O Retorno De Um Estranho
22 Semeando A Dúvida
Notas iniciais
Capitulo anterior:
– Pelo dinheiro é claro. — sorrindo.
– Uma pena que não ficará com ele. — retrucou Morgana, com uma luz diferente na face. Ela sabia de algo que fora ocultado de Fabiola.
– O que você sabe, sua velha? — perguntou Fabiola trincando os dentes.
– O que você saberá no dia da leitura do testamento: Não é a primeira listada na herança.
– O que quer dizer? Responda! — gritando.
– Francisco tinha uma filha antes de te conhecer. A procurava em segredo, mas a mãe a tinha levado para longe, não a encontrou. Agora depois de sua morte, a busca será feita pela justiça e torço para que a encontrem.
– Qual o nome dela?
– Não vou dizer!
– Ah não? — procurando uma tesoura na gaveta e apertando o pescoço de Morgana com ela.
– Me diga, maldita. Qual o nome dela?
A velha estava ficando sem ar. Fabiola sabia que se ela morresse, a morte delane a de Francisco seriam tomadas como criminosas e ela, seria a principal suspeita.
Separou-se da empregada, mas ainda apontava a tesoura afiada em sua direção.
– Agora me diga: Qual o nome dela?
Morgana tossiu e segurou o pescoço, que estava dolorido e a impedia de respirar regularmente.
– Ela se chama Elisa... — com dificuldade. — Elisa Contreras.
Fabiola andou de um lado a outro no quarto, pensativa. A príncipio passou pela sua cabeça que se matasse Morgana, ela não a denunciaria, mas que provas teria a velha contra ela?
– Saia daqui e vá pra bem longe! — vociferou Fabiola. — Nem um piu sobre o que você me viu falando, porque eu juro que se eu me der mal, eu te levo para o inferno junto comigo!
Morgana arregalou os olhos diante da ameaça e saiu correndo, na velocidade em que seus 65 anos lhe permitia. Nunca mais Fabiola soube de seu paradeiro.
Mas agora vinha a parte mais difícil: onde encontraria a pirralha? A leitura do testamento seria dali a um mês, então precisava agir rápido. Pensou em diversos lugares onde a menina poderia estar.
– Claro! — estalando os dedos. — o mais provável é que tenham ido para o interior, lugar pequeno, poucos habitantes, levando uma vida simples.
A sua suposicão foi confirmada quando,
depois de inumeras tentativas, conseguiu o nome dos matriculados em cada escola da cidadezinha mais próxima. Seu trabalho foi produtivo e lhe possibilitou o nome de três pessoas chamadas Elisa Contreras.
Não esperando mais, viajou para a cidade e indagava
desinteressadamente aos vizinhos, no endereço obtido, informações que lhe ajudassem a descobrir qual das garotas era a que procurava.
Na segunda tentativa, ela conseguiu. Uma vizinha bisbilhoteira disse que a mãe e a garota haviam se mudado há cinco anos, e desde que chegaram ali não conversaram com ninguém.
– Estranho, não? — indagou Amélia, a vizinha.
– Não, não acho. — dando uma de distinta. — Mas não é a que procuro. Elisa é maior de idade, e não uma adolescente. — mentiu.
Fabíola arquitetou tudo. Mataria mãe e filha, assim não correria riscos de dividir a herança com alguém, mas ela não queria sujar as mãos no assassinato, por isso, pediu que um "amigo" a ajudasse na missão.
Charles, como era chamado, apareceu na cidade dois dias após ser convocado. Encontrando-se a sós com Fabíola para que ninguém desconfiasse que possuíam uma ligação.
– Já te expliquei por telefone o que precisa fazer, não é mesmo?- recebendo-o aos beijos no seu quarto de hotel.
– Claro que sim. Deixe tudo por minha conta!
No dia seguinte, Fabiola saiu muito cedo do hotel, quatro horas depois Charles seguia seus rastros, encontrando-se com ela no local combinado.
– É nessa casa? — perguntou, sentando-se em um banco numa pracinha abandonada, em frente a uma casa verde desbotada.
