O Retorno De Um Estranho
7 Quando Renunciamos Por Amor
Notas iniciais
Capítulo anterior: – Ela não é uma qualquer, se respeita. É daquelas mulheres que gostam de flores, serenata... Agora raciocina comigo, Estevão.
– Ainda não entendi aonde quer chegar.
– Caramba! Tô querendo dizer que ela é virgem!
Acha mesmo que é possível? — pergunta Estevão, aturdido.
– Claro que sim. Mas isso é bom, pois significa que Maria será só minha.
Estevão nada disse, mas sentiu uma pontada de tristeza. Era certo: estava destinado a viver sozinho. Maria nunca seria dele.
– Porque ficou mudo?
– Sua conclusão me pegou de surpresa.
– Bom, já que estou aqui, eu quero te pedir algo.
– O que?
– Meu pai já está velho e não consegue manter-se em pé por mais de um minuto. Ao longo desses anos, eu lhe tenho como um irmão. Leonel será meu padrinho de casamento, então não poderá me fazer isso.
– O que quer que eu faça?
– Que me entregue Maria no altar!
Aquele pedido abalara ainda mais o coração do pobre Estevão. Além de perder a quem nunca teve, era agora a opção para entregar a mulher que o cativara, para o melhor amigo. Poderia ficar pior?
– Desculpe-me, mas não posso.
– E porque não? — decepciona-se Geraldo.
– Próximo da data de seu casamento eu já havia planejado uma pequena viagem para a casa de campo.
– E não poderia adiar?
– Infelizmente não. Ando com alguns problemas, e precisava de um tempo sozinho para pensar.
– Algo que eu possa ajudar?
– Não, meu amigo. Ninguém pode me ajudar.
– O que você tem, Estevão? Qual o seu problema?
– Uma mulher.
– Ah, sabia que você um dia você encontraria alguém. eu a conheço?
– Não. — mentiu.
– Ela não te quer, é isso?
– Ela tem namorado.
– Caramba!
– Se você estivesse em meu lugar, o que faria?
– É uma situação delicada. — disse Geraldo. — mas se realmente ela me agradasse não custaria nada tentar algo com ela.
– E o namorado dela?
– Isso é o de menos.
– Não, ao contrário. Ele é uma figura importante na história!
– Pense em você, não nele. É a sua felicidade que está em jogo, e se a mulher que você gosta ficar com você, é porque nunca amou o namorado.
– Acha mesmo?
– Claro que sim. Vai doer para o namorado no começo, mas com o tempo, ele vai conseguir se reerguer.
Será mesmo? Disse Estevão para si, mas não desistindo de sua viagem, pois seu destino agora, não estava prescrito por ele, senão por Maria...
Alba havia chegado do leilão exauta, mas contente por ter gasto alguns milhões para ajudar crianças abandonadas. Seu peito se aperta ao lembrar-se do menininho que deixou para trás, fugindo com seu amante para outra cidade. Quando retornou, sozinha porque, da mesma forma que havia abandonado ao marido, foi abandonada por outra mulher, dez anos mais jovem, e agora estava com outra criança no colo, mas não o abandonaria como o fez ao filho primogênito.
Rebeca, a fiel empregada e amigs, entrou no quarto da senhora a quem servia e lhe ofereceu seus serviços.
– Obrigado Rebeca, mas não preciso de nada.
– Sendo assim me retiro. Com licença...
– Rebeca espere! — detém a governanta, que já alcançara a porta e retornara para ouvir o que Alba tinha a dizer.
– Pois não?
– É que eu me lembrei que daqui a três semanas é o aniversário de meu pequeno.
–Sim, eu me lembrei hoje de manhã.
– Hoje, ao ver aquelas crianças sem uma família, me doeu muito. Me lembrei de quando... — não conseguia terminar a frase. As palavras arranhavam-lhe a garganta.
– Compreendo, senhora. Seu marido a apagou da vida de seu filho, mas você nunca o esqueceu.
– Eu estava cega de amor por aquele canalha. Me fez escolher entre meu filho e ele, e acabei optando por ele ao meu próprio sangue. Ele não gostava de crianças. Irritava-se quando pedia-lhe para que me levasse a um telefone público para ligar para meu filho, e quando descobriu minha gravidez, abandonou-me a própria sorte. Eu pude passar pelo amargo da solidão que meu filho e meu ex- marido passaram.
– Mas pense pelo lado bom senhora. Pôde re-encontrar-se com ele, vive com ele. Estevão cresceu e se tornou um homem responsável, de bem.
