O Retorno Ao País Das Maravilhas
3 3- Um antigo amigo.
Alice andava, calada, entre as árvores macabras do estranho bosque, que pareciam mudar de lugar quando se piscava. Chessur cantarolava alegremente, como se estivesse em casa... bem, ele estava.
O gato parou, flutuando no ar, sua névoa cinzenta se espalhou pela atmosfera do frio bosque, se reunindo novamente mais perto de Alice.
- Temos companhia. — Disse ele, sorrindo. — Vai precisar disso. — Ele balançou sua cauda felpuda no ar, e uma névoa pariou por alguns instantes, logo em seguida se dissipando, dando lugar à duas belas adagas. Ambas as lâminas eram de prata puro, que reluzia como nunca, mais parecendo um espelho. Os cabos eram de couro, com desenhos florais feitos à mão, e havia um pouco de sangue seco em uma das armas. Alice as tocou, sem pensar. As empunhou, e logo que sentiu o couro dos cabos, começou a manejar tais adagas como se sempre soubesse usá-las. Parou, olhando para o gato, um tanto abismada.
- Deve estar se perguntando como consegue fazer isso... Ah, Alice, aqui você é você mesma. Ninguém pode te impedir. Aqui seus sonhos são sua maior realidade. — Chessur deu uma gargalhada um tanto insana, e começou a desaparecer em meio à sua névoa.
- Espera! — Gritou Alice, correndo até a neblina, mas já era tarde demais. Ela tinha se dissipado.
Alice ficou alí, parada. As folhas secas das gigantescas árvores caíam gradativamente, sem ruído algum.
" O que ele quis dizer com Temos Companhia? "
Ela descobriu.
Ouviu um rugido nada agradável vindo de algum lugar do bosque, seguido de uma série de grunhidos altos e estridentes. Sentia o chão tremer com o som de grandes passadas fortes na terra úmida. Olhava para os lados e para trás, mas nada conseguia ver. Aonde? Aonde?
Se pôs a correr. Corria o mais rápido que podia, ainda empunhando as adagas reluzentes. Os grunhidos não diminuíam, pareciam cada vez mais perto, as passadas pareciam mais rápidas, seguindo o rítmo de Alice. Até que se deparou com um problema.
Logo à frente, dois gigantescos cogumelos estavam caídos sob a terra, e em ambos os lados as árvores eram tão fechadas que nem um rato passaria pelas frestas. Ela sentia as passadas fortes mais perto. Não tinha escolha, teria de enfrentar.
As árvores mais próximas começaram a ser empurradas, quebrando e fazendo gigantescos estralos. Uma criatura apareceu em meio à vegetação. Era gigantesca, tendo mais de dez ou doze metros. Lembrava um grifo, mas suas pernas e dorso eram de réptil. Seus olhos eram de tom azul piscina, um lindo azul que nunca vira na vida, e toda sua pelagem, que acomapanhava o corpo inteiro, era branca. Algumas áreas, como pernas e cauda, eram escamosas, mas da mesma cor.
- Achamos! Achamos! — Alice ouviu alguém gritar, muito acima. Só agora percebeu que havia um tipo de sela em cima da criatura, na qual um senhor estava sentado. Sua pele era tão branca como a do animal, seus olhos eram vidrados, talvez doidos. Usava uma grande cartola, que prendia seus cabelos totalmente brancos e desgrenhados. Ele lembrava alguém... alguém que Alice pensou já ter visto.
- Alice, sua levadinha! Está atrasada para o chá das cinco! — Gritou ele, enquanto a fera gigantesca também grunhia e rugia, como se quisesse competir.
Era o Chapeleiro? Era o Chapeleiro Maluco!
Alice sorriu, acenando, apesar de um certo medo da criatura que não parava de se pisar e grunhir. O senhor deu um berro, e o ser cessou, abaixando a cabeça e deitando no chão.
- Alice? Você se chama Alice? Por favor, diga que se chama Alice. — Disse ele, enquanto descia do ser com bastante rapidez, metade do tempo que a garota levaria.
- Sim, me chamo Alice. — Disse ela, sorrindo. Finalmente o chapeleiro. Um encontro nada casual, mas afinal, aquilo tudo era um sonho maluco. O Chapeleiro colocou as mãos no ombro da garota, a fitando melhor.