– Essa mesma. A noite você faz o serviço. Lembre-se que será muito bem recompensado!
– Sei disso...- passando a mão pela coxa exposta de Fabiola.
Tudo fora minimamente cronometrado. Fabiola já observava há uma semana a rotina das duas mulheres que moravam sozinhas numa casa pequena. De manhã, a garota saía para a escola e retornava sozinha, por volta de meio-dia; sua mãe trabalhava à tarde e a deixava só na casa até 10:30 da noite.
Era sempre a mesma coisa, levavam uma vida pacata e sem problemas. Parecia que não tinham amigos e isso era bom, para Fabiola, claro.
Já a noite, na pequena casa só se via uma luz tênue que emanava de uma das janelas entreabertas na casa, cercada por arame farpado. Charles, um matador de aluguel, preparou seu revólver e já ia pulando o muro da casa, quando Fabiola o deteve.
– Se abaixa! Aí está vindo a mãe dela! — correram para a pracinha que ficava em frente a casa e tentaram disfarçar o nervosismo, passando-se como um casal de namoradinhos. Por sorte, a mãe de Elisa nada percebeu. Entrou na casa e Fabiola saiu para a luz que saía do poste de iluminação, xingando.
– Merda! — bradou, cerrando os punhos. Eram 9:45 da noite, como ela poderia estar em casa a essa hora?
– E agora o que faremos? — perguntou Charles, nem um pouco aflito. Sua "profissão" exigia-lhe frieza. — Tenho que voltar amanhã pra minha cidade, fazer um trabalhodinho a um candidato a vereador, não terei uma data disponivel para voltar.
– Não posso voltar depois. Estranharão minha viagem repentina. Façamos o trabalho hoje de madrugada...
2:00 da manhã, silêncio total, a não ser por dois gatos que miavam encima de um muro de tijolos, próximo a casa de Elisa. Fabiola os afastou com uma pedra. Odiava animais.
– Não faça barulho- — repreendeu Charles.
Com a habilidade de um bandido, abriu o cadeado do portão com dois pedaços de ferro.
– Melhor voltar para o hotel. — alertou Charles. Não é bom que fique aqui. Quando acabar o 'serviço' te procuro.
– Nada disso. Quero me certificar que elas não me atrapalharam. Andei rodeando a casa e percebi que lá no fundo tem uma porta que dá acesso a um terreno baldio. Fugiremos por lá.
– Está bem. Vamos.
Abriram a porta da casa com o mesmo método que abriram o cadeado. Andaram vagarosamente pela sala. Ao darem a curva para a cozinha, se depararam com alguém de costas, bebendo um copo d'água. Era a hora, se não a matassem enquanto não os via, ela provavelmente veriam seus rostos e revelaria a identidade de ambos.
Charles segurou firmemente o revólver e mirou. Foi certeiro. A mulher caiu pesadamente no chão, agonizando. Charles riu do sofrimento da mulher e já ia atirar outra vez, mas Fabíola advertiu que rapidamente seguisse para o quarto da garota.
Charles abaixou-se ao cadáver e colocou o revólver no chão, não antes de firmar as impressões da defunta no objeto do crime.
– Que diabos está fazenoo? — ingdagou num sussurro.
– Calma, amor. Tenho outra arma. Vamos dizer que ela matou a menina e depois se matou.
Mas antesque. Dessem um passo para o quarto, uma luz foi acesa no fim do corredor. Rapidamente se esconderam no banheiro.
A menina estava dormindo tranquilamente, mas o som do tiro a fez acordar, aturdida.
Ligou a luz do quarto e seguiu, tremendo de medo, para ver o que tinha acontecido. Ao ver a silhueta de sua mãe caída e imóvel, gritou desesperadamente por socorro.
– Mamãe, mamãe! — gritava a menina remexendo o corpo de sua mãe, que não reagia.
– Não, mãe. Volte pra mim!
Charles preparou a outra arma para atirar em Elisa, que estava ajoelhada. Fabiola, que ouviu sons no ambiente externo, rapidamente o puxou para que juntos, pulassem uma janela de vidro que ficava na lateral da casa.
