O Retorno - A Jóia da Rainha - (Livro 1)
8 Um dia sobrenatural
Notas iniciais
Victoria entrou na sala sendo encarada pelos mais diversos olhares possíveis. A panelinha de meninas fileira da parede, a panelinha dos gêmeos infernais (a mais engraçada, aliás, pois faziam uma cara que misturava a decepção com o desejo de vingança), os nerds da sala nas primeiras carteiras, a panelinha de meninos do canto da janela. Todos olhavam para ela com caras diferentes, mas seus rostos davam a entender de que não estavam muito felizes com ela, quer dizer, nunca foram felizes, mas dessa vez estava... Pior.
Atravessou silenciosamente a sala junto com Lucca e se sentaram nos lugares habituais, no meio da sala, mas em um lugar que quase não chamava atenção. O professor entrou na sala, como de costume, cantando... Músicas de velório ou da trilha sonora dramática de Star Wars. Ele ria da situação de seus alunos perante a física, mas os alunos só ficavam mais tensos com as músicas. Victoria então se tocou que aquilo não era normal.
O professor só cantava esse tipo de música em dias de prova. Provas que normalmente Victoria não conseguia fazer. ‘’Fer-rou’’ pensou Victoria, enquanto o professor abria o envelope de provas na sua mesa.
— Que cara é essa? — perguntou Lucca.
— Esqueci que tinha prova hoje. — respondeu Victoria.
— Relaxa, leis de Newton é fácil. — disse Lucca, em tom de voz baixo, o professor já entregava as provas, dessa vez assobiando uma música triste do Aerosmith.
‘’Claro, para o genius da turma...’’ pensou Victoria.
O professor entregou a prova a Victoria com um sorriso — maligno — no rosto. Dessa vez ela teve certeza de que estava ferrada. Um ódio subiu para sua mente, um ódio um tanto incomum. Sobrenatural. Ela queria... Vingança?
‘’Ótimo... Num plano inclinado, blablabla, calcule o seno do ângulo Alfa...’’ leu em pensamentos ‘’Um meio. Um meio é a resposta.’’ Pensou. Quase caiu da cadeira, aquilo não tinha sido um chute, Victoria tinha certeza de que aquilo era a resposta certa. Não sabia o porquê, mas tinha certeza. Ela queria conferir. Precisava colar.
Nessas horas era bom ter o maior gênio enrustido da sala ao seu lado, ‘’sem querer’’ derrubou sua borracha e foi tentar ver a resolução de Lucca. Um meio. Ela estava certa. Estava certa, porém estava errada... Errada em colar de Lucca naquela hora.
O professor de algum modo viu o disfarce de Victoria, e chegou dando um encontrão em Lucca que só não o derrubou da cadeira por motivos sobrenaturais.
— Proteja sua prova, moleque, ou você vai ganhar um zero. — disse o professor. O.k; Aquilo não era coisa que acontecia todos os dias, levando-se em conta que Lucca era o queridinho do professor.
O professor, após dar o sermão de Lucca, empurrou a cabeça de Victoria, no gesto de ‘’fique direito’’. O que, estando certa ou errada, incomodou-a bastante. A raiva lhe subiu a cabeça, e Victoria resolveu a prova com aquela raiva tomando conta dela. Resolveu a prova, em dois minutos. O queixo de Victoria caiu, como tinha feito aquela proeza? Fórmulas altamente detalhadas, resultados precisos. Resoluções curtas e diretas. Diferente dos rabiscos que costumava fazer.
— Professor, terminei. — disse Victoria.
— Como? A prova começou há menos de quinze minutos! — respondeu o professor.
— Apenas... Terminei.
— Aguarde na sua mesa, Fortuna.
A classe encarava Victoria como se ela fosse um ET.
***
Desta vez o sonho era diferente. Victoria via Sitiah colocando a joia em seu apoio. Ouvia os uivos e estalidos, porém era como se não estivesse ali, fosse apenas um ponto de vista de alguém que assistia a cena numa ótima sala de cinema 4D, afinal, o calor do deserto egípcio era insuportável.
Victoria olhou para o chão, onde havia um sarcófago, perto do apoio da joia, os dois, de algum modo, pareciam conectados.
Sitiah se voltou para o caixão e levantou sua tampa, o caixão era aquilo que na Inquisição poderiam chamar de ‘’Dama de ferro’’. Espinhos pontiagudos estavam presos à parte interna da tampa. Sitiah se sentou no sarcófago, deitou-se, e então...
