O Retorno De Pitch
8 Capítulo 8: Mitos mais que reais
Notas iniciais
Beijos
Skylla olhou ao redor. Onde estava? Ela não tinha ideia. A elfa ordenara ao vento que a levasse para algum lugar seguro, mas a garota tinha pegado no sono durante o voo.
A noite estava silenciosa, e Skylla bocejou. Os quinze minutos que havia dormido apenas aumentaram o sono que sentia e ainda por cima a deixaram perdida.
Estava no topo de um planalto rochoso e apesar da escuridão via e ouvia o mar que se estendia abaixo dela.
Mesmo assim, Skylla não sabia onde tinha ido parar. Xingou-se por ter adormecido em uma hora tão importante.
–Maravilha. Estou perdida! -resmungou ela, começando a caminhar em direção a uma imensa claridade, luzes de uma cidade logo em frente.
Uma pontada de medo cresceu dentro da elfa. A garota reprimiu o sentimento que parecia não querer ir embora.
Novamente, Skylla forçou-se a pensar.
"Certo... Eu dormi por apenas alguns minutos, no máximo meia hora, eu acho... Então, ainda devo estar na Europa..." raciocinou ela. "Mas onde?"
A paisagem parecia ser familiar, mas Skylla não conseguia relacionar com nenhum lugar em que já estivera.
A elfa olhou para os lados e, à direita dela, um grande templo se erguia.
Ela não o tinha percebido antes por causa da falta de luz, mas agora que estava perto percebia como era grande e bonito.
"O Parthenon!" pensou ela, com as mãos na cintura. "Estou na Grécia!"
–Uau! -sussurrou ela, admirando a linda arquitetura grega antiga.
Skylla se aproximou. A grandiosidade do templo era ao mesmo tempo incrível e assustadora. Mais adiante, as luzes da cidade brilhavam. A elfa se sentiu tentada a ir até lá, mas precisava achar um lugar seguro. Pitch acharia mais óbvio que ela estivesse em uma cidade movimentada e poderia se esquecer de olhar nos campos e praias.
"Posso passar a noite no Parthenon. Entrarei por cima e tenho certeza de que ninguém vai me incomodar..." pensou ela, mesmo sabendo que ninguém a podia ver.
Skylla deu um pulo e parou em cima das pedras da parede do Parthenon, pulando para baixo logo em seguida. Era mais fácil entrar desse jeito.
Dentro do templo tudo era ainda mais... Mágico. Por ser uma Guardiã, ela podia sentir a magia de todos os mitos e lendas que passaram por ali.
Mitos e lendas...
Um pensamento invadiu a mente de Skylla.
"Se os Guardiões também são vistos como lendas por grande parte das pessoas e são reais, isso significa que os mitos gregos também são... Reais." pensou ela.
Foi tomada pelo impulso de olhar para os lados e pegar a adaga.
Se qualquer coisa tentasse atacá-la, a elfa estaria preparada, como sempre.
Imagens de hidras, de quimeras, de telquines, de fúrias, de grifos, de harpias, de gigantes e de diversos outros monstros e criaturas das lendas gregas vieram à mente de Skylla.
Ela se encostou na parede.
"Se acalme, garota!" ordenou a si mesma. "Em milhares de anos, você nunca viu nenhum monstro!"
Mas todos esses anos atrás, ela não era Guardiã... E se somente os Guardiões podiam ver as lendas de outros lugares?
Skylla não sabia se queria descobrir a resposta. A elfa queria sair correndo dali, por mais que gostasse da Grécia.
A ideia de um monstro a perturbando de noite não era nada agradável.
Ela bocejou. Suas pálpebras estavam pesadas e a garota quase não conseguia mais ficar em pé.
Foi obrigada a se sentar no chão e aproveitou para admirar o local.
O templo de Atena era lindo. A arquitetura, então! Sem comparação!
Ainda segurando a adaga, Skylla fechou os olhos apenas para descansar alguns instantes.
Mas, outra vez, seu sono foi maior do que ela esperava.
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Skylla acordou com um estranho barulho. Ainda estava escuro, devia ser madrugada. Ela estava deitada no chão, ainda no Parthenon.
A elfa piscou algumas vezes para se acostumar com a penumbra e sentou-se, agora totalmente alerta.
Sim... Havia um som estranho.
Barulho de algo levantando voo... bem ao lado dela.
Skylla levantou-se rapidamente e olhou para o lado. Não viu nada, absolutamente nada, além da escuridão da noite.
Mas algo tinha estado lá. Algo que podia voar.
Skylla tentou ficar calma, mas não conseguia.
–Pelo menos não vou mais conseguir dormir... -resmungou ela, pegando a adaga, que havia ficado caída no chão quando ela dormira.
A elfa resolveu dar uma olhada na rua. Parada em frente ao templo, Skylla olhou para o céu cheio se estrelas e suspirou.
"Esqueça isso. Você está muito cansada e foi apenas a sua imaginação." pensou a garota, falando consigo mesma. Fechou os olhos e suspirou.
Porém, quando ela abriu os olhos novamente, viu uma criatura apavorante descendo do céu e voando na sua direção. Meio mulher, meio ave.