Elisa ouviu os passos dos assassinos e correu para atacá-los, mas já haviam saído em disparada.
Fabiola feriu-se com um pedaço de vidro e saiu mancando, até os fundos da casa, em direção ao terreno baldio...
***Tempo atual
Estevão discava o número de telefone de Vivian.
– Alô? — respondeu, com voz sonolenta.
– Olá, Vivian. Sou eu, Estevão.
– Ah, sim. Como vai?
– Muito bem e você?
– Também... algum problema?
– Não...bom, sim. Preciso que me ajude em algo.
– Relacionado a Maria?
– Exatamente!
– O que quiser de mim, pode dizer que farei.
– Otimo. Tenho alguns planos para amanhã. — com um sorriso no rosto, imaginado se o que estava planejando daria certo.
Maria chegou na delegacia, receosa. Desde o atentado, podia jurar que estava sendo observada. Balançou a cabeça, esse pensamento poderia virar uma obsessão e não queria isso para si, logo agora que sua vida ia tão bem.
Entrou em seu gabinete com ar enfadonho. Era a primeira vez em anos que não estava feliz por ir trabalhar, ainda mais depois de ter feito amor na cozinha, uma experiência incrível e que queria que se repetisse.
Enquanto mergulhava nos pensamentos eróticos, notou um pedaço de papel colado no sua agenda de compromissos.
Acima da mesa havia uma nota. Nela continha um endereço e um pedido assinado por Geraldo. Dizia que estava magoado pela falta de explicação dela e que queria conversar, para esclarecer as coisas. Maria a principio, ficou em dúvida. Seu bom-senso lhe dizia que não era uma boa ideia, que deveria dizer a Estevão sobre a nota e lhe pediria um conselho, mas por outro, seu remorso lhe dizia que Geraldo estava certo e que pelo menos, deveria a ele satisfacões.
Até o fim do turno, ela decidiria se compareceria ou não.
Carlos chegou da faculdade, de mal humor. Ainda não tinha esquecido o assunto do casamento de Estevão com alguém desconhecido.
Encontrou o primo em seu lugar de descanso na casa, fumando um charuto e lendo um livro de suspense.
– Posso entrar? — disse ele, tirando Estevão de sua concentração.
– claro, Carlos. Já imagino o que quer falar...
– aminha mãe falou com você, não é? — Estevão balançou a cabeça positivamente.
– Vem aqui. — depositou o livro sobre uma pequena mesa e convidou o primo para sentar.
– Eu quero a verdade, Estevão.
Estevão suspirou. Passou a mão pelo cabelo e se dirigiu ao bar para se servir de conhaque.
Voltando ao assento, caiu pesadamente sobre a cadeira e tragou o charuto, preparando-se para falar...
2 anos atrás...
Os vizinhos correram à casa de Elisa e encontraram, pasmos, a menina envolvendo o corpo ferido da mãe. Melissa era o seu nome.
Amélia dispôs-se do telefone da casa e chamou a polícia. A ambulância chegou ao mesmo tempo que a viatura, mas nada puderam fazer. Ela já estava morta.
A polícia tomou notas sobre o caso e o depoimento da menina.
Cinco horas depois, Fabíola aparecia,trajada de roupa de malhação. Fingia que fazia caminhada pelo lugar e surpreendeu-se ao ver uma multidão na porta da casa. Em cidades pequenas ocorridos como esses eram motivo de falatório e curiosidade.
Entrou na casa para ver se conseguia informações sobre o caso e encontrou Elisa de preto, chorando copiosamente ao lado do caixão.
Aproximou-se da garota.
– Ei, não fique triste, ela deve estar num lugar melhor. — apertando o braço da garota carinhosamente.
Elisa não reagia, só sabia chorar. Agora estava órfã e não tinha nenhum parente próximo que pudesse ampará-la.
Fabiola olhou para o lado e viu Amélia servindo café aos presentes. Afastou-se de Elisa e se uniu ao pequeno grupo que cochichava sobre o ocorrido.
– Você aqui? — indagou Amélia, surpresa.