— Acorda, Medusa! — disse uma voz, que deu um tapa na cara de Victoria.
Victoria havia dormido durante toda a prova de física.
***
Aquele dia até que continuou calmo, quer dizer, o de sempre. As grosserias as quais Victoria já era acostumada. Mas havia algo no ar... Algo que fazia o sensor de desconfiança de Victoria apitar.
Victoria subia as escadas da escola para chegar em sua aula de redação quando foi surpreendida pelo seu professor de física:
— Fortuna, por favor me acompanhe até minha sala. — disse o professor.
— Mas professor, estou em aula!
— Não me importa. — respondeu o professor, grosseiramente.
Subiram as escadas silenciosamente e chegaram à sala do professor, que estava vazia. O professor pegou um papel sobre a mesa e deu uma última olhada, então entregou a prova à Victoria:
— Me explique. — disse o professor.
— Explicar...? — respondeu Victoria.
— De onde você colou, claro. Obviamente não foi do Lucca, apesar de ele ser um gênio, e, admito, um dos alunos mais inteligentes dessa sala, que se destacou mesmo acabando de entrar na escola, ele nunca conseguiria fazer uma resolução dessas... De nível... Universitário. Aliás, de doutorado.
— Mas... Eu não colei! — respondeu Victoria, inconformada.
— Ou você me diz de onde colou, ou eu zero você.
— Mas...
— Você e o Lucca. — disse o professor.
— O Lucca? Mas ele não tem nada a ver com isso!
— Anda logo.
— Não colei! — Victoria perdeu a paciência. Na sua mente xingava o professor de coisas que não se devem escrever nem em livros do nível de 50 Tons de Cinza.
— Zero. Para vocês dois. — finalizou o professor — Saia de minha sala agora, Fortuna; Preciso corrigir as provas daqueles que são realmente bons alunos. E feche a porta quando sair, por favor.
Victoria saiu e fechou a porta. Fechou com força o suficiente para trincar o vidro que ela tinha.
— Victoria Fortuna! Volte aqui! — gritou o professor, mas Victoria não deu ouvidos e continuou andando para a sala de sua aula de redação.
Entrou na sala silenciosamente para que ninguém percebesse ela e nem que tinha chegado atrasada. Como sempre, não funcionou.
— Fortuna... — começou a professora
— Desculpe! O professor de física me segurou na sala e...
— Da próxima vez você não entra. — finalizou a professora, e então Victoria se sentou.
***
Digamos que Lucca não ficou muito feliz ao saber que sua prova de física havia sido zerada.
— Tudo bem, já passei mesmo... — disse ele.
— Como assim? Nem fizemos as provas finais ainda! — questionou Victoria.
— Na minha outra escola... — disse ele, pensativo, como se estivesse longe do mundo — Na minha outra escola trabalhávamos com trimestres. Tecnicamente já tenho uma prova final.
— Entendi... Afinal, de onde você veio? Digo, de qual escola? — perguntou Victoria.
— Do... Do... Colégio Católico do Espirito Santo.
— Ah! Não sabia que você era de Espírito Santo! Você era de Vitoria?
— Eu não sou do Espírito Santo, — disse Lucca, segurando um sorriso — sou de São Paulo mesmo, aquele era o nome do colégio mesmo — e ele riu.
— Desculpa, as vezes sou meio lerda — disse Victoria, e os dois riram.
***
Era a última aula do dia, arte, quando aconteceu um pequeno holocausto.
Victoria assistia atentamente — ou não — os slides que a professora passava sobre a arquitetura de Brasília, Oscar Niemeyer e todo aquele blablabla que ela já estava cansada de saber.
Pegou sua bolsa, apoiou-a na mesa e então deitou-se nela, fechou os olhos e começou a cochilar... Por pouco tempo. Pois quando foi se arrumar pois estava desconfortável abriu os olhos e deu de cara com quatro pares de olhos de uma nojenta caranguejeira a centímetros da ponta do seu nariz.
Uma banshee (1) se assustaria com aquele grito, que com certeza venceria qualquer concurso de gritos.
— Parece que ela conheceu o Peter — Victoria escutou a voz de Igor em meio a altas risadas e uma professora que morria de medo de aranhas em cima de uma cadeira.
Victoria se levantou e fez uma coisa que assustaria até os mais famosos médiums.
— Chega! — gritou, virando-se aos gêmeos e esticando suas mãos. Foi quando as cadeiras de ambos os gêmeos e seus amiguinhos viraram e todos deram de cara na pia que ficava no fundo da sala.
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