"Harpia!" pensou Skylla, paralisada.
Ela estava certa. Os mitos gregos realmente existiam, apenas não podiam ser vistos pelos olhos dos que não acreditavam neles.
E esse mito com certeza podia ser visto. A criatura mitológica estava bem perto.
Skylla não lembrava se as harpias eram ruins ou não... Mas no impulso pulou para o lado bem na hora em que ela passou voando com as asas cinzas a menos de um metro do corpo de Skylla.
–Mas que droga! -sussurrou Skylla, não sabendo se ficava assustada ou se admirava a harpia.
Seu rosto era bonito, pelo menos. O corpo era esguio, tinha um ralo cabelo preto e enormes garras afiadas no lugar das mãos e dos pés. De seus braços saíam penas metalizadas cinzas e a harpia usava um tipo de camisola preta esfarrapada.
Seu corpo também era formado por penas e por pele, meio ave e meio mulher.
Em um momento cômico, Skylla relacionou a harpia com Fada do Dente, que era meio garota, meio beija-flor. A elfa não conseguiu reprimir um risinho.
Mas a expressão da harpia era feroz. Voando pelo céu a uns dez metros de Skylla, a criatura parecia querer atacar.
A elfa pegou a adaga e se preparou para mais uma investida da harpia.
E realmente a criatura avançou. Mas dessa vez, Skylla estava preparada: quando a harpia se aproximou, Skylla cortou rapidamente algumas penas do braço esquerdo da criatura, que se desequilibrou e caiu no chão.
–Maldita! -urrou a harpia, com um grasnido meio humano, tentando alçar voo, mas sem sucesso.
Skylla se aproximou cautelosa e observou a criatura mais de perto.
"E agora, o que eu faço, o que eu faço?!" pensou ela, nervosa.
Mas Skylla não precisou decidir. A própria harpia olhou para ela com seus olhos amarelos e resmungou:
–Estão te perseguindo, elfa. -ela deu uma risada meio sem saber por quê e virou o rosto.
Skylla suspirou.
–Poxa, mais gente? Até agora, já são Pitch e os próprios Guardiões! -falou a garota, tentando intimidar a harpia. -Mas creio que você não os conheça.
A harpia se afastou da elfa, com um misto de temor e ironia em seu rosto.
–Ah, eu conheço. É... -disse ela, com sua voz esganiçada. Tentou alçar voo novamente, mas suas asas estavam em desequilíbrio.
Skylla congelou.
–Como assim você os conhece? -perguntou. Se aproximou da harpia de forma ameaçadora, com a adaga em mãos. -Me diga logo ou eu termino de arrancar todas essas suas penas ridículas!
A harpia grunhiu e se afastou mais.
–Eu conheço vocês, Guardiões. Todos nós conhecemos. Muito bem. -falou ela.
A elfa não sabia o que pensar.
–Explique-se!
–Pitch falou com... Todos nós. -sussurrou a harpia, com uma expressão sombria.
Skylla gelou. Tinha uma breve ideia de quem era "nós" a quem a harpia se referia.
–Quem são vocês? Falou com quem? -perguntou Skylla.
A harpia começou a tentar escalar as paredes, numa cena muito bizarra.
–Os mitos. Todos os mitos e lendas do lado negro. -ela deu uma risada esganiçada. -Nós. Esses são nós.
O que ela disse por último não teve uma conjugação correta, mas Skylla entendeu.
–O que ele queria com vocês?
–Queria que nos juntássemos a ele... Que... Que os mitos do mal de todo o mundo se juntassem contra vocês. -disse a harpia, sorrindo ingenuamente.
A expressão de Skylla endureceu.
–E o que vocês, mitos do mal, disseram? -perguntou a elfa, se aproximando.
A harpia deu um chiado e se afastou da garota.
–Khaaaa! Nós dissemos... Que não, é claro. Claro. -grunhiu ela. -Não podemos nos meter no que não é nosso problema. É.
Skylla imaginou ela, Jack, Norte (o normal), Fada, Coelhão e Sandman tendo que lutar contra todos os mitos assustadores que existiam: dragões, ogros, gigantes, hidras de sete cabeças (ou até mais!), lulas gigantes, vampiros... Enfim... Todos os mitos que não eram do bem.
Eles fracassariam. De novo.
–E o que ele disse? -a elfa perguntou. -Fale! Suas lindas penas estão em jogo, docinho! -é, Skylla sabia ser cruel de vez em quando.
A harpia se afastou.
–Eu... Eu não posso contar. Não posso. Não posso. Não... -ela emitiu uma série de chiados de pássaro muito estranhos.
Skylla não amoleceu.
–Diga. -falou ela, fazendo o metal de sua adaga reluzir.
A harpia gritou novamente:
–Maldita!
Mas pareceu que a harpia ia falar. Ótimo. Agora Skylla aprendera a lidar com galinhas falantes.
–Ele disse que ia perseguir você... Chhhi! -grunhiu ela, mostrando as garras afiadas.
A elfa estremeceu. Se a harpia fosse mais inteligente, já teria feito Skylla em pedacinhos com aquelas garras.