– Passava por aqui e percebi a multidão. Pobre mulher. — lamentou-se, falsa.
– Nem me diga...- intrometeu-se um. — Quem terá cometido uma atrocidade dessas? Desde que vinheram morar aqui jamais tiveram problemas.
– Estão dizendo que foi suicídio. — disse uma mulher magra, cabelos crespos e aparência pálida.
– Não, nada disso. Elisa disse para a polícia que alguém esteve aqui.
– Alguém? — Fabiola empalideceu.
Sua perna começou a latejar e ela apoiou a mão no ferimento.
– Se sente bem? — Perguntou Amélia.
– Sim, apenas caí ontem e causei um ferimento, mas já vai passar a dor. Mas então...- recompondo-se. — Será que ela viu quem era?
– Não, não viu. Mas eram duas pessoas.
– Será que não foi coisa da imaginação dela? Porque imagino que se tem a hipótese de suicídio, não devia ter sido alguém que a matou.
– Aí é que está a coisa. — respondeu Amélia, já dentro do assunto, pois fora ela quem contatou os policiais e quem recebia notificações acerca so caso. — A janela de vidro foi quebrada, deu-se para ouvir o som dos cacos caindo quando corríamos para cá. — se referindo a ela e aos vizinhos.
– E o que será da garota? — perguntou Fabíola.
– Não se sabe. Ainda é menor de idade e sem parentes próximos, temo que vá para a adoção.
Fabíola tornou a olhar o semblante triste e fatigado de Elisa e se compadeceu. Sua ambição levara a destruir uma família. Ainda que tivesse se sentido culpada, prontamente lhe surgiu outra ideia: Sumiria com Elisa. Levaria-a para a capital depois que recebesse a herança e cuidaria dela por um tempo, até pensar no que faria. Quem sabe assim se redimia do que fez.
Passado alguns dias regressou à sua cidade. Já havia falado com o juiz da vara e da juventude e este, não se sabe como, lhe concedeu a guarda de Elisa. Ela preferia passar a viver com uma desconhecida a ser presa em um orfanato, sem ninguém.
Depois que Fabiola, triunfante, recebeu todos os bens de Francisco, pois não encontraram a Elisa no tempo predestinado, foi-se com ela para a Cidade do México e nunca mais voltou.
******
Tempo atual
Elisa já havia tirado da cabeça a ideia de voltar para sua cidade. Fabiola recomendou que saísse para fazer compras, quem sabe assim espairecia a cabeça e reorganizava as ideias. Sozinha no apartamento, começou cultuar o retrato amassado de Estevão, entoando palavras ternas e derramando lágrimas de um amor não-correspondido. Fazia muito que não o via. Precisava ouvir sua voz, estar com ele, nem que fosse por míseros minutos.
Pegou o telefone, enxugou as lágrimas e ligou para a mansão San Romãn.
********
– Bom, é isso. — terminou Estevão, erguendo-se da poltrona. Claro que ele e a tia combinaram o que teriam que falar, de modo que apenas repetiu o diálogo que haviam tido horas atrás .
– E porque não havia me dito antes?
Estevão o fitou com um olhar triste, tragando o último gole de conhaque que havia no copo, respondeu, laconicamente:
– Porque ainda me dói. — sincero. Por mais que tivesse cometido o crime há vinte anos atrás, parecia que tinha sido há minutos que flagrou sua esposa nos braços de outro.
– Estou contigo, mano. — retrucou Carlos, que havia se levantado também e se juntou à Estevão, apoiando uma mão em seu ombro.
– Obrigado, Carlos. — "se ele soubesse de toda a verdade..." pensou Estevão, pesaroso.
Abraçaram-se, até que o som do telefone no cômodo os separou.
Estevão atendeu.
– Alô?
Fabiola estremeceu do outro lado da linha. Há muito não ouvia aquela voz tão atraente.
– Alô? — repetiu Estevão.
– Ah...oi. Er...Estevão? — gaguejando.
– Sim, eu mesmo.
– Sou...Fabíola.
– Ah, sim. A namorada de Carlos. Como vai?
– Bem e...e você?
