — Acredito muito em você...
– A pergunta não é o quanto você acredita, mas... Até quando você vai acreditar...
*******
– Gatinho atende a porta pra mim, estou terminando o banho. — gritou Fabiola, do banheiro.
Carlos se levantou da cama sem ânimo. Vestiu a calça e passou a mão no cabelo, tentando colocá-lo em ordem.
A campainha soou novamente.
Abriu a porta e se deparou com alguém que não esperava.
– Você? — indagou, olhando a mulher de cima abaixo, com repulsa.
– Gatinho, quem cheg...- perguntou Fabiola, enrolada no roupão. Interrompeu-se quando olhou na direção da porta e viu uma figura feminina parada, com o olhar assustado.
– Droga! — sussurrou. Havia esquecido de Elisa!
Continua...
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