- Você está pálida, o que houve? Seus cabelos... não eram loiros? O que fez com eles? Andou encolhendo de novo? Você parece menor do que da última vez, e que roupa é essa? — Bombardeou Alice com perguntas, sorrindo mais do que nunca. Ela o fitou, sem entender muitas das questões, após um tempo chegando à conclusão de que ele a confundira com alguma Alice. Mas não era ela a Alice da história?
- Chapeleiro... Quero que me leve à Rainha Branca. O gato disse que ia me levar e... — Disse ela, sendo interrompida pelo senhor.
- Que gato?
- O gato. — Respondeu.
- Ah, sim! Da próxima fale O Gato de uma vez, nunca sei os outros nomes dele. — Disse com expressão insana, dando uma risada descontrolada. — Então a senhorita moçoila quer que eu a leve até o castelo da Raínha Branca, é isso?
- Sim... por favor! — Implorou Alice.
- Pois bem, vou a levar lá, mas vai ficar me devendo um chá das cinco. Espere, já são cinco horas? — Ele olhou em um relógio por baixo da manga de suas camisetas, um antiquado relógio preso em uma corrente de prata. O relógio não funcionava mais, estava parado exatamente nas cinco horas.
- Eu acho que o relógio quebr... — Alice foi interrompida mais uma vez.
- JÁ SÃO CINCO HORAS! — Gritou ele, até a criatura atrás de ambos se assustou, sentando-se e dando um grunhido baixo. — Vamos, Alice! Vamos! Vamos tomar chá com a Raínha!
Ambos subiram no animal, Alice já tinha se acostumado com ele, até tinha achado ele bonitinho. Só agora percebeu que tinha um par de longas asas brancas e plumadas, que batiam fortemente. E lá foram eles, alçar vôo. Quando ganharam altura, Alice finalmente viu quão grande era o bosque, tão grande que se perdia de vista. Ao longe haviam dois cogumelos muito maiores do que os outros, o quádruplo de altura e largura.
- Vê aqueles cogumelos? Temos que passar por lá, O castelo da Raínha Branca fica logo depois. — Gritou o Chapeleiro, em meio às rajadas de vento.
Voaram até lá, e conseguiram ultrapassar os cogumelos. Era uma experiência magnífica voar com aquele animal, Alice não conseguia entender como algo tão grande plainava no ar como uma pluma, e fazia curvas perfeitas e delicadas.
O clima frio e nublado cessou, dando lugar à delicados raios de sol que tocavam a pele de Alice. Ela percebeu que voavam acima de um grande lago, tão grande que mais parecia o mar. Ao longe, ela viu a paisagem mais bela de sua vida.
Era um castelo gigantesco, de tom branco reluzente. Possuía mais de oitenta torres e passarelas, e enormes estátuas de cavalos do jogo de xadrêz soltavam cataratas de água cristalina, que caíam no gigantesco lago, cheio de caravelas de madeira branca com adornos de prata, que pareciam se deslocar sozinhas na água. Ao longo das margens do lago, haviam cabanas do mesmo tom branco, que subiam à colina até grandes mansões com arquitetura antiga, porém magnífica. A vegetação era de um verde lindo, e as árvores variavam entre cerejeiras com flores de tons pastéis, como azul claro, ou leves tons de amarelo.
Alice ria, observando tudo aquilo, absimada. Estavam se dirigindo à uma plataforma flutuante do lago, tão grande que caberiam mais dez daquelas criaturas voadoras. Ao longe, várias delas voavam pelo céu azul piscina, soltando cantos altos, que mais pareciam o som das baleias. O animal pousou sem nenhuma turbulência, e a menina praticamente pulou da criatura, querendo explorar o que parecia ser o paraíso. Uma senhora a esperava de braços abertos.
Era a mesma senhora de seus sonhos. Usava um vestido branco com uma gigantesca cauda que flutuava no ar, em harmonia com longas mantas que lhe caíam nos ombros. Seus olhos negros e amendoados reluziam, alegres.
- Alice, minha querida! Estava à sua espera! — Disse ela,a abraçando.
Alice a fitou, sem saber o que dizer.
- Raínha...
- Branca. — Completou a senhora, com um sorriso delicado em seu rosto. — Aqui começa sua estadia no Reino da Luz, minha querida. Seja muito bem-vinda.
Alice não sabia o que dizer, apenas sorria, e talvez nunca pararia de sorrir. E se aquilo não fosse só mais um sonho? E se fosse uma incrível e magnífica realidade?
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