– Estou bem também. Ele está aqui ao meu lado, passarei pra ele. Tenha uma boa noite.
– Você também.
Estevão passou o telefone.
– Toma, Carlos. Aproveita e diga pra minha tia que irei sair.
– E vai para onde, Dom Juan? — indagou Carlos, sorrindo.
– Vou me encontrar com o amor de minha vida! — saiu mandando um beijo e deixou Carlos a sós.
Era sorte que Fabiola estava longe dali. Pôde ouvir as ultimas palavras de Estevão e seu ódio por Maria aumentou ainda mais.
Sua ligação foi apenas um pretexto para falar com Estevão, de modo que conversou anedotas com Carlos e depois desligou o telefone.
– Maldita, mil vezes maldita! — gritou, jogando o telefone na parede.
Seus olhos azuis faiscavam de ira.
– Estevão é meu, só meu! — desarrumando o cabelo, histérica, quebrando tudo quanto fosse vidro que via pela frente.
*******
Enquanto isso, Maria chegava ao lugar onde Geraldo havia marcado encontro.
Estacionou o carro em frente a uma oficina mecânica fechada. Alguns passos adiante e pôde notar a silhueta alta de Geraldo. Parecia que tinha emagrecido alguns quilos desde a última vez que o viu.
Chamou pelo nome dele e, de costas, podia ver as feições de um sorriso em seu rosto.
Ele virou devagar. Ao vê-la depois de dias, seu coração estremeceu.
Seu impulso era correr para beijá-la, mas conteve-se. Esperaria um momento propício para fazê-lo.
– Oi, Maria.
"Meu Deus, como está linda!" pensou, com desejo. Maria nada mais vestia além de sua roupa de trabalho, coisa que ela há muito já havia visto.
Maria não sabia o que dizer. Na hora teve vontade de sair dali e voltar para casa, mas já que estava cara a cara com Geraldo, precisava esclarecer as coisas.
– Bom...sobre o que quer conversar?
– Que tal começarmos pela parte em que você me trocou pelo meu melhor amigo? — retrucou, rancoroso.
Aquelas palavras gelaram Maria. Então ele já sabia de seu relacionamento com Estevão...
– Não estava com ele enquanto mentíamos o noivado. Não te traí. — na verdade era mentira. Desde o seu primeiro beijo com Estevão estava enganando-o, mas não foi por intenção, jamais faria isso se fosse para magoá-lo ou brincar com seus sentimentos.
– Ah, Maria. Poupe-me de suas mentiras! — bradou em tom acusador. — A pergunta é: O que ele tem que eu não tenho? Eu poderia ter te dado o céu se você pedisse, poderia tedado as melhores mansões, melhores carros, uma vida de luxo...
– Mas você não poderia me forçar a te amar.
A verdade passou como aos ouvidos de Geraldo, que cerrou os punhos, magoado e furioso.
– Dormiu com ele?
– O quê? — indagou, já totalmente arrependida de estar ali.
Percebeu onde estava. Na rua inabitada, apenas um poste de luz falhando os iluminava. Não havia sombra de dúvida alguma que ali fora um lugar cuidadosamente selecionado. O que será que Geraldo tinha em mente?
********
Estevão entrava no gabinete de Maria. Ela não estava.
"Estranho" pensou. Ela não havia informado para ninguém que saíra, ainda mais deixando os pertences no local.
Estevão aproximou- se da mesa de trabalho de Maria e segurou relutante, um porta-retrato no qual Maria e Patrícia faziam pose.
Sorriu. Estava fazendo um papel ridículo na vida de Maria. Mas por mais que quisesse deixá-la em paz, não conseguia. A amava e pela primeira vez, sentia que seu sentimento era retribuído.
Enquanto vagava em pensamentos, seus olhos se dirigiram a um pequeno papel na mesa. Leu o que estava escrito e arregalou os olhos, assustado.
Saiu da delegacia correndo, dando a ré no carro e partindo em alta velocidade ao endereço deixado por Geraldo.
********
– Responda! — disse Geraldo, ríspido.
– Isso não é da sua conta!