– Se eu tivesse ao lado dele desde o começo, eu teria evitado que ele cometesse aquele erro, esse erro que sempre o perturba, mas como já lhe disse antes, não o posso contar...
>— 45 anos atrás...
– O que ainda faz aqui? — um homem grita quando vê uma mulher se aproximando do filho.
– Estou me despedindo de Estevão, Severiano.
– Não precisava se despedir de seu filho, se tivesse amor suficiente por ele.
– Não diga isso, eu o amo!
– Chama isso de amor? Escolher um macho ao invés de seu próprio filho?
– Eu não posso levá-lo comigo.
– E eu tampouco deixaria. Estevão só sairá do meu lado depois de minha morte!
– Você é tão frio... Como eu pude me casar com você?
– Eu te amava! Amava a vida que levávamos juntos. Foi de tanto te amar que sempre pensei com o coração, agora estou atuando com a cabeça! A partir de hoje para mim e para seu filho, você morre aqui!
– Meu filho nunca se esquecerá de mim!
– Ele é pequeno, vai conseguir. Vou fazer o que eu puder pra isso. Agora saia desta casa e não volte nunca mais!
– Adeus meu pequeno... — e com o último beijo na face do garotinho assustado, vira-se para a porta e respira fundo, ao sair da casa.
Um automóvel estacionado a espera de Alba é ligado pelo motorista, um homem na faixa dos 25 anos, muito bonito. O carro anda em movimento, e Alba, ainda aos vinte e um anos de idade, acreditara que encontrara o verdadeiro amor, mas uma parte de sua alma estaria destroçada para sempre, todas os dias em que olhasse para a corrente que trazia no pescoço com a foto do filho, assim como fazia naquele momento.
– Porque não diz a verdade, senhora?
– Como? Se o pai havia dito que eu estava morta e colocou um quadro com a pintura de uma desconhecida me representando? Para Estevâo, eu estou morta. Àquela mulher do quadro é a sua mãe, não eu.
– Mas você tentou contato com ele...
– Sim. Eu ligava para ele dizendo que era uma tia, mas Severiano, desconfiado das ligações, deve ter trocado o número do telefone, pois nunca mais consegui ligar.
– E as cartas?
– Ele sempre olhava a caixa de correio para pegar as contas, aposto que as interceptou.
– Se ainda continuar alimentando a mentira feita por Severiano, como irá revelar um dia toda a verdade?
– Não pretendo contar a verdade nunca.
– E até quando pretende esconder isso de Estevão?
– Esconder o que de mim, Rebeca? — Estevão passava pelo quarto para saudar a tia, e como a porta estava entreaberta, ouviu as últimas palavras da governanta.
As duas senhoras se entreolharam. Alba, como conseguira grande experiência ao longo dos anos, foi mais rápida e o fespondeu de forma natural:
– Se eu tivesse que te contar, não manteria isso em segredo. Mas eu vou te dizer, seu curioso! Senta aqui.
– Alba faz sinal para que Estevão se sentasse ao seu lado na cama. — Muito e breve será seu aniversário. Pensava em fazer uma festa.
– Olha tia, acredito que suas intenções sejam as melhores, mas vou completar cinquenta anos, não quinze, e como te conheço bem, é provável que me faça uma festa com confetes, palhaços...
– Está dizendo que sou infantil?
– Longe de mim, titia. — reprimindo um sorriso. — Só não combino com uma máscara do Batman, nessa idade.
– Seu idiota! — diz Alba, dando-lhe um tapa de leve no ombro, se divertindo. — Eu pensava sim em máscara, mas para um baile.
– Baile de máscaras? Sei não.
– Ai Estevão, não seja estraga-prazeres. Chame seus amigos e...
– Então só terá Geraldo nessa festa, pelo visto.
– Convide-o então. Chame seus acionistas, pessoas que conhece, mulheres de seu agrado, não importa. — e lembrando-se: — Ah, e a mulher que você estava gostando?
– Que eu gosto.
– Maravilha! Então traga-a aqui para que eu a conheça. Não sabe o quanto eu queria ver você casado, meu pequeno. Não queria ir embora sem antes...
– Ei, ei. — Estevão a repreende. — Não quero ouvir você repetindo isso.
– Eu não quero te abandonar de novo! — Alba chora e Estevão a consola, aconchegando a tia em seu peito. Estava intrigado pelo 'de novo' pronunciado por ela, mas não levaria em conta. Deveria ser a emoção do momento que a fez falar coisas sem sentido.