–Bom... O que mais? -pressionou a garota, olhando para trás, com receio de que algum Minotauro viesse correndo por trás de si.
–Ele disse que... Iria fazer seus pesadelos virarem... Há! Realidade! -falou ela.
Skylla concordou.
–Já desconfiávamos. Mais alguma coisa?
A harpia se remexeu.
–Ele disse... Que iria controlar. Éééé. Controlar... Os outros Guardiões! -falou a harpia, mexendo as mãos freneticamente.
Skylla prendeu a respiração.
Então era isso mesmo! De algum jeito, Pitch havia conseguido controlar Norte, "entrar" em Norte! Mas como...?
–É tudo o que sabe? -falou Skylla.
A harpia chiou.
–Sim! Depois que nós não quisemos nos juntar a Pitch... Ele! Foi embora. Ééé. Rapidinho, sumiu nas sombras. -terminou ela.
–E por que tentou me atacar? -desconfiou a elfa.
A harpia deu uns paulinha para frente.
–Temos que ser assim com criaturas do bem. Khaaaa! Ééé! Somos assim desde sempre! -disse ela, não parecendo tããão má. -Me perdoe. É!
–Vocês, harpias, são do mal? -perguntou Skylla.
A criatura fez uma expressão confusa, como se não soubesse o que responder.
–Depende. Ééé. Somos do bem e do mal quando precisamos ser. Há! -disse ela, encarando Skylla.
A garota guardou a adaga. Não queria assustar mais a harpia. Ela não parecia ser tão má, ou pelo menos não tão burra a ponto de atacar a elfa novamente.
De repente, Skylla ouviu outro barulho muito estranho. Mais asas. Voando na direção dela.
–O que é isso? -a elfa recuou e olhou para a harpia. -São suas amiguinhas, por acaso?
A harpia negou, nervosa.
–Não. As harpias não tem essa... Khaaaa. Coisa de amizade. Não, nós apenas nos... respeitamos. -grunhiu ela.
Skylla olhou para a escuridão na sua frente. O barulho se aproximava. Estava pousando...
–O que é, então? -resmungou Skylla, segurando a adaga. Sua mão suava.
Naquele momento, quando o som de asas batendo atingiu o seu máximo e um vulto branco surgiu, Skylla quis ter uma... Como chamavam?... máquina fotográfica para gravar aquele momento.
Um pégaso. Um lindo e branco pégaso pousara na sua frente.
A harpia chiou e grunhiu, tentando voar.
–Muita luz! Chhhhi! Muita luz! -gritou ela, entrando no templo e se escondendo atrás de uma estátua da deusa Atena.
O pégaso bufou e balançou a crina cintilante. Deu uns passos para trás e abaixou a cabeça, como se convidasse Skylla a montar nele.
E a elfa realmente ficou tentada a fazer isso.
Deu uns passos à frente e sussurrou ao pégaso:
–Shh, tudo bem... Sou uma elfa!
Esticou a mão e a colocou sobre o focinho do animal mitológico, que ficou imóvel.
Ela estava tocando um ser mágico!
Uma onda de emoção encheu Skylla, mas logo abandonou a garota quando Skylla percebeu que ela própria era um ser mágico.
–Caham... -ela limpou a garganta e se afastou do pégaso. -Bem, eu não sei o que fazer.
A harpia espiou por trás da estátua de Atena e olhou para o pégaso com raiva.
–Chhhhi! -chiou a criatura. -Gostaria de... estraçalhar esse pêlo... branco!
Skylla olhou feio para ela, mas sabia que a harpia era perigosa e podia fazer isso se quisesse.
A elfa tentou raciocinar. Ela tinha que sair dali, pois a Grécia podia ser um lindo lugar, mas era também o berço dos mais terríveis monstros que já existiram.
Então, por que não aproveitar e pegar uma... carona?
Com um sorrisinho, Skylla se aproximou novamente do pégaso, que parecia impaciente para voar.
–Você quer dar uma volta por aí, cavalinho? -sussurrou ela, acariciando o cavalo alado branco.
O pégaso relinchou, como se entendesse o que Skylla estava dizendo.
–Ótimo... Então, vamos voar! -continuou ela, dando um impulso e montando agilmente no pégaso, que não reagiu. -Muito bem!
A harpia saiu detrás da estátua, com os braços abertos.
–Criatura imunda! Ééé... Pégaso. Khaaaa! -gritou ela, ameaçadora.
O animal branco apenas ficou parado e abriu as asas. Com um movimento apenas, Skylla já se viu a uns quatro metros do chão.
O pégaso batia as asas calmamente e eles pareciam flutuar no ar.
Segurando-se na crina da criatura, Skylla viu a harpia chiando lá embaixo.
–Skylla Hilt! Chhhhi! Não ache que eu não podia tê-la... Destruído, é! -gritou ela, com os olhos amarelos brilhando e as presas à mostra. -Não a matei... Porque não quis! Cuide-se! Khaaaa!
Skylla engoliu em seco e se forçou a guiar o pégaso em frente, enquanto via a harpia desaparecer de seu campo de visão.
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