– Então... Então é verdade. No dia do nosso casamento você se encontrou com ele na cabana.
– Como sabe que estive com ele?
– Eu vi seu véu de noiva caído no chão da cabana... Sim, eu estive lá! — advinhando o que se passava pela cabeça de Maria.
– A única coisa que eu fiz foi te amar... E veja o que você me fez! Cada palavra era dita com dor, rancor, ódio. Doía não só o fato de ser abandonado no altar, mas a traição por parte de Estevão a quem via como irmão.
Maria estava muito assustada. Queria sair correndo, mas o olhar duro e frio de Geraldo a imobilizavam.
– Não queríamos te machucar...simplesmente aconteceu.
– As coisas não acontecem simplesmente. Foram se envolvendo embaixo de meu nariz. — começando a se aproximar dela.
– Geraldo eu...eu sinto muito. — com voz embargada pela emoção. Não era o Geraldo que conhecia.
– Shhh não fale nada. — próximo a ela. Maria podia ver o desejo estampado nos olhos de Geraldo.
– Melhor eu ir para minha casa. Não deveria ter vindo. — recuando.
– Ah, não. Você não vai! — segurou-a pelos punhos e a levou a um beco.
– Me largue! — Gritou Maria, impotente. Por mais esforços que fizesse não conseguia se soltar.
Geraldo riu, achando graça.
– Acha que eu te chamaria aqui sem saber como te imobilizar?
Maria o olhava com pavor.
– Não tenha medo, amor. Só vou cobrar o que me deve nos meses que ficamos juntos.
Começou a beijar o pescoço dela e a pressionava na parede fria de tijolos, machucando-a.
– Isso, resista! — disse ele, mais excitado pelo medo dela e pelas tentativas fracassadas de se desvencilhar dele.
Segurou os dois punhos dela com uma única mão e começou a acariciar seu corpo, enojando-a.
– Não sabe o quanto eu queria te tocar...
Maria aproveitou a oportunidade que teve quando ele largou um de seus braços , soltando-se do aperto forte de Geraldo lhe desferiu um soco no rosto.
Saiu correndo, mas uma poça de água a fez escorregar.
Geraldo a levantou do chão e voltou a levá-la para o beco, mas antes que tirasse sua roupa, ouviu o som de um carro freando ruidosamente.
Estevão saiu do veículo, vermelho de ódio. Tinha visto o desenrolar da cena pelo automóvel e irou-se pelo ato desumano que Geraldo tentava fazer.
– Estevão! — gritou Maria, aliviada por vê-lo.
Estevão por sua vez puxou Geraldo pelo colarinho e o levou para longe de Maria.
Os dois travaram uma luta acirrada. Estevão conseguiu derrubar Geraldo no chão e desferiu-lhe muitos golpes, mas Maria, vendo que Geraldo estava muito machucado e quase perdendo os sentidos , fez com que Estevão parasse.
– Já chega, Estevão. — segurando seu punho.
Geraldo gargalhou e apoiou a mão no estômago, que doía devido as pancadas.
– Ah, pobre Maria...- Continuou rindo, enquanto Estevão o fitava, com nojo. Estupro a uma mulher era o ato que mais repudiava. Geraldo ergueu-se um pouco e começou a falar, com dificuldade:
– Não vai demorar para que ela volte para mim, Estevão.
– Cale a boca, seu...
– Vamos embora, Estevão. — advertiu Maria. Do modo como Estevão estava alterado era capaz de matar a Geraldo, e como policial, Maria deveria encontrar a maneira mais viável para contornar a situação.
– Não volte a tocar um dedo nela! — disse Estevão em tom ameaçador.
– Pobre Maria... — repetiu Geraldo, sorrindo de novo.
– O que você quer dizer com isso? — perguntou Maria, intrigada.
– Eu jamais menti pra você sobre quem eu sou...
– Vamos, Maria. Deixe-o sozinho, ele não merece sua atenção.
– Me explique o que isso significa. — Se tinha uma coisa que caracterizava Maria era a curiosidade.
– Nunca te passou pela cabeça...se Estevão é, de verdade, o que parece ser?
Continua...
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