– Olhe aqui. — diz, separando-se da tia e fazendo-a olhar em seus olhos. — Pode fazer a festa. Convide suas amigas do bingo, leilão, o que for. Eu convido uns conhecidos.
– Posso fazer a festa mesmo? — Os olhinhos da senhora se iluminam.
– Claro que sim, tia. Deixo tudo por sua conta.
– Onde está Rebeca? — Enxugando as lágrimas e dando-se conta da ausência da empregada.
– Deve ter ido dormir, assim comoma senhora. Vamos, deite-se, já é tarde.
– Vai convidar a mulher que você ama?
– Gosto.
– Tá... Sei. Mesmo assim chame-a, sim?
– Quando os convites estiverem prontos, a senhora me entrega um e...
– Nada disso! — ela protestou — Vai na casa dela e a chame pessoalmente.
– Acha uma boa ideia?
– Mas é claro! Mulher gosta de atenção, principalmente as que se fazem de difíceis. Compre flores para ela..
– Não sei quais são as preferidas dela.
– Então tente algo mais ousado. Abuse de sua sedução, faça ela perder a cabeça por você e...
– Chega titia. Não me enrola. Vai ficar a noite toda nesse falatório e não vai descansar.
– Está bem, está bem. Eu durmo.
– Está melhor?
– Sim, estou.
– Vou dormir também. — e ajeitando a coberta da tia, Estevão beija-lhe a face e se despede.- Te amo tia.
– Também te amo, meu pequeno. Também te amo...
Passara-se uma semana desde a última vez em que Maria e Estevão se viram. A todo instante, a astuta delegada olhava para a porta de seu gabinete, esperando ansiosa, a entrada de um homem que, sem permissão, havia lhe roubado um beijo e, talvez, mais que isso. Dispensou alguns casos de investigação particular que lhe apareceram, dedicando-se mais aos problemas da delegacia. Mas a concentração que possuía outrora, não era mais a mesma. O que estava acontecendo com ela? Seu celular tocou e ela atendeu com uma certa esperança, mas antes de ouvir a voz do outro lado da linha, lhe caiu a ficha de que Estevão não tinha seu número.
Era Geraldo que ligava pela terceira vez naquela tarde, para perguntar a Maria se estava tudo bem. Decepcionada, respondia como sempre, a mesma coisa.
– Tenho que viajar para a Argentina. Os fornecedores de lá necessitam de um representante da empresa para renovar o contrato por mais quatro anos. O meu pai faz questão que eu vá, mas se você quiser eu fico, e arranjo um modo de que outra pessoa viaje em meu lugar.
– Não, pode ir.
– Tem certeza? — com uma pontada de decepção na voz pela falta de interesse da Maria.
– Claro, não se preocupe, eu fico bem.
– Partirei hoje mesmo, daqui a uma hora. Não poderei me despedir pessoalmente de você. — Não se preocupe, compreendo.
– Mandei um presente pra você. Fique bem meu amor, volto o mais depressa possível para você. Te amo!
– Até mais, Geraldo. Cuide-se!
E desligaram.
Alguém bateu na porta. Era o escrivão que, sem jeito, trazia consigo um ramalhete de peonias brancas enorme, e o entrega para Maria.
– Deixaram para você na recepção.
– Obrigado, Thiago. Peônias estavam longe de serem suas flores favoritas, mas Geraldo as mandava de coração, e Maria sentiu-se mal por não ter conversado com ele com mais ânimo. Dá próxima vez, ela mesma o chamaria ao telefone...
Nas Empresas San Romãn, o presidente se sentia sufocado, não pelo ambiente fechado, mas pelo sentimento que trazia ao peito. Aquilo estava fora de controle. Evitara de todas as formas procurar Maria, e isso estava lhe custando algumas noites de sono.
Já não procurava mais mulheres. Agora, a única companhia que lhe agradava era o litro de conhaque que tragava a grandes goles.
Seus dedos estavam agitados sobre a beirada da mesa da sala de reuniões, e seu pensamento estava muito longe de estar ali, discutindo com os demais acionistas as metas, mudanças e novidades para o segundo semestre do ano, na empresa.
– Chega, não consigo mais! — Levanta-se da cadeira decidido e caminha a passos largos até a saída, observado pelos presentes, que o seguiam com o olhar, assustados pelo que acabara de fazer.
Não eram seus pés que o guiavam a sair dali, era seu coração, qua agora ditava os rumos que sua vida deveria tomar...
Continua...
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